domingo, janeiro 22, 2017

Ao volante pela estrada de Sintra.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa que o poeta, que ia devagar, pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa mas não tenho pressa: 
quero que a estrada se eternize no espaço e no tempo;
quero-a infindável e alucinante.
Vou a acelerar pela estrada de Sintra, mas não quero chegar a Sintra.
Não quero chegar a lado nenhum
porque querer chegar a algum lado é um mito.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra e tudo o que espero da estrada 
e tudo o que espero de Sintra
e tudo o que espero da vida
é morrer assim, veloz, bombástico, supersónico como um astronauta,
disparado como uma seta em direcção a nenhures,
embalado pelo malicioso ronronar do motor,
travando o menos possível nas curvas,
acelerando o mais possível nas rectas,
senhor de 230 cavalos enlouquecidos, embestados, bestiais!;
piloto de cilindros enfurecidos na grande combustão de tudo!;
soltando ruídos e faíscas e raters e explosões!;
até que a velocidade chegue a vertigem e a vertigem seja Deus.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Por sorte não vou com um Chevrolet, como o poeta, 
Por sorte não guio um automóvel emprestado, como o poeta,
mas, como ele, vou ao luar e ao sonho pela estrada deserta
e outrossim sozinho guio, mas depressa porque não tenho pressa;
mas depressa porque ninguém me espera;
mas depressa porque eu não espero por ninguém;
mas depressa porque conduzo a emergência de não ter urgências
e a velocidade de não ter uma agenda.
Sim, não estou propriamente a reflectir sobre a paisagem
e a vida que levam as pessoas que habitam os casebres à beira da estrada
não me interessa nada.
Enquanto o asfalto rugoso, a borracha aderente e a electrónica alemã
seguram o automóvel às leis de Newton,
não tenho vagar para fazer filosofia.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra porque sim,
porque posso, porque quero, porque estou vivo, porque vou morrer.
O acelerador é um fim em si mesmo
e o estômago colado às costas, as costas coladas ao assento,
o assento colado à carroçaria, a carroçaria colada ao chassis
e o chassis colado à estrada dão razão, dão sentido ao universo!

Vou a acelerar pela estrada de Sintra, e vou muito mais depressa
do que o poeta ia depressa quando finalmente se cansou de guiar devagar.
O poeta ia enfim depressa por tédio de ter vindo devagar
e eu venho depressa desde sempre para não me aborrecer.
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
e o meu coração dispara para as sete mil rotações por minuto
e a minha alma é fricção, binário, força e glória mecânica de pistões!
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
sem pressa pela estrada deserta,
sem travões pela serra que amanhece
ao som que faço com os nervos
e os cavalos.



________________________________________




Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

Álvaro de Campos

sábado, janeiro 21, 2017

sexta-feira, janeiro 20, 2017

É matar até fartar.



Call of Duty: Infinite Warfare a bombar na PS4. Devastador. Estamos cada vez mais perto de ter jogos em imagem real. É que falta mesmo muito poucochinho.

Estes já carregam com mais décadas na carcaça.



Mas também não têm juízo nenhum.

Fujiya & Miyagi . Serotonin Rushes

Ainda nem têm barba...



mas nasceram nos anos 80.

Blossoms . Charlemagne

quinta-feira, janeiro 19, 2017

quinta-feira, dezembro 22, 2016

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Xmas Soundtrack



Kaiser Chiefs ensaiam uns eloquentes prolegómenos à arquitectura pop contemporânea. Licença para saltar (com ou sem para-quedas).

Kaiser Chiefs . Parachute

sábado, dezembro 03, 2016

Cognac Christmas Gig


Sure: it’s Christmas time and you have a lot to do. Places to go, people to visit, gifts to buy, gifts to give, parties to attend, dinners to have, children to cherish, plastic trees to ignite and whatnot. Sure: It can be very stressful. But then again, you can always take a break and simply be with friends and relax for a little bit (even Santa would agree with this). After all, we’re not inviting you to camp here. Just show up, have a drink or two and go about your business, if you have to. It’s all right, really. Although we believe you should play as hard as you work, we understand completely: heaven knows Christmas can be tough as hell.

Bom deus:



que filha da mãe de musiquinha. Operática, repetitiva e minimal, para quem acha que a música do Blogville é demasiado comercial (ou seja: raparigas com bigode).


Birdpen . The Solution Is The Route Of All My Problems

quarta-feira, novembro 30, 2016

Como é que é possível



não haver um clip para esta malha fabulosa? Hã?

Moon Taxi . Who's To Say

terça-feira, novembro 29, 2016

Sou mau. Sou muito mau.


Golf GTI MKVII - Performance Pack - 230Cv. Finalmente, o meu carro de sonho. 
Foto - Road Killers

quinta-feira, novembro 17, 2016

Karaoke power. Full power.



Que saudades tinha eu deste rapaz. E que bom tem sido matá-las com este disquinho simplesmente fabuloso. Cantem comigo. Dancem comigo. Pulem comigo. Ou sem ser comigo. Mas curtam bem este grandessíssimo bocado de pop.

The Courteeners . The 17th

quarta-feira, novembro 09, 2016

América condenada #9


América condenada #8

Agora vou eu dormir. Ninguém ainda anunciou a óbvia vitória de Trump. Mas deixo uma última nota que é de importância histórica: o próximo presidente dos EUA vai negociar a entrada de 4 a 6 novos juízes do Supremo Tribunal. E se não entendes a magnitude desta última frase, caro leitor, muda de blog. É que pensar em Donald Trump como o tipo que vai poder influenciar decisivamente aquela que vai ser a jurisprudência constitucional americana durante as próximas duas ou três gerações, é tão assustador como foi para mim ter um muçulmano marxista a viver na Casa Branca durante 8 anos. Sinceramente.

E volto ao tema que este blog assumiu nos últimos anos: vivemos num mundo ao contrário. Em definitivo, num mundo ao contrário.

América condenada #7

A certa altura desta dura campanha, Trump, com a sua habitual prosápia de canalha, afirmou que, num certo contexto, não admitiria a derrota. Não a admitiria formalmente, quero eu dizer. Estalou um escândalo enorme. Os democratas passaram-se completamente. E isso até se percebe, A ironia é que, neste preciso, muito real e muito concreto momento, a Fox está a reportar que Hillary Clinton já foi para casa, sem admitir a derrota.
Que vergonha.

América condenada #6



Faded Paper Figures . Red State

I will be blue in a red state
all the long day with you.
I will be blue in a red state

all the long day with you.
And when iron curtains start to fall,
foreign lovers reaching through the wall.
These policies will freeze,
But hearts are warm technologies
In failed democracies.
I will be blue in a red state
all the long day with you.
I will be blue in a red state
all the long day with you.

América condenada #5

Os americanos estão prestes a eleger para supremo líder da sua desgraçada e decadente federação um tipo que acha que as mulheres, quanto mais bonitas são, mais devem ser agarradas pelas suas conas. Que disse que os pretos são os responsáveis pelos assassínios dos brancos, que disse que os mexicanos não passam de um bando de violadores. Que disse que o chefe de estado com que mais se identifica é Vladimir Putin (e vice-versa). Que disse tanto disparate, que disse tanta obscenidade, que disse tanta coisa perigosa, que só pode ser realmente o maior idiota da história universal da infâmia.

Mas como é que um gajo atrasado mental, como Donald Trump é atrasado mental, chega a líder do mundo livre? Quem é que tem culpa? É ele? Mas ele é tão estúpido que não pode ser realmente responsável. É o povo americano? Mas o povo americano, na verdade, é o mesmo povo que elegeu outras pessoas um pouco menos estúpidas. Só nesta geração, elegeu um gajo inteligentíssimo ainda agora (para a esquerda) e um outro gajo que, não sendo inteligentíssimo, foi um presidente muitíssimo competente (para a direita).

Podemos especular que os americanos escolheram o menor de dois males porque a pobre da Hillary não convence ninguém. Isto é verdade. A pobre da Hillary não conseguiu sequer parecer mais inteligente que o seu imbecil adversário. E isto não é dizer pouco. Mas ainda assim, a culpa é dela? Afinal, não era Hillary Clinton, há dois ou três anos atrás, a grande senhora da América? A grande embaixadora da América? A grande mulher-de-estado-promessa-de-todos-os-femininismos? Depois de um negro na Casa Branca, não era mesmo uma mulher que ficava bem na mesma morada? Não foi ela eleita para governadora do estado de Nova Iorque na ressaca de ser a campeã das cornudas? Não era ela amada, respeitada e querida para a última e primeira posição do poder executivo?

Bem vistas as coisas, o problema não é de Trump, que é demasiado parvo. O problema não é do eleitorado, que é demasiado diletante. O problema não é de Hillary, que é apenas vítima das suas circunstâncias. A coisa vai mais fundo. É um mal mais intestino. É uma ferida mais cancerígena.

America condenada #4

Wall Street vai abaixo com a previsível vitória de Trump. O capitalismo não acredita no capitalismo. E está tudo dito.

América condenada #3


Reparem bem neste mapa eleitoral. Foi tirado agora mesmo de uma infografia do Público. É mais que perceptível que existem duas américas. A costa nordeste e a costa oeste, densamente habitadas e ferozmente democratas. Democratas, muitos deles, que a serem portugueses votariam no Bloco de Esquerda. E quase todo o resto, ferozmente republicano. Republicano de tal forma que não votaria em coisa nenhuma em Portugal ou em qualquer país europeu, pelo singelo desprazer de na Europa não existirem partidos assim tão ferozmente libertários. Sim, libertários. Esta palavra, nos Estados Unidos, pertence à direita. Como a palavra liberal, nos Estados Unidos, pertence à esquerda.
Não me lixem: este mapa, por si só, anuncia uma segunda secessão.
No outro dia fui quase ridicularizado por um amigo, que considero intelectualmente, por ter dito que os Estados Unidos da América são uma guerra civil à espera de acontecer. É uma coisa que digo recorrentemente e que já articulei o bastante aqui no blog. É claro que posso estar a delirar. Mas pensem nisto: como é que a esquerda marxista americana, que, pela voz de Bernie Sanders, deu uma luta danada a Hillary Clinton nas primárias, vai viver com uma presidência interpretada por Donald Trump?
Vai viver mal. Mas apenas mal?

América condenada #2

Trump vai ser o próximo presidente destes Estados Unidos da América. O que ninguém está a dizer é o óbvio de cor magenta: Barak Obama tem muita responsabilidade nisto. Basta vermos os resultados decisivos de Trump em áreas eleitorais decisivas para Obama nas duas últimas eleições presidenciais. (O candidato republicano lidera, neste momento, até no estado da Pensilvânia!). É tão clara a desilusão com os 2 mandatos do muçulmano que até faz impressão.
Outra coisa que ninguém diz: o decaimento do Partido Republicano à esquerda justifica também, e muito, esta total esquizofrenia.

América condenada #1

São 4 e 47 da manhã e os rapazes na CNN estão desesperadamente a procurar votos eleitorais onde a Madame Clinton possa fazer a diferença. Não conseguem realmente esconder o desespero. E essa incapacidade é deprimente.

quinta-feira, novembro 03, 2016

Os clips continuam maus. A música continua boa.



Estes rapazes aqui não ligam grande coisa à apresentação visual dos seus temas, mas já é o segundo disco deles que oiço em 2016 e posso garantir: a música vale mesmo a pena.
Para ouvir de olhos fechados.  

Graveyard Club . Nightcrawler

terça-feira, novembro 01, 2016

Que banda maluca.



Drowners . Cruel Ways

Como já tinha dito aqui em 2014, estes rapazes têm um rock tão fundamental, de tal forma genuíno e carregado de pura energia, que me deixam completamente com vontade de pulos. On Desire é um disco poderoso. Mesmo, mesmo p-o-d-e-r-o-s-o.

Slot SCX: já bomba, na Cognac.




No matter what.

Sou eu que estou a ficar velho.


Sou eu que estou a ficar velho ou o passado
é muito mais bonito
que o futuro?

À medida que dobram as décadas, o mundo
vai ficando cada vez mais horrível
e duro.

Quando eu era criança, até o metropolitano
era bonito e limpo
e puro.

E as pessoas tinham melhor aspecto no tempo
em que eu ainda tinha medo
do escuro.

Tenho saudades dessa época feliz com inimigos
justamente colocados do outro lado
do muro.

Sou eu que estou a ficar velho ou o passado
é afinal a utopia que com sonhos
misturo?

sexta-feira, setembro 30, 2016

Unplugged giants.



Young The Giant . Something to Believe In