domingo, junho 24, 2007

A Síndrome do Infante.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Não é por acaso que aquele que foi, muito provavelmente, o mais inteligente dos portugueses, tenha dedicado grande parte da sua vida a esgalhar um plano de fuga. Como o desditoso Henrique, todo o português que se preze tem o secreto ou aberto sonho de se evadir de Portugal. Sempre achámos e continuamos a achar que o sétimo céu se esconde num canto recôndito do mundo. Como a D. João II, inquieta-nos esta pequenez marginal, esta solidão perante o mar. Como Milton, sonhamos com a queda de Lúcifer, desde que Lúcifer não faça a desfeita de cair em território nacional. O paraíso perdido está algures do outro lado da fronteira. Ou do outro lado da praia. Devo advertir a audiência que este postal não encontra razões na wikipédia nem conta com argumentos google. A partir daqui falo só de experiência humana minha: conheço gente vária que viveu em áfrica e que nunca conseguiu recuperar à infâmia do regresso. Conheço gente outra que foi acampar para a escócia e inventar utopias hippies na catalunha, que se escapou para negócios complicados em moçambique, que foi trabalhar para frança, que foi vender vinho para angola, que foi estudar para os estados unidos, que foi ganhar dinheiro para a áfrica do sul. Conheço pessoas muitas que seguiram pelo ancestral êxodo de macau e que, retornados também, sonham e anseiam por voltar àquele bocadinho chinês de terra portuguesa (este caso é mesmo muito estranho). Conheço malta com família em sidney, newark, ontário, instambul, que trabalhou em roma, que viveu em liverpool, que desapareceu para o deserto a propósito de ir comprar tabaco (só um português poderia chegar a marrocos com o pretexto dos cigarros). Conheço por excesso pessoas da minha terra, do meu bairro, da minha vida que deram de fuga. Foram para madrid, foram para londres, foram para boston, foram por onde as estradas do mundo esquecem o seu destino. E o que não me falta de gente em trânsito é gente que foi para o brasil, claro. Mas também para a argentina. Para o chile. Para a venezuela(!). A diáspora é de tal forma o quinto império deste meu bom povo que de portugueses está o mundo repleto. A acontecer, num determinado momento, num qualquer lugar tirado à sorte pela lotaria dos deuses, um desastre grande ou um supremo momento de júbilo, estará lá - asseguro-vos - pelo menos um tuga por testemunha! Kuala lumpur, nairobi, cidade do méxico, genebra, copenhaga, cairo, kathmandu. Não interessa a toponimia, há-de por deus encontrar-se por lá um zé, um antónio, um francisco e, com toda a certeza, uma maria. A verdade é que o português não gosta de Portugal. É até alérgico: porque raio de amor à pátria vai o Vasco contra ventos e correntes, contra a lógica e o bom senso, inventar um caminho marítimo para a índia? Porque, convenhamos, devia já estar fartinho de Portugal. Como Eça de Queiroz (ele próprio um diplomata), os portugueses acham que o seu país é mal frequentado e doentio. Os que partem sentem-se melhor, os que ficam são condenados aos serviços públicos de saúde, o que também não é nada bom. Reparem: eu conheço portugueses que preferem morar em nova deli. Que defendem a gastronomia de manchester. Que movem influências por um emprego do outro lado do mundo, o mais distante que seja possível por cartografia, o mais antípoda que poderá permitir a ciência geográfica e a criatividade do emigrante. É preciso sair daqui. A todo o custo. Qualquer lugar obscuro e suspeito, qualquer bocado de terra infernal e selvagem, qualquer quimera de supermercado serve de combustível ao motor desta incontornável, permanente e obsessiva volição.
Um dia destes fico para aqui sózinho.

sábado, junho 23, 2007

Se isto não é de génio eu vou ali e já venho.


Arcade Fire no elevador, interpretando uma versão congestionada e minimal de Neon Bible.

quinta-feira, junho 21, 2007

Alfredo, amigo, o Prost foi um granda mago, man.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

"Posso ser considerado herético, mas sempre suspeitei que Alain tinha uma habilidade maior."
Frank Williams - ex-patrão dos dois pilotos - comparando Alain Prost com Ayrton Senna

Deixou-me um divertídissimo recado, o meu querido amigo A.F., a propósito das curtas palavras que editei sobre Prost, no postal em que faço o elogio de Hamilton. Ora acontece que o A.F. não tem consideração nenhuma pelo grande campeão francês, o que é comum em Portugal e não só. Eu bem sei que o personagem não é simpático. Que toda a gente gostava era do Senna, ou do Piquet (deuses, que pezudo!), ou do Alan Jones, ou do Nigel Mansell (há gostos para tudo) ou de muitos outros que nem um lugarzinho pequenino na história do automobilismo internacional souberam conquistar: os alboretos deste mundo.
E porque me recuso a aceitar a validade dos argumentos do A.F. - que reduz Prost à categoria de condutor de carrinha limpa neves; e porque, mais a mais, o A. F. queixa-se deveras que eu nunca dou resposta aos comentários da sua lavra que tenho a honra de receber aqui neste blog, decidi-me ao contraditório. Principalmente, confesso, porque é facílimo contradizer o A.F. nesta matéria (deve ser a única). Basta enumerar os factos.
Por ser muito desajeitado, Alain Prost correu para as 4 principais equipas da F1 contemporânea: Renault, McLaren, Ferrari e Williams. Como não prestava para nada só ganhou títulos mundiais para duas dessas marcas. Na Renault, de que foi o grande responsável pelo futuro sucesso, venceu apenas 8 grandes prémios pilotando umas caranguejolas turbolentas que só ele mesmo conseguia levar até ao fim das corridas (René Arnoux sempre foi excelente a partir motores e Jean Pierre Jaboille deve ter terminado para aí duas provas na sua vidinha de azarado profissional). Na Ferrari então foi o desatre total: nos dois anos que lá esteve foi vice-campeão em 1990 e quinto em 1991. É claro que a Ferrari desses dias não era a Ferrari de hoje (a Scuderia não conseguiu ser campeã com ninguém entre 1983 e 1999), mas isso é um detalhe: o francês é que não presta. Aliás, foi precisamente pela sua falta de habilidade que Alain Prost foi 4 vezes campeão do mundo, sendo um dos mais bem sucedidos pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos. E justamente por ser muito inferior a Ayrton Senna e nem ter comparação com Niki Lauda é que dois dos seus títulos foram conquistados com estes senhores como colegas de equipa, na Mclaren. O preconceito com este desajeitado condutor é tal que, apesar de ter sido tantas vezes campeão do mundo como vice-campeão, os seus detractores lá lhe inventaram a deselegante alcunha de "eterno segundo". A ter o epíteto alguma coisa de razoável, seria simetricamente justo que lhe chamássemos o "eterno primeiro", certo?
Na sua carreira de piloto lento e pouco competitivo, Prost disputou 200 grandes prémios, ganhando 51, subindo ao pódio por 106 sortudas ocasiões, partindo em primeiro lugar da grelha da partida por 33 vezes e batendo o record de volta em 41 corridas. Convenhamos que estes números são uma vergonha. Só um inapto consegue ganhar um em cada quatro grandes prémios disputados. E se houve coisa que Prost nunca soube fazer foi ultrapassar: certa vez, no Grande Prémio da África do Sul de 1986, o rapaz saiu em último, das boxes. Chegou em primeiro, efectuando nessa corrida a incrível quantidade recordista de 16 (dezasseis) ultrapassagens. Pura sorte, claro. Aliás, para quem não sabia sequer ultrapassar retardatários, o homem fartava-se de fazer corridas de trás para a frente, embora isso se deva provavelmente a alguns truques de prestidigitação levados a cabo por comissários de pista mal intencionados. Alain Prost foi eleito o desportista mundial do século XX, na categoria dos desportos motorizados, precisamente por ser um azelha e o tal Lauda, que também não percebia nada disto, referia-se-lhe por "fast sun of a bitch", mas deve ter sido sempre depois de ingerir uns valentes copázios de schnaps.
Alain Prost, é certo, não corria riscos desnecessários (um cobardolas!). Deve ser por isso que está vivinho da silva. Não fazia fitas nem armava aos cucos (um sonso!). Estava mais interessado em afinar o carrinho (um calculista!), tarefa em que, muito provavelmente, não terá par na história da competição. A sua condução era de uma precisão absolutamente extraterrestre, apesar da falta de jeito, e o seu entendimento dos limites do carro e da pista, bem como o seu sentido estratégico, davam, por si só, para alimentar a substância teórica e prática de vinte e três mestrados e quarenta e tal MBA's. Desgraçadamente, era baixinho e desinteressante e ainda por cima francês, que é coisa que não fica bem a ninguém. Mas, por favor, não vale a pena entrarmos em niilismos de algibeira. O homem era um génio do volante, Alfredo, cai na real, meu.
Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

quarta-feira, junho 13, 2007

Vini, Vidi, Vinci.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Para quem nunca guiou um kart, ou um F1 na Playstation 3 (as variáveis disparatadas são, no entanto, equivalentes), pode parecer que conduzir um Fórmula 1 nos mais tortuosos percursos que se possa imaginar, a trezentos à hora, é uma brincadeira de crianças. Não é. Conduzir estes automóves de ficção científica é um dos mais exigentes desafios que a civilização humana já inventou. É mais ou menos como meter um gajo num foguetão com destino à lua. A diferença (literalmente) é que a viagem dura apenas hora e meia. Ao contrário do que muito boa gente pensa, um piloto de Fórmula 1 tem que ser um predestinado, independentemente do patrocínio milionário. Basicamente, tem que ser um gajo do caraças para se aguentar à bronca. E quando eu digo bronca digo o Fernando Alonso todo borrado com este rookie chamado Lewis Hamilton que, nos primeiros seis grandes pémios da sua vida de vencedor, fez apenasmente um terceiro lugar, quatro segundos e uma excelente vitória de raposa.
Lewis Hamilton, convenhamos, é mesmo um daqueles heróis de que a Europa está deveras precisada. Pretinho primeiro a ascender à máxima categoria do automobilismo internacional, nascido na muito britânica santa terra de Hertfordshire, o homem é um campeão por natureza. Só um exemplo eloquente: enquanto piloto de F3, disputou 20 corridinhas. Ganhou só 15. Uma vez chegado à F1, por mão real do mago Ron Dennis, tem deixado a plateia global de queixo caído: é competitivo que se farta desde o primeiro centésimo de segundo, não comete um filho da puta de um erro, não parece nada afectado pela pressão e lidera, com alguma naturalidade, o campeonato do mundo de pilotos, com 8 pontinhos de avanço sobre o seu colega de equipa, que por acaso até é o bicampeão mundial da categoria.
Hamilton conduz de forma a lembrar-me muito o meu querido Alain Prost, cujos dois defeitos principais seriam, talvez, o de ser francês e o de ser antipático para todo o planeta. Eu adorava a inteligência, o cinismo, a confiança, a consistência do homem. Tudo qualidades que identifico neste novo maluco, embora este novo maluco até exiba algumas qualidades extra. No seu segundo grande prémio, Hamilton deu duas rabetas de levantar o estádio ao mesmo adversário, Felipe Massa, sendo que a última das rabetas deixou o brasileiro nas couves. Na conferência de imprensa posterior à corrida, Hamilton - nervoso e humilde - pediu desculpa por ser uma raposa e eu fiquei logo a gostar imenso dele.
O rapaz vai fazer história.

sábado, junho 09, 2007

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Não é a mais velha profissão do mundo, mas o infame ofício da publicidade tem mais séculos do que se imagina. Agora vendemos plástico e políticos. Mas já vendemos carne humana entre outras mercadorias de baixa indústria. Razão tinha o outro "criativo", que não queria que contassem à mãezinha do seu triste ganha pão, porque a pobre criatura pensava que o filho era pianista num bordel. Já ando nisto vai para vinte anos e cada vez me arrependo mais.

segunda-feira, junho 04, 2007

Vala comum.

Nascem os homens apenas para a decomposição do futuro
e é somente justo que esta espada que seguro
sirva ao meu carrasco de guilhotina.
Tudo está certo neste mundo quando a vida termina
e não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.

Os deuses, graças a deus, também sabem morrer danados,
esquecidos, banhados em sangue e humilhados,
incapazes de sobreviver à criação.
A imortalidade não dura mais que uns dias de ramadão
e caem que nem folhas como todos os trolhas.

Cometas, planetas e estrelas, galáxias verdes e maduras
apodrecem outrossim em quânticas curvaturas.
Quanto mais curioso o telescópio mais defuntas as realidades:
o universo é um belo cemitério de eternidades
em decadência formal, até ao último funeral.

Enquanto há morte, há esperança - um sonho de redenção;
só faz sentido a vida enquanto dura o ramadão.
E não há tipo mais porreiro, que o meu amigo coveiro.