sexta-feira, dezembro 30, 2005

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Insónia na Amazónia.

No dicionário de rimas
do Senhor Visconde de Castelões
(Editorial Domingos Barreira),
as palavras passam a palavrões
e reduzem o Português a poeira.

Insónia, por fatalidade,
rima com Paflagónia,
com adansónia,
com escalónia.
E com santimónia, é verdade.

Esta minha vontade de não dormir
por força terá que admitir
a troca de favores com bolónia,
com sidónia
e com plutónia;
palavras sábias, sem dúvida nenhuma,
para todos e cada uma;
excepto para o infeliz desgraçado
que permanece acordado.

Excepto para o versador de fim-de-semana
de pesada pestana que:
não tem sono nem harmónia;
não gosta de banhar a lírica em água de colónia;
não sabe onde é que fica a Esclavónia;
não acerta na estirpe do vírús da monocotiledónea
e acha excessivamente excessivo levar o verso até Semprónia.

Não encontrei a cachimónia
mas tenho a certeza que o mestre da rima
sabendo dela, a colocaria logo por cima
de cassidónia.

Porque, sim, temos a estética
da ordem alfabética!

Ora, o Senhor Visconde de Castelões, que é um artista,
podia era ir à fava, com o seu dicionário surrealista!

quarta-feira, dezembro 28, 2005

terça-feira, dezembro 20, 2005

terça-feira, dezembro 13, 2005

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - II

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

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CATULO, IPSITILA, LÉSBIA E O MARIDO DELA.

Gaio Valério Catulo (84 A.C.- 55 A.C.) foi um dos mais influentes poetas romanos do seu tempo e por muitas e saborosas razões. Vanguardista doido, teve a coragem de mandar às urtigas o cânone homérico, trazendo para a poética as coisas mais pequenas e saborosas da vida quotidiana. Nada de telenovelas divinas ou da improvável glória dos guerreiros facínoras, maiores que a própria vida: a verdade é não haver heróis que se aguentem à bronca do dia-a-dia, nem força na multidão que transcenda o egotismo, e a poesia precisa é da humanidade corriqueira, do individualismo e da pilhéria, da contestação e do escândalo. Em vez do sal épico, a pimenta erótica. Por oposição ao formalismo estético, a diatribe lírica.
David Mourão Ferreira escolhe 3 obras deliciosas que reflectem bem o espírito desta romanesca figura, imparável beijoqueiro e valente fornicador. Lésbia, personagem que inspirou frequentemente o líbido e a veia do poeta, será muito provavelmente a mulher de um infame contemporâneo (Cláudio Pulcher), embora o seu nome decorra da alusão à poetisa Sappho de Lesbos (séc. VII A.C.). Sobre Ipsitila, não encontrei referências, mas perante a natureza do Convite, é ajuízado deixar que a memória da musa permaneça no anonimato. Eis portanto Catulo, o menino terrível da Grande Alcova do Império Romano.


CONVITE A IPSITILA

Como eu queria, ò doce Ipsitila,
que me fazes arder, delícia amada,
fazer contigo a sesta neste dia!
Se te apetece o mesmo, se te agrada,
a porta deixa então só encostada...
E não saias de casa. E me convida...
Prometo que serás bem fornicada
ao todo nove vezes de seguida!


A LÉSBIA

Vivamos, Lésbia, amando,
e que não nos perturbe
o cansado murmúrio
de quem envelheceu.
Podem morrer, nascer
seguidamente os sóis:
a nós porém, assim
que a breve luz nos foge,
logo nos é forçoso
dormir a inteira noite.
Beija-me cem, mil vezes,
inda mais cem, mais mil,
agora mil, e cem...
Depois, quando fizermos
tantos milhares que nem
os possamos contar,
baralhemos a conta,
para evitar que alguém,
sabendo o número exacto,
nos venha a invejar.


AO MARIDO DE LÉSBIA

Se Lésbia me difama em frente do marido,
eis logo o imbecil no auge da alegria!
Pois não entendes, burro? O silêncio, o olvido
seriam bem melhor... E se ela me injuria
é não só por se recordar ainda
mas porque no seu peito a chama não se extingue!

terça-feira, dezembro 06, 2005

sábado, dezembro 03, 2005

I was a punk before you were a punk.

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"You want some action? I'll put your ass in traction baby,
I was a punk before you were,
I was a punk before you."

Spooner/Evans/Waybill - 1977

É apenas justo que eu diga assim: a front cover que vêem na imagem apresenta aquele que é, na minha envergonhada/orgulhosa opinião, o melhor disco de rock de todos os tempos. The Tubes é uma banda que nunca consegui deixar de ouvir e este foi o segundo álbum que comprei na minha vida e esta gravação ao vivo, para além de ser precursora dos grandes e multimediáticos concertos como os conhecemos hoje, é uma verdadeira ópera. Passou no Dramático de Cascais, com a pompa e a circunstância e a logística louca que os Tubes colocavam em palco. Não sei como é que foi possível não encontrar na net uma foto que seja da magnificência cénica dos concertos desta banda que - em 1978 - arrasava a cultura musical do mundo. Mas lembro-me das parangonas dos jornais ingleses perguntarem ao burguês se achava que a sua filha devia ver este concerto. Mas lembro-me do Fee Waybil com rolos de papel higiénico nas virilhas antes de saber quem eram esses tais de Sex Pistols. Mas lembro-me muitíssimo bem de ser punk antes que os Clash dessem um peido que fosse. Aliás, os Beatles existiram só para que os Tubes pudessem interpretar a canção "I Saw Her Standing There". Estou a falar de uma banda que não ficou para a história senão para a minha história. E estou, por isso, muito contente comigo e muito contente com eles.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Caso passes por aqui um dia.

Faz hoje setenta anos que morreste
e - como já era tua previsão -
é quando faz anos a tua morte que se lembram de ti.

Faz hoje setenta anos que morreste
e não deve ter sido lá muito agradável
ir a enterrar com tantos gajos na mesma urna

(O Álvaro, tu dizes que não, mas devia ser gordo,
o Ricardo por certo que não tomava banho,
o Bernardo tinha mau dormir e o Alberto,

Que passou a vida doente dos olhos,
não estava ainda preparado psicologicamente
para aquilo). A propósito,

Em que hospital internaste o Alexander Search?
Faz hoje setenta anos que morreste
e eu acho até que te enterraram vivo.

Porque - mesmo com a televisão a dizer
que faz hoje setenta anos que morreste,
não me cheira.

Tu enganaste-os bem, Fernandinho meu querido,
que ainda andas por aí aos pulos por dentro,
à procura do mistério. Que ainda

Brincas com a metafísica e inventas horóscopos
para deus. Que ainda trocas correspondência
com aquele inglês tresloucado e vigarista

(Nunca foste grande coisa a escolher os amigos),
que ainda andas por aí a fingir que és tu
e mascarado de ti, para que ninguém te reconheça.

Tu levaste-os foi com a conversa pagã do Caeeiro
e os ateísmos naturalistas do Reis, (tiveste olho!)
pois juro-te que foi contigo que em Portugal

Se desacreditou a imortalidade.
Só para que agora possas andar em Lisboa
à tua vontade, para cá e para lá.

Porque se faz hoje setenta anos que morreste,
eu sei que só de virgindade contas tu
mais de um século, meu grande maricas.

(Que diabo, Fernando, faz hoje
117 anos que nasceste,
e ainda não foste um animal, pá.)

Sim, Romeu de papel de carta,
que trocaste a eterna Ofélia pelo trans-sexual
do Álvaro de Campos! Um engenheiro!

Mais a mais com essa tua veia,
e as confissões queriduchas que lhe escrevias,
encantadoras para ti, mas que pensaria realmente

ela, Ofélia, Atena de olhos garços,
que provavelmente ia buscar a Ulisses
o que não tirava do teu corpo imaterial?

Faz hoje 70 anos que foste a enterrar, isso sim.
No velório a malta de que falavas estava lá,
inconsolável e contando anedotas.

O funeral foi lacónico e havia crianças
a chorar por birra. Não pelo tio Fernando,
mas pela ausência do cavalinho de pau.

E quando todos se retiraram, já predispostos
a celebrar-te duas vezes por ano:
à data do teu nascimento e à data da tua morte,

Continuaste estranhamente espertíssimo
e bem acompanhado; sacudiste a poeira do cadáver
que afinal sempre tinhas sido e foste à tua vida,

Malandro. Afinal, não podias entregar a alma
assim de borla. Não sem que primeiro fizesses
o devido comércio com o diabo, coisa proveitosa

Para toda a gente de bom senso e especialmente
proveitosa seria para ti se a vendesses
em troca de mais uma mascarilha

ou de qualquer outro adereço de prestidigitador.
Faz hoje setenta anos que morreste?
Nem pensar, por esta altura deves estar

Enfiado num quarto qualquer do chiado
encharcado em absinto e a pregar aos rebanhos,
e a escrever odes industriais e a fumar

Cigarros americanos. Sim a esta hora, deves
estar a fabricar mais não sei quantas maneiras
de ser imortal, que é isso que tu fazes melhor

E que é isso que tu não explicas a ninguém;
também não és parvo nem romancista russo.
Faz hoje setenta anos que morreste, uma ova!

Está-se mesmo a ver: logo tu, que em vida
te comprazias a enganar toda a gente,
ias agora ser um morto de verdade...

Mas nem por isso julgues, mestre querido,
que te quero mal. Só pela graça de te parir
valeu a pena fazer Portugal.