domingo, dezembro 31, 2006

À procura do ano épico.

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Karajan Conducting Beethoven's 5th Symphony.
Part 1 (Movements 1 and 2)
Very old and rare film, no longer in print, recorded in 1966.

sábado, dezembro 30, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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7 - MAX LIEBERMANN
Recreio no Orfanato de Amsterdão

1876, óleo sobre tela, 45cmx72 cm

Max Liebermann (1847-1935) foi, com Lovis Corinth e Max Slevogt, uma das primeiras figuras do impressionismo alemão, o que, convenhamos, nem é dizer grande coisa. Mas independentemente do clube epistemológico, não deixou de ser um prodigioso mestre e um ser humano como deve ser: ao contrário do estereotipo popular na Europa latina, em que o artista tem que ser um excêntrico ou um bêbado ou um doido ou as três coisas ao mesmo tempo, Liebermann era um homem sério, sóbrio e elegante, um berlinense virtuoso com estudos de filosofia e de direito e espírito vanguardista.
E é precisamente essa predisposição p'ra-frentex, esse domínio do desenho avant garde, que aqui se ilustra na perfeição.
Este orfanato de Amsterdão é, antes de outra maravilha qualquer, um verdadeiro tratado de design gráfico. A coisa está tão equilibradinha que até enerva. A utilização do vermelho e do branco reforça a perspectiva e o traço estiliza as formas. Depois, confesso que, no Museu Nacional de Arte Antiga, se ouvia perfeitamente a conversa das raparigas, por entre o tricotar dos minutos.
Adoro este boneco por causa da sua simplicidade e da sua sensibilidade. Porque o homem consegue fazer de um canto de um orfanato uma obra prima. É preciso um génio enorme para fechar este ângulo assim. É preciso fazer-se muita luz no espírito, para arrancar a arte dos braços do tédio.

Máxima malha.

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Placebo - Follow the Cops Back Home
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(I) Apesar da popular visão certinha, positivista e politicamente correcta de um cosmos de algibeira, universalizada por Einstein, outros sábios mais lúcidos e menos mediáticos cedo chegaram à desconcertante e gloriosa conclusão de que a física newtoniana podia servir muito bem para impressionar colegiais e jornalistas, mas seria sempre pobre instrumento para a inquisição a que a ciência humana tenta submeter o universo.
Em plena ascensão nazi, Werner Heisenberg - homem do regime e por isso um dos mais perigosos personagens da história do século XX - demonstrou a impossibilidade de medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula e que a observação do objecto atómico influi no seu comportamento.
Quase em simultâneo, Niels Bohr, o dinamarquês irredutível, demonstrou que o fotão poderia ser, em simultâneo, uma onda e uma partícula, entregando assim de borla a um obscuro criador, a possibilidade de estarmos certos seja do que for.
Mas já antes, a partir do famoso teorema de Euclíades - um cretense que teimava em afirmar dialecticamente que todos os seus compatriotas eram mentirosos*- Kurt Godel, matemático obsessivo e genial, demonstrara por a+b aquilo que é fundamental entender de uma vez por todas: que qualquer sistema aritmético inclui a sua própria negação. E assim sendo, esse velho preconceito aristotélico de que uma coisa só pode ser ela própria e nunca o seu inverso, deixa de ter justificação para poluir as mentes.
O princípio da incerteza de Heisenberg, a mecânica ondulatória de Bohr e o Teorema de Godel remetem às urtigas da epistemologia os bolorentos, pusilânimes e quadradões modelos positivistas de gente tão ilustre como Einstein, Conte e Descartes.
Sim é muito possível que não exista essa onírica Grande Ordem do Cosmos.
Sim é possível que o conhecimento atinja em tempo real, os seus limites.
Sim, Gaston Bachelard é capaz de ter acertado quando sugeriu que a ciência - como a filosofia e a arte - poderiam evoluir por ruptura e não por continuidade.
Sim, somos apenas produto de uma jogada de dados, entre deuses danados.
E não, não, não nos é possível perceber a batota.

*Se todos os cretenses tiverem de facto a tendência para a ficção, a afirmação será verdadeira. Mas nesse caso, como acreditar em Euclíades, o Cretense, que não passa de um mentiroso?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

What the bleep do we know?

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Alguns poucos dos fellow bloggers que frequentam este infrequentável blog sabem da minha embirração filosófica com Albert Einstein. Não porque não goste dele como figurinha de génio, porque gosto, mas simplesmente porque popularizou, no século XX, um conceito errado - e incompleto - do universo.
No concurso para a posteridade, o grande prejudicado pelo equívoco foi este senhor chamado Werner Karl Heinsenberg, que descobriu muito simplesmente que os mais pequenos elementos constituintes da matéria mostram um comportamento deveras ignorante do pensamento de Newton e alegremente indeferente às leis do bom Albert. Um exemplo: num exacto e único momento de tempo, a mesma partícula pode manifestar-se em duas dimensões espaciais. Outro: a observação dessa partícula altera o seu comportamento. E concluíndo: é impossível determinar com exactidão a sua posição no espaço, num dado momento. O máximo que podemos determinar é uma probabilidade. O príncipio que devemos seguir é o da incerteza.

O facto de termos um computador em casa é elucidativo de que a Mecânica Quântica é do tipo mais contemporâneo que a Mecânica dos Corpos Celestes, cujas leis físicas impossibilitam a existência do microprocessador. A matemática, a tecnologia e a indústria humanas, conseguiram adaptar-se surpreendentemente depressa aos conceitos surrealistas da Quântica e colocaram a revolução científica ao serviço da civilização. Mas em áreas como a política, a filosofia, a religião, a literatura e o senso comum, as conclusões de Heisenberg e de Niels Bohr são de natureza alienígena.

Ora, para utilizar o léxico do meu querido amigo Pedro Barros, que é barra nesta conversa, não se percebe lá muito bem porque é que o paradigma mental permanece imutável quando entretanto já se demonstrou desadequado para fazer frente à realidade e anacrónico porque vive falido de convicção científica.

""What the bleep do we know"" é um documentário de origem suspeita e de motivação esotérica, que corre o risco de estar para a Física Quântica como o Código da Vinci para a História das Religiões, mas a produção é competente, os dados científicos são credíveis e fazem-se de facto algumas perguntas certeiras. Porque há mais no universo do que compreendia a fértil imaginação de Einstein, recomendo vivamente esta hora e meia de interrogações.

Deixo aqui um excerto divertido do documentário em questão, interessante para quem queira perceber em cinco minutos os fundamentos experimentais da Mecânica Quântica, e volto a editar, em posts seguintes, os textos sobre Einstein escritos para o Ocidental Praia, no ano de 2003.

Saudação a Walt Whitman (até certo ponto).

Eia, Walt Whitman, grande jardineiro dos prados vermelhos da Guerra Civil Americana, indefectível secretário dos serviços de recrutamento, entusiasta dos cinquenta mil mortos em Gettysburgh, descomplexado publicitário da indústria das armas, tardio cheerleader das chacinas da Independência! Saúdo-te infame ajudante de campo que só chegaste a enfermeiro e saúdo os teus versos exultantes por tanta gente a morrer em nome dos teus ideais, dos teus ideais romanescos de adolescente que acredita no futuro! Dos teus ideais de cálamo que vencem sobre mil tiros de canhoaria afinada!
Ah, companheiro que entendes bem o insignificante valor da vida, que te encantas com os teus sonhos de uma democracia em papel de pauta, que envias - em alegres elegias - esses jovens todos da tua América sonhadora para a morte mais real do que tu alguma vez sonhaste. Do que tu alguma vez imaginaste nessa tua imaginação de Quixote, embrulhado em quimeras que valeram por todo uns bons milhões de mortos! Sim tu, bravíssimo poeta do jugo dos exércitos, incorrígivel trovador da morte na batalha, benévolo terrorista dos destinos dos outros, enquanto preparavas a tua imortalidade! Eia, grande cabrão entre os belzebus da literatura, arcanjo de todos o mais grego, de todos o grande elefante da poesia da guerra, Aníbal de chapéu de palha, Maquievel barbudo a cuspir o tabaco do Sul no escarradouro de Bull Run, Francis Drake de fato macaco a construir o caminho de ferro por onde vão entrar as indústrias do Norte; eia, miserável produto da estirpe divina, como a morte te inspira! Saúdo-te!

E saúdo-te também, Homero, imperador único na história universal do ódio, eia por Aquiles e a sua glória de sangue, eia por Ulisses e a sua astúcia de facínora! Urra pela beleza da guerra e pelos semi-deuses a quem não se permite um funeral! Urra pela arte militar e pela convenção estética do ataque e pela honra que conduz à vingança que leva à tragédia! Eia pelo herói predador, que há-de ser deus por ousadia! Sim, saúdo-te grande ferreiro da palavra espada, genial contador de histórias horríveis, com deuses crúeis e homens escravos dos piores destinos, há-de a tua glutonaria necrófaga ser perdurável sobre as eras! Há-de Heitor ser o general de todas as pelejas!

Saúdo-te Plutarco, velho amigo que criaste em Alexandre uma alma, que soubeste versar qualquer coisa para lá da armadura! Ah, notável agente cosmético da história dos horrores humanos, beneficiasse S. Jorge da tua prosápia e teria chegado a messias!

Saúdo-te outrossim, Camões do espadachim e das conquistas mais gloriosas que a vergonha dos escravos, que a crueldade dos capitães, que a ambição dos mercadores! Grande falo militaróide da história trágico marítima, inventor miliciano da língua portuguesa, saúdo-te, toxicodependente de sarilhos, gajo de porradas nas tascas e de duelos no Paço (rebelde com nódoas negras, que também levaste na cara), animal divino nessa meia cegueira dos teus versos vagas; contente de tantos dias de calabouço, de tantos anos de misérias és vaidoso ò grande diabo lusíada!

Saúdo-te ainda Lord Tenysson, por teres levantado da campa do esquecimento aqueles oitocentos desgraçados da Brigada Ligeira que foram ser barro para a tua olaria de rimas!

Saúdo-te também, Claude Mckay, que te insurgiste pronto-a-morrer no campo de batalha do teu delírio! Africano de Sunny Ville, jamaicano de Alabama, louco furioso dos sonetos if you must die, die hard! Ferve-te esse sangue de soldado em vinganças e hemorragias e fazes belos versos à cabidela! Saúdo-te!!

E sim, saúdo russos e chineses, prodigiosos estetas da guerra! Árabes e japoneses, senhores da mais bela e belicosa lírica que um momento zen de ódio imenso pode reclamar. Darth Vaders de todos os hinos,
Saúdo-vos!

E sim, saúdo-vos todos, velhos trovadores da contenda que é a natureza humana! Eu, que não sou de Esparta nem de caserna, nem grego nem troiano, saúdo-vos camaradas! Eu, que sou deste lado do tempo sem peleponesos, nem termópilas, sem batalhas dignas de um verso porque chegaram entretanto em directo para o jornal da noite, sem mitos e sem heróis porque a televisão estraga tudo com a merda da realidade por satélite; eu aqui, em Lisboa, 2007 Portugal Codex, que não sei nada de guerra, que não saberia segurar um espadim, que me borraria certamente inteirinho ao trovão da carga, como ao bramido da ofensiva, que sou um verdadeiro pacifista, no sentido mais profundamente quizilento da palavra - o europeu; saúdo-vos, bravos bandidos da literatura!!!

quarta-feira, dezembro 20, 2006

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Política Produto.

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A completa sem vergonhice ideológica em que vive esta Terceira República insulta-me a sensibilidade, confesso. O Governo de Sócrates é um buraco negro em filosofia política e uma supernova de pragmatismos. Vale qualquer coisa em nome de um materialismo muito pouco dialéctico: se não há dinheiro para alimentar a máquina do Estado, debita-se (e debilita-se) a carteira do cidadão. Pão, pão e cada vez menos queijo. Isto tudo com aquele arzinho propagandístico muito típico de quem está convencido que tem legitimidade moral para ser amoral. Só um pequeno e fresquinho exemplo: hoje aparece-me pelo jantar a dentro o draconiano e mega-confiante Ministro das Finanças, anunciando solenemente aos portugueses que, se todos os deuses do Casino Estoril nos acompanharem até lá, em 2010, será talvez possível, por remota e feliz hipótese, baixar os impostos. Não diz que impostos nem especifica reduções mas eu, que já percebi tudo, alvitro: 2% no IRC sobre a actividade bancária e 0.2% no IRS da classe média. O que seria correcto dizer aos portugueses claro está que não é nada disto. O que o Senhor Ministro das Finanças deveria ter dito, se não fosse um reverendíssimo Francisco Esperto, é que ao certo, ao certo vai continuar alegremente a roubar as empresas e os cidadãos até 2010, como o tem feito com sistematização puritana e eficiência alemã desde que chegou ao Terreiro do Paço. Isso sim, seria de homem inteiro. Roubar já foi, na história recente do País, um volição de carácter vincadamente ideológico. Tem é que ser assumido, para ser conceptual. Assim disfarçado como vem, não vale nada e é coisa de pulhas.

Não há hoje, em Portugal, uma Esquerda que transcenda a irresponsabilidade do Bloco e o anacronismo dos Comunistas. A prova disso é que, para ocupar o espaço-vácuo, não faltam subprodutos: da Primeira Dama a Freitas do Amaral, de Manuel Alegre ao Maria Carrilho, do Gato Fedorento aos editores da Visão, toda a mais triste fauna do país corre avidamente para a pena-planície imediatamente à esquerda do centro do universo.
O problema é que também não há, hoje, em Portugal, uma direita que recupere dos traumas recentes e dos equívocos passados. O Senhor Marques Mendes não sabe estar no lugar que ocupa nem sabe fazer o que lhe é exigido. O Senhor Ribeiro e Castro estaria talvez melhor no posto do Senhor Filipe Vieira, mas não percebe absolutamente nada de combate político. O Senhor Paulo Portas é um pedante insuportável e o Senhor Pacheco Pereira não está para isto, quer é fazer carreira como blibliotecário de Alexandria. Cavaco, entretanto, fez-nos saber por sua cara metade que já deu.

Este lamentável episódio da aparição bolchevique de Maria Cavaco Silva na Visão é de uma vilania incomparável. Para já porque é cobarde. Se a Senhora Presidente e seu Primeiro Cavalheiro assumem enquadrar-se algures entre o zero da convicção política e o infinito da Revolução Francesa, talvez tivesse sido decente que o tivessem dito por altura da miserável feira eleitoral que por desgraçada imponderabilidade histórica os depositou no Palácio de Belém. Não é?
Depois, por todos os deuses do pudor, o Senhor Presidente da República não deve mandar a mulher para a latrina da política, pois não? Não deve usar a sua senhora como pombo correio, não é verdade? O Senhor Presidente da República deve, ele próprio, com perturbações técnicas na transmissão televisiva ou não, falar das suas convições ao tribunal da malta. Ou deve utilizar os seus cães de fila, que os tem bem alimentados, para o deprimente efeito, certo?

A Política até pode viver sem ideias (sobra ainda o produto tecnocrático). Mas seria recomendável que não se lhe falisse também a educação. Afinal, bom senso e bom gosto, mesmo que em pacote, nunca fizeram mal a ninguém.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Da Condição Estética de Deus.

O blog do Manuel Anastácio é uma coisa rara de inteligência, erudição e sentido estético. Muito rara mesmo. E o que não falta no Da Condição Humana são posts brilhantes. Mas que dizer deste? Cada dia que passa é mais nítido que a blogosfera nacional está não sei quantos mil furos acima do registo. Já eramos um país de poetas. Somos agora uma nação de bloggers.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

318 pontos.

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Hoje à noite fez-se história em New Jersey. No mais espectacular jogo da NBA de que tenho memória (e já ando nisto há uns anos) os Phoenix Suns bateram os Nets, depois de 2 prolongamentos, pela módica quantia de 161-157. Não, não é gralha. Não, não estou a gozar. 161-157. Só no quarto período estes doidos marcaram 84 pontos. O resultado esteve sempre incerto (a diferença nunca saiu das unidades) e a liderança pontual mudou 34 vezes, registando-se 21 empates no marcador. O senhor Steve Nash - que é um mago já eleito por duas vezes como MVP da competição - marcou sózinho 42 pontos, o seu máximo de carreira. Do outro lado, o senhor Jason Kidd - que também é assim para o jeitoso - só marcou 38, mas como teve inspiração para somar 14 assistências e mais 14 ressaltos (triplo-duplo verdadeiramente extra-terráqueo), está perdoado. Os Suns dão sempre espectáculo porque o seu sistema de jogo - conhecido como hit and run - é baseado numa velocidade estonteante e na mais descomplexada atitude perante o cesto que se pode imaginar: se podes atirar para lá a bola, por que esperas? O problema é que a malta de New Jersey não fez o que geralmente fazem as restantes equipas da NBA quando jogam com esta gente acelerada de Phoenix e que é estar sempre a tentar baixar o ritmo do jogo. Aceitaram o desafio e desataram para ali a correr como se não houvesse um amanhã. Eu próprio, deste lado do Atlântico e devidamente enroscado no meu sofá, fiquei exausto.
É muito raro o privilégio de testemunhar a história em construção. Mas hoje, caramba, foi mesmo uma coisa para os anais da competição profissional. E não sou só eu que o digo. Basta correr a imprensa americana ou simplesmente passar por aqui, para se perceber a dimensão olímpica desta partidinha de basquete.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

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2 - Elogio da Sociedade da Informação

“Nuclear war would really set back cable.”
-TED TURNER-


Imaginem a vida sem telejornal. Sim, pensem lá um bocadinho neste cenário maluco. Não se sabe que tempestade tropical humilhou a administração Bush. Não se sabe que este anti-artista chamado Nelson é capaz por facto de marcar aquele golo em Old Trafford. Não se sabe, aliás e basicamente, nadinha que transcenda o horizonte imediato. BreakingNews: a batata está a crescer benzinho. O Manuel da Vinha sovou a mulher. O prior vomitou outra vez na tasca do Vitor dos Traçadinhos.
Imaginem, por um instante, uma sociedade que não é a da informação.
Imaginem que vivem em Paris e só sabem do Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 no dia 6 de Janeiro ano seguinte. E onde é que estavam no dia em que as torres gémeas sofreram da infâmia do mundo? Não podem saber. Não calculam ao certo. Só tomaram consciência da ignomínia para aí umas três semanas depois, por causa de um primo que estava em Nova Iorque e que escreveu a tranquilizar a família. Imaginem, se for possível, que o conhecimento da Tsunami do Indico chega um mês depois de ter acontecido a desgraça.
A história do homem antes da CNN é uma coisa enorme e misteriosa: como é que é viver neste mundo sem saber para além da província? Como é que é não nos preocuparmos com a fome no Sudão? Quem é que consegue viver sem saber, em tempo real, quantos soldados americanos por minuto é que estão a morrer no Iraque? Existe de facto alguma guerra que possa ser feita sem correspondentes de guerra? É possível agredir se a agressão não seguir pelo tubo que dá caminho para todas as casas do mundo? É admissível a redenção que não salva em directo? É justificável condenar alguém de aqui do bairro que não seja culpado perante o mundo todo? É plausível o aquecimento global se não for rúbrica recorrente na grande reportagem? Perceberíamos alguma coisa do caos sem que, com diligência profissional, nos informassem dele?
Seríamos reciclados, seríamos deitados fora; seríamos sábios, seríamos ignaros, o que seríamos, o que seria de nós audiências, sem o pivot das notícias do mundo, esse grande protector da verdade de plástico?
Imaginem a vida sem telejornal. E deêm graças por Ted Turner.
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“O êxtase absoluto, o momento em que tocamos os deuses, encontramo-lo no corpo de uma mulher entregue em paixão, na esfusiante embriaguês do desejo, na total cedência ao festim único do orgasmo, sem pudores ou detenças entre o bem e o mal - percepção inócua que tantas vezes condiciona relações tristemente falhadas em nome de absurdos terrores incutidos pelo prior da paróquia, espelho de puritanices obscuras - falsa castração que apequena a grandiosidade desse sublime momento.”

Vê-se que este senhor autor sabe do que fala, é mestre no assunto, entre outras muitíssimas coisas de vasto latim um bocado complicadas para o meu modesto entendimento. Para dizer a verdade, só costumo ler os jornais da bola, o Correio da Manhã e uns policiais, quando calha.
Mas a coisa caiu-me no goto. Não afirmo que compreendi tudo o que li, que é coisa que de facto não me acontece com frequência, que sou de poucas letras, um bocadinho para o atrasado. Mas aquela coisa de tocar os deuses mais o orgasmo e a referência ao prior é à sua falsa castração - por acaso não vou à igreja desde que, sem o meu consentimento, me baptizaram; assunto que tem dado conversa de bota a baixo com o ordinário do meu padastro - deu-me para matutar e até tentei comentar o caso com a malta. Não adiantei nada com isso. O Benfica tinha perdido e era assim um fim de tarde lixado na tasca do Azambrino e a rapaziada não pareceu lá muito empenhada em discutir este género de tramóia, até porque o chanfrado do árbitro, filho da prostituta a quem quasi todos juravam já ter dado cabo do colchão e do resto, que era muito, dominava a conversa.
Claro que não era assunto para tratar de ânimo leve com a minha santa Gervásia, que só fez a segunda classe e teve desde logo que alombar no armazém de frutas do bairro para sacar mais uns tostões que a coisa estava preta e eu na altura a moer-me com uma danada de uma entorse que não dava sequer para me coçar. De resto, a diferença entre um orgasmo e um apito não tem importância nenhuma para a boa da Gervásia.

A rebentar de dúvida e curiosidade, acerquei-me num belo dia do Zeca, um gajo de truz que anda na Machado de Castro. O tipo dispunha de resmas de livralhada e de um dicionário que nunca mais acabava. E lá estava: “Grau máximo de excitação na cópula carnal, objecto de desejo venéro.” É claro que fiquei um pedaço embatucado. O Zeca é da opinião que os senhores fazedores de dicionários nunca tratam as coisas de maneira que a malta apanhe à primeira. Que nunca chamam os bois pelo nome. Por exemplo, quando se lhes pede que definam este animal, pespegam-nos com isto: “peça rústica, animal de canga, usado por ocasiões de festividades religiosas, corneta de dois chifres ou, se é aleijado, de um só deles. Que figura na qualidade de bumba-meu-boi no Paraíba do Sul do Brasil em festanças de carácter pagão.” E por aí adiante de modo que é difícil imaginá-lo pendurado no talho do Tó do Gancho. Não há sequer uma referência a um bom bife à café.
O que se queria dizer, segundo o Zeca, é que quando me enrolava com a minha santa Gervásia, estava simplesmente a copular. Preocupou-me aquela do venéreo, moléstia que mete antibióticos e outras mezinhas, e nunca me passou pela cabeça sujeitar a Gervásia a um horror de tal tamanho. Também não me lembro de alguma vez ter tocado os deuses, o que se calhar não é possível porque não estou a ver como é que agarrando as mamas da cara metade estaria em condições de jogar as mãos às coisas sagradas.

Aliás nisto de deuses, tinha a ideia de que há um só Deus. Mas depois a coisa mete o Jesus Cristo, parente próximo - por acaso carpinteiro que também é a minha arte - e ainda vem o Espírito Santo, a mãe de Jesus que era virgem e outros familiares de muito respeito e santidade. Depois há uma catrefa de santos e santinhas a dar com um pau. Não há um dia do calendário que não os tenha. Ele é o S. Martinho, o Santo Ambrósio, o S. Francisco, o S. Jorge, o S. João, o S. Paulo, o S. Pedro e até o Santo António tem uma estátua nas avenidas novas. É uma confusão levada da breca porque se calhar sempre me estive borrifando para as chatices da catequese e nunca fui capaz de vasculhar estas graves questões que vêem na Biblia que a minha tia Almerinda me ofereceu num dia de aniversário, andava eu ainda de calções.

Ora o Malaquias, um fulano reformado de falas grossas e muitas flatulências, que pára ali no jardim sempre acompanhado daqueles pacotes de cartão de litro de vinho tinto, que canta muito bem Francisco Alberto Sinatra, filósofo de boa cepa e reputação, sobretudo à medida que vai esgotando o pacote de litro; por entre os fartos bigodes que estão p'ra aí há 20 anos em completo abandono, garantiu-me um dia destes que a questão de Deus e dos deuses é assunto de muita fruta e delicada embalagem. Que os gregos e os romanos, bem como outros trogoloditas de antigamente, adoravam uma resma de divindades. Que era só escolher à fartazana. Que eram uns bacanos que moravam no Olimpo, uma espécie de condomínio de cinco estrelas, com piscinas, polibans, bidés revestidos a folha de ouro e um ror de outras mordomias sem impostos. Que, pessoalmente, de entre todos os deuses, tinha especial preferência por Diana, Mandrake, Vénus, o Super Homem e, em particular, por Baco. Que as criaturas são livres por simples questão de fé, o que me deixou um tanto apreensivo porque sou um homem sem fé nenhuma, nem quando arrisco na lotaria.
E ainda, segundo Malaquias, que nisto de Deus e de deuses há muita escolha, conforme se seja judeu, da Palestina, sírio, da Patagónia, capitalista americano ou simplesmente da Malveira da Serra. Que é assim basta ver os telejornais onde se nos mostram, a cores, que se mata e morre aos montões desde sempre, em nome de Deus, Alá e outros mostrengos e que, se se ler a Biblia ou o Kama Sutra com verdadeira devoção, à ideia de que só há um Deus não se deve dar importância de maior, visto que sendo o homem feito à sua imagem - como defende o prior, por seu livre arbítrio que, aliás, depende muito dos dias que lhe sobram, das pesadas preocupações com o deficit do Vaticano e mais com a cáfila de estafermos que alimentam e consomem a desavergonhada pedófilia de sacristia - não há que o recear. Está visto que não faz sentido a existência de um Deus alheio às monstruosidades que podia e devia evitar com um piedoso estalar dos dedos.
Diz ainda o Malaquias - enquanto não chega a piela do cair da noite - manipulando, cuidadoso e diligente, o segundo pacote de tinto, que basta lembrar a Santa Inquisição, o Holocausto, as guerras que incessantemente incendeiam o que resta deste pobre mundo, a escravidão que capou montanhas de gentes com a mesma catana com que cortada foi a cana que enriquecia os senhores dos seus destinos e vidas. E mais. Hiroshima, Nagasaki. Como aceitar a infinita misericórdia de tal Deus, que permitiu o horroroso bigode de Hitler, a barbicha de Bin Laden, o espantoso Ébola, os despautérios da Lili Caneças e agora até o obsceno aumento dos vinhos.
Para mais e por via das opções que tomamos livre e convictamente, ao céu e ao inferno - metáforas para assustar os crédulos e as criancinhas - é difícil aceder porque, junto dos seus portões, haverá certamente intermináveis engarrafamentos. Para entrar nesta história da eternidade é seguro que, no entretanto, se morre de velho.
O parecer do Malaquias nesta delicada matéria não é susceptível de recurso nem que venha de lá a lábia do Marcelo Rebelo de Sousa a 150 contos o parágrafo. E acrescenta que cristãos (novos e velhos), muçulmanos, maoistas, afroditas, chefes de secção das finanças, sportinguistas e transformistas são uma só molhada tomada pelo todo, espécies que os de Israel, por exemplo, hortodoxos ou não, ignoram absoluta e indiscriminadamente, quando são feitos explodir por entre crianças e idosos, coxos e marrecos.
E que mais isto mais aquilo até que finalmente o sol se arrecada sobre a folhagem do jardim - o pacote do tinto já esgotado - e Malaquias começa por entoar os primeiros acordes do My Way do amigo Sinatra. Esbugalharam-se-me os olhos de tantos saberes ditados por entre sorrisos sardónicos e algumas sonoras e convulsas gargalhadas. Um cultíssimo companheiro, este amigo Malaquias da Saudade.

A verdade é que naquela noite fui-me à Gervásia a rebentar do tal grau máximo de excitação por causa daquela coisa do copular e do desejo venério e das outras tretas todas. É certo que não dei por chegar aos deuses, nem por gozar o sublime festum de um orgasmo do caraças, mas penso que devo ter andado lá por muito perto. Acho que é só uma questão de ter fé e insistir. Acabou-se aquela sensaboria da obrigação, dia sim, dia não, excepto nos dias sagrados, como no Natal, na Páscoa e no Dia da Nossa Senhora da Conceição, que é da particular devoção da Gervásia. A coitadinha, derreada, não pode nessa manhã fazer-se ao armazém, para aviar a fruta do costume.
Hei-de falar ao Zeca naquela história do Kama Sutra, que pelos zum-zuns que ouvi na tasca do Azambrino fiquei com a impressão que a minha santinha vai ter de meter atestado médico por incapacidade, e por uma boa temporada.

quinta-feira, novembro 30, 2006

quarta-feira, novembro 29, 2006

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1 - Sobre as virtudes do dentífrico.

Imaginem a vida sem pasta de dentes. Imaginem um mundo ao tempo em que se lavava a boca com urina. Os sorrisos castanhos das damas aliviavam aos cavalheiros as permanentes dores da putrefacta e generalizada cárie dentária. Trocavam-se alvarvemente beijos fétidos e as artes da conversação dependiam sobretudo da técnica utilizada para evitar o fedor do interlocutor. Durante séculos e sobre séculos o perdigoto foi um agente tóxico, o escarro trazia as sete pragas do Egipto e a pastosa substância da ressaca ficava na boca dos homens, alegremente, pelo dia a fora. Foi assim até há pouco mais de 150 anos. Lavavam-se os dentes com raízes e mijo, com carvão e giz ou não se levavam os dentes de todo. Imaginem isto. E agradeçam aos deuses por William Colgate.

terça-feira, novembro 28, 2006

sexta-feira, novembro 24, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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6 - AUGUSTE RENOIR
Cabeça de Mulher ou Mulher com uma rosa

Sem data, óleo sobre tela, 35cmx27 cm

De um homem que nos deixou milhares e milhares de obras primas, de um grande génio da pintura moderna, não se pode fazer pequena rábula de trazer por blog. Não que eu seja um fã maluco do impressionismo, não sou, mas Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) merece mais do que um ou dois parágrafos a propósito de uma exposiçãozinha no MNAA. Por isso, deixo em suspenso a gritaria biográfica e a pretensão crítica, curvo-me respeitosamente e, sobre este magnífico boneco em boa hora adquirido pelo bom do Dr. Rau, faço silêncio. É que basta olhar para a rapariga para percerbermos que está tudo dito.
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quarta-feira, novembro 22, 2006

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Teoria do Caos

Só há uma árvore no caminho. Mas é sempre ali que saio da estrada.
Crash. Sou o Homem-Acidente.

Se as coisas já estão a correr mal, vão correr pior daqui a nada.
Nem Murphy é assim contundente

e a entropia é uma brincadeira de crianças quando bem comparada
a esta minha vidinha decadente:

as horas que passam seguem sempre a mesma direcção danada,
da desordem para o caos permanente.

E sempre que a borboleta do Japão levanta a sua vaidade alada
num esvoaçar alheado e inocente,

quem sai prejudicado é este vosso servente.

segunda-feira, novembro 20, 2006

domingo, novembro 19, 2006

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"As Graças procuravam um altar eterno.
Acharam-no na inteligência de Aristófanes."

-PLATÃO-


"Da Condição Humana" chegou-me um motivo de sobra para ter um blog: a inteligência de um contra-argumento notável. Se as fontes que revelam a existência real de Sócrates não são fiáveis porque vêem todas do mesmo e militante esquema ideológico, que dizer de Aristófanes então, um fascista dos bons que combatia as ideias tontas de todo o democrata, especialmente as ideias tontas do democrata Sócrates, que fazia melhor se fosse para casa cuidar da sua esposa mal amada?
Para já, tenho que dizer que o lapso é propositado. E isso é fácil de demonstrar, já que precisamente há um anos atrás (ele há coisas do diabo), no dia 19 de Novembro de 2005, escrevi, sobre Aristófanes - na rúbrica das "Vozes da Poesia Europeia" - o seguinte:

ARISTÓFANES E OS PRAZERES DA PAZ
Considerado o mais brilhante autor de comédias da literatura grega, Aristófanes (sec IV A.C.) era um erudito conservador, apesar do uso de uma linguagem muitas vezes obscena e escatológica, que transformou o teatro grego num palco de intervenção política e social. Feroz adversário da Democracia de Sócrates e Eurípedes, acaba no entanto por ser vítima da censura imposta pelo despotismo aristocrático, consequente ao desfecho desfavorável para Atenas da Guerra do Peloponeso.
Talvez por isso, desenvolve um discurso pacifista absolutamente delicioso, que evita as banalidades filosóficas humanitárias, assumindo a preferência pelos prazeres epicuristas decorrentes do lazer: a guerra é uma chatice que impede o homem de preguiçar deveras, comer bem e fornicar bastante.


Assim sendo, porque raio não consta o homem do panfleto que tão esforçadamente esgrimi?
Para já porque é um parodiante e - nesse contexto - não vinha à conversa. Nenhum filósofo contemporâneo quer concerteza que a sua biografia - como a sua posteridade - possa ser assegurada por Herman José. Ou transformada em conversa da treta por José Pedro Gomes ou levada a prime time pelo Ricardo Araújo Pereira.
Estou, é claro, a ser injusto com Aristófanes e esse foi o meu erro. O comentário do ilustre blogger (e notável colaborador da minha amada Wikipédia) tem toda a pertinácia e eu sou, assim, obrigado a explicar-me melhor.

Vamos por partes:

1 - O cão de fila.
Apesar do seu pacifismo meio hippie, Aristófanes (450-355 A.C) era, por natureza, um agressor. Criava comédias para morder as canelas dos incautos, sátiras para massacrar os livres de espírito e poemas para azucrinar a consciência dos reformistas. Contundente crítico das artes sofistas da persuasão, feroz inimigo do teatro de Eurípedes e adepto da liderança de Péricles, Aristófanes ataca a dialéctica de Sócrates na famosa comédia "As Nuvens", ridicularizando o filósofo por ignorar os deuses, comparando-o com os sofistas e colocando-o, acertivamente, no grande saco dos demagogos. Esta peça é a única escrita por Aristófanes que fica em terceiro lugar nas Dionisias, uma espécie de olímpiadas da literatura grega (o homem estava habituado a ganhar sempre).

2 - Nuvens sobre a história.
"As Nuvens" é uma peça que data de 423 Antes do Jota. E é aqui que se coloca verdadeiramente o mais forte contra-argumento: Sócrates não pode ser uma invenção literária de Platão, já que este tem apenas 4 anos quando Aristófanes ridiculariza o personagem. A acreditarmos nestas datas, a minha pobre tese cai aos trambolhões pela escada do bom senso a baixo.
Porém, a datação das obras literárias clássicas é, no mínimo, polémica e a acreditarmos na versão oficial, Aristófanes tinha já escrito, pelo menos, 8 grandes êxitos de bilheteira com a singela idade de 27 anos, recorde que deixa a performance de Shakespeare a milhas. Mas, mais importante, a data da peça insere-se em pleno período da Guerra do Peloponeso (431-404). Ora deixem-me que vos pergunte: é lógico supor que um jovem crítico da guerra, numa nação em guerra, seja aclamado? A Grécia Clássica não vive uma realidade política análoga à da civilização ocidental contemporânea. Não podemos cometer o pecado de inocência de pensar que um puto cheio de talento, com muita veia e com alguma piada pudesse fazer e desfazer a seu belo prazer as instituições democráticas. Voltando à metáfora anterior: a cabeça de Ricardo Araújo Pereira, se bem que mais ajuízada, teria já desaparecido do seu lugar natural.
O problema da datação é aliás evidente dentro de si próprio. O tal vergonhoso terceiro lugar das Dionisias, acontece apenas em 420 A. C. Mais: sabe-se que Aristófanes introduziu alterações à peça posteriormente, embora não se perceba exactamente quando, nem qual o teor dessas mexidas. Para reforçar a incerteza, a própria data de nascimento do célebre parodiante é inúmeras vezes colocada em causa.
Assim, sendo, a datação desta peça, por si só e dadas as distâncias temporais e os nevoeiros da história, não me convence.

3 - Anarca de um dia para o outro.
Datas à parte, a coisa torna-se mais clara. O contra-argumento de que Aristófanes não é do clube de Platão e que não tem, por isso, interesse político em corroborar a sua personagem de estimação, não é lá muito sólido: Aristófanes é uma figura altamente contraditória. Fascistóide em democracia, torna-se rapidamente um inimigo da Tirania dos 30, muito simplesmente por lhe impossibilitarem a literatura feérica. Oscila entre um conservadorismo seminarista e a raiva libertária para acabar os seus dias como militante da Academia de Atenas, negando que alguma vez considerou Sócrates (ou Platão) inimigos políticos e surgindo até nos Diálogos como delicado e reverencial interlocutor do velho moscardo. De tal forma que, quando morre, tem em Platão um fã incondicional (como se percebe pela citação introdutória).
Aproveito o balanço e pergunto-vos, por minha defesa: Porque é que se sabe tão pouco da vida de Eurípedes, que é só o redactor número um da Tragédia Grega, e tanto de Aristófanes, um simples cómico? Não será a sua peça menos aclamada - As Nuvens - aquela que lhe garante afinal um lugarzinho porreiro no Louvre da posteridade? Vista a coisa deste prisma, sobra um excelente negócio para ambas as partes: Aristófanes conquista a infame e imortal reputação de ter sido um dia senhor com tomates para ridicularizar o único ser humano da história universal que não é ridicularizável. Platão ganha mais um adereço para o disfarce.

4 - Não foi por acaso que inventaram a máscara.
Mesmo que a cumplicidade que insinuo em cima, não se verificasse de todo, outra possível proponho: quando Fernando Pessoa se zanga com os estudantes de Coimbra (por causa de um absurdo ataque puritano dirigido à lírica mais ou menos gay de António Botto), o que é que faz o génio? Puxa do seu heterónimo sensacionista de sempre e chuta o Aviso por Causa da Moral, um dos mais sublimes bocados de prosa da língua portuguesa. O facto de Aristófanes esconjurar Sócrates em vez de Platão não quer dizer tanto assim sobre a existência de Sócrates, mas é bastante elucidativo quanto ao poder e ao estatuto de Platão. Fernando Pessoa mascara-se de Álvaro de Campos, Aristófanes esconde-se em Sócrates. É claro que todos sabem quem são de verdade, mas não é isso que importa pois não? Como já tive ocasião de demonstrar no texto anterior, os gregos do tempo apreciavam a charada.

5 - De volta à conspiração.
Esperava não ter que voltar a este assunto, que me é ligeiramente desagradável, mas o desprezo de Platão pelas mulheres - detectável pelo menos de 3 em 3 páginas da República (só um exemplo) - é uma tendência sociopata que, a certa altura, parece ser partilhada por Aristófanes. Já convertido ao pensamento reformista, o comediógrafo escreve a "Assembleia das Mulheres", sátira montada sobre a ideia de um Estado administrado por matronas, que resulta na violação da propriedade e numa tirania das velhas fêmeas sobre os moçoilos imberbes. Este, parece-me, mais uma vez, um texto encomendado. Como é bom de ver, Aristófanes e Platão tinham mais em comum do que pode entender a imaginação de Horácio.

6 - Don't get me wrong.
Dito isto, mantenho a dúvida. A data de uma comédia não justifica a tragédia, ou melhor, não há Carbono 14 que nos alivie da incerteza. Mas atenção, o que aqui ficou de Aristófanes a propósito do Problema de Sócrates não desdiz um milímetro do que escrevi o ano passado. O homem era absolutamente giro. Senão vejamos:

HINO AO FALO

"Ó compincha, do vinho bom amigo,
Ó conviva das noites de folia,
Sedutor de mulheres e rapazinhos!
Depois de cinco anos de serviço,
aqui estou a saudar-te. Que alegria!

Eis-me já de regresso ao domicílio.
às malvas atirei, mais às urtigas,
aquilo de que fiz meu compromisso,
A paz, bem vês, assinei-a sozinho.
E os que fazem a guerra, que se lixem!

Quanto a mim, ó compincha, o que prefiro
é encontrar no bosque uma mocinha
- ou antes: surpreendê-la no delito
de lenha rapinar aos meus domínios -
e prendê-la, despi-la, possuí-la! (...)"

sexta-feira, novembro 17, 2006

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Salão de jogos.

O Professor gosta do Engenheiro e é íntimo dele. Adora aquela mesinha redonda onde se juntam os dois durante horas a fio, para resolver o país, distribuindo fichas pelo par e o impar, o vermelho e o preto. Nesses momentos de qualidade entre camaradas (entre amigos!), o Professor acarinha-se do Engenheiro e deixa-o jogar sempre com as brancas. Olha para ele e revê-se no homem e convida-o a biscar. Observa-o e identifica-se com os problemas dele: é difícil tirar dobles. O Professor sabe disso muito bem e abandona-se languidamente em solidariedades institucionais e lealdades de estado. Quanto muito, lá consegue meter a jogo o seu carrão de doze pintas, mas nada que possa interromper o curso da grande reforma que o País precisa e que o Engenheiro fornece. Deve-se sempre confiar num bom parceiro de Canasta. O Professor está convicto que tem à sua frente um reformista e não está disposto a trair as regras do jogo. Limita-se a passar pela casa da partida e a receber dois contos. No que lhe diz respeito, o Engenheiro é o tipo certo no lugar certo e mais nada.
Na última mão, o Engenheiro leva duas e pede três apenas, porque sabe que o Professor não gosta de andar com muitas moedas no bolso.
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domingo, novembro 12, 2006

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Apesar do fascismo escolástico que recusa a discussão do assunto, quanto mais leio Platão mais convencido fico da natureza heteronímica de Sócrates. Sei bem que esta é uma questão arrumada pelos epistomologistas mais sérios de todo o planeta académico, mas como não sou académico, tenho toda a liberdade para me divertir com o assunto. O que se segue é um exercício descarado de pura especulação, mas, pelos deuses todos da sabedoria clássica, não me parece menos especulativa a ideia geralmente aceite de que o iniciático palrador que fundou o pensamento ocidental tenha existido realmente como um homem de carne e osso. Eu explico.


TESE: SÓCRATES, O ANIMAL PERFEITO.

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Sócrates no leito de morte - Jacques-Louis David (1787)

Vida e morte de um mito.

A versão oficial é convenientemente picaresca: Sócrates nasce em Atenas, provavelmente no ano de 470 A.C., para se tornar um dos principais pensadores da antiguidade. Filho de um escultor e de uma parteira (facto que lhe possibilitou vários exercícios metafóricos), passa por aristocrata durante toda a sua vida. Em jovem aprende música e literatura, mas cedo acaba por se dedicar exclusivamente à meditação e ao desvario filosófico, actividade de que faz profissão se bem que recusando peremptoriamente a cobrança de honorários. Já adulto notabiliza-se como cidadão íntegro, soldado intrépido e intelectual credenciado. Combate heroicamente as várias batalhas da Guerra do Peloponeso, e - por isso - são-lhe atribuídos alguns cargos públicos que cumpre com desinteressado escrúpulo. Na verdade, o grande Moscardo não deseja trabalhar nem precisa de ganhar a vida. Ostentando a sua austeridade, prefere simplesmente viver à conta das festanças entre os amigos que por acaso até fazem consistente parte da nata social de Atenas.
Casado com Xântipe, tem constantes problemas matrimoniais, provavelmente derivados do alheamento que dedicava aos assuntos materiais e domésticos, tanto como por causa do seu conhecido gosto por colóquios bem regados e simpósios orgíacos (convém informar a gentil audiência que Sócrates seria um reputadíssimo seca adegas, conhecido por permanecer sóbrio mesmo quando todos na festa já estavam completamente bêbados).
Apesar dos diversos chamamentos faz sempre o possível por se conservar afastado da vida pública e política, servindo a cidade por viver justamente e por formar cidadãos sábios, honestos e temperados. Tudo isto à borla e por antítese dos sofistas, que agiam para seu próprio proveito e formavam grandes egoístas, capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo.
Sócrates era porém um revolucionário. Armado da sua dialéctica prosápia sai pelas ruas a fazer perguntas incómodas, a pregar a ética, a reduzir os dogmas a cinzas e as convicções a fumo. Libertário por essência, incomoda deveras a Oligarquia dos 30, que se agita em desconfortos e protestos. Às páginas tantas, Mileto, Anito e Licon, três importantes burocratas da tinania ateniense do pós-guerra do Peloponeso, acabam por acusá-lo de impiedade, de corromper a mocidade e de negar os deuses da pátria. Sócrates entrega-se ao julgamento com toda a calma do mundo e aproveita a audiência para mais uma sábia palestra. Para escapar à cicuta só tem que mostrar algum comedido arrependimento mas Sócrates recusa semelhante ignomínia e insistindo na necessidade de uma sentença exemplar, acaba por ser condenado pelos jurados, que transpiram embaraço.
Da sentença à execução passa 30 dias de conferências de imprensa na sua cela transformada em Grande Auditório. No entretanto, um dos seus discípulos - Criton - prepara a fuga do Mestre, mas Sócrates recusa a hipótese, por não querer desobedecer às leis da pátria. No dia marcado, deixa umas palavras solenes aos seus discípulos e ingere tranquilamente o veneno. Tem 71 anos.


Pensamento e Método.

Sócrates nunca escreve uma linha, prefere dar-se descontraidamente à palheta com mulheres e crianças, pedintes e escravos, ricos e pobres. Nunca fundará uma escola, opta por filosofar alto nos espaços públicos, nos fóruns e nos ginásios. Respeitando obstinadamente o método dialéctico e interrogativo (maiêutica), que leva o interlocutor a esbarrar em contradições e a confrontar-se com os seus dogmas, o diálogo socrático (na verdade um monólogo entrecortado por interjeições de concordância vindos da audiência, mesmo que hostil) procura a catarse e a educação para o auto-conhecimento, única fonte de sabedoria.
Sócrates preocupa-se sobretudo com as questões elementares da existência humana, procurando definições gerais para os conceitos de justiça, amor e virtude, e definindo a alma como uma singularidade ética e racional, coisa que apenas irá influenciar decisivamente o pensamento ocidental para todo o sempre. Em certo sentido até Cristo é socrático: só é feliz quem é moral. E só através da perfeição moral é liberta a alma da vida terrena para as esferas celestes. Viveremos o tempo que for preciso e as vidas que forem necessárias até aprendermos a portarmo-nos como deve ser.
Isto tudo apesar de um discurso eminentemente anti-programático. Sócrates não facilita a vida a ninguém. Não se chega à frente com verdades absolutas e praticamente não oferece respostas às suas próprias perguntas. Como Descartes fará um bom bocado de tempo depois, o humilde pagão gosta de instalar a dúvida e usa-a como instrumento do saber.


Os suspeitos do costume.

Como não era dado à pena, a existência e o pensamento de Sócrates deve-se fundamentalmente aos testemunhos de 3 homens: Platão, Xenofonte e Aristóteles. Não incluo Plutarco, como é costume bibliográfico, porque não o considero uma fonte directa. Plutarco viveu três séculos depois do decorrer da acção e era já um poeta greco-romano, interessado sobretudo em entreter os césares com os mitos de Atenas. Levá-lo a sério como testemunho da vida de Sócrates é equivalente a darmos como certa a existência real de Ricardo Reis mediante o relato do último ano da sua vida feito por Saramago.
Platão escreveu mais de duas dezenas de Diálogos, que chegaram inteiros à modernidade. Com a exceção do último - As Leis - em todos os outros Sócrates é um dos personagens, e na maioria deles é o personagem principal.
Existe uma certa controvérsia entre os estudiosos a respeito de quais são os diálogos em que Platão reproduz realmente a doutrina do seu mestre, por oposição àqueles em que se limita a utilizar o velho moscardo para expressar a sua própria filosofia. De qualquer maneira, é geralmente aceite que muitos dos Diálogos são relatos de factos historicamente ocorridos, constituindo a fonte primeira para o conhecimento da vida de Sócrates.
Xenofonte deixou-nos em "Ditos e feitos Memoráveis de Sócrates", a segunda fonte mais importante sobre a pessoa e o pensamento do incómodo inquiridor. No entanto, nesta obra, Xenofonte relata que Sócrates conhece bem diversos assuntos alieníginas à tradição académica ateniense. Como o filósofo nunca se ausentou da Cidade, a não ser para andar à cabeçada com os espartanos, e não consta que tivesse grandes contactos com os congéneres do sul da Itália, nem com os da Ásia Menor, nem que se desse a viagens ao Egipto ou à Pérsia, não está bem claro como é que o santo homem dominava esses assuntos.
Aristóteles refere-se um punhado de vezes a Sócrates mas em função da sua filosofia e não da sua biografia.



ANTÍTESE: SÓCRATES, O HOMEM IMPOSSÍVEL.

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A Escola de Atenas - Rafael (1509 - 1510)

Super-Estruturas: Estado e Academia.

É minha convicção que a figura de Sócrates não é histórica, mas literária: um heterónimo de Platão. Para elaborar convenientemente os argumentos a favor desta ideia, convém começar pelas super-estuturas psicológicas e institucionais e entender a democracia dos cidadãos de Atenas, bem como a sua abordagem à filosofia como disciplina literária.
As regras da democracia helénica não são as da democracia liberal do século XVIII. Numa cidade de 230 mil pessoas, 150 mil eram escravos e 60 mil mulheres, ambos os segmentos sem qualquer direito político. Restavam portanto 20 mil homens, que eram facilmente manipulados por uma elite de aristocratas e burocratas que detinham os cargos públicos. Deve também dizer-se que a democracia, em Atenas, aconteceu de cima para baixo: foram as elites que ofereceram os direitos à massa urbana e rural e não o contrário. Não houve qualquer evento revolucionário em Atenas e o poder - em termos políticos, sociais e económicos - nunca mudou de mãos nas transições entre as oligarquias e as democracias. Dou um exemplo: quando Atenas perde a guerra do Peloponeso, Esparta instala no poder 30 tiranos. A maior parte deles eram funcionários das instituições públicas do anterior regime. Alguns seriam, segundo Platão e inclusivamente, discípulos de Sócrates. Daqui se conclui que a mobilidade social da República era pouco mais ou menos equivalente a zero. Um nobre será um nobre, um plebeu será um plebeu até que a morte os conduza à igualdade das cinzas.
Depois, há que ter sempre em mente, para compreender o meu argumento, que a tradição filosófica grega é eminentemente literária e oral, ou seja: não ensaística. O seu processo pedagógico evolui através de rábulas, de parábolas e da construção de personagens que se debatem numa comédia de costumes. A filosofia apreende-se como uma dramaturgia e ensina-se pelo diálogo. É, fundamentalmente, um charada.
Acresce que todo o imaginário ideológico sobre o qual decorre a acção é dominado por duas escolas adversárias: a da Academia de Atenas e a da corrente Sofista. A primeira é fundada por Anaxágoras (500-428), será dirigida, no seu apogeu, por Platão e é dialéctica e moralista. A segunda é essencialmente retórica, niilista e mercenária. Um sofista é uma espécie de Maquievel pré-histórico, disposto a justificar filosoficamente qualquer acto do seu príncipe, a troco de justa avença. É claro que esta visão cínica dos sofistas se deve ao lamentável facto de terem ficado para a posteridade apenas nas linhas de Platão e Aristóteles, seus adversários de sempre.


Uma história mal contada.

O primeiro facto biográfico de Sócrates começa logo por ser muito suspeito: de origem plebeia, terá desde cedo uma vidinha boa de aristocrata, primus inter pares. Dir-me-ão que o homem conquistou o seu estatuto através do bravo comportamento em combate, o que é de uma inocência que dói. O filho de uma parteira e de um escultor (leia-se: pedreiro) seria apenas mais um soldado nas fileiras do exército, cujas façanhas, por muito heróicas que se manifestassem, estariam invariavelmente condenadas ao anonimato (Aquiles, o maior guerreiro da história da humanidade, para ser o herói de Homero teve que descender dos deuses).
O facto da mãe de Sócrates ser parteira é também estranhamente coincidental com o entendimento que o sábio mostrava da filosofia: o conhecimento é intrinseco ao indíviduo, permanece adormecido no útero da sua alma e compete ao filósofo apenas ajudar a tornar consciente, a parir, essa sabedoria moral. Convenhamos que dá mesmo jeito à metáfora, não é?
A juventude de Sócrates é curiosa: a sua educação baseia-se em duas disciplinas caras a Platão (a música e a literatura) e, sabe-se lá porquê - acaba por embicar com a filosofia. Não se lhe conhece um mestre, um professor ou a frequência de qualquer academia. Como Platão (e como Aristóteles), confessa-se influenciado por Anaxágoras (outro condenado pelos cidadãos de Atenas) e despreza os sofistas. Ora, numa cidade que deu à estampa da história mais filósofos por metro quadrado que pedras na via ápia, este é o único caso de um pensador que surge por geração espontânea. Não pertence a qualquer escola das ideias do seu tempo, é um desalinhado. Não aprendeu a pensar com ninguém, é um auto-didata. Faz lembrar um pouco aqueles personagens do Kafka, transparentes e isolados, sem relações com o mundo que transcendam o estrito âmbito da funcionalidade narrativa. Sócrates não tem professores, tem discípulos. Não tem amigos, tem interlocutores. Não se apaixona (se exceptuarmos o episódio de Alcíbiades, que é relatado por Plutarco e que tem a credibilidade de uma aventura de Dan Brown), não vai às putas, não tem fraquezas nem vícios e nunca se encoleriza. É humilde e honrado, soldado bravo e intelectual sensível (uma impossibilidade ontológica), austero sem deixar de marcar insaciável presença nas orgias dos ricos. Se a tudo isto, adicionarmos a proverbial alergia ao dracma e o total desinteresse pela vida material (não faz simplesmente sentido que o maior pensador da antiguidade se comportasse como um mendigo, vivendo do vinho esmolado e do ar mediterrânico) começamos a perceber que não é de um ser humano que estamos a falar, mas sim de um personagem de ficção.
O seu casamento também é de banda desenhada. Sendo portador das notáveis qualidades já citadas não se percebe porque raio aceita casar com Xântipe, uma megera (cito Platão) sem interesses físicos, intelectuais ou financeiros, de quem passa a vida a fugir a sete pés. Porém, se pensarmos no horror e na desconfiança que Platão - um maricas dos sete costados - tinha às mulheres, entendemos melhor a dicotomia: Sócrates representa o homem modelar que define a virtude e a grandiosidade; Xântipe traduz a mulher comum, que sintetiza a vilania e a mesquinhez. Desconfio até que Platão devia concordar com Nietzsche neste ponto: um filósofo casado pertence à comédia.
Seja como for, Sócrates mostra-se, em vida como na morte, mais digno que Jesus Cristo. Este, pelo menos, tem ataques de mau feitio, dorme com prostitutas e não esconde o sofrimento do calvário nem o suplício da cruz. A forma como Sócrates leva até ao fim o seu processo judicial e como, sendo inocente, na verdade, aceita a pena máxima com toda a naturalidade e algum excesso de zelo até, é, de todo em todo, extraterráquea. Além disso, este episódio do julgamento de Sócrates parece-me, em si mesmo, bastante improvável. Anaxágoras, por motivos que excederam largamente a simples palheta subversiva, também foi acusado de impiedade, mas a pena ficou-se pelo exílio. E não cabe na cabeça de ninguém com juízo que um colectivo de juízes contrafeito, mandatado por uma oligarquia que incluia alguns dos seus discípulos, condene Sócrates à morte por ser um moscardo da sensibilidade. Da mesma forma que é difícil acreditar que um homem de carne e osso exija a sua própria condenação, tanto mais dado o pormenor infeliz de estar inocente!


Uma conspiração de espertos.

Tenho consciência de que, em favor do ponto de vista que defendo, terei de vos convencer que Platão contou com a cumplicidade das restantes fontes que testemunham a vida real de Sócrates, o que até não é assim muito difícil. Para já porque Platão, Xenofonte e Aristóteles são contemporâneos. Depois porque são amigos. Acresce que partilham a mesma cor política. E por último, talvez o mais importante: se Aristóteles é discípulo de Platão, Xenofonte é fã deste e os dois acreditam firmemente no novo conceito que o seu mestre inventou para revolucionar para sempre a história do pensamento: o ser humano é constituído dualmente por um corpo e por uma alma.
Da maneira que vejo as coisas, o que estava em causa era de tal forma importante que tanto Xenofonte como Aristóteles não hesitaram em corroborar a existência de Sócrates, alimentando a falácia em nome de uma nova e fundamental visão moral do homem. (Lembro, a título comparativo, a cumplicidade estética e filosófica entre Almada Negreiros e Fernando Pessoa, que teve resultados surpreendentes como as famosas dedicatórias de Almada a Álvaro de Campos. Tudo em nome de um triunfo do Modernismo). Não custa nada imaginar um acordo de cavalheiros, baseado numa sensibilidade espistemológica mútua, que possibilitasse a criação de um personagem credível sobre as eras.
Em qualquer caso, a solicitação de Platão não é exigente: a Aristóteles, cabe a missão nada complicada de utilizar na sua obra, a espaços, a figura intelectual de Sócrates, corroborando o seu património filosófico e não biográfico. Já Xenofonte, dedica a Sócrates uma compilação de textos sem grande interesse, redundantes e elogiosos (como o episódio do Oráculo de Delfos), nitidamente redigidos por encomenda.


Mais achas para a fogueira.

Encontramos mais razões para desconfiar da existência real de Sócrates se pensarmos em Homero, que sendo a grande referência literária do Ocidente, provavelmente nunca existiu como ser humano concreto (tudo indica que se trata de um alter ego utilizado por sucessivos escribas que passaram ao papiro a tradição oral da literatura cosmogónica grega). Se soubermos que o verdadeiro nome de Platão era Arístocles e que ele sim fez as tais viagens que faltavam a Sócrates para dominar os assuntos todos de que fala Xenofonte. Se percebermos que toda a filosofia de Sócrates explora a distorção entre o aparente e o real, manifesta integralmente através da Alegoria da Caverna. Se consciencializarmos que há textos atribuídos a Platão que não são de Platão. Se tivermos sempre presente que mesmo outros personagens da acção como Criton, o fiel e prestável discípulo de Sócrates ou Mileto, Anito e Licon, os seus três acusadores, devem a sua existência apenas aos escritos de Platão. Se equacionarmos todas estas variáveis, não é disparatado conceber que este é um universo, de todo em todo, ficcionado. Só não o vê, a olho nú, quem não quer.



SÍNTESE: SÓCRATES, O HETERÓNIMO IDEAL.

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Socrates afasta Alcibiades do prazer sensual - Jean-Baptiste Régnaul (1785)

Enumeradas as contradições e os lapsos, já dissecada a sintaxe do crime, resta-me a semântica do seu motivo.
Decendente de Codros, rei mítico de Atenas, corre nas veias de Platão o puro sangue azul da divina linhagem; o homem é um aristocrata Classe A que não pode ser herói aos quadradinhos da filosofia explicada ao cidadão comum (o mesmo argumento tem sido utilizado desde o princípio do Século XX em favor da hipótese de Francis Bacon ser o verdadeiro autor de grande parte das peças de Shakespeare, não passando o bom William de um limitado produtor teatral que de bom grado oferecia o seu nome como protecção ao lorde chanceler, redactor de grandes e sucessivos blockbusters, já que na Inglaterra Isabelina a criação dramática estava uns degraus abaixo da conduta exigida a um nobre).
Ora, de forma a consagrar a dimensão oral e literária da filosofia grega, Platão precisava de um personagem moralmente superior, um super-herói acima das necessidades e dos vícios próprios da condição humana, cuja voz impoluta trouxesse legitimidade a uma Filosofia da Ética e pregasse pelas ruas a nova verdade. Um homem de origem humilde que não ofendesse os pobres, mas de comportamento exemplar e esmerada educação para viver com naturalidade entre os poderosos e ser reconhecido por eles. Um profeta Zen e um guerreiro temível. Enfim e em síntese, 19 séculos antes de um certo alemão torturado pelas enxaquecas, Platão teve que inventar o seu próprio Zaratustra.
A virtude sobre-humana com que Platão dotou Sócrates percebe-se. Para desacreditar os sofistas e o seu esquema amoral da consciência humana, para afirmar que as exigências do corpo devem ser vencidas de forma a atingir a transcendência da alma, será necessário alguém que não tenha um passado realmente vivido, uma falha de carácter, um erro cometido, uma injustiça perpetrada, uma ressaca mal curada, um insulto a despropósito, uma vaidade declarada, uma fraqueza da carne. E é claro que este tipo de gente só se pode encontrar nos territórios infindáveis do reino do faz de conta.
Assim, à conveniência de um herói que se recusa a escrever uma linha que seja- justificando-se a ausência de testemunho próprio e a necessidade de um narrador - junta-se a utilidade de um indivíduo cujo discurso é a 100% coerente com a sua praxis quotidiana.
A filosofia de Sócrates é, também, apropriadamente ambígua. O Mestre não confessa mais do que a sua ignorância perante o mistério, deixando a verdade filosófica para o capitulo subjectivo de cada alminha. O grande pensador não ilumina com respostas, elucida com perguntas. Assim, fica liberto o programa de acção para que seja Platão a estabelecer os sólidos paradigmas do pensamento clássico, baseados numa rudimentar Filosofia do Não, meio visionária por só ter sido re-encontrada em Bachelard, vinte e três séculos depois. Sócrates, o profeta, abre assim caminho para Platão, o redentor. Enquanto um pergunta pelo que é justo, o outro define a justiça. Enquanto um se interroga sobre a beleza, o outro determina o que é belo. Enquanto um faz implodir os velhos dogmas o outro cria uns dogmas novos e assim por diante. Na competição pelo primeiro lugar das olímpiadas da posteridade é, naturalmente, Platão que sai a ganhar (ninguém alimenta uma paixão socrática, mas todos sabemos o que quer dizer um amor platónico). O que é aliás de inteira justiça.

Em resumo: porque a história da vida de Sócrates é de telenovela e tem lapsos evidentes e tem contradições profundas, eu alimento suspeições. Porque as fontes que testemunham a sua existência real são escassas e dominadas pela interacção com Platão, eu entretenho desconfianças. Porque Platão precisava de um personagem absolutamente moral - portanto ficcional - que lhe vendesse a mercadoria filosófica já madura de sentido ético, eu proponho o revisionismo. Porque é Platão que acaba por fechar o sistema que Sócrates deixa em aberto, eu alvitro a heteronímia. O disfarce. O fingimento.
Erasmo conclui o seu célebre Elogio da Loucura desculpando-se perante aqueles que o acharam desvairado: é que falou como uma mulher. Considerando o horror de Platão pelo género feminino e o seu obsessivo gosto pelas charadas, imagino que lhe agradaria um final assim.

quarta-feira, novembro 08, 2006

segunda-feira, novembro 06, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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5 - JEAN-HONORÉ FRAGONARD
Retrato de François-Henri, Duque de Harcourt.

1769, Óleo sobre tela, 81.5 cmx65 cm.

Último campeão Rococó do Antigo Regime, Jean-Honoré Fragonard (1732 – 1806) é um belo personagem da história trivial da arte. Os seus cenários configuram-se entre o bucólico e o frívolo, os temas são ou galantes ou enjoativos, impera a vida profana da clientela - aristocratas de segunda e burgueses de primeira - e a escola do alto barroco já estava esgotada quando o homem começou a pintar. Também há quem goste de pensar que o mestre francês, em vez de velho-do-restelo-do-barroco é um pioneiríssimo percursor do romantismo. Tese da treta: Fragonard pintava os mesmos bucólicos ambientes que Goya antes de enloquecer porque a escolástica da sua época assim o exigia e não por visões vanguardistas da filosofia liberal do futuro.
Dito isto, há que virar a face à moeda e perceber que a técnica de Fragonard é prodigiosa (só mesmo com muito talento é que se consegue tornar razoavelmente interessante o chatérrimo assunto da menina no baloiço) e que o mestre nos deixou generosamente para cima de meio milhar de obras (sem contar com esboços e desenhos e gravuras e o diabo), cálculo que, convenhamos, não deixa de ser impressionante.
Neste magnífico retrato do Duque de Harcourt - uma das suas 15 Fantasias - o génio de Fragonard revela-se bem: confiando na minha memória era capaz de jurar que se trata de uma tela grande e não é o caso, distorção perceptiva que muito se deve ao enorme poder visual da obra. Ao seu mediatismo agitado e grandiloquente. Tudo vibra de movimento na posição estática do Senhor Duque. Dir-se-ia que corre uma ventania danada, mas trata-se nitidamente de um plano interior, de estúdio. O aristocrata é retratado com a panache de um super-herói do século XVIII embora as primeiras 4 páginas de resultados do Google não consigam justificar a glória imortal do retratado. Quero eu dizer que há um excesso, um exagero, uma falsidade neste boneco que são verdadeiramente arrebatadoras. Quero eu dizer que fiquei com a ideia que, para Fragonard, a arte é uma mentira. Neste contexto, acho que gostei da sensação de ser enganado.

terça-feira, outubro 31, 2006

A posse de ontem

"Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores. Como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ilíon passou, mas Ilíon perdura no hexágono que a chora. Israel aconteceu quando era uma nostalgia. Todo o poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não sujeitas à véspera, que é a angústia e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos que não sejam paraísos perdidos."

JORGE LUIS BORGES

sábado, outubro 28, 2006

quinta-feira, outubro 26, 2006

Filinto, o apóstata.

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Nasci – logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão – perdi a graça –
dei-me ao rol – chegou a Páscoa – dei dinheiro.

Quis casar com uma moça – mais dinheiro.
Brinquei com ela – não brinquei de graça:
que aos nove meses me custou a graça
para o Mergulhador capa e dinheiro.

Morreu minha mulher – não lhe achei graça
e menos graça ao arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.

Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
os que as graças nos vendem por dinheiro?

Filinto Elísio (1734 - 1819)


Filinto Elísio, pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, era admirador de Horácio, defensor dos ideais iluministas e enciclopedistas, das revoluções francesa e americana e fã dos autores racionalistas franceses, proibidos pela Inquisição. Por causa destas suas temerárias preferências, acabou por fugir para França, exilando-se em Paris em 1778 e estabelendo relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand, as Fábulas de Lafontaine e Púnica de Sílio Itálico.
O seu estilo segue os preceitos da estética classicista arcádica, sendo um defensor enérgico do purismo da língua. Não obstante os formalismos, muitos dos seus poemas reflectem uma grande intensidade emocional, no que têm de revolta e de sofrimento pessoais, sendo, neste contexto, um precursor do romantismo.
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Quando o porteiro me inspeccionou com sentido de comiseração e se permitiu, amavelmente, a liberdade de fazer notar que me achava com cara de cavalo cansado, expressão que não recusei - este senhor porteiro possui em terras remotas do Alto Minho uma mão cheia de éguas e um esplendoroso par de garanhões, pelo que sabe muito de cavalos cansados - assenti, deixei baixar as olheiras sobre o rosto pálido e admiti o óbvio.
- Foi de facto uma manhã de cão, meu amigo, um dia para assinalar no calendário com uma grande e pesada cruz.
Tinha amanhecido com chuva por entre um cinzentão frio e esfarrapado que a metereologia da TV garantia manter-se sem esperança de tréguas. Nada tinha corrido bem nesse dia. Despertei ainda chocado com o deplorável espectáculo com que o glorioso nos tinha flagelado na véspera, zangado comigo e com o colchão e com a exiguidade da casa-de-banho e com a cor dos azulejos. Golpeei-me com a porcaria da gillete mais fiável do mundo e confrontei-me com a exigência de empacotar, de uma dura assentada, os comprimidos para a tensão arterial, a circulação e o reumático - imposição de ritual satânico, pouco menos que alucinogénica, com que enfrento a precaridade de um novo dia, uma vez mais agravado pela recusa de um trânsito intestinal decente.
Verificada, por entre uma expressividade de palavrões, a insólita inexistência do descafeinado com que habitualmente empurro a diabólica composição, seguiu-se a dramática constatação da falta de cigarros com que sempre combino e combato, cinicamente, a feroz rotina dos quinze comprimidos diários.
Restava-me agora a dura prova de enfrentar, já derreado ao peso de uma derrota anunciada, o carão granítico da médica de família, uma coisa de bata branca, de peito esquecido em casa, lisa como uma tábua de engomar, inquisitorial, sem lábios e de percetível cheiro a formol. Esperava-me para uma consulta que não solicitara, que me era imposta pela força tirânica da agenda de sequência clínica, incontornável, com a qual mantenho guerra aberta há 12 anos, pelo menos. O chaço não pegou e, a praguejar maldições, lá arranquei para o Centro de Saúde da área de residência, empunhando um chapéu de chuva que o meu primo esquecera lá por casa, por ocasião de uma recente jantarada.
Encharcado, cabisbaixo, entalado no desconforto de uma oscilante cadeira da gasta sala de espera, aguardei o chamamento que viria com a costumada hora de atraso. Ocorreu-me na altura que havia esquecido a placa dentária. Óptimo. Iria oferecer-lhe o meu pior sorriso de sempre, bem aberto para sublinhar o bom dia sombrio na abertura de hostilidades com que normalmente a esquálida doutora inicia o estafado “então, como vai isso?” de circunstância, sem ponta de cordialidade, cheia de rugas da azeda disposição do costume, certa de que, no final, acabaria por perscrever a química habitual dos últimos 2 anos para a sustentação do estado geral do utente, definição para velhotes sem grande margem de sobrevivência, agora parece que um pouco mais agravada pelos cortes do orçamento da Saúde, segundo o último caderno de encargos a observar severamente em nome da contenção das despesas e, sobretudo, o inesperado aumento da longevidade dos beneficiários de provecta idade.

Chegada enfim a hora da verdade, entrego-lhe a longa lista dos resultados das últimas análises que me impôs por entre um sorriso de esperança que não classifico, obrigada pelas regras que compaginam o catálogo das inevitáveis chatices e em conformidade com a benevolente decisão superior dos senhores recentemente chegados ao governo destas coisas terrivelmente sérias da saúde pública.
Insinua o nasal marcadamente aquilino no velho processo do meu historial clínico, num estudo cuidado de um denso código de gatafunhos a descodificar por algum especialista maior, quando interessar à eventualidade da autópsia, e arranca com um suspiro sofrido o interrogatório habitual:
- E como vai essa micção?
- Mijo bem. Ainda não conspurco o tampo da sanita..
- O problema da próstata, segundo a análise, regista um aumento pouco significativo. Sem preocupações para já. Não sugere a aplicação da argália, por enquanto. Na sua idade, é um bom sinal. E o trânsito intestinal?
- Irregular, relutante, em esforço, sempre acompanhado duma intensa e incontrolada libertação de gases.
- É natural, na sua idade. Fadiga intestinal. Desgraçadamente não podemos lutar contra o tempo. É claro que há por aí uma enormidade de laxantes a que não devemos, no seu caso, dar a menor importância, de forma a evitar efeitos colaterais como por exemplo a criação de bolsas intestinais tipo estufa e flatulências muito desagradáveis. A tensão arterial está como sempre. Um horror! Por outro lado o seu problema de colonoscopia evidencia a partir do exame rectal um desenvolvimento incipiente de pólipos que a seu tempo observaremos com rigor no sentido de uma muito provável intervenção cirúrgica. No caso das artroses, embora dolorosas, têm tido o tratamento adequado e está nas mãos de um grande senhor. O Dr. Pimentão pode parecer-lhe um cómico mas é um professor de primeira linha. Fizeram-se já as punções que se aconselham para esse tipo de insuficiência mas, na verdade, não há recuperação possível. No que respeita às ancas, que lhe provocam crescentes problemas de mobilidade, de penosa incomodidade, dizem-nos as últimas radiografias que obrigam a uma dupla cirurgia de resultados sempre imprevisíveis, na sua idade. Bem vê, trata-se de uma justaposta disfunção das articulações laterais,acentuada por uma forte distorção espinal. Essa sua coluna é de chanfrar. Já experimentou o apoio de canadianas? Quanto à crise de soluços que por vezes o afligem em sequências de 2 a 3 dias, vamos tentar controlá-la com o “Protom”, uma bomba que tem apresentado excelentes resultados neste tipo de singularidades. Outro aspecto de relevo tem que ver com o facto de, com a sua idade, nunca ter tido uma dor de cabeça. É, na história clínica, uma impossibilidade. Vamos ter de submetê-lo a um TAC exaustivo para perceber esse estranho aspecto do seu enigmático metabolismo. Homem, na verdade o senhor apresenta-se como um notável compêndio de sobrevivência!
Temos agora o problema da circulação, que ganha de facto, e no contexto da sua respeitável idade, uma importância maior, associada que está ao nível do colesterol um tanto acima do normal. Vamos insistir na prescrição dos comprimidos habituais, estabilizantes cuja tomada, creio, observa rigorosamente. Neste caso, devemos estar atentos ao agravamento da esclerose múltipla, sempre de recear no desenvolvimento deste tipo de patologias.
No que se refere à evolução das operações a que se sujeitou oportunamente, carótidas e inguinais duplas, não se manifesta qualquer desvio periférico anormal, o que é excelente para a sua idade. As ocasionais e ligeiras dores na zona hepática de que se queixou são isso mesmo. Pequenas incomodidades ocasionais. Sem importância que suscite preocupações.
Para já, a leitura do seu último electrocardiograma revela apenas uma ligeira arritmia. Recomenda-se muita pantufa, esforços comedidos, alimentação cuidada, frugal, nada de fritos, enchidos, alcoól, tabaco e sobretudo - um aviso fundamental - a interdição de qualquer envolvência de carácter sexual sustentada por esses estimulantes que por aí são irresponsavelmente publicitados. Penso que, quanto a este assunto e dada a sua idade, o senhor não carecerá de outras explicações.
No que diz respeito à questão oftalmológica - essas cataratas que lhe foram diagnosticadas - como no que se refere aos dentes que lhe faltam, o Centro de Saúde não pode responder por absoluta carência de meios técnicos e competências adequadas. Note-se porém que uma mastigação deficiente, por ausência dos trituradores, pode induzir às dificuldades intestinais que já mencionámos. É uma questão que terá a ver com uma observação de polipectomia, no ângulo esplénico do cólon, também fora da nossa capacidade de intervenção.
Afora os aspectos de que tratámos, deve, apesar de tudo, sentir-se um homem inteiro. Um felizardo. São como um pero, muito embora aquela piada velha e relha, venerável citação de sempre: isto de viver acaba mal. Por isso, anime-se, vitamine-se e pense positivo. Vê como, por exemplo, demos cabo daquela última amigdalite que, na sua idade, é maleita de frequência pouco simpática?

Saído da reconfortante consulta, observo ainda a sala de espera repleta do costumado amontoado de velhas carcaças, arquejantes, babosas, espirrantes, descoloridas, numa sombria envolvência de resignação, na espera do favor de lhes traçarem apressadamente o receituário habitual que ameniza o caminho da estreita e dura vereda para o fim, após o clínico lhes fechar o processo, com a singileza do rótulo “procedimento habitual, sem alternativa ou recuperação provável”. Antes de sair de cena, registo o cartaz espalmado ao largo de quasi toda a parede do velório, num fundo de azulão forte:
ANTES DE ENGRAVIDAR FALE COM O SEU MÉDICO.
USE A CAMISINHA - SEXO SEGURO.
Havia ali um generoso convite ao revigorante milagre de viver.
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sábado, outubro 21, 2006

Rap solitário - III

Não há nada pior no mundo do que ter amigos. As mulheres podem devastar o coração. Os amigos reduzem a cinzas a sensibilidade.

sexta-feira, outubro 20, 2006

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Não parece, mas o golf é um desporto de masoquistas. De endinheirados masoquistas, regra geral, mas nem por isso menos adeptos do mal estar de corpo e alma. Jogo de planeamento em tempo real e precisão sobre-humana, castiga severamente os atletas por pequenos lapsos, atira-os para o inferno dos bancos de areia e a malária dos lagos, para a ratoeira dos bosques e a maldição dos ventos; todos e mais algum instrumentos de tortura criados por sádicos arquitectos e outros grandes diabos da paisagística.

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Provavelmente, ninguém como Robert Tyre Jones the Third (Atlanta, 1902-1971) sofreu alegremente as piores agruras do jogo. Os erros consumiam-lhe o espírito, as derrotas escavacavam-lhe o metabolismo, a pressão matava-o. Mas também é verdade que as diversas úlceras e o terrível problema neurológico que acabou por o consumir - efeitos directos do stress da competição - contam pouco em função da aura de glória que coroa esta notável espécie de pessoa.

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Bobby Jones é ainda hoje considerado um intérprete tecnicamente perfeito da modalidade, e será sempre uma das grandes referências da história do Golf. Mas é talvez pelas suas lendárias características humanas que permanecerá imortal por dentro dos séculos. Verdadeiro cavalheiro, homem honrado, de grande honestidade e apurado sentido ético, o seu fair-play é proverbial: num célebre playoff do Open dos Estados Unidos, Jones tinha uma pancada difícil a executar, no rough junto à margem do green. Quando se preparava para dar a pancada, o ferro tocou ligeiramente na bola, provocando-lhe um ligeiro movimento. Jones alertou os marshals e o seu adversário para o facto, dado que ninguém, nem no público, se deu conta da falta. Sendo a única testemunha do seu próprio erro, Jones confirmou-o e solicitou a falta (que equivale ao registo de mais uma pancada). Este enormíssimo campeão, que viria a perder o Open exactamente por essa única pancada, ao ser congratulado por um marshal pelo magnífico exercício de integridade, replicou: "O sr. não cumprimentará por certo um ladrão por não roubar. Esta é forma como o Golf deve ser sempre jogado."

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Somando títulos profissionais tão sonantes como o Grand Slam (foi o único na história do jogo a conseguir ganhar os 4 maiores torneios do Golf numa época só), Bobby Jones nunca abdicou do seu estatuto de amador, dedicando-se apenas em part-time ao treino e recusando as fortunas e maus hábitos da prática profissional do desporto. Desconfio que este facto se deverá em parte à ausência de preocupações financeiras, dada a linhagem paterna de industriais, e ao transbordante talento académico: bacharel de Ciência em Engenharia Mecânica, bacharel de Artes em Literatura Inglesa (Harvard), Robert Tyre Jones demorou apenas um aninho para se formar em Direito, ofício de que fez profissão, como advogado.

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Abandonando o Golf, a conselho médico, com apenas 28 anos, Bobby Jones é adorado no seu país e foi, até John Glenn, o único americano a ser premiado por duas vezes com a célebre parada de Nova Iorque. É hoje considerado um dos grandes cinco mitos do desporto americano dos anos 20 e o melhor desportista amador de todos os tempos. Sofrendo horrores e castigado pelos nervos, acusando muito o insustentável peso do par mas dando invariavelmente a provar aos seus adversários o doce da sua leal cordialidade e o fel do seu jogo devastador, este é um herói inteiro do Século XX. Mais put menos put.

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quinta-feira, outubro 12, 2006

If We Must Die

If we must die, let it not be like hogs
Hunted and penned in an inglorious spot,
While round us bark the mad and hungry dogs,
Making their mock at our accursed lot.

If we must die, O let us nobly die,
So that our precious blood may not be shed
In vain; then even the monsters we defy
Shall be constrained to honor us though dead!

O kinsmen we must meet the common foe!
Though far outnumbered let us show us brave,
And for their thousand blows deal one deathblow!

What though before us lies the open grave?
Like men we'll face the murderous, cowardly pack,
Pressed to the wall, dying, but fighting back!

Claude McKay - 1919

quarta-feira, outubro 11, 2006

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Coisas contemporâneas da idade da pedra.

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O teste nuclear falhado dos norte coreanos acabou por ser uma coisa simpática. Primeiro porque falhou, pelo que ganhámos aqui uns meses de alívio, depois porque serviu de pretexto para um repreensão por parte de um alto diplomata da República Popular da China, o único país que consegue manter o cinismo necessário para alimentar relações frutuosas com Kim Il Sung (Chavez e Castro também são amiguinhos mas o sentido das proporções torna-os despiciendos). Seja como for, é por estas e por outras que nunca como hoje foi tão ameaçador o espectro da agressão nuclear. Qual guerra fria qual quê. É um crime de honra permitir que, em pleno Século XXI, trezentos e tal anos depois da Revolução Francesa, quatrocentos e tal anos depois da Revolução Inglesa, exista um estado como o que governa a Coreia do Norte. É um dequeles anacronismos terríveis com que se debate o actual planetário. Se fizermos a observação comparada do cronograma da evolução civilizacional, os desgraçados súbditos de Kim il Sung lá vão sobrevivendo - sabe-se lá como e ignora-se porquê - a um regime cuja inspiração deve remontar às mais ferozes tiranias da antiguidade clássica; os árabes estão atrasados 800 anos; os Persas retrocederam 16 séculos, o Paquistão vive um pesadelo de tiranias desde que é nação; na Índia, "a maior democracia do mundo" (democracia não significa liberdade), o regime de castas separa à nascença os que vão ser inacreditavelemnte miseráveis e os que vão ser inevitavelmente poderosos, deprimente determinismo mais velho que a própria História. Na China, pode-se enriquecer, mas não se pode votar, procedimento adminstrativo mais ou menos dentro do espírito da Dinastia Ming (Séc. XV). A nação que vai liderar o mundo e dominar o século vive ainda esmagada por um regime fascista, aparatchik, draconiano e multi-milionário. Na América do Sul os políticos podem traficar droga e mergulhar em corrupções, se forem eleitos pela esquerda. Podem perpetrar golpes de estado, podem invocar o diabo na Assembleia Geral das Nações Unidas, podem ter pides e milícias, podem portar-se como bandoleiros e capitães de roça do século XVIII, porque foram eleitos pela esquerda (eleições não querem dizer democracia). Na Rússia, ainda há jornalistas que morrem por causa daquilo que escrevem, como acontecia com Estaline, ou o Czar Nicolau. Nos Estados Unidos da América, ainda se ensinam os estudos primários como se Darwin nunca tivesse feito a tal viagem aos Galápagos: na Segunda-feira era o verbo, na quarta o mundo estava feito, no Sábado de manhã cria-se Adão, ao fim da tarde dá-se-lhe uma Eva para criada de quarto, em anexo vem o pecado e está pronto o universo porque chegou o dia santo de domingo, que é para descanso do pessoal. Em África, os tempos recuam à idade da selvajaria; os governos tratam com espantosa ineficiência as nações que governam, mas mostram-se de germânica operacionalidade na arte do genocídio étnico. É impressionante a quantidade de pessoas que se podem matar com uma catana e uma garrafa de aguardente. Na Europa, morre-se devagarinho, como foi devagarinho que a Roma imperial se perdeu. De preguiça ideológica, de obesidade filosófica e de anemia moral. Em cidades como Paris, Londres, Madrid ou Hamburgo, as vozes mais poderosas e mobilizadoras que se levantam são as dos líderes religiosos muçulmanos, que convidam alarvemente à aniquilação do infiel a troco de uma tantas gajas no bordel do paraíso. Como é bom de ver, não são só os americanos que têm esta fraqueza de trocar favores de cama com o inimigo. E pronto, foi o telejornal de 10 de Outubro de 2006. Voltamos a encontrar-nos aqui, no seu canal hospitalar de sempre, amanhã, à mesma hora. E não perca já a seguir, Prós e Contras com os palhaços do costume: hoje vão a debate as lamentáveis declarações daquele ordinário alemão que é Papa e que só contribuiram para aumentar o já muitíssimo justificado ódio dos seguidores do Grande Profeta, abençoado seja o seu nome. Boa noite.
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segunda-feira, outubro 02, 2006

7 pérolas da Colecção do Dr. Rau.

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4 - CANALETTO - Praça de S. Marcos
1740-1750, óleo sobre tela, 58.5x103 cm.

Giovanni Antonio Canale (1697 – 1768), conhecido para a posteridade por Canaletto, ganhou fama pelas suas magistrais representações dos canais da Veneza e é um personagem de conteúdo biográfico assim para o desinteressante, não fosse o seu descarado talento. Enquanto os paisagistas da sua época esgalhavam uns roughs dos cenários para depois se fecharem no estúdio e desenvolverem a obra, Canaletto iniciava e concluía todo o trabalho no mesmo sítio, o que muitas vantagens lhe trazia, principalmente no que respeita ao detalhe, à minúcia e ao preciosismo: as suas imagens são intensas de vida humana e quase de valor antropológico. Este amor picuinhas por Veneza, este rigorososo compromisso para com a realidade etnográfica da sua cidade natal rendeu-lhe um endinheirado clube de fãs em Inglaterra mas, em ultima análise, acabou por lhe amputar a criatividade. Por causa da Guerra da Sucessão Austríaca, os patronos ingleses deixaram de poder visitar Veneza e, quando Canalleto se vê obrigado a ir acampar para Londres (a velha história da montanha e do profeta), não se dá nada bem com a mudança de cenário. Há diferenças grandes entre o palácio dos Doges e a mansão Isabelina. Há diferenças enormes entre a cidade mediterrânica, luminosa e festiva, e a metrópole bretã, invernosa e protestante. Há diferenças de cores e de cheiros, de sons e de costumes e o mestre não consegue adaptar nem a sua vida nem a sua pintura. Para Canaletto, imigrar foi como que um caminhar para a cova da história da arte e, nesse sentido, este é um senhor que morreu duas vezes.
Funerais à parte, permanecem dois factos importantes. O primeiro: nesta pobre reprodução em blog da magnífica Praça de S. Marcos segundo Canalleto, não nos é permitida a resolução suficiente para se perceber que o homem é um verdadeiro e peregrino precursor do impressionismo. Apesar da incrível pormenorização cenográfica, a composição é de dot em dot, pincelada aqui, pincelada ali. A aparente contradição entre impressionismo e preciosismo cai ao zero absoluto.
O segundo: por aparente paradoxo, as mais notáveis representações paisagísticas de Veneza chegam-nos dois e três séculos depois da sua proverbial grandiosidade. Esta Veneza que vemos aqui, não é já a cidade capital comercial do mundo ocidental, a delicada e educada e burguesa Babilónia dos séculos XIV e XV. Mas, ainda assim, surge-nos sempre pungente de vida e riquezas, de tradições e exibicionismos. Mesmo assim parece uma cidade cosmopolita, opulenta, colonialista, dir-se-ia imperial. Ao meu lado, no M.N.A.A, uma senhora dizia ao seu marido: está aqui um cão muito mal desenhado que parece um macaco. O prestável marido lá lhe explicou então que se tratava precisamente de um macaco. Que era natural encontrar um macaco na Praça de S. Marcos, grande portal da aldeia global de outras eras. O facto porém é mais pertinente para a ciência histórica do que pode imaginar esta inquisitiva senhora que, com olhar crítico, chumbava o Mestre no díficil domínio da regra anatómica. A verdade é que as representações de Canalleto muito contribuíram para consubstanciar as teses de monstros sagrados como Braudel, que tentaram, com algum sucesso, demonstrar que a consolidação das rotas atlânticas registada no século XVI não faliu a vocação comercial do Mediterrâneo nos séculos posteriores. A ideia da decadência de cidades como Génova e Veneza nos séculos XVI e XVII está a perder fôlego académico, porque se encontraram entretanto registos de actividade comercial, financeira, portuária e naval muito contraditórios à tese universalmente aceite até ao segundo terço do século XX. Mas também porque podemos ter esta certeza: se o macaco está na tela de Canaletto, é porque estava na Praça de S. Marcos. E se estava lá naquele dia, a lógica probabilística recomenda ao senso que outros símios por ali deveriam passear, com naturalidade, pelo correr dos dias. E se outros símios passeavam com essa regularidade toda na Praça de S. Marcos é porque este ainda era o centro de um negócio tentacular sobre o Mediterrâneo e não de uma cidade falida pela aventura portuguesa ou pela cobiça castelhana.
Canalleto tinha afinal razão: é sempre importante prestarmos atenção ao detalhe. Até porque é a única maneira de entendermos o panorama.