segunda-feira, março 28, 2016

Atenção: momento Borges.

 Ao correr das lembranças

Lembrança minha do jardim de casa:
vida benigna das plantas,
vida cortês e misteriosa
e lisonjeada pelos homens.


A mais alta palmeira daquele céu
e estância de pardais;
videira firmamental de uva negra,

dias do verão dormiam à tua sombra.

Moinho colorido:
remota roda a laborar no vento,
honra de nossa casa, porque nas outras
corria rio abaixo o sino do aguadeiro.


Cave circular da base,
tornava vertiginoso o jardim,
fazia medo ver por uma frincha
o teu cárcere de água subtil.


Jardim, frente à cancela se cumpriram
os agrestes carreiros
e aturdiu-nos o carnaval berrante
de insolentes fanfarras.


O armazém, padrinho do malévolo,
dominava a esquina;
mas tinhas canaviais p'ra fazer lanças
e pardais para a oração.


O sonho de tuas árvores e o meu
ainda se confundem na noite
e a extinção das gralhas
deixou um medo antigo no meu sangue.


As tuas poucas varas de profundidade
tornaram-se a nossa geografia;
um alto seria "a montanha de terra"
e uma temeridade o seu declive.


Jardim, encurtarei a oração
para continuar sempre a lembrar-me:
a vontade ou o acaso de dar sombra
foram as tuas árvores.



Jorge Luís Borges . Caderno de San Martín . 1929 

Música remédio.



Gang of Youths . Benevolence Riots.

Estes cinco minutos são mais bonitos que um dia de verão. Ou assim parecem, num frio dia de Março.

domingo, março 27, 2016

Obama, o grande crítico da democracia.

A visita de Barak Obama a Cuba foi, no seu todo simbólico e institucional, o apogeu da mais vergonhosa presidência da história dos Estados Unidos da América.

A iniciativa legitimou um regime totalitário, anacrónico e cruel, que controla não só as ideias, as palavras e os actos dos seus cidadãos, mas a própria comida que ingerem (as rações do governo castrista oferecem apenas um terço das calorias que um ser humano deve consumir diariamente).  Mas, mais escandaloso do que isto, foi o conteúdo discursivo de Obama: o presidente dos Estados Unidos foi a Cuba falar dos problemas da sua república. É verdade. Sobre os presos políticos (o governo de Havana encarcerou centenas de pessoas apenas horas antes da chegada da comitiva americana), a violação constante dos mais básicos direitos humanos e a miséria que grassa nesta infeliz ilha do caribe, o homenzinho não se pronunciou. Mas sobre os falhanços da mais bem sucedida e mais próspera e mais livre democracia da história da humanidade, teve imensas coisas para dizer.

Todos sabemos que Barak Obama não é exactamente um fã do modelo das democracias ocidentais. Todos sabemos que é o presidente de uma federação que despreza. Mas, caramba, não haverá limites para esse desdém?

Às vezes, o mundo parece-me uma projecção holográfica, desenhada só para me irritar a sensibilidade.

quinta-feira, março 24, 2016

quarta-feira, março 23, 2016

Puta que pariu os terroristas.



Bloc Party . The Love Within

Duas ou três coisas que é preciso dizer e que os jornais calam.

A Bélgica não é, nunca foi e nunca será uma nação. É um país artificial, cortado por duas etnias e duas línguas e criado por franceses, ingleses e alemães para funcionar como tampax entre eles. É produto de conversas de corredor e compromissos protocolares da paz de Vestefália, da Conferência de Berlim e da desgraçada, ineficiente e breve Sociedade das Nações, na conclusão da Primeira Grande Guerra.

Qualquer pessoa que se considere belga, sofrerá, assim, de graves problemas de identidade. Será flamenga, será francesa, será o diabo que a carregue, mas no seu direito juízo não pode ser filha de uma terra de ninguém.

Para terminar este argumento: a Bélgica é uma monarquia cujo rei ícone (uma espécie de Luis XIV da belle époque) é Leopoldo II. Trata-se de um Saxe-Coburgo-Gota (para todos os efeitos: alemão; para todos os efeitos: Habsburgo; para todos os efeitos: primo direito da Rainha Vitória) que cometeu no Congo, em apenas 30 anos, o mais horroroso genocídio da história do colonialismo ocidental (que é, apesar de Leopoldo, muito mais humanista do que pensam os humanistas).

A Bélgica é uma invenção geo-estratégica cujos direitos de autor não são os belgas e que nunca deu realmente uma resultado decente. Não é, aliás, por acaso que o país com menor intensidade nacionalista de todo o continente tenha sido escolhido para a sede por excelência da organização apátrida a que damos o nome de União Europeia.

Ora, na óptica dos filhos da puta do ISIS, não há na Europa um sitiozinho mais simpático que a Bélgica para montar o posto avançado. Um país pacifista por natureza porque tem origem e fortificação em históricos acordos de paz, um território apátrida e radicalmente tolerante, uma condição psico-social suicidária e a circunstância nada despiciente de Bruxelas ser a sede simbólica e administrativa do ocidente europeu. Convenhamos: não há melhor alvo.

O que aconteceu hoje não surpreende ninguém e é verdade que este é o novo normal. O que não é nada normal é o facto deprimente de ninguém na Europa (já para não falar dos tristes que ocupam o território a ocidente do Atlântico) enfim decidir-se a fazer qualquer coisa que nos defenda desta irreal, humilhante e dramática realidade.

É que para viver os prazeres da paz, meus amigos, é preciso saber cumprir os horrores da guerra.

domingo, março 20, 2016

Onde é que eu já ouvi isto?



Não é Nada Meu
Música: Boca Nervosa
Coreografia: Dancing Lula - Mederijhon Corumbá
Montagem: News Gerais

quinta-feira, março 17, 2016

É capaz de ser um bocado tarde para os cristãos que já foram chacinados.

Barak Obama descobriu hoje que o ISIS comete genocídio. Até aqui, a Casa Branca, sempre muito cuidadosa com a nomenclatura no que se refere ao terror islâmico, tinha recusado aos genocidas o seu justo estatuto legal. Mas hoje Obama deve ter acordado com um raro ataque de lucidez e, através do seu vice-presidente John Kerry (a tarefa é demasiado embaraçosa para ser desempenhada por um muçulmano), reconheceu final e tardiamente o óbvio.
Entretanto, o ISIS já matou centenas de milhares de cristãos das maneiras mais bárbaras que podemos imaginar. Mas, para o infeliz hóspede da Casa Branca, só hoje, a 17 de Março de 2016, é que a intenção dos facínoras passou a ser genocida. Até aqui, eram uns tipos que matavam por matar, sem qualquer vontade de extermínio.
E é assim.

terça-feira, março 15, 2016

A Oeste, tudo ao contrário.

Enquanto Lula da Silva, esse grande herói moral da esquerda, tenta ser ministro para fugir à justiça (sem que isso pareça, nos jornais, o escândalo apocalíptico que realmente é), os belgas esforçam-se imenso para parecerem policias competentes, mas não conseguem. Para matarem um terrorista amador - e deixarem escapar mais dois ou três - são precisos não sei quantas centenas de efectivos armados até aos dentes e protegidos por toda a espécie de camadas de kevlar com que é possível revestir um ser humano. Ainda assim, não conseguem esconder que estão mais borrados de medo que um adolescente no pátio de um presídio. E, claro, quatro caem feridos. Se pensarmos bem neste ratio de baixas, não há forças de segurança na Europa que possam dar luta ao terrorismo islâmico.
No entretanto, o CDS, inspirado agora pelo notável instinto da Dra. Cristas, vira à esquerda e elege como inimigo prioritário o PSD. Volto a repetir. O CDS acha que, perante o aterrador panorama político actual, o seu grande alvo a abater é o PSD.
No entretanto, César das Neves entretém-se a tentar explicar ao povo que o Papa Francisco não é marxista. São precisas imensas subtilezas para explicar isso e - mesmo assim - não consegue convencer ninguém.
No entretanto, o infame Trump está prestes a selar a nomeação do Partido Republicano para as eleições presidenciais deste ano e o socialista Bernie Sanders continua a dar uma luta desgraçada a Hillary Clinton.
No entretanto, morreu Nicolau Breyner. Um homem dos antigos. Quase fico contente por ele, que já não está aqui para suportar a irritação, a insanidade, a imoralidade deste mundo ao contrário.

sexta-feira, março 11, 2016

O presidente de todos os portugueses menos eu.

O presidente de todos os portugueses gosta de ouvir cantar um tipo chamado Anselmo Ralph. Eu acho que o Anselmo Ralph é um poluidor de tímpanos.

O presidente de todos os portugueses gosta de andar a pé. Eu gosto de andar de automóvel.

O presidente de todos os portugueses é um artista da televisão. Eu não vejo televisão.

O presidente de todos os portugueses acha que a melhor maneira de ser presidente da república é abster-se de princípios ideológicos. Eu acho que os princípios ideológicos são fundamentais para o exercício honesto e fiável de qualquer presidência da república. Na verdade, o partido do presidente de todos os portugueses é o Partido d'Ele e mais ninguém cabo no espaço ocupado por Ele.

O presidente de todos os portugueses decidiu iniciar o seu mandato numa mesquita. Eu acho essa iniciativa nojenta. Ou, pensando bem, acho que é abaixo de nojenta. É traidora do meu país.

O presidente de todos os portugueses é um tipo que tem a comunicação social sempre pronta a fazer-lhe uma versão qualquer de sexo oral. Eu ficaria sem pila, perante semelhante broche.

O presidente de todos os portugueses é um gajo simpático. Eu, que sou um gajo super antipático, acho que o presidente da república não deve primar por ser uma coisa ou outra.

O presidente de todos os portugueses está a fingir que a gerinçonça não vai levar os portugueses todos à ruína. Quando é completamente óbvio que a geringonça, com o inestimável préstimo do presidente de todos os portugueses, vai levar todos os portugueses à ruína.

Até eu, que sou o único gajo de quem o presidente de todos os portugueses não é presidente, hei-de enfrentar a ruína por causa dele e por causa da geringonça.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente de todos os portugueses menos eu, será afinal o primeiro e último responsável pelo próximo resgate. E pelo preço que todos os portugueses vão pagar pela infelicidade de o ter como presidente de todos os portugueses.

quarta-feira, março 09, 2016

Room. Ou uma aventura no coração das trevas.



Quantos mais filmes vejo, mais tenho dificuldade em gostar dos filmes que vejo. De vez em quando, porém, ainda encontro consolação. Room, de Lenny Abrahamson, é um desses de vez em quandos.
Há um momento no filme em que nos perguntamos se a liberdade vale a pena. É excruciante. E tremendamente revelador da merda de mundo em que vivemos.
Grandessíssimo bocado de cinema.

Excepção à regra.

Não é costume falar de trabalho aqui no blog (que nem tinha tag para o tema), mas, sinceramente, este projecto merece um postezinho. E tudo o que custou foi um dia muito bem passado. Quer dizer, ao Lagido custou mais um bocadinho do que isto, mas seja como for, o resultado é feliz. E a ideia é fazer mais destes. Se o cliente deixar... 



Direcção e edição: João Lagido - Sponge
Assistência técnica: Rui Canas - Sponge 
Conceito e storyboard - Paulo Hasse Paixão - Partícula

segunda-feira, março 07, 2016

Zaman, Turquia e cenas (porque nunca se deve tomar os outros por nós próprios).



POR MÁRCIO ALVES CANDOSO


Não sei se por preguiça, simplismo ou até arrogância, muitos ocidentais, hoje em dia, gostam de analisar a realidade dos países muçulmanos segundo os seus pontos de vista ou à luz da sua própria hierarquia de valores.

Se, no que diz respeito a direitos humanos considerados fundamentais, devemos fugir o mais possível do relativismo - não há que ter medo em declarar a superioridade das democracias ocidentais neste aspecto, com todos os defeitos inerentes -, em matéria de análise política local a coisa muda de figura.

Como tantas vezes tem acontecido, foi - e é - por uma errada análise de contexto que os poderes ocidentais, ao meterem o nariz na Síria, em vez de melhorarem o estado das coisas só contribuíram para uma ainda maior confusão, estando longe de terem evitado o desastre. Basta ver a posição dos EUA e de alguns países europeus nas alegadas 'Primaveras Árabes' para aquilatar da qualidade dos pézudos políticos que nos têm calhado em sorte.

A falta de jeito com que se olha a Turquia, ou o problema dos imigrantes/refugiados, é, neste momento, outra das mais gritantes irresponsabilidades do Ocidente. Isso e a pressa com que se rotula de 'bom' ou 'mau' todo e qualquer movimento real ou aparente que emerja nesses países.

A Turquia de Gamal Ataturk ainda resiste; mas já não é maioritária. Por entre as brumas da má memória, os diversos islamismos mais ou menos disfarçados tomaram conta de um país que, no seu tempo revolucionário, aspirou a ser laico e europeu. Talvez contra a sua própria natureza orientalista, o pai da República Turca quis dar um banho de civilização no País, adoptando até aquela que era, na época, a florescente ideologia do progresso - a social-democracia.

O tempo de Erdogan - o tempo presente - é outro. Disparando em diversos sentidos, o semi-ditador turco que em tempos fez a sua formação política aderir ao Partido Popular Europeu - mas que entretanto resolveu sair, antes que levasse com a porta na cara - está em guerra com tudo e com todos.

Os curdos continuam a ser o elo mais fraco nas chancelarias ocidentais - mas não no terreno, onde a bravura e o nível estratégico dos seus militares são uma lição para o mundo. Erdogan ataca a Síria de Assad, dá-se mal com Putin, tenta reprimir os islâmicos radicais no seu país, esmaga a oposição democrática. Tudo com um supremo fim - manter o poder a todo o custo.

Mas é com este fulano que Merkel gosta de se reunir e dar alvíssaras. É este regime que, mais uma vez, dá um nó nas boas almas ocidentais, ao atacar e censurar o maior jornal da Turquia - o Zaman. O que é o Zaman? É um jornal (ou mais do que isso, um grupo de comunicação social) financiado pelo movimento Gülen, ligado ao clérigo islâmico no exílio com o mesmo nome.

É difícil dizer que movimento é esse. Aparentemente, trata-se de uma seita elitista e moderada (pelos cânones do Corão), que aposta numa teia mundial ligada à educação e aos OCS para tomar conta do poder nos países de maioria muçulmana. É impossível não vir à ideia a comparação com uma Opus Dei, talvez mais 'centrista'.

Obviamente que já foi apanhada em teias de corrupção. Não é fácil andar numa semi-clandestinidade e ter, para isso, de angariar fortunas, se é que se quer continuar a ter alguma influência. Erdogan, na lógica de atirar sobre tudo o que mexe, não gosta deles.

Fechar ou censurar um jornal é... fechar ou censurar um jornal. Ponto. Nas imagens televisivas que dão conta das manifestações de apoio ao Zaman, não vi as mulheres de Istambul a atravessar a Ponte do Bósforo de cabelos ao vento e blusas de botões abertos - como noutras ocasiões tinha sido uma realidade. Vi, sim, jovens de varinos compridos, com a cabeça devidamente tapada.

O simplismo e as primeiras impressões nunca foram boas ferramentas de análise. Não na Turquia.

Dan Auerbach contra-ataca.



The Arcs . Put a Flower in Your Pocket

O regresso glorioso do rock de garagem na pessoa genial de Dan Auerbach, uma das caras metade dos inigualáveis Black Keys. Um shot de felicidade em notas musicais.

quarta-feira, março 02, 2016

Constatação de facto.

Depois dos tristes resultados da Super Tuesday, meus amigos, tenho que embater violentamente contra a parede da realidade: só um milagre eleitoral ou um fenómeno poltergeist na convenção  republicana é que impedirão Donald Trump de conseguir a nomeação. E assim sendo, se fosse eleitor destes desgraçados Estados Unidos, votaria em Hillary para presidente, no dia 8 de Novembro deste ano. Entre a rã Clinton e o sapo Trump, a rã parece-me muito menos indigesta.