terça-feira, junho 30, 2009

Joana Trama, ou a propriedade da culpa (singela homenagem ao falecido senhor Jackson)


Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

A próxima música celebra, ao meu desajeitado jeito, o vigésimo quinto aniversário da edição do álbum mais vendido na história - Thriller, de Michael Jackson.
Aqui há uns tempos decidi-me não a uma tradução de Billie Jean (missão impossível por causa do extremo pop dos versos e da sua métrica alucinada), mas à construção de uma versão em português. Como achei alguma piada ao resultado quis encontrar um registo sonoro de balada arrastada e trágica, que acompanhasse os versos num código inverso à orgia dançante do tema original. A minha pobre vocalização prosada, o protagonismo do piano e a percussão de registo orquestral acabaram por cumprir com a antítese desejada. É que sendo o personagem Jackson da ordem dos grandes nojentos, a sua arte sempre escapa (acontece isto com vários génios) e só a linha de baixo de Billie Jean merece uma vida de vénias: era óbvio que não valeria a pena tentar fazer qualquer coisa de parecido.
Apresento-vos, portanto, Joana Trama, grande grávida do mais temido dos equívocos.



Joana Trama - One :kubrik

Ela era do tipo miss malveira, bela fiteira
Eu disse tudo bem mas nem penses que eu sou o tal
que vai dançar e rodar pelo chão
Ela disse que eu sou o tal que vai dançar e rodar pelo chão

Disse que se chamava Joana Trama e fez um drama
p'ra todos verem que podem sonhar ser o tal
que vai dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
A minha mãe sempre me disse p’ra ter cuidado com quem amo
p’ra ter cuidado com o que faço, porque mentir é um embaraço

A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu.
Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu

Dias e dias e a noite é bela com a lei do lado dela
Já não se atura a criatura cheia de cenas e planos
só porque dançámos e rodámos pelo chão
Por isso ouve meu irmão, pensa duas vezes nesta canção
(Pensa duas vezes)

Contou à outra que dançámos até às três, olhou de revés
e mostrou a foto: a outra passou-se porque o puto tem os meus olhos
Vais dançar e rodar pelo chão

Sempre me disseram p’ra ter cuidado com o que faço
não andar por aí a destruir corações às miúdas
Mas ela apareceu a meu lado toda doce e perfumada
isto aconteceu de madrugada e ela deu-me uma morada

A joana não é minha amante
ela é que pensa que eu sou um tal de romeu
mas o puto não é meu

A joana não é minha amante
ela é que pensa que o culpado sou eu
mas o puto não é meu

Ela diz que o pai sou eu, mas o filho não é meu

A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante
A joana não é minha amante

segunda-feira, junho 22, 2009

Ulisses Vs Aquiles


Domingo, Agosto 14, 2005

ESTE É GRANDE.

Gosto à brava deste aventureiro marinheiro. Casado com uma mulher nobre e fiel, sabe que pode partir para a viagem sem perigos de desonra. É esperto e é romântico (rara alquímica!). Gosto do Ulisses porque o homem não usa a cabeça só porque dá jeito ao elmo, tem presença de espírito e é assertivo e é pertinaz e resolve problemas e segue o seu caminho à procura não se sabe bem do quê. Isto, claro está, para além de estar sempre a querer regressar a casa (um gajo que percorre todo o mundo antigo para conseguir chegar a casa desperta-me uma ternura imensa). Gosto deveras deste construtor de barcos e de cavalos, deste engenheiro da aventura que - protegido por Atena, a Deusa dos Olhos Garços - se faz um herói como deve ser. E até mais que um mito grego, solidifica-se num deus católico e irlandês. Não é de se meter em brigas, mas vence a barbárie da violência, com violência se necessário for, com astúcia se proveito de superior qualidade lhe trouxer a inteligência. É corajoso mas não é parvo, e passa montes de tempo na proa, a perscrutar o horizonte mediterrânico, na senda da origem das coisas. Gosto dele.


ESTE É PEQUENO.

Não gosto nada deste guerreiro interesseiro. Não gosto deste gajo que faz birras na presença de reis, que é invejoso de escravos e, mais cruel que valente, mais mercenário que soldado, permanece um enormíssimo maricas (afinal, quem é que alguma vez morreu com uma seta enfiada no tornozelo?). Armado em parvo e armado aos cucos, amantiado com um primo imberbe (e péssimo esgrimista), esmagando exércitos com a sua magnífica Excalibur de calibre helénico 3000 AC, Aquiles é, mesmo assim, um frouxo. É um frouxo porque faz tudo pelas razões erradas. Até quando entrega a Príamo o corpo morto e violentado do seu filho, o cavaleiro não é nobre porque fica pequenino de remorsos. Depois de ter cavalgado as sete colinas de Tróia com o cadáver de Heitor de rojo pelo mato, insultando de tragédia e ignomínia a alma troiana, corrompendo rituais sagrados e retirando ao seu adversário a glória da morte em combate, Aquiles é seguramente o bandido palhaço que vai ter remorsos. Não gosto dele.

Sete dicas para combater a estupidez humana.

I - Nunca subestimes um estúpido. A estupidez é na verdade e lamentavelmente o grande motor do circo a que chamamos o mundo, e está na origem da maior parte dos mais catastróficos acidentes da história da humanidade. Se há um desastre, uma guerra, uma peste, uma praga, uma chacina, uma vergonha, uma desgraça qualquer, num dado momento do tempo, o evento tem grandes probabilidades de ser devido a um estúpido de merda, que não sabe o que está a fazer e isto leva-nos à segunda dica, que é:
II - Um estúpido nunca sabe o que está a fazer, pelo que deves retirar-lhe todas as competências. É triste e muito perigoso que as pessoas que não são estúpidas sejam preguiçosas ao ponto de atribuir tarefas aos estúpidos. De confiarem neles! Não se pode confiar no estúpido porque é impossível determinar quando é que ele vai fazer algo de estúpido, sendo certo que o fará no pior momento possível.
III - Não tenhas pena do estúpido. Um estúpido é um bruto e deve ser tratado com a barbaridade que merece. Um dos erros mais frequentes das pessoas que não são estúpidas é o de se apiedarem dos estúpidos. Acontece que os estúpidos são geralmente culpados da sua estupidez, porque ninguém pode nascer assim tão estúpido e além disso a maior parte dos seres humanos que sobrevivem à superfície deste planeta são da classe dos estúpidos e não podem os poucos que não o são conseguir misericórdia para tanta gente. Os que não são estúpidos estão demasiado ocupados a solucionar ou a ignorar os problemas que os estúpidos criam, pelo que, a propósito:
IV - Uma boa maneira de combater a estupidez é ignorar os estúpidos e as suas façanhas, a não ser que os estúpidos façam algo de tão estúpido que os que não são estúpidos sejam forçados a intervir.
V - Tem sempre em mente que a estupidez é imoral. Por norma, o estúpido é um moralista. Como o ignorante é arrogante da sua ignorância, o estúpido é orgulhoso da sua estupidez. Tem opiniões éticas e imagina que tem senso comum. O estúpido, quando for grande, quer ser juíz de comarca ou sacristão de paróquia. Acontece que um estúpido não tem legitimidade para tecer juízos morais nem mandato para avaliações de carácter, nem autoridade para posições éticas: não há nada mais imoral do que ser-se estúpido e assim,
VI - O estúpido deve sempre estar calado e, se possível, quieto. Nunca por nunca dês a oportunidade da palavra a um estúpido e, sendo que os estúpidos são geralmente uns seres que não sabem estar parados, tenta condicioná-lo a um perímetro-colete-de-forças. Se o estúpido fala, acabou-se a razão, se o estúpido tem rédea solta, o caos instala-se.
VII - O estúpido é avarento ou é ganancioso, não lhe dês troco. A cobiça, a inveja, a avarez e a ganância são traços personalísticos comuns aos estúpidos que são também, sem excepção, de uma mesquinhez teimosa e entediante. O melhor que tens a fazer é evitar dar esmola a um estúpido, porque ele vai logo pensar estupidamente que estás obrigado a dar-lhe esmola até ao fim dos tempos. Nunca lhe emprestes dinheiro, senão o estúpido pensa que tu não precisas da guita e nunca mais te devolve a quantia que com esforço reuniste para lhe emprestar. Outra coisa desaconselhável é entrares em negócios com estúpidos. Nunca vão perceber coisa alguma do negócio, mas vão querer ser sempre os primeiros a receber os dividendos. Mais a mais, um estúpido procura invariavelmente a glória de enganar alguém que não é tão estúpido como ele. Acautela-te e não dês gorjeta à estupidez.

quarta-feira, junho 17, 2009

Sobre o karma das Quinas.

Portugal é a nação mais antiga da Europa e, exceptuando dois ou três momentos breves na sua história interminável de vergonhas e lágrimas, de ignorância e miséria, Portugal é um projecto falhado.
Dou um exemplo: se Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz se levantassem da campa para dar às farpas um arranjo contemporâneo, não teriam para cima de uns poucos minutos de trabalho. Não seria preciso mudar mais que coroa por presidência. Os problemas e os atavismos e os imobilismos e a falta de imaginação e a ausência de coragem e a vulgaridade e a imbecilidade que reinavam há cento e vinte anos atrás, presidem agora, iguaizinhas.
A crítica feroz e gargalhante da Campanha Alegre adapta-se toda e inteira à vida política e literária e mediática e social do Século XXI português porque este é um país que não muda. Quando muito, repete-se.
O problema dos Descobrimentos, que também vem a propósito, foi substancialmente um problema de escala. O país de duzentas mil almas não tinha massa crítica e fôlego demográfico para uma coisa daquelas. Hoje, a primeira dificuldade da nação permanece essa mesma: continuamos a ser poucos e pequenos, continuamos a ser velhos, continuamos a ser pobres, marginais, insignificantes. O paradoxo aqui é que nenhum português nasce resignado à sua insignificância. Nenhum Português nasce para a marginalidade da sua geografia. Nenhum português nasce para ser um em nove milhões de reformados. Se Portugal fosse habitado por 60 milhões de navegadores, Portugal seria hoje a primeira nação do mundo.
Quando a esquizofrénica e decadente corte de D. João VI e Carlota Joaquina se lançou no Atlântico em pânico histérico por medos do mais doente, faminto e esfarrapado dos exércitos de Napoleão, contribuindo de forma imediata para o anúncio do fim do império e conspurcando as páginas da história com um dos mais cobardes e manhosos exemplos de liderança que podem ser ensinados às criancinhas de todo o mundo (a História de Portugal tem destas elevações), estava apenas a revelar um cancro de genoma muito lusitano: a patológica e crónica falta de qualidade dos seus líderes condena Portugal à infâmia e ao anedotário, desde que D. Afonso Henriques inventou o conceito de homem honrado que não cumpre tratados. Hoje em dia, não podemos estar mais atolados no lodo das lideranças desqualificadas. Em todas as áreas do poder político, associativo e económico é absolutamente deprimente a falta de qualidade moral e intelectual dos protagonistas. Ter um primeiro-ministro Sócrates é constrangedor como ter um rei Sebastião. Ter um chefe de estado saído da gasolineira de Boliqueime é aborrecido como ser súbdito de um descendente da Casa de Bragança. Não importa a sua origem humilde ou gloriosa, os líderes que temos tido são, por regra, um género de novos ricos da razão pura e uma espécie de mendigos da razão prática.
Ora, se Portugal é a nação mais antiga da Europa e, exceptuando dois ou três momentos breves na sua história interminável de infâmias e ridicularias, de erros e equívocos, Portugal é um projecto falhado; porque raio é que Portugal é a nação mais antiga da Europa, notável pelos seus poucos e breves momentos de excepção? Porque raio é que, contra tudo e contra todos - contra os traidores que o querem vender, contra os diplomatas que o querem casar, contra os políticos que o querem falir, contra os burocratas que o querem normalizar - permanece Portugal no mapa, cabeça armada sobre o abismo do Atlântico?
Falo por mim: eu não quero ser espanhol. Gosto até dos espanhóis, mas desculpem lá, gosto mais aqui do meu inferninho. Tem novecentos anos de chamas e eu gosto deste calor. É aqui que quero permanecer condenado.
Eu não quero ser angolano. Não tenho nada a ver com aquela gente; lamento muito, mas não gosto deles nem das metralhadoras deles e faz lá um clima muito desagradável. Não estou a ver Portugal a funcionar como colónia de um país onde as baratas entram dentro de casa a voar, pela janela.
Eu também não quero ser belga e nem é preciso explicar porquê. Ninguém quer ser belga. Nem os belgas.
Bom, e uma coisa é muito certa dentro da minha cabeça: eu não quero ser brasileiro, de chinelinhos na favela e pila pública no carnaval. Poupem-me.
Eu não quero ser chinês, por motivos óbvios: até o inferno lusitano dá mais qualidade de vida ao seu cidadão-alma-penada. Além disso, não consigo mesmo trabalhar a comida com aqueles pauzinhos fugidios.
Em resumo e por exclusão de partes: eu quero continuar a ser Português, apesar do que isso significa e pesa e dói. Não quero ser tomado por conta. Deixem estar sossegada a nação disfuncional que já o era há muitos séculos, quando nasceram as grandes nações de hoje. Nós portugueses só fazemos mal a nós próprios. E isso é mais do que muitos podem dizer.

quinta-feira, junho 04, 2009

O Cravo Bem Temperado ou como compor com a pauta toda.


Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

"Não me preocupa a sensibilidade crítica dos mortais. A minha música destina-se aos ouvidos de Deus"
Johann Sebastian Bach

Da maneira que eu tenho de ver as coisas, só há dois períodos na história da música: as trevas da época Pré-"Cravo Bem Temperado” e a idade da luz que se lhe seguiu. Passo a explicar.
Em 1691 um musicólogo mais ou menos obscuro de Halberstadt, Andreas Werckmeister, publica um opúsculo no qual presenteia a humanidade com “as verdadeiras e claras instruções matemáticas” para afinar qualquer instrumento de teclas. Este revolucionário documento revelava aos músicos que era possível afinar o orgão de tal forma que este pudesse tocar, num dado momento, todas as notas. Simplesmente porque os tons e os meios tons não eram uniformes, até esta altura cada obra tinha que ser composta apenas num número limitado de notas, retirando ao compositor a possibilidade básica de escrever música fazendo recurso à integral diversidade da sua escala...
Subdividindo a oitava em doze meios-tons de rigorosa uniformidade, Werckmeister propunha uma solução user-friendly para que, de uma vez por todas, fosse possível escrever música em todos os tons.
Como sempre acontece na história das ideias, a tese iluminada de Werckmeister não encontrou receptividade imediata junto da comunidade musical europeia. Isto, até que, 30 anos mais tarde, um vanguardista do barroco percebesse que aquela era tão só a pedra filosofal da inventiva melódica.
Filho de músicos e musicólogos, amigo de construtores de orgãos, nascido e criado em plena oficina da música, Johann Sebastian Bach era, para além de tudo o resto, um muito competente mecânico. Uma bela manhã, devidamente inspirado pelas mais belas musas que já habitaram o Olimpo das artes, Johann colocou mãos à obra, afinou o seu cravo da forma equacionada por Werckmeister e começou a escrever exercícios de interpretação, levando a sua composição a um nível de complexidade cromática nunca antes experimentada. Concluídos em 1722, estes 48 prelúdios e fugas constituem uma obra de arte incomparável, não só pela mestria do contraponto e da delirante diversidade formal, mas porque usufruindo finalmente de uma liberdade técnica nunca antes imaginada, Bach deu-se a excessos de expressão estilística, justa-posições caleidoscópicas de estados de alma e contemplações poéticas que deixariam qualquer Baudelaire em pranto catatónico.
Não que a intenção de Bach fosse compor uma obra prima. Tratava-se antes de um trabalho com fins lúdicos e pedagócicos e o título não deixa equívocos: “O Cravo Bem Temperado, ou Prelúdios e Fugas em todos os tons e semi-tons, ambos com a Terceira Maior ou Dó, Ré, Mi e com a Terceira Menor ou Re, Mi e Fá. Para uso e prática de jovens músicos que desejam aprender, bem como para diversão daqueles já versados no estudo.”
Na verdade, Johann sempre achou este trabalho uma obra menor, de natureza meramente académica. Apesar da modéstia dos seus sucessos em vida, Bach sabia bem (como o sabem todos os eleitos) que o seu talento permaneceria pelos concertos da posteridade e pouco desejaria ver-se celebrado como um simples professor de contraponto.
Três séculos depois, é apenasmente considerado o mais genial compositor de sempre. E o Cravo Bem Temperado contribuiu, em boa parte, para a sua coroa de glória. Afinal, não fosse o engenho divino desta obra e toda a música que foi criada depois seria muito, mas mesmo muito diferente.


Glenn Gould - Bach, Well-Tempered Klavier II - No. 14 F#