quinta-feira, setembro 27, 2007

Os insondáveis desígnios da República.

Mendes e Menezes estão a transformar as directas num folhetim à sua verdadeira dimensão: gente rasteira gosta destas coisas. E se Mendes é um rato, Menezes é uma barata. Como animais, são brilhantes sobreviventes; como líderes políticos, uma lástima impressionante. O que talvez seja bom. Porque a direita existe e tem significado na sociedade portuguesa, mas está orfã de representação competente nas estruturas institucionais da república, talvez a morte clínica do PSD gere o pudor suficiente para que se crie, finalmente, um partido liberal em Portugal. Por isso, e pensando bem, vão em frente coveiros, continuem o belo trabalhinho e não se interrompam por nada deste mundo. O que levam a enterrar, no fim, para além de vós próprios, será sempre coisa desprovida de valor.

quarta-feira, setembro 19, 2007

A Idade Média não é a Idade das Trevas.

OU O LIVRO DAS HORAS DO DUQUE DE BERRY
EM DEFESA E ARGUMENTO DA CROMÁTICA MEDIEVAL .


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Ainda há muita malta que pensa em cinzentos quando julga a Idade Média. Ainda há grandes cabeças que sonham uma medievalidade infernal de fogueiras e descolorida de cenografias. O que não falta é gente esperta a ignorar a revolução comercial (a mais importante de todas, a bem ver, porque criou a burguesia - mãe de todas as revoluções posteriores) ou a invenção da polifonia, sem a qual os nossos ouvidos por certo morreriam de sede. Mas a maior injustiça de todas é a de ignorar a génese das cores primárias. O mundo Medieval, como é encomendadeo por Jean Valois, o Magnífico, Duque de Berry e patrono das artes, neste seu livro das horas "Les Trés Riches Heures", é um verdadeiro triunfo do Pantone. Vibram ultravioletas e contrastes, incendeiam-se cenários e guarda-roupas, tudo salta cá para fora num festim de cores directas. Ou o dito duque tomava ácidos ou algo está errado: não consigo ver trevas, só vejo luz.

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É claro que a percepção disfuncional é de razão relativamente prosaica: a malta confunde a Antiguidade Tardia com a Alta Idade Média, a malta reduz tudo à fogueira da Inquisição e ao fascismo dos príncipes, a malta não vê para além das pestes e das fomes e espalha-se ao comprido. A malta não percebe, ou ignora, que a Idade Média é ainda época do Império Romano (do Oriente), esse Bizâncio criativo e prolixo que enfeitava com fausto grande parte de um Mediterrâneo hiperactivo e capitalista.

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Quem faz carreira académica à custa de uma visão conveniente e preguiçosa da história, devia ser obrigado a decorar as confissões de Santo Agostinho e as sumas de S. Tomás de Aquino. Devia perceber as diferenças na ética e na estética para depois não vir dizer que andámos qinze séculos com o Aristóteles às costas e sem imaginação nas carótidas. Não acredito nada na versão manhosa, embrulhada em embalagem de mercearia escolástica, que nos vendem os vendilhões da espistemologia.

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É preciso, talvez, equacionar que essa tal tristonha, ditadora, tenebrosa e fundamentalmente estúpida Idade Média pariu aquilo a que hoje chamamos Estado. Inventou a prensa, a novela, o relógio mecânico, a caravela, a fundição do ferro, o moinho de água. Aperfeiçou a óptica e a arquitectura, desenvolveu a bússola e o astrolábio, revolucionou a cartografia, fundou as primeiras universidades, canonizou a arte poética.

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É preciso olhar para estas iluminuras do bom duque e ver, através delas, um outro mundo médio. Uma outra escala de tons.

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terça-feira, setembro 18, 2007

Carta aberta a Tenzin Gyatso.

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Perdoa-me a liberdade impúdica desta carta pública, mestre, mas devo dizer-te duas ou três. É um dever ético confessar-te que me fazes lembrar um personagem roubado ao Tintin no Tibete: essas sobrancelhas de vilão BD, com vida própria lá no alto da tua jovial inquisição, essa compostura miópe e bem disposta de caixa-de-óculos-de-deus, esse manto púrpuro de imperador da razão prática, essas tuas pitorescas idiossincrasias de guru deixam-me completamente nas nuvens, santidade. Agrada-me sobremaneira a tua elegância verdadeiramente metafísica. Enfrentas políticos e jornalistas, tiranos e idólatras, bispos e apóstatas com a mesma complacência com que, lá nas tuas montanhas do paraíso, se apascentam as cabras mais irrequietas. Parece que nada te chateia, querido lama. Dá a impressão de achares que tudo faz sentido neste impossível universo. Dir-se-ia até que não estás lá muito preocupado com o drama da condição humana, pá! És um autêntico Merlin e não vai ser agora a grande távola da ignorância tribal que te vai incomodar o feitiço. Sim, devo dizer-te que gosto da tua versão mimética do eterno sorriso de Buda, das tuas gargalhadas sobre o protocolo, da tua aura de super alma e tu tens uma aura de facto, meu amigo. Nesse sentido, desconfio que serás parente de Gabriel, esse assim como tu luminoso arcanjo e campeão da ironia, com provas dadas no interminável anedotário das religiões. És em definitivo o único líder espiritual que eu conheço que me faz rir no telejornal e fico muito contente por teres vindo a Portugal sem que te obrigassem a aturar os cavacos e os sócrates da pocilga do estado. Estou em crer, ò sublime manifesto vivo do Bodhisattva da Compaixão, que a infâmia dos bandidos oficiais não te perturba o sono. E que o fardo da divindade não te pesa nessas pernas cansadas de bom e velho monge, espécie de Master Yoda em sandálias. É que a Força está mesmo contigo e, o que é mais, Dalai Lama: és um fixe, man.

Edições Blogville #8

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segunda-feira, setembro 10, 2007

Billie Jean. Agora em Português.



Ela era mais do tipo miss malveira, bela fiteira
Eu disse tudo bem mas nem penses que eu sou o tal
que vai dançar e rodar pelo chão
Ela disse que eu sou o tal que vai dançar e rodar pelo chão

Disse que se chamava Joana Trama e fez um drama
p'ra todos verem que podem sonhar ser o tal
que vai dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
A minha mãe sempre me disse p’ra ter cuidado com quem amo
p’ra ter cuidado com o que faço, porque mentir é um embaraço

Ei, ei
A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.
Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu.

Dias e dias e a noite é bela com a lei do lado dela
Já não se atura a criatura cheia de cenas e planos
só porque dançámos e rodámos pelo chão
Por isso ouve meu irmão, pensa duas vezes nesta canção
(Pensa duas vezes)

Contou à outra que dançámos até às três, olhou de revés
e mostrou a foto: a outra passou-se porque o puto tem os meus olhos
Vais dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
Mas ela apareceu a meu lado toda doce e perfumada
isto aconteceu de madrugada e ela deu-me uma morada

Ei, ei
A joana não é minha amante
ela é que pensa que eu sou um tal de romeu
mas o puto não é meu.

A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.

Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu.

A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante

Os filhos da meia noite (III).

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"Power will go to the hands of rascals, rogues and freebooters. All Indian leaders will be of low calibre and men of straw."
Winston Churchill, on the eve of Indian Independence - 1947

Em guerra com a Índia desde sempre, potência regional por geografia e nuclear por desgraça, nação de bandidos e fanáticos governada por vilões e mal feitores, o Paquistão, infeliz invenção do Senhor Jinnah (em má hora nascido e morrido tarde demais), é um problema grande. É uma dor de cabeça. E um perigo para a saúde pública.
Depois do 11 de Setembro, a administração Bush cometeu a suprema loucura de considerar este nefasto país como um aliado na guerra contra o terrorismo. Ora, o Paquistão consubstancia, hoje em dia, a maior ameaça terrorista no Planeta Terra, ponto final, parágrafo. Daqui nunca veio e nunca virá nada de bom. E a aparente boa notícia de que o senhor Pervez Musharraf está para cair de pantanas do cimo do seu militarizado poleirinho é afinal uma péssima notícia. Por muito incompetente e tiranozóide que possa ser este generaleco de baixa caserna, de certeza absoluta que um outro grande líder do género Aiatolá-taliban-islamita-esquizofrénico surgirá do lodo da história para aterrorizar o resto do mundo.
Winston Churchill, que tinha muito olho para estas coisas, sempre esteve certo. A independência da Índia, como foi feita e na altura em que foi feita, revela-se, a cada ano que passa, uma catástrofe das grandes.

Dez livros que NÃO mudaram a minha vida.

Não sou grande maluco destes desafios em cadeia, que se usam na blogosfera. Além disso, preferia de longe falar dos 10 livros que mudaram a minha vida (boa ideia para um post), mas vindo o convite de quem vem, não há senão que cumprir. É claro que me vão falhar algumas preciosidades, e devo alertar que incluo na lista apenas aqueles escritos que tive a coragem de ler até ao fim (valha-me deus!).

1 - A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russel. Carregadinha de um humanismo absolutamente insuportável, esta obra essencial da filosofia de algibeira do século XX é de evitar, para higiene do pensamento.

2 - O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena. Esta pequenita peça de literatura, em versão leite condensado, foi-me vivamente aconselhada por uma montanha de esclarecidos amigos. Em vão, claro. Não me aqueceu nem me arrefeceu.

3 - O Amante, de Marguerite Duras. Muito simplesmente porque não há cú que aguente esta senhora.

4 - Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora. Salvo honrosas e excelentes excepções, o neo-realismo português nunca mexeu muito comigo. Este livrinho então, meu deus, deixou-me perfeitamente estático.

5 - Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. Aqui há coisa de 30 anos atrás, torturavam as crianças com esta obra ao negro. É por estas e por outras que há muita malta da minha geração que pensa que Homero é um avançado do Panatinaikos.

6 - Fora de Horas, de Paulo Castilho. Um exemplo de como um mau romance pode ganhar prémios, agradar à critica e vender ao quilo. Uma seca do princípio ao fim.

7 - Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis. Neste livro há um capítulo inteiro dedicado ao amor que o personagem central dedica aos Genesis. Nem é preciso dizer mais nada. Muito mau.

8 - Eva Luna, de Isabel Allende. O realismo mágico e a teologia da libertação. A América do Sul não é isto, caramba. Gasp!

9 - Só, de António Nobre. Nas palavras do Autor: "O livro mais triste que há um Portugal!". Eu concordo. Que tristeza, senhores.

10 - A Profecia Celestina, de James Redfield. Uma chatice, uma fraude, uma apoplexia.