quinta-feira, dezembro 31, 2015

Homilia de Ano Novo.

Fotografia de Michael Najjar


O mundo encolhe a cada ano que passa e de tal forma
que esta é a nova teoria do caos:
o mau hálito do imã de Islamabad
infecta o ar de Paris.

A aldeia global, sabemos agora, é um pesadelo enorme,
maior que a aldeia.

Estamos todos ligados e isso
não é nada bom.
Tiramos e atiramos auto-retratos desesperados
para dentro da rede e isso
é super aborrecido.

Estamos todos apertados na quadratura deste círculo planetário,
bordel conspícuo e perverso de tudo,
micro-cosmos mal educado e selvático,
repleto de lojas chinesas que cheiram a caril
e restaurantes italianos com móveis do Ikea.

E assim encapsulados no grande calabouço do humanitarismo,
entregámos a defesa do Ocidente aos socialistas
e a indústria aos ambientalistas
e a religião aos cientistas
e a ciência aos filósofos
e a verdade aos jornalistas;
entregámos até o espaço sideral à ganância
de capitalistas arrependidos que fabricam automóveis eléctricos
e ao diletante capricho de outros milionários que só querem
fazer turismo.

O Sapiens 2.1 é uma raça de turistas.
Tudo o que o homem contemporâneo deseja, com fervor fanático,
é enfiar-se num low cost desconfortável que o leve
para um inferno diferente
do inferno de que é nativo.

Os infernos são todos iguais
e o Sapiens 2.1, o mais pueril de todos os sistemas operativos,
o mais insensato de todos os desenhos inteligentes,
ainda não percebeu isso.

Depois de termos assassinado os deuses
naquela que foi afinal a maior chacina da história da humanidade,
parece que chegou a vez de enterrar também
a dignidade.

À beira do abismo, damos um passo em frente,
e a tragédia não está na queda.
A tragédia está no fim
da aventura.

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Bons negócios, maus negócios e sexo anal.

Diz o inenarrável Bruno de Carvalho, a propósito do negócio da china que acabou de fazer: "É uma conta de somar simples". E, por uma vez na história universal da infâmia, o infame tem razão. Sabemos agora que Luís Filipe Vieira foi enganado. E que foi enganado da forma mais humilhante possível. O clube do bairro do Lumiar, agremiação sem expressão sociológica de significado a que decidiram um dia, apostando na hipérbole, chamar Sporting Clube de Portugal, conseguiu fechar com a mesma operadora de telecomunicações um negócio que de facto será pelo menos igual àquele que foi concretizado com o Sport Lisboa e Benfica, um dos maiores clubes do mundo precisamente nos índices em que o Sporting não tem significado: o demográfico.
 Ora, a variável demográfica é precisa e necessariamente aquela que preside à ponderação financeira de um negócio deste género, que se baseia na expectativa de generosas audiências televisivas. E é por isso que a matemática é de grande simplicidade. Como é que o Sporting consegue fazer o mesmo género de negócio que faz o Benfica, se não pode, objectivamente, garantir o mesmo volume de audiências? Só há aqui uma resposta. Porque do lado do Benfica negociou um palerma. E não que Filipe Vieira tenha a desculpa de que do lado do Sporting tenha negociado um génio. Muito pelo contrário, Bruno de Carvalho não passa de um imbecil. Mas um imbecil que fez um bom negócio e que deixou o infeliz Presidente do Benfica com um punho enorme enfiado no anús.
Os benfiquista já estão habituados a serem violentados analmente por Pinto da Costa. E foram-no mais uma vez, também a propósito dos valores que o F C. Porto vai receber da MEO. Mas é uma novidade bastante dolorosa passarem a ser, acrescidamente e com regularidade assaz assustadora, enrabados pelo Sporting.
E se no campo desportivo ainda nos podemos queixar da bola ser redonda, como justificar que um clube que é indiscutivel e incomparavelmente rei das audiências nacionais receba invariavelmente (porque esta história, na verdade, não tem nada de novo), o mesmo dinheiro que os seus directos rivais pelos direitos das transmissões televisivas? Só há um responsável por este vergonha, claro. Mas parece que os benfiquistas não conseguem enxergar a evidência. Parece que os Benfiquistas adoram o presidente que têm.
Tudo isto é estúpido e a parte mais estúpida de tudo isto é que eu também sou benfiquista. Eu também sou constantemente enrabado. E digo-vos: não é nada agradável.

terça-feira, dezembro 29, 2015

O pi(piii!!)ropo


POR MÁRCIO ALVES CANDOSO

'Como não podem saber o que vai ou não ser considerado crime, calem-se'. 

Quase a terminar o ano, a deputada - para simplificar - Isabel Moreira enunciou uma frase que é séria candidata ao insígne louvor de 'mais fascista de 2015'. Falava a senhora - espero que 'senhora' não seja considerado insulto - do coelho fora da cartola que decorre de uma alteração do Art. 170 do Código Penal, proposto e votado pela silenciosa e bovina maioria parlamentar que então dominava o Parlamento.

Não, criaturas e outras pessoas que me lêem, não foram as deputadas expressionistas e cubistas do BE quem aprovou a criminalização do piropo - ou da ordinarice de andaime, ou lá o que é, que ninguém sabe o que é, e daí a minha escolha de epígrafe, da voz mal colocada da senhorita Moreira: na dúvida - que me assiste - 'calem-se!'

Foram mesmos as/os do PSD/CDS. Pelo 'calor da noite' augustina - não confundir com a bela e atraente escritora de Aldoar, refiro-me mesmo ao mês das férias -, o Parlamento votou favoravelmente uma alteração legal que, analógica ou extensivamente interpretada, permite meter na cadeia o trolha que lance um 'se te trincasse nunca mais engripava, tens um cu tão redondo que pareces uma aspirina' (esta foi inventada mesmo agora, haverá melhores, não sou especialista).

Há homens muito malcriados e sem imaginação nenhuma. Há, não tenho dúvidas, machos que deviam andar açaimados, e cuja única hipótese de não se coçarem em público com sorriso alarve era que lhes tirassem as unhas, os tomates e lhes cosessem a boca.

Mas o Direito, amigos, a Ordem Jurídica, não foi inventada para tomar conta destes afins. É uma ciência nobre, dedicada a definir contratos, punir desvios e sanar conflitos. E não gosta nada, nem um nadita mesmo, de leis em barda. Quanto mais simples, mais entendível e facilmente aplicável. Se já existe o assédio sexual - e bem -, porque raio se há-de punir o piropo, quando nem sequer a senhora dona Isabel Moreira sabe do que se trata?

Para minha grande felicidade, conheço umas dezenas de mulheres bem-criadas que se riem, gostam ou pura e simplesmente ignoram o piropo que lhes é lançado. Isto em consequência de ele ser engraçado, andar perto do galanteio - ainda que com alguma brejeirice associada, por exemplo (e já disse que não sou especialista), 'gostava imenso de tomar o pequeno-almoço consigo, pode vir ter a minha casa por volta das onze da noite?', ou - e esse é o caso limite - não passar de uma boçalidade insanável. Mas, que eu saiba, os trolhas cheios de cal nas calças e cimento nas unhas, que cospem para o chão e bebem minis pelo gargalo, também se casam.

As 'democratas' senhoras que penalizam a puro piropo - o tal de 'na dúvida calem-se' - nem sequer percebem (digo eu, que sou um optimista) a camisa de onze varas onde se meteram. Graças a Deus, há-de continuar a haver homens que seduzem pela palavra, que ficam viradinhos dos olhos perante a beleza feminina que passa pela praia de Ipanema e que, uma ou duas vezes na vida, se passam de tal maneira que sacam flores do canteiro mais próximo para oferecer a uma - por exemplo - desconhecida.

E claro que haverá uns apalpões no autocarro. São comportamentos desviantes, que em princípio se resolvem com uma belo par de estalos, mas que, sim senhor, se for caso disso podem chegar a entupir o tribunal de todas as maldades. Mas poupem-me. No mínimo, deixem-me dizer isto: 'ó querida, deves ser relojoeira; quando chegaste tinha o ponteiro nas seis e mal te vi passou para o meio-dia! 

'Take care' e mini-saias travadas.. Ou burkas, se lhes ficarem bem!

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Dezembro Barroco #5



Johann Sebastian Bach . Concerto for two Violins d-minor Mayumi Hirasaki 1st violin . Daria Zappa 2nd violin . CHAMBER ARTISTS ORCHESTRA (CHAARTS)

segunda-feira, dezembro 21, 2015

domingo, dezembro 20, 2015

Mais ou Menos Arnaldo.

POR MÁRCIO ALVES CANDOSO

Muitas pessoas consideram Arnaldo Matos um louco, um insensato, mas não um tipo perigoso. Talvez. Mas nunca fiando. E, além do mais, se se arroga o direito a escrever numa publicação partidária, deve ser levado a sério. Hoje é apenas um pascácio, amanhã pode tornar-se num vírus.

Tive o cuidado de ler o seu 'editorial' no jornal do MRPP. Passo de largo pelas patetices políticas 'revolucionárias' e pelas teses hilariantes sobre o marxismo-leninismo. São arqueologias sincréticas sem qualquer interesse, a não ser o facto de ainda existirem na cabeça de um burro.

Mas não posso deixar passar em claro o que verdadeiramente impele à escrita o 'camarada educador' do raio que o parta. O homenzinho assegura que os 'revolucionários' que se fizeram estoirar em Paris, matando 130 pessoas e ferindo mais de 300, não podiam permitir que os franceses julgassem 'ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan'. Verbera ainda os que não compreendem - não aplaudem? - os 'combatentes franceses' que 'fizeram explodir o Charlie Hebdo'.

Isto, meus caros, é crime. Considerar motivo de aplauso um crime - seja ideológico, fanático, religioso ou qualquer outra coisa - é igualmente crime. De peidola sentada na cadeira do inferno que preconiza, Matos pode ter as opiniões mais parvas que a sua alucinação inventar, falar mal do 'imperialismo' francês, da 'burguesia', do 'revisionismo', do que lhe der na retorcida mona.

Mas eu não lhe dou o direito de gozar com a minha civilização. E esta está muito mais na alegria das pessoas que frequentavam o 'Bataclan' ou os cafés de Montmartre, na pena dos cartoonistas que ironizavam com o fanatismo do que em qualquer eventual 'liberdade' de cagar as postas de pescada que o Arnaldo congemina.

A minha civilização não é o caderninho do Mao ou os insectos que a triste figura chinoca mandou matar, matando à fome os milhões de pessoas que dele necessitavam para polenizar os cereais. Não é o 'holomodor' de Estaline, que exterminou milhões de cidadãos ucranianos por se oporem à ditadura e quererem considerar seu o que seu era.

A minha civilização é o 'chanel nº5' como é Proust ou Françoise Sagan. É Oscar Wilde como Jack Kerouac ou Francisco I. São os tipos que tocavam no 'Bataclan', dos quais nem decorei o nome, mas que sei que agradavam a milhares de pessoas livres. São os copos de 'Beaujolais' ou as fatias de 'Brie' que se degustavam nas esplanadas do 'La Bonne Bière' ou na do 'Le Carillon'.

O Arnaldo é uma porcaria. Nunca saberá o que é ser feliz, por um instante que seja. É um falso transgressor, que só entende a punição como modo de vida. E o ódio que tem à alegria é a descrença que vê reflectida na figura que está no espelho nos dias em que lava a cara.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Dezembro Barroco #4



Vivaldi - Piccolo Concerto in C Major, RV 443 - Il Giardino Armonico

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Está quase.




Este cão vai morrer.
Está quase.
Já só falta Deus dizer: morre, cão.

Este cão é uma enorme parte da minha vida
e eu, sem ele, sou menos eu.

O Óscar, quando morrer, vai roubar-me um nome, pelo menos.
Vai roubar-me uma parte de mim e a parte que me vai roubar
é a parte feliz.

Ter um cão como o Óscar é como ter
um amigo perfeito.
E como ninguém tem isso,
eu era contente com o Óscar que tinha.

Estou a falar no passado porque o Óscar que tenho agora
é apenas um mortal que está è espera da benção última.

Porque o Óscar que tenho agora
é o sábio máximo.
Desconfio que o que ele quer mesmo,
realmente,
é morrer.

E nenhuma paz de túmulo
é capaz de merecer este cão.

A mortalidade do Óscar
é um argumento ontológico
a desfavor da existência de Deus.

O Óscar devia viver para sempre.

O Óscar devia viver para sempre.

O Óscar devia viver para sempre.

Puta que pariu os deuses;
os deuses religiosos, filosóficos e científicos:
eu podia morrer já.
O Óscar devia viver para sempre.

E se isto não é verdade,
tenho muitas dúvidas sobre
a verdade.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Dezembro Barroco #3



The Mormon Tabernacle Choir and Orchestra at Temple Square perform "And the Glory of the Lord" from "Messiah," by George Frideric Handel.

Jornal de Letras . Brasil: Uma Biografia

Crónica publicada a 29/10/15





























"Esta terra ainda vai cumprir seu ideal:  
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!
Chico Buarque


O Brasil como anti-herói.

A biografia é, regra geral, um género literário que se desenvolve sobre a vida e a obra de um indivíduo. Ao relato da vida e da obra das nações, estamos habituados a chamar História. Porém, Suetónio, o eterno biógrafo dos 12 primeiros césares do Império Romano, discordaria muito provavelmente desta assumpção. Já Braudel, para dar um carismático exemplo, nunca aceitaria que a História fosse contaminada pelo carácter errático e insignificativo dos líderes que a protagonizam. Rebentado completamente com esta aborrecida conversa, Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, as autoras de “Brasil: Uma Biografia”  (Temas e Debates, 2015), experimentam um género novo: uma síntese subjectiva e saborosa da história do seu país, visto como um personagem. E o personagem é um anti-herói à procura da redenção.

Naturalmente, o livro lê-se como um romance de aventuras. E precisamente porque recusa os cânones do ensaio historicista, as expectativas de rigor académico não podem ser tão altas como as do puro prazer da leitura. A obra tem umas boas 70 páginas de notas e referências bibliográficas, as autoras são distintas académicas do seu país, mas há um indisfarçável entusiasmo de opinião no correr de discurso que cativa e entretém e polemiza, mas que nem sempre convence. Há uma certa ligeireza na narrativa, quando se produzem afirmações lapidares como a de que o Ciclo do Açúcar no Brasil resultou na “maior importação forçada de trabalhadores africanos até hoje conhecida“, sem uma nota de rodapé que ajude a eloquência.

As autoras assumem, logo na introdução, um destino para o seu personagem: uma república à procura da utopia pela superação dos problemas étnicos e raciais, das disparidades económicas e dos atavismos ancestrais. Trata-se, claro, de uma biografia ideológica. Assar uma pessoa e comê-la, para honrar o deus da guerra, é bom. Assá-la sem a digerir, para honrar o deus católico, é mau. Temos colonizadores simpáticos (os holandeses são espectaculares) e temos colonizadores do género Darth Vader (adivinhe quem são, caro leitor). Temos ditadores razoáveis (Getúlio Vargas) e ditadores execráveis (os da junta militar). Temos um sistema esclavagista horroroso (o dos senhores do algodão na Virgínia) e um sistema esclavagista ainda pior (o dos senhores do açúcar em Pernanbuco). Temos regentes patéticos (D. João) e grandes líderes (Lula da Silva); partidos do mal e partidos do bem, governadores corruptos e impolutos, presidentes capazes e incapazes, etc., etc. Sendo que o critério entre o que é bom e o que é mau nunca transgride uma monótona versão sul-americana do que hoje em dia chamamos politicamente correcto.


O problema Portugal.

O leitor luso poderá ficar surpreendido pela criatividade da escrita em Português do Brasil. É que vai descobrir todo um léxico que o acordo ortográfico não alcança: para além do muito frequente e divertido uso dos verbos pipocar (estalar) e cultuar (prestar culto), ficamos a saber, por exemplo, que uma atitude pode ser dadivosa ou desabusada. O modelo económico no Brasil do século XVIII era escravista, uma coroação tem exuberância espetaculosa e, quando odiamos, estamos a manifestar um desafeto. Uma coligação é uma coalizão, uma amnistia (do grego amnestía) é uma anistia e, claro, quando alguém desaparece, dá-se uma desaparição. Na verdade, estas dissonâncias são até bem-vindas e, de qualquer forma, património da língua de Camões, no sentido estrito, lato e translato. Mas seria talvez justo que todos os que falam e escrevem o Português tivessem também essa mesma e imaginativa liberdade.

Notará também o leitor português a escassa consideração que é manifestada pela nação que afinal criou e unificou o Brasil. Os descobrimentos portugueses duram, num livro com 516 páginas de narrativa, uma página e meia. Os descobrimentos espanhóis ocupam igual página e meia, embora não se perceba, comparativamente, a importância destes últimos.

Dolorosamente entalada entre duas superpotências da altura, a França de Napoleão e a Inglaterra de Jorge III, a diplomacia de D. João, o príncipe regente, é, nesta obra, bastante caricaturada. Mas, dadas as contingências óbvias, não se percebe muito bem a análise crítica de Schwarcz e Starling, que evitam a enumeração de possíveis políticas alternativas. Caricata sim, será a fuga da corte para o Brasil e não a política de neutralidade seguida até aí. Porém, talvez porque é precisamente essa fuga que está na origem da independência do Brasil, não se encontra na obra uma crítica a esse ridículo e inédito episódio.

As autoras não gostam mesmo nada do Príncipe Regente e não cuidam muito em esconder a antipatia: as punições duras e exemplares de D. João sobre os revoltados são horríveis. As punições igualmente duras e exemplares do D. Pedro I, já imperador do Brasil independente, são muito menos pavorosas. A certa altura, parecem até desconhecer que Bocage não é apenas o nome de um papagaio de bordel e, quando chegamos ao capítulo da Primeira República, o modernismo de 22 é glorificado e são registadas todas as influências europeias, mesmo as menos influentes, com a escandalosa omissão da geração de Orpheu, o que é estranho, sabendo-se o peso cultural que Pessoa e Almada ainda hoje têm no Brasil.

A citação preferida desta obra, mencionada várias vezes no texto, é: “Antes dos portugueses terem descoberto o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade“. Da autoria de Oswald de Andrade, a tirada é deveras inócua – pela simples razão de que o Brasil, como entidade geopolítica, antes de ser descoberto não existia -, mas sobretudo porque é de uma ingenuidade gritante. Objectivamente, sabemos muito pouco da vida dos indígenas antes de Álvares Cabral ter chegado ao Brasil, porque antes disso não existia, naqueles territórios do mundo, a disciplina da História. Não sabemos se eram mais felizes ou menos felizes, mais gordos ou mais magros, mais doentes ou mais saudáveis, mais quezilentos ou menos quezilentos. Não é por acaso que as duas académicas, na estrutura da sua narrativa, regressam ao tempo de antes do Descobrimento depois de relatarem o evento do Descobrimento. E reconhecem também que as tribos ameríndias já detinham aparelhos bélicos vastos e formais antes de serem “achados” (claro que, neste contexto, o verbo descobrir nunca é conjugado).

Esta ingenuidade é aliás transversal a toda a obra. Enquanto os brancos são uma praga do diabo, os índios são uma benção de Deus. Isto apesar do que recentes estudos têm vindo a demonstrar: na análise de mortes violentas per capita, a sociedade brasileira actual é muito menos perigosa do que a as sociedades ameríndias eram antes que os brancos infestassem o continente sul americano (1).


O Ciclo do Açúcar e os holandeses voadores.

De qualquer forma, o retrato do Brasil seiscentista é rico e detalhado, conduzindo o leitor para uma terra exótica, imensa, difícil. Um paraíso tropical e um inferno de horrores. Principalmente quando entramos no Ciclo do Açúcar, a primeira experiência económica globalmente significativa da colónia.

Neste segundo capítulo deparamos com um erro crasso, algo estranho, logo à partida, quando é afirmado que “os seres humanos fazem comida com praticamente tudo o que encontram.” Não é verdade. Os seres humanos alimentam-se de muito poucas espécies vegetais e animais, se considerarmos a totalidade das espécies potencialmente comestíveis (2). Mas a descrição do processo de cultivo da cana e produção do açúcar é descrito com detalhe e erudição, e encontramos neste capítulo raros momentos da clarividência que fogem ao politicamente correcto: é de facto preciso dizer, como aqui é dito, que antes dos brancos católicos eram os muçulmanos que controlavam o mercado esclavagista em África, principalmente na costa do Índico. E, do lado do Atlântico, eram os nativos que capturavam os escravos, lucrando também e substancialmente com o comércio infame.

As autoras dominam o processo esclavagista e detalham com rigor a sua iniquidade. Mas a tese de que a escravatura era mais dura no Brasil do que em qualquer outro lado do mundo, à altura, e que, consequentemente, os escravos seriam aqui mais rebeldes, fica claramente por demonstrar. Seja como for, e porque “não há escravatura boa ou má“, com a servidão e a brutalidade surgem as primeiras revoltas de escravos, percursoras de uma longa e agitada novela de levantamentos que mercam indelevelmente a história do Brasil.

Talvez porque Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling tenham ascendência anglo-saxónica e/ou protestante, a simpatia pelos holandeses é evidente e, em certos aspectos, ridícula. Entre 1637 e 1654, a ocupação pirata do Recife é apresentada como um evento de progresso, prosperidade e ordem pública. Nassau é descrito como um aristocrata genial e governador iluminado como nenhum governador português terá sido. Omitindo o prejuízo económico devastador que os holandeses causaram à colónia e o carácter violento e corsário das suas investidas no Recife e em Pernambuco, estas páginas são de tal forma desviantes que o leitor fica com a sensação, obviamente errada, de que a economia esclavagista do ciclo do açúcar é apenas brutal quando conduzida pela coroa portuguesa.

O domínio do comércio do açúcar que os holandeses conseguem de facto estabelecer a partir da segunda metade do século XVII também é descrito de forma um pouco sensacionalista e, em algumas partes, em desacordo com autores de referência sobre este assunto, como Charles R. Boxer (3).

Neste capítulo, desenvolve-se a tese de que a violência no Brasil e o crónico deficit de cidadania resultam de um passado esclavagista e latifundiário. Este argumento não é disparatado, mas a objecção está no exemplo norte-americano: a cultura do algodão nos estados do sul foi esclavagista e latifundiária na mesma medida, e será pelo menos polémico afirmar que os americanos contemporâneos pensem no seu país como deficitário de cidadania.


Minas, utopias e revoltas.

É quando chegamos à era da actividade mineira que a narrativa ganha intensidade. Também aqui, é revelado um talento inegável para a composição de grandes aguarelas de época. O fresco está impecavelmente construído e detalhado. Mas o que prende mais o leitor será a dicotomia entre a utopia e a violência. A par dos experimentalismos idealistas que emergem nos quilombos (comunidades de escravos fugidos), nas breves experiências republicanas das localidades mineiras e no radicalismo das comunidades jesuíticas (S. Paulo tem origem numa destas comunidades), a colónia vibra de convulsões sociais.

Para além das constantes investidas de holandeses, franceses e espanhóis, a coroa tinha ainda que lidar com revoltas constantes. Em 1661, a Revolta da Cachaça; em 1666, a de Pernambuco; em 1671, a Sergipe Del Rei; em 1684, a Revolta do Maranhão; em 1710, nova revolta em Pernambuco; em 1711, os Motins do Maneta, em Salvador; em 1720, a Sedição de Vila Rica; em 1736, os Motins do Sertão e entre 1780 e 1788, a Conjuração Mineira.  Nestes conturbados tempos, os levantamentos populares aconteciam por dá cá aquela palha. Se não fosse por causa dos impostos excessivos, seria pela corrupção dos governos locais. Agora era o preço do sal, depois seria a proibição da fazer escravos entre os nativos. Há até revoltas que surgem para “acudir ao chamado do sino que alguém – não se sabe quem – tocava furiosamente no alto da torre da Câmara Municipal.

As rebeliões tinham como resultado a morte de jesuítas e governadores, a destruição e saque de propriedade e a tomada do poder local, mas não contestavam a coroa nem sonhavam com a independência. Os rebeldes expressavam geralmente lealdade ao soberano, amaldiçoando sim os detentores do poder intermédio que não defendiam devidamente os seus interesses junto das autoridades na metrópole. Entre eles, há grandes personagens. Gente valente, excêntrica e malandra como o Padre José da Silva e Oliveira Rolim, conjurado mineiro, falsificador, prestamista, traficante, contrabandista e aventureiro. Gente determinada e versátil como o famoso Tiradentes, propagandista da Conjuração, feiticeiro, médico e farmacêutico, que depois de enforcado foi esquartejado. Gente como Frei Joaquim do Amor Divino, mais conhecido por Frei Caneca – revolucionário dos sete costados e grande inimigo da ortodoxia católica do seu tempo. Gente como Bento Gonçalves, o líder da Rebelião Farroupilha e famoso escapista, que, numa das vezes em que se preparava para fugir da prisão, acabou por se resignar ao cativeiro, já que o seu colega de cela, indivíduo obeso, não cabia no túnel que tinham escavado. Gente como os levantados de Salvador que, interrompendo o ímpeto sanguinário para a devida contrição à passagem de uma procissão improvisada com o propósito de serenar os ânimos, retomam a matança indiscriminada com renovado zelo cristão, depois de transitado o cortejo religioso.


Fuga para a colónia.

Entretanto, na Europa, o ambiente é irrespirável, principalmente para o regente D. João, que depois de exasperar Napoleão com a sua lenta, irritante e prudente diplomacia acaba por fazer estalar o mau feitio do imperador francês. Sem margem de manobra e temendo as consequências de entregar a coroa ao desmando de Junot, D. João decide empreender a primeira e única transladação de uma corte imperial para uma colónia na história da humanidade.

O relato da fuga, que se dá já com o exército francês às portas de Lisboa, é entretido, colorido e muito de acordo com a recente e aclamada obra do australiano Patrick Wilcken (4). Apesar da confusão do embarque de 15.000 pessoas num curto hiato de algumas horas; apesar do caos e da precipitação; apesar do desespero de quem ficava, apesar do pânico de quem partia; é bem registado nestas páginas que não houve violência nem se registaram baixas, facto que raramente é mencionado – e valorizado – quando este assunto é discutido. E, apesar da impreparação logística, das 2 tormentas que assaltaram a frota, da falta de higiene, de água e de comida, a viagem decorreu também sem óbitos ou naufrágios, fenómeno espantoso, dado o contexto da odisseia. Ironia das ironias, o exército de Junot chega a Lisboa num estado lastimável, triunfante mas famélico e com pouco mais de 6000 homens, metade das tropas que tinham partido de Espanha.

Não é explícito no texto, mas percebe-se bem, neste capítulo, porque é que os ingleses tanto pressionaram a coroa portuguesa para desobedecer aos ultimatos de Napoleão. Com a ocupação francesa da metrópole, dá-se o fecho do mercado exportador português e francês. Em consequência, os ingleses passam a exportar de tudo para o Brasil, mesmo os artigos mais disparatados, incluindo patins de gelo (!). Dentro da mesma lógica, a crescente hostilidade da coroa britânica ao comércio de escravos no Atlântico sempre aconteceu mais por razões económicas e imperialistas do que por convicção humanista. Enquanto Jorge III governou a América, a mão-de-obra escrava utilizada nos campos do algodão não lhe incomodava a sensibilidade.

Quando D. João e a sua corte chegam ao Brasil, são recebidos por uma colónia onde “pipocam” demonstrações de apoio à coroa e de júbilo pela escolha do Brasil como destino da fuga. A corte instala-se no Rio de Janeiro e, mais uma vez, o relato destes anos é rico em textura e pormenor. Entre a sumptuosidade da realeza e a brutalidade exótica da colónia tropical, há um universo prolixo de contrastes. O Rio é, nas palavras de um viajante inglês “uma das mais sujas associações de seres humanos sob o céu” e o Brasil é “a terra das bofetadas“, única forma eficaz de contrariar a voracidade dos mosquitos.


Finalmente, a independência.

Os anos de exílio da corte no Brasil vão passando e a continuada instabilidade geo-política na Europa leva D. João a permanecer na colónia e a elevá-la a reino e sede do império, 7 anos depois de ter chegado. Com a queda de Napoleão e já coroado Rei depois da morte de sua mãe, D. João decide, em 1821, voltar à metrópole, deixando o filho primogénito, D. Pedro, como regente do reino do Brasil. Mas logo no ano seguinte, D. Pedro solta o famoso Grito do Ipiranga, lenda que as autoras respeitam como se de um facto histórico se tratasse, e que se deveu substancialmente às políticas quezilentas e irrealistas das cortes em Portugal, bem como ao facto mais prosaico de D. Pedro ter sido entretanto deserdado da coroa portuguesa em benefício do seu irmão mais novo, Miguel. Seja como for, em 1822 o Brasil ganha a sua independência.

Todo o processo foi de certa forma inédito: decorreu do transporte da corte para o Brasil e, depois, da instauração de uma monarquia independente pelo herdeiro da coroa imperial, quando na América do Sul a tradição independentista era profundamente republicana. A monarquia, que valeu no Brasil primordial como um polarizador identitário fortíssimo, constituiu uma forma bem-sucedida de manter a nação unida, ao contrário do que aconteceu com os territórios de língua castelhana, que se fragmentaram nas diversas repúblicas bolivarianas que conhecemos hoje. Mesmo assim, tratava-se de um regime profundamente anacrónico e contraditório: liberal e esclavagista, constitucional com tiques absolutistas, o Brasil de D. Pedro não é propriamente um estado do iluminismo. E, apesar da imagem literária do príncipe rebelde, o regime não respirava o oxigénio romântico da altura. Os acontecimentos da primeira Constituinte de 1823, que o Imperador mandou dissolver com argumentos de baioneta e a carta constitucional, draconiana, imposta por D. Pedro em 1824, pesam excessivamente na balança para podermos fazer outra análise.

Mas, algo estranhamente, sem concluir sequer 10 anos de reinado e abandonando os seus três filhos legítimos  (levou consigo apenas a filha bastarda), D. Pedro abdica e parte para Portugal, deixando o país para mais de dez anos de regências. Esta desistência nunca chega a ser bem explicada, na verdade. Podemos no entanto equacionar que o imperador não estaria à espera das contrariedades políticas que decorrem dos estados constitucionais e das complexidades regionais de um reino imenso, multi-étnico e fragmentado. Conta também para este totobola a oportunidade de recuperar a coroa metropolitana. Ironicamente, dado o seu registo de governante conservador, D. Pedro junta-se às hostes liberais, contra o seu irmão, na guerra civil que assola Portugal.

Com a retirada de D. Pedro, recomeçam os levantamentos a sério: a Cabanada de 1832 – reaccionária e restauradora, com 1072 presos e 2300 mortos; o Levantamento do Quilombo de Uribo, o Levantamento dos Malés na Bahia, interpretados exclusivamente por escravos muçulmanos, em 1835; a Sabinada de 1837, outra vez na Bahia; a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos iniciada em 1835 mas que trouxe dez anos de guerra no Rio Grande do Sul; A Balaiada no Maranhão – com 12.000 mortos no ano de 1838; e, como se não bastasse, à convulsão generalizada somaram-se as guerras fronteiriças com o Uruguai e com a Argentina.

Graças à vitalidade própria das nações do novo mundo, e também à precocidade de D. Pedro II, o Brasil soube porém prosperar. O fim das regências trouxe a paz militar e social. O reinado voltava a circular uno à volta de um imperador moderno, finalmente romântico, apreciador das artes e das ciências, sensível e moderado. Pai e filho, os imperadores iniciáticos da nação sempre se preocuparam em encontrar um difícil elo de fusão cultural e estética entre as suas grandiosas origens dinásticas (estes dois Bragança eram também Bourbons e Habsburgos) e as idiossincrasias do império tropical. O filho foi melhor sucedido do que o pai, recorrendo ao imaginário da arte nativista e absorvendo-o como símbolo da coroa.

O ciclo de paz e prosperidade terminou com a Guerra do Paraguai. A vitória, muito pesada em mortos, assinala o apogeu e início do declínio da breve monarquia brasileira. Para além das rebeliões internas e das escaramuças fronteiriças, o Brasil não tinha uma história militar bem sucedida e a guerra com o Paraguai, apesar de ser travada contra uma força muito mais pequena e frágil, durou cinco dolorosos anos e custou cinco mil mortos e 20 mil feridos, dando lastro e margem de manobra aos movimentos abolicionistas e republicanos. Num ápice, o imperador passa a “emperrador”. Dado o seu carácter indeciso e a proverbial tendência para a inação, D. Pedro II assina a abolição da escravatura apenas em 1888, 66 anos depois da independência e 56 depois de ser coroado. Era tarde demais. No ano seguinte, uma operação militar relativamente discreta e sem apoio popular, faz cair a monarquia. D. Pedro II estava completamente alheado do processo revolucionário em curso e era de tal forma desrespeitado pelas elites militares que foi informado da sua destituição por uma comitiva de oficiais subalternos.


Até que enfim, a República.

A república manteve o carácter oligárquico das eleições que a carta constitucional de D. Pedro II tinha estabelecido. E criou uma elite militar que iria marcar a traço vermelho o futuro da nação e que começou cedo a mostrar o seu temperamento difícil. Em 1891, a Revolta da Armada faz cair Deodoro da Fonseca, o marechal que, entretanto, tinha mandado fechar o Congresso. Em 1893, nova revolta na marinha que visava destituir o marechal Floriano Peixoto, vice-presidente de Deodoro, que aproveitou a queda deste para usurpar o poder. Entrementes, eclode uma intentona federalista no sul do país, que dura dois anos. Finalmente, em 1894, cinco anos depois da instauração do regime, dão-se as eleições para o primeiro governo civil. Porém, no Brasil profundo, há forças reaccionárias em ascensão. O coronelismo, uma oligarquia atávica e violenta de latifundiários militarizados e plenipotenciários vai reduzir a margem de manobra da República e criar uma mão cheia de inimitáveis vilões para as futuras produções da Globo.

Esta é a época da imigração. Com a abolição da escravatura, a mão de obra é bem vinda e necessária. Entre 1904 e 1930 chegam 79.000 imigrantes ao Brasil – um terço eram portugueses, mas há italianos, franceses, alemães e até japoneses. Na maior parte dos casos, o sonho de uma vida melhor acabava num destino de servidão. Esta é, também, a era da borracha, que foi breve mas suficiente para aburguesar o estado de Manaus em particular e o Norte em geral. Mesmo assim e apesar de uma visível tendência para a urbanização e a modernização infraestrutural, a sociedade brasileira mantém-se essencialmente rural. E teimosamente instável: os primeiros 20 anos do século XX mostram de novo o país tumultuoso e convulso. Em 1904, a Revolta do Rio nasce pelo descontentamento popular em relação às medidas que visavam erradicar as doenças endémicas. O país é um “imenso hospital”. As pessoas morrem aos magotes, vítimas de cólera, febre amarela, varíola, peste bubónica, doença das chagas, paludismo e uma quantidade inumerável de infecções do tracto digestivo.

De 1910 a 1920, surge um novo ciclo de sobressaltos revolucionários. A Revolta da Chibata, levantamento de marinheiros (ainda e sempre a marinha!) contra a aplicação de castigos físicos, a Revolta da Escola Militar da Praia Vermelha, a Revolta dos Sargentos e a Primavera de Sangue, são movimentos militares. Mas a estes junta-se a proverbial rebeldia civil, com os levantamentos do Contestado, do Jaazeiro, do Caldeirão, do Pau-de-Colher e dos Canudos.

O levantamento de Canudos, talvez o mais expressivo desta época, tem origem numa comunidade com o mesmo nome, que ensaiou uma modesta utopia baseada na pequena propriedade rural. Os vários exércitos enviados pela república foram sucessivamente derrotados até que a última excursão militar, armada até aos dentes, prometeu poupar as vidas dos rendidos, de forma a evitar mais baixas. A promessa foi, no entanto, ignorada e a maior parte da população foi fuzilada. Os poucos revoltosos que sobreviveram à chacina foram viver, em condições miseráveis, para os subúrbios do Rio de Janeiro, dando início à tipologia da favela, uma planta muito comum na região de Canudos.

Para ajudar à festa, a imigração, principalmente a imigração italiana, trouxe o anarco-sindicalismo e a consequente organização política dos trabalhadores, pelo que estes primeiros anos da república foram marcados por um surto recordista de greves operárias. Entre 1900 e 1920 decorreram cerca de 400 (!).
No que diz respeito aos direitos civis, o novo regime não trouxe melhorias por aí além. Os negros libertos e seus descendentes lutavam com enormes dificuldades para aceder ao mercado de trabalho; os índios, que entretanto tinham perdido o estatuto simbólico que a monarquia utilizara para se legitimar, eram agora perseguidos ou ignorados. Por outro lado, a lei eleitoral permanecia extremamente restritiva: numa república de coronéis, votavam em 1930, 5,6% dos cidadãos.


A República segundo Getúlio.

A Segunda República resulta de uma parafernália de conspirações, assassinatos, rebeliões, disputas regionais, fraudes eleitorais e inconformismo com os respectivos resultados. O regime decaia para o caos. A revolução de 1930 é organizada e executada com precisão militar, aniquilando a República Velha e colocando Getúlio Vargas no poder. Getúlio fundou uma ditadura de inspiração trabalhista, que durou 15 anos. Reformou a administração pública e deu direitos e garantias aos trabalhadores, proibindo em simultâneo os movimentos operários e os partidos comunistas. Quando em 1932 o estado paulista ateia a fogueira do separatismo e pega nas armas (“Por S. Paulo com o Brasil, se for possível; por S. Paulo e contra o Brasil, se for preciso.”), Getúlio Vargas conta com o apoio popular e dos militares para ganhar a guerra.

Em 1933 a lei eleitoral concede pela primeira vez o voto universal e as eleições resultam numa constituição tendencialmente inclusiva, que obrigava ao equilíbrio de poderes. Porém, as múltiplas e impenitentes insurreições militares de inspiração marxista nos anos 30 ofereceram a Getúlio a desculpa que precisava para instaurar o estado de sitio e a suspensão dos direitos constitucionais, eternizando-se no poder. Através de uma golpada sem tiros inaugurou em 1937 o Estado Novo – um regime repressivo, que recorria à tortura e, claro, à censura.

A institucionalização do samba e do carnaval, e a curiosa e irónica elevação do mestiço a herói nacional, foram instrumentos da propaganda nacionalista, num modelo de Estado Novo que, seguindo alguns dos parâmetros do fascismo europeu, apresentava fundamentos trabalhistas e corporativos muito particulares.

A participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial, ao lado dos aliados, teve como moeda de troca o investimento americano no tecido industrial do país, fenómeno que veio marcar sua a história económica durante décadas.

Pressionado por variadíssimos sectores da sociedade, Getúlio Vargas vê-se obrigado a marcar eleições e 15 anos depois de chegar ao poder, em 1946, concede o acto eleitoral que trouxe de novo a democracia e uma constituição que durou 20 anos. Ainda assim, o ditador regressa nas eleições de 50 à luta política, graças a um habilidoso negócio de alianças em todo o país. A este propósito, há que dizer que a densidade labiríntica da política do século XX brasileiro torna a evolução dos acontecimentos bem  difícil de acompanhar, dada a complexidade de interesses e partidos instalados nas diversas regiões e estados da federação.

Uma vez eleito, Getúlio seguiu uma política de autonomia energética criando a Petrobras e inaugurando os fundamentos da futura Eletrobras. A estratégia de relançamento industrial de base – com investimentos estatais na siderurgia e na indústria automóvel – estavam de acordo com uma economia nacionalista em rota de colisão com o capital internacional. Acto contínuo, os grandes conglomerados industriais norte-americanos desinvestem no Brasil e as instituições credoras pressionam o governo, na firme intenção de liquidar dentro dos prazos o crédito que tinham fornecido ao regime. A queda do governo de Getúlio começa precisamente com a reacção do capitalismo internacional. E acaba com o triunfo dos seus velhos inimigos: A UDN de Carlos Lacerda, as forças armadas e a imprensa.

Um atentado falhado, que pretendia eliminar Lacerda, coloca a força aérea na surpreendente e muito pouco ortodoxa posição de polícia plenipotenciária. A investigação conclui, acertadamente, que por trás do atentado estava o chefe dos serviços de segurança de Getúlio. E, numa busca efectuada ao palácio presidencial, obtém e divulga documentos que põem a nu a corrupção que consumia o regime. Incapaz de aceitar o seu fim político, Getúlio suicida-se e a reacção popular de pesar e revolta travou o ímpeto golpista dos militares.

Mas logo nas eleições de 1955, que elegeram Kubitschek, registam-se levantamentos da tropa, dos quais o mais expressivo é o de Jacarépagua, em 1956; e tentativas de golpe de estado, destacando-se a que resultou de uma conspiração entre a UDN e os militares.


Da Bossa Nova à ditadura militar.

Apesar de tudo, o governo de Juscelino Kubitschek ia sobrevivendo às convulsões, tendo-se afirmado com uma agenda de crescimento económico acelerado, os famosos “50 anos em 5“, que apostava em infra-estruturas industriais e rodoviárias e na economia de consumo. Pragmático e liberal, Kubitschek coloca o nacionalismo na gaveta e permite a internacionalização da economia e a reentrada de capital estrangeiro. Ambicioso, manda construir a cidade de Brasília no planalto central, uma área do território que, na altura, consistia numa espécie de nenhures.

Estes anos de democracia são os anos da Bossa Nova e do Neo-Realismo, fenómenos culturais que iriam marcar o cenário da música, do cinema e da literatura por décadas, no Brasil. Entretanto, no mundo rural, o tempo cristalizou. Reina o sistema de propriedade latifundiária de sempre, e a oligarquia dos coronéis sobrevive às décadas. Por outro lado, a inflação e o aumento do deficit público volta a castigar a economia brasileira.

Jânio Quadros, o presidente que se segue, trai a UDN, que o apoiou nas eleições de 1961, com uma política externa de aproximação a Cuba e ao bloco soviético. Dá-se mal com o Congresso e com o modus operandi da democracia constitucional e acaba por entregar o país a João Goulart, o seu vice-presidente, seis meses depois de ser eleito. Goulart assume a presidência, mas não sem que antes o país fique de novo à beira de uma guerra civil. Porém, a inflação, que rondava os 80%, e a imperícia de Goulart na gestão dos levantamentos militares e das invectivas da oposição deitam tudo a perder: o golpe militar de 64 decorreu sem grandes dificuldades e instalou uma junta totalitária que durou durante 21 anos.

A junta militar retira os comunistas do congresso, alia-se aos interesses industriais e coloca os generais no poder. A política de liberalização e internacionalização da economia e a redução do papel do estado levou ao crescimento económico mas também e novamente ao aumento desenfreado da inflação, que em 1985 iria atingir os 285%, bem como ao agravamento do deficit externo.

A ditadura trouxe aquilo que as autoras designam como “a burocracia da violência”, uma oligarquia militar que utilizava a censura, a eliminação de direitos, a repressão, a tortura e o genocídio como instrumentos de poder. E nos últimos anos do regime o país tinha afinal os mesmos problemas de sempre: desigualdades sociais e económicas gritantes, dívida externa incontrolável, inflação galopante.


De volta à democracia.

Enquanto a primeira fase da luta contra a junta militar era interpretada por forças marxistas (na clandestinidade) e católicas (à vista de toda a gente), a sociedade civil foi exigindo progressivamente o regresso de eleições livres e da democracia. Esta oposição à ditadura tinha no entanto características diferentes. Recusava a luta armada e o apelo revolucionário, preferindo a demonstração nas ruas e a denúncia nos meios de comunicação social. Jornalistas, artistas, intelectuais, ídolos do desporto, estudantes e até empresários empenharam-se no combate, enquanto os operários abalavam o país com greves longas, que resultaram na sindicalização dos movimentos laborais e no nascimento do Partido Trabalhista.

O último general da junta, João Figueiredo, em desespero de causa, promulgou uma amnistia geral: militantes na clandestinidade, presos políticos e activistas no exílio foram perdoados. Esta lei, desgraçadamente, tornou também possível o impensável: garantir a impunidade dos carrascos da ditadura, que ainda hoje são inimputáveis.

A campanha pelas eleições directas de 84/85 teve grande adesão popular, mas foi chumbada no Congresso. Finalmente, em 1985, através da realização de eleições indirectas, Tancredo Neves, o candidato conservador, foi eleito, mas morreu antes de tomar posse. O seu vice, José Sarney, sucedeu-lhe. A constituição da Nova República foi aprovada em 88 e está em vigor até hoje.

Os historiadores seguem geralmente uma regra deveras sensata: os 50 anos anteriores ao momento em que um trabalho é realizado são poupados à análise. Infelizmente, Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling não respeitam esta lei de ouro, prejudicando em muito a sua obra. A forma como retratam as eleições que opuseram Collor de Melo a Lula da Silva é tendenciosa e completamente escusada, mesmo considerando o estilo biográfico a que recorreram na construção da narrativa. Todo o texto que se segue à constituição de 88 é um exercício de opinião, incompatível com a ciência da História.


Conclusão: paraíso tropical ou paraíso perdido?

A leitura de “Brasil: Uma Biografia” é, muitas vezes, extenuante. Não por culpa das autoras, que se esforçam, com grande sucesso, em construir uma narrativa vivaz e cativante, mas porque o seu herói é um país conturbado e torturado. Um país turbulento, volátil, rebelde, inquieto, múltiplo. Um pais de levantamentos, golpes de estado, revoluções e guerras civis; um país dividido na sua grandeza étnica e territorial, revoltado contra si próprio, vítima brutal e recorrente das suas forças militares e para-militares.

Um dos problemas orgânicos da nação brasileira decorre do acesso ao poder político por parte das forças armadas. Este acesso foi institucionalizado na Primeira República, mas já era latente no fim da monarquia. A presença das elites militares nas instituições políticas criou um ciclo doentio e violento, que só foi quebrado nos anos 80 do século XX. Até porque a tropa serviu, historicamente, muito mais para resolver problemas internos do que externos. As guerras de fronteira são, paradoxalmente para uma nação tão virulenta, escassas. Mas as intervenções do exército, da marinha e da força aérea dentro dos limites territoriais do país são extremamente frequentes, e frequentemente sangrentas.

O Brasil é também uma nação dividida entre os interesses dos conglomerados económicos internacionais, um forte sentimento nacionalista por parte das elites que governam e o permanente sentimento de injustiça social das populações. A corrupção generalizada, as sucessivas crises económicas, o peso esmagador da dívida pública e a miséria que atinge largas faixas sociais nunca são fenómenos de conjuntura. O país vive estruturalmente assolado por estes problemas de fundo.

A conclusão do livro tem 10 páginas, numa obra de 516, como se as autoras tivessem medo das sua própria síntese, mas começa logo com a desagradável citação de Oswald de Andrade e é, basicamente, um deslocado e propagandístico manifesto em favor de Lula da Silva. A corrupção que grassou no PT enquanto força de poder no Brasil é mencionada, mas cuidadosamente contextualizada como parte do fenómeno que é historicamente transversal no país. Quando até duas prestigiadas historiadoras chegam a este nível de condescendência, começamos a compreender porque é que o Brasil tem dificuldades em resolver os problemas estruturais.

A incapacidade de fazer as pazes com as suas origens também impede os brasileiros de sentirem a pátria de uma forma um pouco mais saudável. Uma nação que deve a sua unidade e muito da sua identidade à língua portuguesa e aos Braganças, que consolidaram um território dividido e que o fizeram independente, devia ter uma atitude mais conciliatória com Portugal. E, mais uma vez, se são até os académicos os primeiros a desprezar a história e a cultura portuguesa, que podemos esperar de todos os outros?

A este propósito, uma última nota. Aceitando como válidas as recentes conclusões da História Contrafactual (5), que dimensionam a disciplina numa perspectiva não determinista, seria talvez pertinente fazermos esta pergunta: se a corte de D. João não tivesse fugido do lamentável exército de Junot, que realidade seria hoje esta realidade a que chamamos Brasil? Provavelmente, um conjunto de estados independentes, e talvez nem todos de língua oficial portuguesa.

Mas não será o Brasil uma nação imensa, precisamente porque causa das suas contradições, da sua dialéctica vivência psico-social, dos seus triunfos e misérias? Tesouro vivo em diversidade humana, mosaico de glórias libertárias e totalitarismos, padrão dos descobrimentos em carro de carnaval, quinto império ao contrário, este é o país da Utopia. Do experimentalismo de um estado novo trabalhista à ditadura militar de vocação liberal, das laboratoriais comunidades rurais e operárias às cidades de libertos, o que não falta na história brasileira são manobras de engenharia social, mais ou menos ingénuas, mais ou menos draconianas, na senda de uma ideia de paraíso. O problema, porém, está naquilo que um argentino, Jorge Luís Borges, sintetizou assim:  “Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.”

Distopia tropical e sonho de uma noite de verão, o paraíso perdido será talvez o tal super-herói desta biografia. Mas com promessas de ser reencontrado.


________________


(1) Walker and Bailey; “Body Counts In Lowland South American Violence” (ScienceDirect, 2013);

(2) Jared Diamond; “Armas Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas” (Temas e Debates, 2015);

(3) Patrick Wilcken; “Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1921 (Livraria Civilização Editora);

(4) Charles R. Boxer; “O Império Marítimo Português 1415-1825” (Edições 70, 2011);

(5) Niall Ferguson (Coord.); “História Virtual” (Tinta da China, 2006).

sábado, dezembro 12, 2015

Vaidade lunar.



Todas as fases da Lua em 2016. Numa animação muito bonita, mesmo.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

É mesmo isto.

"Por mim, uso para os outros o critério que eles julgam bons para terceiros. Assim, de quem proclamou que o anterior governo nos queria empobrecer, usando os impostos, por maldade intrínseca nos corações, só posso concluir que Costa vai manter a sobretaxa por desejo declarado de empobrecer os cidadãos que a vão continuar a pagar."

Maria João Marques . As Caras de Costa . Observador

Os Malucos do Riso.

Alberto Gonçalves, o brilhante e corajoso cronista da Sábado, tem aqui um texto que ensina a qualquer pessoa minimamente esperta os fundamentos da prosa de intervenção social. Reparem bem neste bocadinho delicioso:

Quinze dias após os atentados, os parisienses regressam à normalidade. Milhares de pessoas suspenderam as interpretações sentidas de Imagine para se manifestarem à pedrada contra as "alterações climáticas", que o sr. Hollande considera um perigo indissociável do terrorismo. Mas a maior ameaça, raras vezes lembrada, é a propensão de tantos ocidentais para a idiotia terminal. Da próxima vez que "a religião" (qual?) rebentar inocentes, o povo protestará contra os transgénicos.

Mas vale muito a pena ler a peça toda. Está mesmo muito bem escrita. E, apesar do contexto lúgubre, garanto-vos: haverá gargalhadas.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Dezembro Barroco #2



Claudio Monteverdi . Sinfonia from Atto Terzo . L'orfeo

Elogio da incompetência.

Sei perfeitamente que sou um mau poeta.
Mas Deus não dorme: para que Homero brilhe
alguém tem que cumprir com a escuridão.

Imaginem o Manifesto Anti-Dantas sem o Dantas.
Que seria da veia prodigiosa do Almada se não fosse o absinto
e os poetas ruins?

Ser mau na poesia, por sistema, é um santo e venerável ofício.
Antes de existirem putas já existiam
poetas sofríveis.

Além disso, a má poesia não é para todos.
Há candidatos a maus poetas que desanimam rapidamente e
passam a romancistas.

Há aqueles que podiam ser verdadeiros génios da pior poesia possível
e que desistem imbecilmente à primeira
recusa do editor.

Há maus poetas que podiam ser muito piores do que são,
mas que não têm a coragem necessária
para a má poesia de qualidade.

Há pessoas que preferem levar no cú
a escrever poemas fraquinhos, o que é, obviamente,
dramático.

Há maus poetas que acabam por ganhar a vida a escrever
cartas comerciais e há outros que vão estudar
engenharia de reactores.

E depois há maus poetas que sofrem de um tal grau de inconsistência
que até conseguem escrever, aqui e ali,
belos poemas.

Esta heresia é uma praga para a a literatura e, muito especialmente,
para a crítica literária. Convém que a poesia boa e má
seja fácil de separar.

Para se ser um mau poeta a sério, para se fazer carreira disso,
é preciso dedicação e esforço, sem qualquer expectativa de
glória.

É preciso dominar as técnicas, e fumar montes de cigarros
sem filtro. É preciso ter lata e, sobretudo evitar
que as rimas suicidem a auto-estima.

Desde que seja bom naquilo que faz,
há muitas razões para que o mau poeta
seja vaidoso do seu talento.

Aliás, um mau poeta que se preze
é o primeiro, mesmo que seja o único,
apreciador da sua poesia.

E eu, mau poeta, confesso:
encontro mais alegria num verso meu e bera,
do que em todas as manhãs de primavera.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Nem tudo está perdido. Ainda há gente lúcida.



“This is not about workplace violence. This is not about global warming or gun shows, (...) This is not about anything we’ve done wrong. This is about who we are, this is about the nature of freedom. 

Ben Sasse, Senador republicano (Nebraska)

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Este é o incrivelmente disparatado, obsceno e esquizofrénico mundo em que vivemos #2





































A revista Time tem esta estúpida e espúria mania de eleger uma figura que se tenha destacado em cada ano que passa. Na medida em que já elegeram gente tão ilustre como Chiang Kai-Chek (1937), Adolf Hitler (1938), Joseph Estaline (por duas vezes: 1939 e 1942), o Rei Faisal (1974, em plena crise energética) e Hayatolla Khomeini (1979), seria de esperar que mais tarde ou mais cedo achassem por bem terminar com esta actividade de mau gosto. Mas não. Persistem. Os editores desculpam-se da infâmia com o argumento de que a selecção decorre de um critério do género "para o bem ou para o mal", mas a verdade é que a coisa decai inevitavelmente para um relativismo moral assustador.

Este ano, os pré-qualificados para a muito duvidosa honraria são:

Abu Bakr Al-Bagdhadi - O líder do Estado Islâmico e muito provavelmente o mais vil criminoso que circula neste momento à superfície do terceiro calhau a contar do Sol.

Black Lives Matter - Um grupo extremista de base racial, responsável por vários motins urbanos que ocorreram este ano nos Estados Unidos.

Caitlyn Jenner - Um travesti, famoso nas redes sociais.

Travis Kallanick - É o rapaz que fundou a Uber, uma espécie de cooperativa de taxis da app age.

Angela Merkel - É dos nomes que chocam menos, embora seja de notar que a Time nunca pensou em eleger Helmut Kohl, um líder almeão muito mais forte, influente, carismático e assertivo do que Merkel alguma vez poderá ser.

Vladimir Putin - É o segundo ditador da lista.

Hassan Rouhani - O simpático presidente do Irão, pessoa recomendável e humanista, líder de um regime cordato e civilizado que se pudesse exterminava todos os jornalistas que trabalham na Time enquanto o diabo esfrega um olho.

Donald Trump - Uma besta quadrada a caminho de se tornar o mais medíocre candidato republicano às eleições presidenciais da história americana.

Para além da lista ser na verdade um deprimente retrato dos tempos em que vivemos, custa-me a acreditar que as luminárias que trabalham nesta infeliz newsletter não tenham encontrado duas ou três pessoas decentes para disfarçar a criminosa e fútil intenção editorial. Não houve, neste ano, para os editores da Time, ninguém que mais merecesse a sua diligente manobra propagandística do que esta lista de camelos? A sério? Eu sou um gajo pessimista por natureza e não tenho grande fé na condição humana, mas não acredito nisso. Acredito, sim, no incomensurável poder da estupidez. Porque só a mais abjecta estupidez pode justificar uma lista assim.

Subitamente deixado sem respiração.




Uma enorme nuvem de poeira e cinzas expelida pelo Etna deu origem a uma tempestade. E a estas magníficas fotos de Marco Restivo. Espantoso.

O sol, ultra-definido.



Versão curta da última obra-prima fotográfica da NASA. O Sol em ultra-hd. Até arrepia. Vale a pena ver em full screen e, já agora, em 2160p (4K).

Este é o incrivelmente disparatado, obsceno e esquizofrénico mundo em que vivemos.































Enquanto o Papa roga pela "atenuação das alterações climáticas", como se o clima fosse algo que os homens pudessem manipular assim, por invocação papal (na verdade, Francisco deveria solicitar essa "atenuação" a Deus, embora os resultados fossem basicamente os mesmos), Obama, sempre acompanhado pelos seus fanáticos seguidores do New York Times, desvia a questão do terrorismo islâmico para um assunto que não tem nada a ver com o terrorismo islâmico: o direito ao porte de armas de fogo, consagrado pela constituição americana. Os pais fundadores dos EUA achavam que as pessoas deviam ter armas para se protegerem contra o ímpeto totalitário do estado (para Jefferson, o estado federal seria sempre uma entidade fascistóide e - no fundo - essa desconfiança ainda hoje é legítima). Uma coisa óbvia que Obama não percebe de todo, entre muitas coisas óbvias que é incapaz de perceber, é que o seu zelo contra a posse de armas configura precisamente o ímpeto totalitário que muitos americanos invocam para continuarem agarrados às suas pistolas, espingardas e metrelhadoras. E, assim sendo, há hoje, nos Estados Unidos, políticos no activo que se fazem fotografar para um post de Natal acompanhados da sua família e armados até aos dentes (não, não estou a inventar). A América é uma guerra civil à espera de acontecer.

Entrementes, o terrorismo muda de figura. Agora é interpretado por qualquer infeliz que se identifique com o Estado Islâmico. Basta ser-se muçulmano e desempregado. Em cada atrasado mental temos um terrorista em potência. E de quem é a culpa? Do patrão que o despediu, claro. Da lei constitucional americana que o armou, claro. A culpa é de todos nós, claro, os ocidentais, por não sermos miseráveis, por não sermos bárbaros, por sermos razoável e irrazoavelmente tolerantes e por desenharmos caricaturas de Maomé e por usarmos uns telemóveis mesmo giros e por termos separado já aqui há uns séculos aquilo que diz respeito à política daquilo que diz respeito a Deus.

Entrementes, a rapariga Le Pen está prestes a levar o seu triste barco a bom porto porque os franceses estão fartos de serem ideologicamente franceses e de serem rebentados pelos muçulmanos que acolhem no contexto do mais disparatado slogan da história: liberdade, igualdade, fraternidade. A liberdade é antípoda da igualdade (quanto mais há de uma espécie, menos há da outra) e a fraternidade só é possível quando partilhamos todos, mais ou menos, os mesmos valores fundamentais. Não é possível ser fraterno com o cidadão que desata a fuzilar uns putos que estão a tomar um vermute numa esplanada de Paris. A Quinta República francesa é um funeral à espera de acontecer.

Entrementes, o imperturbável Matteo Renzi acha que o Estado Islâmico não deve ser perturbado e recusa a participação italiana na onfensiva das forças ocidentais. Não fosse a inacreditável irresponsabilidade e cobardia do primeiro ministro italiano, talvez reforçada pelo simples facto de que ainda não houve mortos inocentes nas ruas de Roma, esta até seria uma boa notícia, sabendo-se como se sabe que os italianos são, regra geral, muito maus soldados. Servem no entanto estas tristes considerações de Renzi como excelente ilustração da mais total ausência de solidariedade entre os estados europeus. A União é um sonho à espera que toque o despertador.

Entrementes, e dado o carácter surreal da presente realidade, Putin é o grande herói. É o grande humanista. E é neste momento o pior inimigo do Estado Islâmico, de facto.

Entrementes, em Portugal, a imprensa trata o actual governo como se fosse legítimo e Costa como se fosse digno de assumir os destinos da Nação. Há uma espécie de jogo do faz de conta que mete um bocado de nojo. A simples imagem fotográfica deste primeiro-ministro, que deve ter nascido com aquele sorriso cínico e detestável colado à tromba, mete-me um bocado de nojo.

Entrementes, Pacheco Pereira passou, em dez anos, de discípulo de George W. Bush para apoiante da candidatura presidencial daquela rapariga do Bloco de Esquerda cujo nome, felizmente, agora me escapa.

Entrementes, torna-se muito difícil manter qualquer vestígio de sanidade.

sábado, dezembro 05, 2015

Greves em tempos de esquerda.

Jornalista, poeta, ensaísta, crítico, polemista e incomparável sábio, o meu amigo Márcio decidiu responder afirmativamente ao repto que lhe lancei e este aqui é o primeiro dos textos que vai escrever para o Blogville, sempre que lhe der na bolha. Estou todo contente. Damas e cavalheiros, tenho pois o prazer abundante de vos dar à leitura a elevada e saborosa prosa de Márcio Alves Candoso. Bom proveito.


A greve anunciada do Metropolitano de Lisboa coloca todas as questões das anteriores e mais uma. O que se passa com este Governo?

Vejamos. Quer seja por razões puramente sindicais quer por questões de afirmação política - ou, à boa maneira leninista, pelas duas ao mesmo tempo -, as greves têm por função afirmar o poder dos trabalhadores.

É natural que, sendo o Governo apoiado por forças políticas mais compreensivas - digamos assim - com o mundo do trabalho assalariado, os sindicalistas tenham tendência a pensar com mais cuidado as formas de luta que devem empreender para afirmar os seus direitos e ânsia de partilha de poder.

Certo? Teoricamente sim. Mas errado, dada a conjuntura e as diversas forças em confronto. A questão é complexa. Se por acaso não é pública a forma como foi formado este Governo, eu ajudo a explicar.

O BE só não tem ministros e secretários de Estado no Executivo de António Costa porque o PCP não se mostrou disponível para fazer o mesmo. Costa queria ter representantes das forças que o apoiam, ao nível do Parlamento, em vários lugares do colectivo que dirige. Mas, se o PCP não quis, não se pode pôr lá ninguém do BE. Acho que isto chega para perceber porque é que os acordos foram bilaterais e não conjuntos.

Ao contrário do BE, o PCP é um partido de classe. Acredita tanto que o PS de Costa vai trazer-nos os 'amanhãs que cantam' como eu acredito no Pai Natal - ou um pouco menos. Mas, engajado em afastar a 'direita' do poder, tacticamente agarrou a oportunidade.

Isso não quer dizer que não mantenha intacta a força do seu 'braço armado' - a CGTP. Esta vai tentar forçar ao máximo o Executivo socialista a seguir políticas que, não sendo as mais populares no seio do PS, são as que correspondem à agenda político-sindical da central.

A isto acresce que, dentro do próprio PCP, a unicidade não existe. Eles são muito bons a fazer passar para fora das 'paredes de vidro' que estão sempre em sintonia total, mas isso, para quem conhece minimamente a realidade interna, é música! Jerónimo tem aliados na sua tentativa de 'compromisso histórico' com o PS, mas há no Comité Central muito 'boa' gente que lhe rogou pragas.

António Costa sabe disto, e vai tentar até à exaustão agarrar-se à parte do PCP que o apoia, e tentar excluir os que querem que os acordos 'burgueses' sejam rasgados.

Duas notas finais. O BE, com toda a sua ingenuidade, anunciou já que vai reunir com as direcções dos sindicatos que convocaram a greve. Do lado do PCP, lidas as notícias que elucidaram este texto,nem uma palavra. Isto por um lado. Por outro, convinha que todos nós percebêssemos, de uma vez por todas, quem no organigrama do novo Governo responde pela pasta dos Transportes. É que não se divisa um secretário de Estado da tutela.