segunda-feira, novembro 04, 2013

Radiação Cósmica de Fundo ou a Grande Muralha de Deus Nosso Senhor.

 photo radiaccedilatildeocoacutesmicadefundo.jpg


Toda a gente sabe que obervar o universo é viajar no tempo. Há medida que os telescópios e rádio-telescópios foram ficando mais poderosos, a humanidade foi espreitando para um universo cada vez mais antigo. E seria de esperar que um dia alguém construísse um telescópio tão poderoso, mas tão poderoso, que fosse espreitar o big bang, o ínicio de todas as coisas. Nem mais, nem menos.

Acontece que esse telescópio já foi construído, só que temos um pequeno problema: com cerca de 400.000 de idade, o cosmos criou uma parede para além da qual não conseguimos ver nadinha. Chama-se Radiação Cósmica de Fundo e tem o aspecto que vemos na imagem. Trata-se de uma esfera com um diâmetro de cerca de 28 bilhões de parsecs (cerca de 92 bilhões de anos-luz, ou 920 sextilhões de kms). 

A Radiação Cósmica de Fundo está hoje presente em todo o universo e podemos ouvi-la na estática das ondas de rádio. Resulta de um plasma primordial, quente, de fotões, electrões bariões. À medida que o universo se expandiu, o desvio para o vermelho cosmológico fez com que o plasma arrefecesse até que foi possível aos electrões a combinação com os núcleos atómicos de hidrogénio e hélio. Estavam formados os primeiros átomos da história universal. Isso aconteceu quando o universo tinha aproximadamente 380 000 anos de idade. Foi nesse momento que os fotões começaram a viajar livremente pelo espaço. Foi nesse momento que se fez luz e, por isso, mesmo que pudéssemos olhar para além desta barreira, não havia nada para ver. Parece que estava tudo às escuras até aqui.

É claro que as mentes mais avisadas já tinham percebido que não seria assim tão simples   vislumbrar o umbigo de Deus.  Zenão de Eleia, por exemplo, que viveu há coisa de 2500 anos atrás, demonstrou que as distâncias são bastante ilusivas, com a sua  famosa Dicotomia do Estádio, que dividia os 60 metros do sprint olímpico da altura em partes infinitas, de tal forma que seria impossível ao atleta a conclusão da sua corrida. E, paralelamente, podemos ter atletas a correr os 100 metros durante um milhão de anos, e podemos ter recordes do mundo batidos todos os anos, que não é por isso que alguém vai cumprir a distância em zero segundos, não é? Este problema coloca-se de forma dramática à cibernética contemporânea, com as margens de progressão da capacidade de processamento a atingirem os seus limites técnicos. E não porque não sejamos capazes de criar transístores cada vez mais pequenos. Acontece apenas que, uma vez chegados a determinadas velocidades de processamento, a física troca-se toda e as coisas começam a correr realmente muito mal. Da mesma forma, não é por retirarmos dioptrias à nossa miopia tecnológica que vamos mais dentro do grande mistério cosmogónico.

É que este cosmos não é para aprendizes de feiticeiro, não é generoso com certezas absolutas e não gosta mesmo nada de revelar os seus segredos. E deus, pelos vistos, serve só para nos impedir de saber a verdade.