sexta-feira, março 30, 2007

Mil desculpas.

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Paladino seguidor da triste doutrina em má hora inaugurada por João Paulo II, Tony Blair decidiu pedir desculpa retroactiva aos povos de Gaia pelos horrores esclavagistas do Império Britânico. Esta vergonha da história, que é, no fundo, uma ignorância da história (dos seus enquadramentos económicos e sociais, das suas texturas políticas e demográficas, dos seus contornos militares e étnicos) está muito em voga na Europa e é de uma cobardia franciscana que me irrita solenemente!
Irrita-me solenemente porque pedir desculpa por ter havido um império inglês (é disso que se trata) é simultaneamente vazio de sentido redentor e perigoso para a saúde da civilização. Até ao século XX (e se pensarmos na Bélgica colonial de Leopoldo podemos até incluir este século) é praticamente impensável construir um império sem escravos. Aliás, é praticamente impensável construir uma economia sem escravos. O esclavagismo foi, durante 90% do percurso político e económico da humanidade, um factor operacional penta-essencial, estratégico e - acima de tudo - simbólico.
Adoptando a cartilha de vistas curtas do Sr. Blair, uma imensa parte dos estados do planeta tinham que se desunhar em apologias redondas para atingirem este zen moral de trazer por casa: Putin ver-se-ia na obrigação categórica de pedir desculpa pelos gulags de Estaline; Angela Merkel teria que se consumir em preces pelos sucessivos pecadilhos que os alemães foram sucessivamente cometendo desde que um tal de Bismark se lembrou de unificar esta irrequieta nação de gente industriosa; os egípcios deveriam já retractar-se perante os egípcios e arrependerem-se muito das pirâmides, das maravilhas de Tebas e dos mistérios do Vale dos Reis, que obviamente não teriam sido possíveis se fosse necessário pagar salários aos trabalhadores e negociar com os sindicatos. Outrossim para os Gregos, gente esperta que fundou uma forma de vida baseada primeiramente na guerra - a primeira arte helénica - e cujo conteúdo ontológico deixaria simplesmente de fazer sentido se os exércitos vencidos não pudessem depois servir a custo zero, já que, como é sabido, ao guerreiro/poeta/filósofo não competia a limpeza das latrinas de Atenas, dos balneários de Tróia ou das casernas de Esparta. Neste muito especial e divertido caso, assistir-se-ia a um formal pedido de desculpas à humanidade por ter sido possível a Anaxágoras, Platão e Aristóteles a fundação do pensamento sistemático. A propósito, o Presidente da Câmara de Roma também tem muitas explicações a dar a todos os povos do Mediterrâneo e mais além. Sim, sim, ponha-se lá de joelhos V. Exa. por ter levantado a civilização à custa do chicote, da corrente, da galé, do circo máximo, da faxina doméstica e dos trabalhos forçados de variadíssimo género que aqui há dois mil anos o seu povo teve a infâmia de inventar. E mais digo: pela desagradável tradição de acorrentar e sacrificar infelizes de toda a espécie, Aztecas e Maias, Incas e derivados devem ser publicamente condenados pelos chefes de estado do Perú e da Bolívia, do México e da Guatemala, do Panamá e arredores. Toca a pedir penitência e a agradecer a libertação aos espanhóis, sendo que o Senhor Zapatero não escapa também de uma apresentação pública e universal de má consciência, apesar do nítido paradoxo. Já os chineses, bom deus, podiam passar anos e anos a desculpar-se que não se safavam facilmente da condenação de sacristia. Só pela existência daqueles bonecos da Terracota são catorze dúzias de pais nossos e trinta mil avé marias, if you please. Quanto aos árabes proponho apenas que comecem por apresentar todas as desculpas que conseguirem encontrar no código de Maomé às suas infelizes mulheres, tarefa que os ocuparia seguramente durante as próximas décadas, para santo alívio dos restantes tripulantes da grande barca do caos. Uma palavra ainda de censura para o comportamento inqualificável de zulus e tuaregues, núbios e númidas, sumérios e assírios, cartagineses e fenícios, godos, bretões, normandos e habsburgos, holandeses, franceses, polacos e suecos e austríacos e o raio que os parta que não mostraram nas suas aventuras e desventuras qualquer vestígio de consideração pela versão 2000.7 mega pack da carta sagrada do direitos humanos.
Seria conveniente além disso que se sujeitassem ao tribunal dos bons costumes diplomáticos os actuais descendentes ou responsáveis contemporâneos pelos actos desviados do Sétimo de Cavalaria e do exército Confederado. Dos califas e dos marajás. Dos corsários e dos vice-reis. Já agora: os macedónios têm que cumprir pena por causa de Alexandre o Grande. Não se pode admitir sem repulsa institucional que um exército conquistador do mundo conhecido em 350 A.C. utilizasse com descaramento bárbaro mão de obra de recrutamento compulsivo, privada de subsídio de férias. Quanto a Adriano: abaixo com ele. O senhor Maquievel? Um cínico. Francis Drake? Um pirata! De Carlos Magno é melhor nem falar - é um filha da puta - e no que a Jefferson diz respeito, sabemos bem que o sacana tinha escravos na cozinha.
É claro que podia prolongar esta lista de queixumes até ao ponto em que, acreditando em Borges, ela se escreveria sózinha, mas fico-me só por uma última nota para o consciencioso e solícito Engenheiro Sócrates: faça o favor de convocar com carácter de urgência uma sessão extraordinária da Assembleia das Nações Unidas, de forma a que possa justificar com a costumada solenidade e o usual sentido de estado, a baixa moral dos Descobrimentos!

O clip é manhoso, mas o som é Groove Armada.


Groove Armada - Hands of Time - 2002

sábado, março 03, 2007

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1 - O cálice sagrado por um soporífero.

A história oficial da mais bela obra alguma vez escrita para o teclado começa no Inverno de 1741. Aproveitando uma das suas fastidiosas deslocações a Leipzig, o conde Hermann Karl von Keyserling - embaixador russo na corte eleitoral da Saxónia - traz desta feita consigo o jovem cravista Johann Gottlieb Goldberg, seu dotado criado, e encomenda-o às lições do mais reputado dos compositores do barroco.
Por esta altura, Johan Sebastian Bach anda às voltas com um exercício que, de certa forma, desconsidera: as variações. A tarefa ingrata de repetir ad nauseum o mesmo fundamento harmónico dá-lhe dores na imaginação e o trabalho não progride.
O conde Keyserling assiste frequentemente às lições que está a pagar ao imberbe virtuoso e num desses momentos a três, sugere a Bach que lhe componha uma peça musical para que Goldberg a possa tocar nas noites de insónia de que sofre regularmente.
Empenhado em contribuir com a sua arte para o bom estado de saúde do distinto diplomata, Bach cogita sobre o paradoxo: como é que alguém poderá estar desesperado ao ponto de adormecer com a sua música? E como poderá ele alguma vez criar música que adormeça alguém? A arte alemã do barroco destina-se a elevar os espíritos e não a entorpecer a audiência. A solução, porém, estava mesmo à sua frente: uma obra-prima cuja geometria permita em simultâneo a monótona repetição e um chilrrear de criatividade. Dizendo de outra maneira: as variações. Entusiasmado, Bach entrega-se à sua sagrada missão e em dois meses conclui uma peça de música cuja dimensão olímpica não tem absolutamente explicação possível.
Nunca se percebeu se o santo remédio curou o Duque, mas a verdade é que o aristocrata teve o bom senso e o bom gosto de se dar à generosidade, oferecendo a Bach um milionário e lendário cálice de 100 luíses de ouro. Keyserling mostrava-se até bastante orgulhoso da obra que pagara afinal a bom preço (não há luíses suficientes nas fortunas do mundo que valham metade desta pérola), tanto mais que estas foram as únicas variações alguma vez compostas por Bach.

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2 - Especulação de blog e ficção literária.

A história não oficial que agora estou a inventar é só ligeiramente diferente: não desconfio nada da insónia do Duque, e até a acho esteticamente coerente. Concordo que a ideia das variações é anterior à sugestão de Keyserling e que o sábio do Sebastião se limitou a fazer render o peixe que já estava a cozinhar. Agora, parece-me bem que as motivações de Bach transcendiam a sua cristã preocupação com o justo sono de Keyserling. E muito me admiraria que o Capellmeister de Leipzig considerasse, à partida, digna da sua posição a encomenda de uma peça musical estupefaciente.
Acho muito simplesmente que Bach se deu a esta trabalheira a pensar nas vantagens de agradar a uma figura política de relevo, que podia meter um cunha na corte real saxónica.
Para eliminar equívocos, devo dizer que Bach foi um dos poucos génios da história da humanidade que não morreu sem reconhecimento e nunca lhe faltaram respeitáveis empregos. Neste preciso momento de Leipzig, já com 56 anos, Bach é o mais apreciado músico da elite prussa, desempenhando em simultâneo 3 prestigiadas e bem pagas posições. Mas nada disto lhe cansa a ambição: um cargo de mestre na corte de Frederico II ajustava-se melhor às suas pretensões. E talvez um certo diplomata bem dormido, pudesse fazer o favor de interceder. Digo eu.

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Outra coisa que me faz imensa confusão é a estranha figura de Johann Gottlieb Goldberg nesta história. Figura translúcida e eminentemente literária, o jovem virtuoso tem apenasmente 14 aninhos quando começa a sua aprendizagem com o Bach cinquentão. Por muito maravilhoso que fosse o seu talendo de teclista clearasil, o Mestre capelão - ele também um virtuoso - dificilmente se deixaria encantar ao ponto de aceitar que o seu trabalho fosse asim baptizado. Estas Variações BWV 988, são constituídas por 2 árias e 30 variações para teclado que manifestam o talento divino de Bach, mas também a sua erudição e o seu virtuosismo. A Coisa forma um todo logarítmico de tom iniciático que tem excitado a imaginação dos matemáticos, a inspiração dos filósofos e o vernáculo dos críticos. Por prodígios destes é que Beethoven, contra a ilustrada opinião do seu tempo, dizia que Bach era o pai da harmonia. Quero eu dizer: o que é que Goldberg - um simples criado cuja fama advém afinal deste único episódio - tem a ver com a obra-prima?
O primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel, fonte mais ou menos credível de grande parte do que conhecemos sobre esta rábula, também não explica lá muito bem o assunto, sugerindo que existia de facto um elo de afecto meio paternalista entre o professor e o seu pupilo. Ora, o maestro teve sete filhos, quatro chegaram a adultos e dois deles foram conceituados compositores e maestros do seu tempo. Apesar disso, nenhuma obra de Bach tem o nome de qualquer deles. Porque raio haveria agora o mestre de se dar a esta simpatia? Para mim, trata-se de um mistério a sério.
Deixo-vos porém com a descontraída explicação do próprio Bach (perdoem-me por não acreditar nela):

“I had a chance to hear the rumor that Goldberg was doing excellent performance of that set of variations not only at the waiting room next to the bedroom for the Count's sleep assistance but also in front of the audience of the Count's intimate friends for enjoyment. It was said that the Count called it as 'my variations', but the world became to call it as 'the Goldberg Variations'. Anyway I would allow that that work might be called as the 'G's Variations' or 'the Goldberg Variations' in the future.”


3 - Gould, ou o segundo Goetlib.

Gould plays Goldberg Variations - Introduction

De Glenn Herbert Gould (1932-1982) há tanto para dizer que, provavelmente, o melhor é estar quieto e calado e a ouvir a música que saiu daqueles dedinhos espertos, mas enfim, se um gajo tem um blog é para inventar ruídos.
Genial e excêntrico virtuoso canadiano, Gould conquista a glória com 17 aninhos apenas, quando dá o seu primeiro concerto numa bela noite em Washington. Através das suas precoces e epilépticas interpretações de Bach, principalmente do Cravo Bem Temperado e, claro, das Variações de Goldberg, o menino louco que sofreu toda a vida de uma forma menor de autismo - a sídrome de Asperge - arrebata os críticos mais empedernidos e as audiências mais escolásticas durante uma década, para desaparecer de cena antes de fazer 30 anos.
Esta autêntica pérola documental da BBC que tenho a honra, a felicidade, o delírio e a vaidade de incluir neste post - e que nos revela a interpretação integral da obra - mostra-nos um Gould regressado, cinquentão, com uma nova interpretação das Variações, muito crítica da sua juventude exibicionista e irreverente, mas ainda assim divina, literalmente divina. Obrigado, Youtube.


Gould plays Goldberg Variations - Aria & var. 1-7

As razões da paixão de Gould pelas Variações são quase místicas e, melhor que ninguém, ele explica-as na introdução do documentário e já a seguir, no ponto 4 desta rábula. Apesar de desconfiar da funcionalidade terapêutica das Variações, Glenn Gould expressa um sentimento misto de rivalidade e de cumplicidade para com o estranho personagem e gémeo onomástico Goetlib Goldberg (não é por acaso que as variações são também conhecidas por Variações G). Para todos os efeitos, Gould identifica-se com o jovem aprendiz: os dois são devotos, os dois são escravos, os dois são messias de Bach, esse deus ex machina.


Gould plays Goldberg Variations - var. 8-14

4 - As Variações segundo Gould.

“Nobody Knows the reason why I chose the Goldberg Variations as the work for my recording debut. I have never told anything about it. The reason was too simple for me to explain it by pretending to be thoughtful. I should have been ashamed of saying it an enigma or a secret. Apart from superficial aspects, it has so profound meanings, like the way the Art of Fuge has principle four notes (B A C H) at the end of its unfinished work."


Gould plays Goldberg Variations var. 15-17

"More than thirty years ago, at the moment I saw the score of the Goldberg Variations for the first time for me, I screamed in my mind 'Oh! This is My Variations.' right away. Surprisingly my initials were caved on the first two notes and the last two. Not only starting two notes but also ending two notes are G and G. I thought that J. S. Bach had prepared this kind of work especially for me, only for me. It was more than two hundred years before. The way it starts and lasts with the notes G and G should be related with an unknown secrets.
But according to the documents, the title 'Goldberg' was from a name. John Godlieb Goldberg was one of the private students of J. S. Bach, and this work was named after him as a popular name."


Gould plays Goldberg Variations - var. 18-24

"I felt a moving sense of rivalry toward Goldberg although he was only a historical existence, nothing more. On the contrary I could not ignore something similar which lies between me and him. Goldberg seemed to be born in Gudanisk, the northern part of Poland, I was raised in Toronto, the northern part of Canada. Those places may have some resemblance. He moved to Dresden the center of musical activities at that time, to be a musician. I did my debut in New York. Accidentally facial looks might be nearly the same. Unfortunately his portrait was never found, so it is impossible to identify this fact. As far as I know, he died in his 20s. His name has two Gs in initials. His initials are J.G.G. and mine is G.G. Actually I have ignored my middle name. But it is not the point. My name is Glenn Gould. So G.G. are my initials. Based on these two initials, I should be the due performer for the Goldberg Variations. He was only Jr.G.G. Anyway I am going to make this matter concealed. Ah! if Goldberg was not a name of a person but indicated a gold mine, I could have fully felt satisfied with the history of this work because of its musical richness."


Gould plays Goldberg Variations - var. 25

"If this work made a hit as a lullaby, it is very much suspicious that 'Maestro' Goldberg performed faithfully this sensational and bitter work.' That is somehow exaggerated, but is what I thought about during my first recording. The sense of rivalry towards Goldberg was so strong. What can I do to be a due performer of this work? This question lead me to the realm of performing artists."


Gould plays Goldberg Variations - var. 26-30 & Aria Da Capo