terça-feira, fevereiro 28, 2006

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Logo à primeira audição de "First Impressions of Earth", a terceira pérola dos Strokes, percebe-se que as notícias da morte do rock, que tantos jornais venderam nos anos 90, eram bastante exageradas. Aquela que é hoje, na minha arrogante opinião, a melhor banda do universo, faz questão em demonstrar cientificamente, mais uma vez, que o género ainda vai parindo a modernidade e que está aqui para o que der e vier: com pontapés na boca e arrepios na espinha, com erecções e espasmos e ressacas de cavalo, com certeza no cagar e poesia da boa. "Sweetheart, my feelings are more important than yours / Oh, drop dead, I don't care, I won't worry / Let it go". Isto sim, é ser de boa companhia para uma guitarra eléctrica. O segredo dos Strokes é a inacreditável frontalidade conceptual com que abordam a Coisa. Uns riffs durinhos e redondos, o compasso rítmico de precisão escolástica (assim para o acelerado) e um sentido melódico que, mesmo quando implode a atitude punk-é-que-é-cool-vamos-lá-partir-a-loja, transforma a música num prazer imenso, onírico, penetrante. A banda está sempre com aquela pose porreira de não querer saber, esconde-se de glórias imagéticas e faustos cenográficos, rejeita o glamour MTV e chuta para a frente: "I've got nothing to say / I've got nothing to give / I've got no reason to live / But I will kill to survive / I've got nothing to hide". Boa onda. Muito boa onda. E está a rebentar aqui.
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quinta-feira, fevereiro 23, 2006

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Reencontros.

Uma noite difusa de 1989. Ritz Club. Três gajos de aspecto suspeito e barba por fazer embebedam-se na mesa do canto. E escrevinham à vez, no mesmo pedacinho martirizado de papel. E que raio escrevinham? Insultos, contos de ficção científica, crónicas de alcova, novelas da meia noite, pesadelos de Boris Vian, cadáveres esquisitos de toda a ordem, relatórios da sexta cerveja, anedotas do terror da vida. Dão os três, neste ofício de cinzas, pelo mesmo nome de José de Ícaro e vão acabar por se perder pelos interstícios da vida.
17 anos depois, o alado e trifásico personagem literário reencontra-se na blogosfera. O Pedro Barros, esotérico e inspirado, pan-demónio à solta sobre o aborrecimentro da vida, já não escrevinha insultos porque deu com o crânio no poste e depurou-se assim de vilanias. O Jorge Silva, que consegue fazer literatura com as contra-indicações de um antibiótico, queixa-se dos rins e venera o Zeca Afonso, num verdadeiro desenterro mitológico. E eu, Paulo Hasse Paixão, estou para aqui encostado à minha sombra, com saudades de quando éramos pequeninos e divinos, e procuravámos o sol com asas de cera.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

À escuta das Vozes da Poesia Europeia - IV

Celebrando a feliz edição da revista Colóquio Letras - que traz à estampa, em três cuidados volumes, as traduções que David Mourão-Ferreira fez da poesia europeia.

JUVENAL E AS QUEIXAS DE ROMA.

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É realmente uma chatice, mas sabe-se muito pouco sobre a vida de Decimus Lunius Luvenalis, o mais indignado e moralista dos poetas satíricos da história do Império Romano. Nascido no primeiro e morrido no segundo século da era cristã, Juvenal deixa à posteridade um vasto discorrer de protestos, críticas, censuras, lamentos, vitupérios, acusações, conselhos, imperativos categóricos, grandes máximas de tom paternalista e algumas saídas de génio proverbial, entre as quais a célebre equação retórica "Quis custodiet ipsos custodes?" (Quem guarda os guardiões?), a propósito da inutilidade de usar eunucos para guardar as mulheres dos nobres. A expressão "panem et circenses" (pão e circo) - utilizada para definir os instintos primários da populaça - é também da sua pertinaz autoria.
Juvenal viveu numa Roma mal criada, indigesta, perigosa e barulhenta; uma Roma pobre e imunda e caótica, emaranhado de ruas estreitas, calçadas esburacadas, telhados periclitantes e engarrafamentos de carroças; a rebentar pelas costuras de bêbados e bandidos, de putas e soldados, de escravos insolentes e fidalgos avarentos e senadores corruptos e matronas promíscuas. De tudo isto, muito se queixa o autor, nas 16 sátiras que sobreviveram às eras. Davida Mourão Ferreira escolheu traduzir precisamente alguns fragmentos bem elucidativos do tom choroso embora constestatário, hipocondríaco mas sardónico, do grande poeta.
Façam o favor de ficar pois, com o livro de reclamações de Juvenal, uma eloquente vítima da barbárie romana.

“O que a pobreza tem afinal de mais duro:
dar a qualquer pessoa um aspecto ridículo.”

“Morre-se aqui de insónia. E fica-se doente
com as más digestões, que nos deixam o estômago
em acidez ardendo... Onde encontrar um sítio
propício para o sono? É que só os mais ricos
poderão afinal dormir nesta cidade.
E é isto que nos mata. E que dizer do aperto
p’los carros provocados em as ruas estreitas,
do rebanho ruidoso e que não mais avança,
capazes de acordar mesmo aqueles que sofrem
da doença do sono? Apenas quem é rico
é que pode sem custo, em liteira fechada,
aí ler, e escrever, e dormir à vontade,
chegar aonde quer antes de toda a gente...
Nós, que vamos a pé, temos que suportar
a torrente de quem caminha à nossa frente
e a torrente de quem nos empurra p’las costas:
aqui, um cotovelo; ali, uma fasquia;
este me dá c’um pau, aquele com um vaso;
e tenho as pernas já salpicadas de lama;
e ora esmagado o pé por uma sapatorra,
ora fendido o pé p’lo ferro de um soldado!

Agora considera outra ordem de p’rigos
aos quais principalmente a noite nos expõe:
se uma telha cair destes altos telhados,
em que estado nos deixa o crânio, em que estado!”

Sátiras 3


“Quando a casa é maior, Mais insolente o escravo.
Repara nesse, aí que a resmungar te impinge
um duríssimo pão, de miolo empastado,
que sabe já a mofo e a teus dentes resiste!
Do alvo como a neve, inda por cima fofo,
só o dono da casa é que pode ingeri-lo...
E não penses sequer que vais tomar-lhe o gosto.
Retira lá as mãos! Refreia o apetite.”

Sátiras 5


“Há que um risco sofrer por uma justa causa?
Geladas de pavor ficam logo as mulheres...
Só pra desonrar é que mostram audácia,
pois não há nada, então, que as faça estremecer.

Enjoam no alto mar, tudo lhes causa náusea,
se têm que embarcar por ordem dos maridos...
Co’os amantes, porém, fazem boa viagem,
e tudo lhes agrada a bordo dos navios...”

Sátiras 6

terça-feira, fevereiro 14, 2006

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

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Um mouro na cidade.

O Porto é uma cidade estranha. Viramos uma esquina e passamos da miséria urbana ao fausto burguês. Dobramos uma ruela - vindos da opressão caótica e suja e parda e sem horizonte - e abre-se um cenário irreal de metrópole rebelde, altiva e sensual. É o inverno cosmogónico que faz implodir a luz. É das trevas que provém o brilho intenso, a vaidade.

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O Porto é uma cidade estranha. Fechada dentro de si, mostra ao Douro apenas a roupa interior da Ribeira, as masmorras do carvão e os tentáculos das pontes breves. A baixa esconde-se por detrás de ruínas e decadências, de neblinas e cercos e muralhas tão antigas como o medo dos homens.

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O Porto é uma cidade estranha. As fachadas têm um peso específico para além das leis da física e amontoam-se entre um grafismo lúgubre e o chic burguês da virtude comercial. Há qualquer coisa aqui que não faz sentido, mas que me seduz. Há uma arquitectura que apodrece com magnificência. Há um respeitável modernismo entre o bolor das eras.

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O Porto é uma cidade estranha. As igrejas amarram-se ao chão como se estendessem raízes à procura de Deus no centro da terra. As torres quiméricas que apontam ao céu; rasgando, desafiadoras, o horizonte monolítico; são enrugadas e rendilhadas pela gravidade e o ar é de uma densidade alienígena: doem-me as costas da carga que trago por não ser daqui.

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O Porto é uma cidade estranha. Na Foz, a urbe confronta-se serenamente com a ferocidade do Atlântico, sacrificando às ondas a alegria do Sol. Em S. Bento, escoa-se a vida pelo fluxo ferroviário do mistério. No Paço Episcopal, passa-se droga e trocam-se anedotas. As formas e as funções incompletam-se e confundem-se na paisagem como uma aguarela que não foi acabada porque o génio morreu. E quem sou eu para perceber isto?

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quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Façam o favor de incendiar mais embaixadas.

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A "Declaração do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros sobre a crise dos cartoons" é de uma vilania incalculável, mesmo para este abismo da moral que é o sr. prof. dr. Diogo Freitas do Amaral.
Falando em nome dos portugueses - o que me deixa enojado - o sr. prof. dr. "lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos." Na Declaração, nem uma nota solidária para com os seus congéneres dinamarqueses em Teerão (por exemplo), nem um desviozinho para condenar a violência abstrusa, despropositada e bárbara com que os povos árabes estão a tratar a questão. Nem uma palavra em nome da civilização ocidental, que sacrificou gerações e gerações em guerras, revoluções, reformas e outros mil santos ofícios, para que agora qualquer cartoonista tenha a suprema liberdade de enfiar preservativos no nariz dos papas ou bombásticas chapeladas na cabeça dos profetas. Felizmente, algum destes génios se lembrará de certeza de caricaturar o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que se está a pôr muito a jeito; e também para que esse prazer nos seja dado, outros mais milhões de almas pereceram em trincheiras e fogueiras, em levantamentos e convulsões, campos de concentração e salas de tortura; sempre em nome daquilo a que chamamos direitos humanos, liberdades fundamentais ou - muito simplesmente - Civilização. Diz ainda o sr. prof. dr. esta coisa fantástica de que "a liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade." O sr. prof. dr., pelos vistos, acha que é licencioso relacionar, para fins de sátira, a fé maometana com o terrorismo internacional. E acha assim porque:

a) Não percebe nada de história;
b) Não percebe nada de história das civilizações;
c) Não percebe nada de história das religiões;
c) nunca ouviu Bin Laden a falar de guerra santa;
d) ainda não conseguiu entender que os estados islâmicos não são laicos;
e) ainda acredita que a política nuclear iraniana se destina à produção de energia para consumo doméstico;
f) É um bruto e não tem sentido de humor.

Mais uma vez em bicos dos pés, mais uma vez infame e ridículo, mais uma vez desastradamente irresponsável, o sr. prof. dr. Diogo Freitas do Amaral perdeu uma enorme oportunidade de estar caladíssimo. E, mais uma vez, prestou um péssimo serviço ao País, à Europa e ao Ocidente.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

sábado, fevereiro 04, 2006

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Manias*

Tenho a mania de tirar macacos do nariz
e de ficar pelo discorrer da madrugada acordado;
é um hábito maluco que me faz feliz
e dorme bem de dia quem tem o sono pesado.

Tenho a mania maleita que sou de direita,
é o que me dizem os amigos de esquerda.
(De vez em quando também faço a desfeita
de mandar certos amigos à merda).

Tenho a mania disto de ser ateu,
é já bastante ter fé na religião da gramática
e servem bem ao céptico que sou eu
as leis sagradas da matemática.

Tenho a terrível mania de desesperar.
Chateia-me na vida o seu trajecto imperfeito
e de alguma maneira terei de exorcisar
a puta da maldição a que sou sujeito.

Tenho esta mania perneta que sou dotado
para certas artes de onírico tema.
Na verdade sou muitíssimo desastrado
como bem se ilustra neste poema.

Enfim, confesso, a mania dos brinquedos.
Mas o mal de que mais tenho sofrido,
a fobia sobre todos os medos,
é, no fim das contas, ir a morrer falido.


* Ao desafio com o blogger Viriato.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006