quinta-feira, janeiro 29, 2015

Quem são os gregos?

O mito de que estes gregos que temos hoje são da mesma espécie dos gregos que tivemos na antiguidade clássica, e que serve para fazer o paralelo manhoso de que a Grécia contemporânea está a outra vez a ensinar a democracia ao mundo, é uma coisa completamente absurda.
Macedónios, bizantinos e otomanos (estes últimos durante 4 séculos) ocuparam, colonizaram e infestaram o território grego com material genético mais que suficiente para que entre Platão e Alexis Tsipras não exista mais em comum que a terra que pisam.
Toda a gente devia saber isto e principalmente aquela gente que opina.
E a propósito de opinião, esta aqui do Paulo Tunhas está certa a trezentos por cento. E é bastante recomendável.

Isto vai acabar mal.

A bazuca de Mario Dragui afinal sempre tem serventia: percebe-se agora que a estratégia de Alexis Tsipras é a de colocar pressão sobre os mercados, de tal forma que a súbida dos juros das dívidas soberanas venha a afectar também outras nações da União (Portugal, Espanha, Itália e assim sucessivamente). Acontece que, dada a disponibilidade do BCE para comprar a dívida desses países, os investidores só vão mesmo desistir de comprar a dívida grega.
Tsipras também deve ter feito contas à generosidade de Vladimir Putin, mas neste momento parece-me que não há tesouraria em Moscovo para calar a dívida grega.
Manietado pela decisão do banco central e vítima indirecta da queda dos preços energéticos, Tsipras tem muito pouca margem de manobra. Neste momento, a única saída para o primeiro ministro grego é de uma perigosidade assustadora: um tratado económico e estratégico com os chineses que instaure no sul da Europa e no coração do Mediterrâneo uma espécie de protectorado euro-asiático.
E eis instalado mais um cenário de pesadelo.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Porque é que o Islamismo é mais violento que o cristianismo: o guia do ateu.

O guia está aqui. E, sobre esta matéria, é lapidar.
Graças a Deus pelo "The Federalist". Eles nem imaginam a boa companhia que me fazem.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

37 pontos num instantinho.



Clay Thompson, um dos magníficos atiradores dos Golden State Warriors - a equipa com melhor média concretizadora nesta época da NBA (111,1 por jogo) - fez ontem, contra os Sacramento Kings, 37 pontos no inacreditável espaço de nove minutos, batendo o recorde da liga para pontos marcados num quarter.
No (breve) processo, o artista fez 13 lançamentos de campo sem falhar um só que fosse, incluindo 9 lançamentos de 3 pontos (!), batendo também o recorde da NBA em concretizações sucessivas da zona exterior.
Incrível. Se não fosse o Youtube a fornecer a prova, ninguém ia acreditar em mim, certo?

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Como simplificar o que não é simplificável.



Mesmo quando se tenta explicar o mundo atómico e sub-atómico de uma forma simples, o resultado é complicado. Mas se calhar até é por isso que a quântica é uma sedutora bestial. A complicação é de tal forma transcendente que toda a gente pode ter uma opinião (simples) a respeito.

Horrível para os olhos, excelente para os ouvidos.



Walk The Moon . Shut Up And Dance

Os anos 80, vistos do século XXI, são de facto muito duros para a vista. Mas continuam a imperar sublimes no que diz respeito ao sentido da audição.
A este propósito e por causa da sua última opus popus, confesso a fraqueza de ser fan dos Walk The Moon. Uma banda tão popezinha, mas tão popezinha que deve ser a mais popezinha banda que consigo ouvir. Este último disco então, meu deus, que coragem popezinha foi necessária para o criar! Mas lá que nos deixa aflitinhos por uma pista de dança, ah isso deixa, caramba. E, nem que seja por isso; e, desde que não seja por nostalgia (ser nostálgico dos anos 80 é como ter saudades de um Fiat 127); vale a pena ouvir "Talking is hard".

América autofágica.

Os Estados Unidos já não são bem uma nação. Trata-se de uma espécie de bordel em decaimento, mas sem o glamour da decadência imperial.
O caso Ferguson, sobre o qual recomendo vivamente este excelente texto do "The Federalist", é um bom exemplo do estado a que a esquerda levou a América. Depois dos riots, do vandalismo, da hostilidade viral contra os polícias, do escandaloso aproveitamento político e da histeria mediática, o que sobrou? Nada. O Grande Jurí não viu provas para levar Darren Wilson, o polícia que matou Michael Brown, a tribunal. E a comissão de inquérito do Departamento de Justiça federal também não. O que não surpreende nada. Darren Wilson é um pacato agente da autoridade local, sem qualquer mancha ou evento digno de nota no seu currículo. Michael Brown, por outro lado, era suspeito de ter acabado de cometer um crime e, como se veio a saber mais tarde, tinha um cadastro como deliquente juvenil verdadeiramente assustador. E tudo o que Darren Wilson testemunhou sobre o acidente foi comprovado pelas evidências forenses (DNA incluído).
Mais um triste momento de manipulação mediática. Mais um deprimente fotograma da América contemporânea.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

domingo, janeiro 18, 2015

sábado, janeiro 17, 2015

Rocketville #13_Fail to succeed

A Space X está a apostar tudo na reutilização dos seus foguetões para tornar comercialmente viável a exploração espacial. A ideia é fácil de perceber: se puderes recuperar integralmente a nave que lanças para o espaço, gentil leitor, da próxima vez que quiseres lá ir só tens, basicamente, que pagar o combustível. Por isso, a empresa de Elon Musk construiu uma mega plataforma flutuante para servir de aeroporto (convém que a operação se dê no oceano, por óbvias razões de segurança) e testou ontem a primeira aterragem.


SpaceX Spaceport Drone Ship

Claro, tudo correu mal (velocidade de aproximação e grau de inclinação). O sistema hidráulico de apoio aerodinâmico foi com os porcos e o Falcon 9 espetou-se com estrondo na plataforma. Mas considerando que esta gigantesca jangada é um pontinho mesmo muito pequenino na escala da aventura sideral, e que o Falcon já tinha cumprido a sua missão de apoio à Estação Espacial Internacional, já não foi nada mau que o foguetão tenha acertado na mouche. Não se perdeu tudo. E é assim que se aprende, no negócio da engenharia espacial.
Tarda nada, a Space X está lançar foguetões reutilizáveis. É só uma questão de tempo e não de muito tempo. E eu concordo com Musk: tudo vai ser diferente a partir daí.



Mais sobre este assunto aqui.

terça-feira, janeiro 13, 2015

Blake Griffin ou o erro de Newton.



Este senhor, na minha modesta opinião e dada a fraca prestação de Kevin Durant na presente época, é actualmente o melhor jogador da NBA. Neste segmento pode parecer que tudo o que Griffin faz é afundar, mas desenganem-se. O power forward dos Clippers é um excelente atirador, tanto de 2 como de 3 pontos, e dribla com tal à vontade que, de forma a confundir as defesas adversárias, é muitas vezes ele e não o base Chris Paul que conduz as transições para o ataque. Dá gosto ver este monstro de 2,08 metros e 113 quilos jogar à bola como se Newton estivesse equivocado: a gravidade, afinal, não é uma constante. Não para Blake Griffin.

Rocketville #12 Retro_Spaceships


domingo, janeiro 11, 2015

É triste, mas é mesmo assim.

As crónicas da Helena Matos no Observador têm tanto de brilhante como de lapidar. Esta última, diz tudo o que é preciso dizer sobre o que aconteceu em Paris. E as conclusões são assustadoras e deprimentes. Mas bem reais. O inferno somos nós.

sábado, janeiro 10, 2015

A Ana Gomes deve ter uma desculpa para isto.

Hoje, em Maiduguri, a capital do estado nigeriano de Borno, os animais do Boko Haram fizeram explodir uma criança de dez anos num mercado apinhado de gente, assassinando 19 pessoas. Os ataques com crianças-bomba são recorrentemente utilizados por este grupo islamita em atentados na Nigéria.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Danos colaterais.


Guerra aberta.


Enquanto Paris não sai dos monitores das televisões, os rapazinhos do Boko Haram, outro bando altamente organizado e feroz de assassinos islamitas, liquidou nos últimos dias cerca de duas mil pessoas, arrasando 15 vilas e conquistando a cidade de Baga, no nordeste da Nigéria. O grupo terrorista domina agora uma extensa área na região norte do país africano.
É assim que se faz a guerra, no Século XXI. Em Paris, em Sidney, em Peshawar, em Baga, em Aleppo, em tempo real, com alta eficácia militar, baixas marginais e uma capacidade incrível de manipulação mediática: enquanto os atentados cirúrgicos nos países do Ocidente (incluo Austrália) preenchem dias inteiros dos canais noticiosos, as chacinas étnicas e os massacres religiosos que estão em curso no Iraque, na Síria e na Nigéria vão passando mais ou menos despercebidos. Tudo sai na perfeição ao inimigo.
Aguardam-se desenvolvimentos.

quinta-feira, janeiro 08, 2015


Dormir com o inimigo. E acordar para o caos.

O acto inominável de ontem, no coração de Paris, é o resultado de décadas de equívocos e absurdos, interpretados por líderes europeus incompetentes e irresponsáveis, em nome de valores humanistas que não se adequam de todo aos animais das tribos da jihad. Os perpetradores deste crime contra a civilização ocidental (e não apenas contra a liberdade de expressão), são, tudo indica, de nacionalidade francesa. Pertencem a uma comunidade islâmica em França que só muito relutantemente condenará o atentado bárbaro. Têm cadastro por crimes cometidos em nome do radicalismo islâmico. São muito nitidamente soldados profissionais, preparados para acções de assalto de máxima violência e intensidade mediática. Se fizeram o que fizeram foi porque o puderam fazer. Foi porque a França em particular e os países da União Europeia em geral, criaram condições políticas e sociais para que isto acontecesse.  
Hollande, que correu para aparecer na cena do crime ainda os corpos das vítimas estavam a ser colocados nas ambulâncias, todo pressuroso e ávido da oportunidade imperdível de uma excelente photo-op, é o exemplo máximo da incapacidade e da hipocrisia e da cobardia com que se tem gerido o grave problema das numerosas e populosas comunidades islâmicas acampadas nos territórios da União Europeia. Mas quando a sinistra e inenarrável Ana Gomes responsabiliza as políticas de austeridade de certos governos europeus pelo crime hediondo de ontem; quando Paulo Magalhães - o lamentável moderador do "Política Mesmo" (TVI24) - pergunta a um convidado do programa se os cartoonistas do Charlie Hebdo não "se puseram a jeito" de serem fuzilados, procurando assim justificar o injustificável; quando por todo o lado e por toda a aprte o que vemos e ouvimos é gente cheia de escrúpulos étnicos, preocupada acima de tudo com a necessidade de poupar as comunidades islâmicas à justa crítica social; quando aqueles que se manifestam contra a islamização dos subúrbios de Paris, de Marselha, de Hamburgo, de Londres, são imediatamente rotulados de xenófobos e fascistas; quando as notícias de chacinas cometidas pelos demónios do profeta a nível global são relegadas para notas de rodapé, porque se trata de uma escola no Paquistão, de uma embaixada na Nigéria, de um mercado nas Filipinas - lugares cuja geografia remota nos ajuda a gerir o medo; quando nos recusamos a encarar o fenómeno do extremismo islâmico como algo mais que um conjunto de actos interpretados por um punhado de fanáticos amadores; quando perdemos de tal forma a noção completa da realidade - e da história - que não nos apercebemos da terrível ameaça que esse extremismo representa para a sobrevivência da nossa maneira de viver; quando somos os nossos primeiros e piores inimigos, tudo parece estar perdido.
Ontem, durante umas horas largas, tudo me pareceu perdido.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

terça-feira, janeiro 06, 2015

Porque é que a história não se repete ou um outro erro de Einstein.

Porque raio é que o passado é sempre diferente do futuro (e vice-versa)? Desde Heraclito que o bom senso no diz que não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio, na medida auto-evidente de que as águas do primeiro banho não são as águas do segundo, mas a verdade é que a física sempre teve uma enorme dificuldade em demonstrar esse facto trivial e empirico. Isto, até que a cosmóloga portuguesa Marina Cortês, do Observatório Real de Edimburgo e do Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa, em colaboração com o físico teórico norte-americano Lee Smolin, do Instituto Perimeter, viraram o espaço-tempo newton-einsteiniano ao contrário para explicar, num trabalho que acaba de ganhar o Prémio Buchalter de Cosmologia, porque é que as coisas são como são e não de outra maneira, aproveitando também para aproximar, no processo, os desavindos universos da macrofísica e da mecânica quântica.
E nada melhor que as palavras de Marina Cortês, em duas entrevistas ao Público, para uma boa síntese do trabalho:

"Queremos descobrir por que é que o tempo está sempre a avançar e nunca recua. É uma pergunta muito razoável. O Universo no seu conjunto evolui de uma forma que é irreversível.
A física é a única ciência em que todas as leis funcionam tanto para a frente como para trás, porque as nossas equações não incluem a direcção do tempo e essa é uma das razões por que é tão difícil desenvolver uma teoria da gravidade quântica, que é o Santo Graal da física.
Na física tradicional, quarks e electrões são partículas fundamentais no sentido em que não se podem dividir em partes mais pequenas.  Ora, se usássemos uma lupa para ver o espaço-tempo de muito – muito – perto, veríamos que é feito de elementos (que nós chamamos eventos no nosso artigo) que não são nem espaço nem tempo. Portanto, o espaço-tempo pode ser ainda dividido em partes mais pequenas.
Estes eventos fundamentais do Universo são instantes de tempo. Tal como um relógio faz tique-taque, podemos imaginar que o tempo é uma máquina que produz instantes de tempo, um após o outro, após o outro... Cada instante é um desses eventos. E o que nós dizemos é que não é possível usar uma lupa para decompor os instantes de tempo em partes mais pequenas. São a coisa mais simples que existe e são a parte mais importante do Universo. E tudo o que nós vemos e observamos é feito destes instantes de tempo."

Esta atomização do tempo - e consequente despromoção do espaço para a categoria da ilusão - pode resolver alguns problemas fundamentais aos físicos teóricos contemporâneos. É elegante, faz sentido e confirma, com belíssimas equações, um conselho de amigo: nunca tentes voltar àquele sítio onde foste feliz.

Pdf do paper premiado aqui: The Universe as a Process of Unique Events - Cornell University Library

Rocketville #11 Retro_Spaceships


A constipação e suas implicações na metafísica #2

Estou constipado e quando estou constipado ainda sou mais ateu
do que nos outros dias.
O universo é algo de extremamente desinteressante
quando temos o nariz tapado.
E o grande mistério cósmico não passa de uma reles novela venezuelana
quando não paramos de tossir.

Estou cansado de tanto assoar a alma
e fartinho de espirrar a inteligência!
O deus católico pode ir dar uma volta ao bilhar grande
e levar os deuses pagãos todos com ele:
estou constipado,
não quero nada com a metafísica!

A constipação e suas implicações na metafísica #1

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.


Álvaro de Campos

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Resultados práticos do governo marxista na Venezuela.


Enquanto o preço do barril do petróleo permaneceu altamente inflaccionado, a utopia manhosa de Chavez lá ia dando de comer ao povo. Mas agora que a OPEP deixou de roubar, os resultados estão à vista. Nem sabão há. Eis o milagre económico do socialismo sul-americano, em todo o seu esplendor.

sábado, janeiro 03, 2015

Jornal de Letras | Agosto/Dezembro 2014

O Império Marítimo Português 1415-1825 - C. R. Boxer - Edições 70 
Talvez a mais emblemática obra sobre a gesta marítima portuguesa, este tratado não dá porém solução ao mistério que se propõe resolver. Na introdução, Boxer manifesta a sua perplexidade: como é que um país pobre, marginal e insignificante como Portugal consegue o milagre de dominar o mundo, fundando o primeiro império colonial de sempre; frágil, caótico, demograficamente impossível, mas de tal forma bem sucedido que acaba, pasme-se, por durar sobre todos os que lhe seguiram, sendo paradoxalmente o último império colonial a cair? A verdade é que o autor acaba por não encontrar resposta para as suas perplexidades. Apanhado pelos ventos da história (o livro foi usado por detractores do império colonial português, tanto como pela propaganda do Estado Novo), C. R. Boxer cai num erro de colegial que compromete, no meu entender, a virtude da sua erudição: recusa-se a perceber que ao historiador não compete ser juíz. O contexto social, ético e cultural dos descobrimentos portugueses não pode ser avaliado à luz da moral do século XX. E assim, erradamente, os portugueses são-nos apresentados como um povo ferozmente anti-semita e alegremente esclavagista, constituído em grande parte por fanáticos religiosos. Na verdade, os portugueses não eram seguramente católicos mais fanáticos que os espanhóis, não eram mais anti-semitas que a maior parte dos povos europeus da sua altura, nem viam o comércio de carne humana com melhores ou piores olhos que os seus adversários directos na corrida pela liderança do comércio no Atlântico setecentista. Acresce que a mentalidade WASP do autor está sempre presente: quando os ingleses e os holandeses roubam, trata-se de corso. Quando são os portugueses a pilhar, trata-se de decadência, corrupção e de um inevitável decaimento latino para a desonestidade.
Toda a obra, mas principalmente a sua segunda parte, é de tal forma deprimente e eloquente sobre a desorganização e disfunção do império que o autor não consegue perceber como é os descobrimentos foram sequer possíveis. Os reis são sem glória nem visão (até D. João II é um incompetente e o único que escapa é Filipe II, que é de qualquer forma grandemente ignorado durante toda a obra) e basicamente nunca houve soldados, marinheiros, geógrafos, barcos e capitalistas cujo número e qualidade chegasse para uma aventura destas. No caso da qualidade dos soldados portugueses, Boxer parece ignorar que a tradição militar lusitana teria, à altura dos descobrimentos, uma herança de combatividade e competência muito assinalável, com vitórias épicas nas guerras fronteiriças e de reconquista. Na verdade, não há qualquer indício que a performance bélica fosse uma fraqueza do império. Dada a escala geográfica da gesta marítima, os parcos recursos demográficos da metrópole e o valor e a diversidade dos inimigos que enfrentámos, tudo indica, ao contrário, que as forças militares portuguesas se distinguiam pela sua eficiência, superioridade tecnológica e acutilância em combate.
As contradições entre os factos históricos e as conclusões do historiador são uma constante, à grande e à pequena escala. Por exemplo: nas páginas de Boxer constatamos supreendentemente que a Companhia do Brasil foi um fracassso, cujo sucesso colocou enormes problemas de sobrevivência aos portos portugueses, que sofriam como o monopólio (!). Outro exemplo: quando os padres jesuítas dão, na China, sólidos indícios de tolerância racial, fazem-no exclusivamente por pragmatismo. Mas quando em Goa recusam a equalização étnica das carreiras eclesiásticas imposta por Pombal já não são apenas ambiciosos. São racistas da pior espécie, mesmo.
É também recorrente a afirmação de que os portugueses eram um povo ignorante, conservador,  alérgico à mudança, ficando o leitor sem perceber, mais uma vez, como é que este povo assim atrasado consegui inaugurar uma época de inovação técnica e de aventura cosmopolita sem grandes precedentes na história da humanidade.
Perdido dentro dos seus próprios mal entendidos, C. R. Boxer, acaba o seu manual de história-para-inglês-ver explicando ao leitor que o Império Marítimo Português só foi possível dada a fé irracional em dois mitos inter-relacionados e alimentados por uma inexpugável fé católica: o do retorno sebastiânico e o do Quinto-Império.
Sinceramente, que tese tão fraquinha.


A Cidade Impura - Andrew Miller - Editorial Presença
Autor de "A Dor Industriosa" - um dos mais poderosos romances históriocos que li neste século (apesar do livro ser de 1997) - Andrew Miller voltou ao meu convívio com "A Cidade Impura", a história de um jovem engenheiro setecentista a quem a coroa atribui a desagradável tarefa de trasladar todos os cadáveres de um cemitério decrépito de Paris, quando a cidade está à beira da Revolução e transpira decadência por todos os lados. O resultado cede à tentação do imaginário gótico que a sinopse sugere e consegue ser elegante e sóbrio e de leitura extremamente saborosa. Mais uma pérola.


Cenas da Vida Diplomática - Lawrence Durrel - Ulisseia
Não é comum que a leitura me faça rir à gargalhada. É mesmo muito raro. Mas Lawrence Durell e as suas aventuras (contadas pelo impagável Antrobus) como diplomata na embaixada britânica em Belgrado são um fartote completo. Uma figura de vulto das letras do Século XX, poeta, ensaísta, dramaturgo e novelista, Lawrence Durrel tem uma obra que não é para brincadeiras e é por isso que ainda mais notável se mostra este livro de contos, onde o célebre humor inglês se manifesta numa espécie de crítica de costumes cínica e hilariante. Ninguém imagina o que me divertiu a leitura deste livro.


O Franco Atirador Paciente - Arturo Pérez-Reverte - ASA
Uma novela menor de Arturo Pérez-Reverte, na minha humilde opinião. E eu gosto muito dele. Mas esta viagem ao mundo secreto das tribos do graffiti não aquece nem arrefece, sinceramente, nem está especialmente bem prosada, o que não é de todo um costume deste excelente autor espanhol.


História Virtual - Coordenação de Niall Ferguson - Tinta da China
Como apaixonado da História Contrafactual, logo que vi este livro na banca da Tinta da China, na Feira do Livro deste ano, abriu-se-me um apetite imenso. Que não foi de todo defraudado por esta suculenta refeição de ensaios que exploram a probabilidade de certos episódios históricos com grande peso epistemológico não terem sucedido de todo, ou terem sucedido de forma diversa. A história é muitas vezes contingencial e muito menos determinista do que somos levados a pensar e nem tudo o que foi terá necessariamente que ter sido exactamente assim...
No final, o coordenador escreve um dos mais originais posfácios que já li na minha vida (sem nenhum exagero), ao redigir um tratado de história contrafactual em nome de um historiador que vive num mundo onde os Estados Unidos nunca foram independentes da coroa inglesa, a Europa ocidental permanece ocupada pelos nazis (com excepção das ilhas britânicas) e o bloco soviético ainda existe.
Livrinho e-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r.


A Irmã - Sándor Márai - D. Quixote
Não sei bem explicar porquê, mas desta vez, e contra o que é costume nele, Sándor Márai não me levou ao céu da literatura. Trata-se, claro, de um romance competente e intenso, característico deste ilustre romancista húngaro, mas a triste história do pianista Z., espécie de Montanha Mágica em formato de bolso, deixou-me um bocadinho indiferente.


Uma Viagem à India - Gonçalo M. Tavares - Caminho
Não é sem embaraço que confesso que este foi o primeiro e até agora único livro que li deste autor. Apesar disso, não me importo nada de afirmar já aqui que Gonçalo M. Tavares é um génio das letras do meu país. Poema épico em dez cantos, de estrutura clássica e verso livre, a odisseia de Bloom é um prodígio lírico de vanguarda, de tal forma que nem me atrevo a mais que isto:  "Uma Viagem à Índia" é uma obra prima, ponto final, parágrafo.


Paris Após a Libertação 1944 -1949 - Antony Beevor e Artemis Cooper - Bertrand Editora
Este é daqueles livros de história do Século XX que nos ajudam a perceber a Europa do Século XXI e um bocadinho do futuro que nos aguarda no Ocidente.
Retrato nú e crú da França na altura da libertação, poderosa e veeemente aguarela de uma cidade em tempo de glórias e misérias, o trabalho de Antony Beevor (de quem já tinha lido esta competentíssima história da Gerra Civil Espanhola) e Artemis Cooper vai muito fundo na análise psicológica dos protagonistas em particular e dos franceses no geral. A forma como se determinou quem era um bom francês e quem era um mau francês nestes anos do Governo Provisório e da Quarta República dependeu sempre muito da forças que exerciam o poder e durante a grata leitura da obra, ficamos a saber detalhes bem sugestivos da praxis libertadora, como por exemplo: os julgamentos a que se sujeitaram os colaborocionistas tinham como jurados elementos da resistência e familiares das vítimas da ocupação nazi. Os procedimentos do tribunal eram constantemente interrompidos por membros do júri que gritavam ameaças e insultos aos acusados. Mas ficamos também a saber factos de relevância geo-estratégica deste género: contra a vontade do Partido Comunista Francês, Estaline escusou-se à sovietização da França.  
Sobre os personagens principais, destaca-se, claro, o carácter arrogante e paradoxal de Charles de Gaulle, "o homem que sem dúvida amava a França, mas não os franceses!" e que no célebre discurso da libertação, proferido na noite de 25 de Agosto de 1944 no l'Hôtel de Ville, não foi capaz de uma palavra de agradecimento aos aliados.
Adorei este livro.


África - A Vitória Traída - J da Cruz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues, Silvino Silvério Marques - Editorial Intervenção
Documento assinado pelos governadores militares das colónias ao tempo da Revolução de Abril, este conjunto de ensaios, onde a prosa é, geralmente, pobre mas os conteúdos estatísticos são de uma riqueza extraordinária, procura demonstrar que as guerras coloniais não estavam perdidas de todo.
Por um lado, a guerra não era cara para o Estado Português: os custos militares dos diversos conflitos só acrescentavam 6 a 8 milhões de contos por ano àquilo que o orçamento geral do estado previa em tempo de paz. No treze anos em que decorreram, as guerras coloniais custaram apenas 90 milhões de contos, valor pouco significativo para um PIB anual que em 1970 era de 160 milhões de contos e que em 73 era já quase o dobro.
Nas colónias, as economias prosperavam (correspondendo ao período de crescimento recordista do PIB na metrópole: 1967-73) e a administração pública (governos civis, tribunais, escolas e hospitais) funcionava normalmente sobre os extensos territórios ultramarinos, com excepção de algumas áreas fronteiriças localizadas, onde os movimentos rebeldes tinham uma maior penetração territorial, dada a protecção e o apoio logístico que encontravam em certos países vizinhos.
Em 13 anos de guerra a permilagem de mortos anual nunca ultrapassou os 2,6, valor baixo e impressionante, principalmente se comparado com outros números de guerras coloniais em África. Um exemplo: portugal perdeu 8.131 militares nas suas várias guerras coloniais. A França perdeu 14.000 só na guerra de libertação da Argélia. Esta baixa permilagem também é significativa sobre a competência e o moral das tropas em África, que nos dois parâmetros era mais alta do que comummente se supõe.
Os autores concluem que a entrega das colónias às forças inimigas foi assim um acto político apenas, não condicionado por uma inevitabilidade militar que nunca exisitiu e que só o carácter revolucionário do evento de Abril de 1974 determinou.
Só mais um facto curioso: alguns dos generais consideram Nixon um amigo de Portugal e Kennedy um inimigo, o que só suporta uma tese que já desenvolvi aqui no blog (ponto 3 deste post).


A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares - Antígona
A Invenção de Morel é um obra basilar da escola argentina e é com embaraço que confesso a sua primeira leitura, que muito tardou. Estranha novela de carácter fantástico e borgiano (Bioy Casares e Jorge Luís Borges foram amigos a vida toda e o livro é dedicado ao biliotecário de Buenos Aires, que é também o autor do prólogo), é uma pièce de résistance que se estrutura à volta de uma ideia de eternidade que é simultaneamente romântica e perturbadora. Romance de digestão filosófica muito complicada, para voltar a ler, daqui a dois ou três anos.


A Tarde Azul - William Boyd - Relógio de Água
A história de um amor perdidio no tempo e na geografia, entrecortada pela muitas vezes esquecida guerra Filipo-Americana (1899-1902), contada por Salvador Carriscant, um médico romântico muito bem esgalhado e narrada pela sua filha. Um bom romance do autor de "Any Human Heart".


Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática - Jorge Buescu - Gradiva
Mais um condensado de pequenos ensaios que fazem uma excelente pedagogia da matemática, escrito pelo incontornável Professor Jorge Buescu, que muito contribui para o cenário positivo da divulgação científica em língua portuguesa. Muitos dos temas escolhidos desta vez são extremamente pertinentes para os tempos que correm (o caso da distância máxima entre números primos e o estado caótico em que se encontra a publicação online de artigos científcos, só para dar dois exemplos) e o livro lê-se melhor que um romance de aventuras. É provável que os assuntos tratados nesta obra regressem aqui ao blog, como já aconteceu anteriormente com outros textos do Professor.

John Cleese compara.


sexta-feira, janeiro 02, 2015