sexta-feira, janeiro 27, 2017

Look who's back:



The XX . On Hold

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Jornal de Letras - Colosso, de Niall Fergusson

As primeiras armas da América são meias de senhora, cigarros e outras mercadorias. Querem subjugar o mundo mas não conseguem subjugar a pequena Coreia.
Joseph Estaline


Crónica publicada a 13/07/16

A edição em Portugal de “Colosso” (Temas e Debates, 2015) – com o sub-título Ascensão e Queda do Império Americano – tem um problema irresolúvel de fundo. É que esta obra foi publicada em 2004. Desde aí, a América em especial e o mundo em geral sofreram alterações profundas nas variáveis geo-estratégicas, económicas, sociais e até ideológicas. O império americano de 2015 é muito diferente, de muitas maneiras, do que era há 12 anos atrás. No entretanto, tivemos um rol incrível de cataclismos naturais e sobrenaturais que mudaram de facto a face do mundo. Niall Fergusson escreve num momento da história que antecede a recessão económica iniciada em 2007, e respectivas crises das dívidas soberanas e da Moeda Única Europeia; a Primavera Árabe de 20010-11 e a desintegração de vários estados no Médio Oriente que se lhe seguiu; a eleição de Barak Obama e consequente retirada militar do Iraque e do Afeganistão; o surgimento do Estado Islâmico; os atentados terroristas de Madrid, Londres, Bombaim e Paris; a instauração de regimes socialistas no Brasil, na Venezuela e na Bolívia, a institucionalização do cartelismo no México, a morte de Bin Laden, o marmoto do Pacífico, o terramoto do Japão, etc., etc., etc.
Isto já para não falar da saída do Reino Unido da União Europeia, fenómeno do género poltergeist que soaria ao Professor Fergusson, em 2004, como uma novela distópica, de enredo excessivamente fantasista.
Por vezes, este abismo cognitivo resulta em favor do autor, que anuncia e prevê factos que vieram posteriormente a ocorrer; noutras, resulta em desfavor da obra, no seu todo e principalmente para o leitor, que não tem culpa de saber coisas desconhecidas em 2004. No prefácio, por exemplo, Fergusson especula que uma retirada ignominiosa do Iraque provocará o descalabro do império. Esse descalabro não aconteceu completamente, mas não deixa de ser verdade que a retirada americana facilitou, no mínimo, a afirmação militar de Estado Islâmico e a perda de influência dos EUA no Médio Oriente.
Niall Fergusson, eminente professor de Oxford, Harvard e Standford e célebre documentarista do Channel Four, procura nesta obra explicar as razões que estão na origem da incompetência imperial americana. São os Estados Unidos um império? Com certeza e, na verdade, o maior da história. Mas um império com limitações inéditas: é que, dadas as origens liberais e libertárias da sua nação federal, os americanos não gostam de ser ver como imperialistas. Isto embora, como o autor demonstra abundantemente – e muito bem acompanhado por outros ilustres académicos, como Yuval Noah Harari (1) -, a existência de impérios não seja propriamente algo de negativo na história humana. Pelo contrário, é a ausência de hegemonias imperiais que leva ao caos e à ruptura civilizacional. Niall Fergusson argumenta até que, em certos casos de nações falhadas, a invasão territorial de longo prazo seria muito preferível para a qualidade de vida dos povos nativos. Estamos assim a milhas do território politicamente correcto.


Um império em estado de negação.

Também, mas não só por causa das suas origens libertárias e anti-imperialistas, os americanos gostam de ser ver como a primeira potência global não imperial. O império americano é de governação indirecta, informal e não territorial. A política, nos casos de intervenção em países estrangeiros, tem sido a de criação de governos autóctones, mais ou menos fantoches, desde que cooperem com a filosofia mercantil americana. E, regra geral, quando invadem um país, fazem-no dentro de uma estreita janela temporal. Nunca pretendem de facto a ocupação de longo prazo.
É que, antes de ser um império político e militar, o império americano é uma iniciativa comercial. A “coca-colonização”, embora implique 752 instalações militares em mais de 130 países, é uma gigantesca operação de marketing cultural, que funciona melhor se os clientes permanecerem vivos, relativamente solventes e cidadãos de um estado de direito (ou pelo menos com o direito à propriedade minimamente assegurado). O espírito empreendedor e o poderio militar não fazem porém um império excepcional: a hegemonia americana tem muito em comum com os outros 70 impérios da história. E deve ser historicamente comparado.
No registo confessional em que é redigida a introdução, Niall Fergusson defende os impérios como forças benignas que impedem o terror dos pequenos estados contra outros estados, mas também contra os seus povos. E argumenta a favor de políticas imperiais que intervenham em estados como a Libéria (“estados fracassados” e/ou “regimes criminosos”), enquanto recusa carregar o insustentável fardo do homem branco: “A áfrica subsariana em particular tem empobrecido não devido à muitas vezes denunciada herança do colonialismo, mas sim a décadas de má governação desde a independência.
Logo no seu início mas muito frequentemente no seu decorrer, a obra traz para as luzes da discussão um factor de declínio civilizacional que é pouco discutido nos dias de agora, embora tenha reinado sobre o pensamento filosófico europeu durante séculos: a ausência de uma vontade de poder. As elites americanas hesitam historicamente perante a possibilidade do poder global. E esse deficit de vontade de poder pode muito bem-estar na origem da queda do império.


A Ascensão.

O território dos Estados Unidos, logo após a independência, constituía 8% do actual e, em 1820, existiam apenas 320.000 americanos à face do planeta. A nação é assim, e ironicamente, imperialista logo na sua génese, sendo a conquista territorial do Oeste um primeiro exercício dessa expansão imperial. Apesar de grande parte dos territórios anexados terem sido comprados a franceses, espanhóis, ingleses, mexicanos e russos, foi necessário fazer a guerra com muitos povos e em múltiplos palcos para unificar a nação e os Estados Unidos, se são hoje uma potência militar de primeira grandeza, foi também porque sempre conviveram com violentos e massivos confrontos armados, tanto internamente como nos territórios da sua esfera de influência imediata.
Envolvidos logo no século XIX num movimento comercial expansionista, de carácter global, os EUA sempre mostraram reticências no que diz respeito à ocupação territorial típica do colonialismo europeu. A guerra sanguinolenta com os independentistas nas Filipinas, depois da vitória fácil frente aos espanhóis, levou à rejeição do modelo convencional e à preferência pela instalação de “bons governos” que colaborem com os interesses económicos e geo-estratégicos do Uncle Sam. Mas enquanto a Nicarágua, Cuba e a República Dominicana corresponderam à filosofia de tributar sem anexar, mantendo a independência destes países sob um governo fantoche, já S. Domingos e o Haiti trouxeram mais complicações, resolvidas com operações militares e intervenção directa na constituição de regimes e governos, embora ainda assim sem anexação formal (com excepção das Ilhas Virgens).
Observando o destino tirânico destes e de outros países, o autor interroga-se se a anexação não teria sido preferível. Os somoza na Nicarágua, Fulgêncio Baptista em Cuba e Tiburcio Andino nas Honduras (só para citar alguns exemplos) demonstraram que a política de influência nem sempre resultou na instauração de democracias humanistas e liberais, tendentes a aceitar a cultura comercial americana e a promover a qualidade de vida e os direitos fundamentais dos povos nativos.
As posteriores e consecutivas políticas externas de Hoover, Roosevelt e Wilson, que visavam a instalação de democracias pró-americanas na América do Sul, falharam redondamente. A defesa dos interesses mineiros americanos no México também não foi bem-sucedida. Isto apesar do intenso empenhamento político e militar da América, testemunhado desassombradamente pelo General Smedley D. Butler, em 1935:
Ajudei a fazer do Haiti e de Cuba locais decentes para os rapazes do National City Bank obterem aí as suas receitas. Ajudei a saquear meia dúzia de repúblicas centro-americanas para benefício de Wall Street. O registo dos actos de extorsão é extenso. Ajudei a purificar a Nicarágua para o banco internacional Brown Brothers entre 1902 e 1912. Levei a luz à República Dominicana para os interesses da produção de açúcar em 1916. Ajudei a tornar as Honduras “adequadas” às empresas de frutas da América em 1903. (…) Retrospectivamente, sinto que até podia ter dado algumas dicas a Al Capone. O melhor que ele conseguiu fazer foi instalar os seus esquemas em três zonas de uma cidade. Nós, os fuzileiros, operámos em 3 continentes.


O imperialismo do anti-imperialismo.

A América assume o império global com o culminar da Primeira Guerra Mundial, mas o seu envolvimento no conflito deveu-se fundamentalmente ao afundamento do Lusitania por um submarino alemão, que matou 128 americanos. E, também, à desastrada política externa alemã, que colocou em causa a integridade territorial dos EUA a propósito de uma pueril aliança diplomática com o México. Pearl Harbour e o 11 de Setembro são, comparativamente, fenómenos semelhantes: mesmo considerando os valores universalistas que decorrem da Constituição americana, a verdade é que o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos militares de grande escala dependeu muitas vezes de um directo ataque aos seus interesses, aos seus bens e aos seus cidadãos e raramente de qualquer tipo de altruísmo ideológico.
Aliás, as duas grandes guerras não mudaram em nada o cepticismo com que os americanos encaram a acção imperial, embora a ameaça do Bloco Soviético, consequente ao desenlace da Segunda Grande Guerra, tenha sido levada muito a sério. Isto apesar da União Soviética ter recusado o modelo colonial que os americanos criticavam até aos seus próprios aliados.
Mais a mais, o século XX veio demonstrar que os Estados Unidos não são muito competentes quando precisam de implementar modelos de gestão territorial. A ocupação do Japão, que implicou o estacionamento de 400.000 homens no seu máximo e nunca menos de 100.000 até 1957, e a ocupação da Alemanha ocidental, constituíram responsabilidades financeiramente desastrosas, muito porque os países derrotados não estavam em condições de pagar a factura. Por um lado, existia uma vontade objectiva de diminuir as capacidades de produção industrial destes países, de forma a reduzir a possibilidade de voltarem a constituir ameaças à paz mundial, mas por outro era necessário criar condições de prosperidade que lhes permitissem o pagamento das compensações da guerra, juros das dívidas soberanas e custos da ocupação. As coisas nunca correram realmente a preceito para os americanos: “O que era planeado não acontecia. O que acontecia não era planeado. Não era tanto um império por convite mas um império de improviso.
Seja como for, a ajuda americana depois da guerra (incluindo o Plano Marshall e os largos milhões gastos no Japão) nunca superou os 2% do PIB e, na altura em que J. F. Kennedy proclamava que estava disposto a pagar qualquer preço pela liberdade, a ajuda externa do Uncle Sam desceu abaixo dos 1%. O investimento militar, no entanto, foi sempre mais significativo e chegou a atingir os 14% do PIB nos anos 50, que traduziam os gastos tecnológicos da era atómica mas, também, as exigências financeiras das bases militares instaladas em 64 países em 1967, e 168 intervenções armadas entre 1946 e 1965.
O domínio mundial subsequente às grandes guerras levou os Estados Unidos a aplicarem de facto políticas imperiais, mas sempre em nome do anti-imperialismo (neste caso, o imperialismo russo). E a preferência pela “guerra limitada” foi uma constante, quase sempre com péssimos resultados. Essa filosofia imperial envergonhada, carregada de políticas dúbias, teve como resultado derrotas militares (Vietname e Somália), impasses e compromissos (Coreia), e desastres geo-estratégicos (Médio oriente).
Com o fim da Guerra Fria, e dado a importância política, civilizacional e energética da região, a questão era saber se os EUA intervinham no Médio Oriente sozinhos ou acompanhados. O autor responsabiliza a proverbial timidez operacional da ONU pelo unilateralismo americano e afirma, com resoluta lucidez: “o multilateralismo também pode ser menos que esplêndido.” E se é verdade que os EUA pagam 22% do que a ONU custa anualmente, sendo seu o primeiro contribuinte, convém também saber que o orçamento anual das Nações Unidas corresponde àquilo que o Pentágono gasta em 32 horas. Daí que Fergusson conclua que a ONU precisa mais dos EUA do que os EUA da ONU.
Seja como for, foi a primeira guerra do Iraque, legitimada pela Organização sediada em Nova Iorque, que levou a um reforço da presença do Tio Sam nesta conturbada região do mundo. E foi precisamente essa presença que primeiro acendeu o ressentimento de certos sectores islamitas.
A incompetência americana para exercer o domínio militar que a sua tecnologia e disponibilidade financeira de facto permite, em paralelo com a total incapacidade das Nações Unidas para resolverem a esmagadora maioria dos problemas que se lhe deparam, é evidente na análise dos confrontos contemporâneos. Em Mogadíscio, como no Haiti, os americanos mostraram que não estão preparados para sofrer baixas. E nos Balcãs – enquanto a ONU permitiu e assistiu impávida aos genocídios e alemães, franceses e ingleses contribuíam também e muito desajeitadamente com achas para a fogueira, a administração Clinton decidiu tomar uma decisão que prometia uma possibilidade de zero baixas: a NATO bombardeou os sérvios, matando mais de 30.000 pessoas e deslocando 1 milhão, entre Dezembro de 98 e Maio de 99. Tudo isto sem autorização da ONU, mas também sem grandes protestos por causa disso, estranhamente. Entretanto, no Ruanda, ocorria mais um desastre operacional das Nações Unidas, que desta vez contou também com a negligência americana e a cumplicidade dos franceses – o massacre dos tutsis pelos hutu resultou em 500.000 mortos, pelo menos.
Sobre as recentes guerras no Iraque e no Afeganistão o autor manifesta uma opinião não convencional. Seguindo a doutrina que recomenda o ataque a países que albergam organizações terroristas, já que o terrorismo é difícil de combater de outra forma por forças convencionais, a administração Bush consegui o apoio da ONU para a acção militar no Afeganistão, muito porque foi rapidamente colocado um governo nativo no poder. No caso do Iraque, Niall Fergusson mostra algum espanto pelo facto deste país não ter sido invadido antes de 2005, dadas as constantes infracções à lei internacional cometidas pelo governo de Saddam Hussein, que levaram a 22 resoluções do Conselho de Segurança (!). E assinala o cinismo da posição francesa, que é uma constante da sua relação com os Estados Unidos, enquanto desvaloriza a importância dos interesses do complexo industrial e militar na tomada de decisão de invadir o país (a cadeia de retalho Wall Mart subiu mais na bolsa do que a Halliburton durante os anos da guerra).
O autor gosta de chamar islamo-bolchevistas aos radicais islâmicos. É preciso dizer que esta nomenclatura não é completamente correcta. Se podemos enquadrar nesse imaginário, com um esforço de boa vontade, o regime dos Ayatollas, no Irão, a nomenclatura só muito dificilmente é apropriada para qualificar a Alquaeda ou o ISIS no mesmo enquadramento ideológico. Mais abrangente e menos polémica será, porventura a definição Islamo-fascistas usada por outros eminentes analistas da realidade política no Médio Oriente (2).


A queda.

Niall Fergusson pergunta-se, com algum desassombro e por várias vezes nesta obra: não será melhor para certos estados ditatoriais ou fracassados uma ocupação que permita a transição para a democracia sob protectorado, mesmo que esta ocupação dure décadas? Parece evidente que esta solução é preferível na maior parte dos casos, até porque a descolonização descomprometida com os destinos regimentais dos países colonizados, como foi feita pelas potências ocidentais, não trouxe paz nem prosperidade a esses países. Ao contrário, as ditaduras que se seguiram foram, na perspectiva das populações nativas, bem piores que os impérios coloniais. Na maior parte dos casos, as ex-colónias ficaram mais pobres relativamente às metrópoles. E a globalização não é desculpa: para o autor, o problema da globalização não é o de exisitir. É o de ser pouco ambiciosa.
Por outro lado, as variáveis ambientais, geográficas ou de salubridade não justificam, na opinião de de Fergusson, o subdesenvolvimento das ex-colónias, como defendem vários e eminentes autores contemporâneos como o Professor Jared Diamond (3). O problema está na ausência de instituições democráticas e liberais, que assegurem os direitos da propriedade privada, as liberdades individuais, os direitos contratuais, a estabilidade governativa, a governação honesta, moderada e eficiente; uma opinião que tem vindo a ser secundada posteriormente por outros reputados académicos como Daron Acemoglu e James A. Robinson (4). É, assim, por omissão de civilização e não por excesso que pecam os impérios.
Seguindo a lógica desta linha de pensamento, não devemos criticar os americanos por intervirem em territórios além das suas fronteiras, mas por não estarem dispostos a prolongar a sua estadia por períodos mais longos, de forma a criar condições reais que alicercem o curso de democracias de inspiração ocidental.
Os britânicos ficaram 40 anos no Iraque, que é um estado inventado por eles. E quando permitiram a independência (controlada) e coroaram o rei Faisal, o hino que tocou na cerimónia oficial foi o “God Save the King”. É claro que a lógica de Fergusson tens as suas lacunas: mesmo permanecendo 40 anos no Iraque, o Império Britânico acabou por não criar um estado estável, como sabemos hoje muito bem.
E, de qualquer forma, percebe-se que os americanos prefiram residir no seu país e avaliar com cepticismo o colonialismo à maneira europeia. A nação federal oferece um nível de conforto material e civilizacional aos seus cidadãos que não tem comparação com o que era assegurado pela Inglaterra do século XIX (ou o Portugal dos Séculos XV a XX). Entre viver em Boston ou viver em Kabul, é compreensível que o americano médio prefira ficar em casa. Ou voltar para esse farto conforto o mais depressa que lhe seja possível.
Em oposição directa a escoceses e irlandeses, que usavam o serviço público colonial do Império Britânico como trampolim sócio-económico, os cidadãos mais discriminados dos Estados Unidos da América tendem, apesar de tudo, a querer permanecer nos Estados Unidos da América e, assim, os EUA lutam com uma escassez crónica de mão-de-obra para o “nation-building” que é necessário à boa gestão de um império (mesmo que apenas económico, mesmo que apenas cultural). Actualmente (leia-se: números de 2004), cerca de 3,8 milhões de americanos vivem no estrangeiro. Um oitavo do número de estrangeiros que vivem nos EUA. Destes americanos emigrantes, um milhão vive no México e 687 mil no Canadá. E dos 290 mil que vivem no Médio Oriente, dois terços residem em Israel. Há apenas 37 mil americanos a viver em África. A América é “um império sem colonos“. E como as faculdades americanas não têm vocação ideológica e técnica para a formação de quadros que operem além-fronteiras, é também “um império sem administradores“.
Além do mais, o apoio popular a aventuras além mares com duração temporal substantiva é cada vez mais escasso. Se no Vietname foram precisos 30.000 mortos e anos de combate acesso para que a opinião pública retirasse o seu apoio ao esforço de guerra, no Iraque bastaram 6 meses de confronto para que a administração Bush se visse a braços com a contestação geral. Isto embora a análise histórica demonstre o acerto de uma estratégia mais consistente. A presença militar na Alemanha, no Japão e na Coreia do Sul, porque foi de longa duração (décadas), gerou a formação de estados bem-sucedidos.
Por outro lado, e paradoxalmente, a hegemonia americana não parece ameaçada, como nos tempos da Guerra Fria, por nenhum inimigo cujo poderio bélico ou económico tenha que ser levado em conta. No entendimento do autor, a União Europeia é o único rival à altura. A demografia é superior em mais do dobro (450 milhões de europeus para 200 milhões de Americanos) e o PIB é ligeiramente superior (mais uma vez, em números de 2004). A economia da União apresenta bons índices de produtividade, a aproximarem-se da americana, e um peso comercial que é par, mas não está tão endividada. Porém, e mesmo que se trate de um aliado céptico e, muitas vezes, cínico, a União Europeia não tem impulso imperial, nem coordenação militar, preferindo contar, nessa área, com o protagonismo americano, mesmo que depois se prontifique a criticá-lo abertamente.
Acresce que a União Europeia tem vários handicaps: a população envelhecida, um crescimento económico decepcionante, um mercado de trabalho pouco flexível, com altas taxas de desemprego e baixo voluntarismo. Os trabalhadores americanos folgam menos, fazem menos greves e têm um terço dos dias de férias em relação aos trabalhadores europeus. As políticas comunitárias, que tendem ao proteccionismo sectorial, e a união monetária, que demonstra grandes fragilidades (o autor antecipa a crise do euro com extrema acuidade), são também factores que reduzem a capacidade dos europeus de competirem efectivamente com os Estados Unidos.
A China – candidata a primeira potência mundial em 2041 (e de primeira potência de facto até 1850) apresenta altas taxas de crescimento económico. Mas também sérios problemas de crescimento e de interdependência comercial. E não está, ou não estava em 2004, em condições de competir tecnológica e militarmente com os Estados Unidos.
Assim, o declínio e queda do império americano será devido, fundamentalmente, a duas circunstâncias internas: por um lado, o ruído de fundo psico-social que está na génese da nação e é anti-imperialista, tem por consequência uma constante ausência de voluntarismo para a acção externa. Por outro, a dimensão da dívida pública e a consequente permanência de um estado de crise orçamental – curiosamente, não por causa dos gastos militares, que têm descido em relação ao PIB, consistentemente, desde os anos 50.
O produto americano subiu de 10% do produto mundial em 1980 para 31% em 2002 e a economia americana é duas vezes e meia maior que a japonesa, oito vezes e meia maior que a chinesa e trinta vezes maior que a russa (à data da redacção da obra). Os gastos militares dos EUA excedem o conjunto dos orçamentos de defesa da União Europeia, da China e da Rússia.
Os custos da invasão do Iraque e do Afeganistão, ao contrário do que é muitas vezes propagado, foram marginais face ao PIB. Mas o peso do consumo público e privado, bem como com a segurança social, está a transformar a América numa nação vulnerável.


Conclusão

Manifesta-se no Século XXI americano a mesma má equação que aflige a Europa desde as últimas décadas do Século XX: a relação deficitária entre a demografia e capacidade do estado em manter as prestações sociais. A médio prazo os EUA podem ter que escolher entre pagar a dívida soberana ou as pensões. O professor de Harvard traça aliás um quadro muito negro do futuro financeiro e tributário dos EUA: mesmo que os impostos sobre o rendimento fossem aumentados para o dobro e em tempo real, a sustentabilidade do sistema a médio-longo prazo não estaria ainda assim garantida.
O recurso à tradicional e muito questionável solução de emitir mais moeda já não é nada atraente, porque o correspondente aumento da inflacção levaria inevitavelmente à subida das taxas de juro dos títulos do tesouro e da dívida. Ora, os mais significativos detentores da dívida americana são os chineses e os japoneses, o que é, em termos geo-estratégicos e civilizacionais, talvez um pouco complicado. A garantia contra a catástrofe está no facto de tanto os credores do Império do Meio como os da Terra do Sol Nascente não estarem assim tão interessados na ruína dos EUA como poderia parecer à primeira vista, já que muito dependem da prosperidade dos mercados de consumo americanos. Mas esta conjuntura económica pode sempre mudar, claro, e um dumping de títulos da dívida do primeiro motor económico mundial é algo que pode absolutamente mudar o universo como o conhecemos.
É que um império rico e forte não é necessariamente um império poderoso. Fergusson enumera 3 deficits do império americano que contribuem para a redução da sua influência global: o económico, por causa da dívida, o da força de trabalho, por causa da inexistência de um corpo de quadros disponível a dedicar-se a uma carreira além mares; e o deficit de atenção, na medida em que o povo americano tende a relativizar a importância dos acontecimentos políticos e militares externos e a colocar-se instintivamente com políticas de cariz imperialista.
O império em negação, que atribui recursos insuficientes aos aspectos não militares das intervenções e que procura transformar os territórios económicos e políticos dos países colonizados num prazo irresponsavelmente curto, é também um império de gordos: “o fardo do homem branco desceu-lhe para a cintura“. E atenção. Nem é preciso que o império caia para que se crie uma perigosa “apolaridade” global“, O futuro, em resumo, poderá revelar-se por algum tempo como apolar, um mundo em que não haverá sequer uma potência imperial dominante, talvez como o século IX mas sem o califado abássida”.
Niall Fergusson não é um prosador sobredotado. Mas, se compararmos este “Colosso” com outras duas obras do autor publicadas em Portugal (5), esta será talvez o trabalho de leitura mais aprazível e de tom menos académico, apesar dos problemas já referidos e que derivam do que aconteceu no mundo nos últimos 12 anos.
O autor pertence com certeza a uma tribo bastante assertiva de adivinhos. Prevê a crise económica que rebentou em 2007 com espantoso detalhe, profetiza o percurso da Moeda Única Europeia como se tivesse entrado numa máquina do tempo para ver a coisa acontecer uns anos mais tarde e palpita-lhe que o abandono precoce do Iraque poderia descambar em algo como o Estado Islâmico. Mas também é verdade que a ignorância sobre factos entretanto ocorridos, como a incapacidade de encontrar as armas de destruição maciça no Iraque, que era segmento fundamental do argumento para a invasão, impedem o bom professor de ter no seu leitor um dedicado apologista. Ainda assim, e considerando o acerto de muitas das suas previsões, será de levar muito a sério a perspectiva de uma ruptura do sistema financeiro americano, que o autor anuncia como incontornável. E uma consequente era de apolaridade que, atendendo objectivamente às lições da história, não é nada recomendável.
Um dos mais interessantes contributos desta obra é que se trata de um trabalho de vocação comparativa. O autor explica-nos outros impérios para nos explicar o americano. E principalmente explica com mestria e capacidade de síntese o Império Britânico. E é através desse esforço dialéctico que percebemos as fragilidades de um “império devedor”, uma excepção volátil às tradições imperiais anteriores, que investiam nos territórios da sua esfera de influência e eram essencialmente entidades credoras.
“Colosso – Ascensão e Queda do Império Americano” é um livro inquietante e provocador, polémico na mesma medida que é lúcido. E que por isso vive para além dos seus defeitos intrínsecos. E que por isso é um documento de profundidade inegável. E, a espaços, bastante assustador.


(1) Sapiens – De Animais a Deuses – Yuval Noah Harari – Campo das Letras Editora – 2015
(2) Islamofascism refers to use of the faith of Islam as a cover for totalitarian ideology. W. Schwartz. The Spectator . 2006
(3) Colapso – Ascensão e Queda das Sociedades Humanas – Jared Diamond – Gradiva – 2006
(4) Porque Falham as Nações – Daron Acemoglu e James A. Robinson – Circulo de Leitores – 2012
(5) – História Virtual – Niall Ferguson (Coord.) – Tinta da China – 2006; A Lógica do Dinheiro – Niall Fergusson – Temas e Debates – 2008

domingo, janeiro 22, 2017

Ao volante pela estrada de Sintra.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa que o poeta, que ia devagar, pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa mas não tenho pressa: 
quero que a estrada se eternize no espaço e no tempo;
quero-a infindável e alucinante.
Vou a acelerar pela estrada de Sintra, mas não quero chegar a Sintra.
Não quero chegar a lado nenhum
porque querer chegar a algum lado é um mito.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra e tudo o que espero da estrada 
e tudo o que espero de Sintra
e tudo o que espero da vida
é morrer assim, veloz, bombástico, supersónico como um astronauta,
disparado como uma seta em direcção a nenhures,
embalado pelo malicioso ronronar do motor,
travando o menos possível nas curvas,
acelerando o mais possível nas rectas,
senhor de 230 cavalos enlouquecidos, embestados, bestiais!;
piloto de cilindros enfurecidos na grande combustão de tudo!;
soltando ruídos e faíscas e raters e explosões!;
até que a velocidade chegue a vertigem e a vertigem seja Deus.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Por sorte não vou com um Chevrolet, como o poeta, 
Por sorte não guio um automóvel emprestado, como o poeta,
mas, como ele, vou ao luar e ao sonho pela estrada deserta
e outrossim sozinho guio, mas depressa porque não tenho pressa;
mas depressa porque ninguém me espera;
mas depressa porque eu não espero por ninguém;
mas depressa porque conduzo a emergência de não ter urgências
e a velocidade de não ter uma agenda.
Sim, não estou propriamente a reflectir sobre a paisagem
e a vida que levam as pessoas que habitam os casebres à beira da estrada
não me interessa nada.
Enquanto o asfalto rugoso, a borracha aderente e a electrónica alemã
seguram o automóvel às leis de Newton,
não tenho vagar para fazer filosofia.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra porque sim,
porque posso, porque quero, porque estou vivo, porque vou morrer.
O acelerador é um fim em si mesmo
e o estômago colado às costas, as costas coladas ao assento,
o assento colado à carroçaria, a carroçaria colada ao chassis
e o chassis colado à estrada dão razão, dão sentido ao universo!

Vou a acelerar pela estrada de Sintra, e vou muito mais depressa
do que o poeta ia depressa quando finalmente se cansou de guiar devagar.
O poeta ia enfim depressa por tédio de ter vindo devagar
e eu venho depressa desde sempre para não me aborrecer.
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
e o meu coração dispara para as sete mil rotações por minuto
e a minha alma é fricção, binário, força e glória mecânica de pistões!
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
sem pressa pela estrada deserta,
sem travões pela serra que amanhece
ao som que faço com os nervos
e os cavalos.



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Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

Álvaro de Campos

sábado, janeiro 21, 2017

sexta-feira, janeiro 20, 2017

É matar até fartar.



Call of Duty: Infinite Warfare a bombar na PS4. Devastador. Estamos cada vez mais perto de ter jogos em imagem real. É que falta mesmo muito poucochinho.

Estes já carregam com mais décadas na carcaça.



Mas também não têm juízo nenhum.

Fujiya & Miyagi . Serotonin Rushes

Ainda nem têm barba...



mas nasceram nos anos 80.

Blossoms . Charlemagne

quinta-feira, janeiro 19, 2017

quinta-feira, dezembro 22, 2016

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Xmas Soundtrack



Kaiser Chiefs ensaiam uns eloquentes prolegómenos à arquitectura pop contemporânea. Licença para saltar (com ou sem para-quedas).

Kaiser Chiefs . Parachute

sábado, dezembro 03, 2016

Cognac Christmas Gig


Sure: it’s Christmas time and you have a lot to do. Places to go, people to visit, gifts to buy, gifts to give, parties to attend, dinners to have, children to cherish, plastic trees to ignite and whatnot. Sure: It can be very stressful. But then again, you can always take a break and simply be with friends and relax for a little bit (even Santa would agree with this). After all, we’re not inviting you to camp here. Just show up, have a drink or two and go about your business, if you have to. It’s all right, really. Although we believe you should play as hard as you work, we understand completely: heaven knows Christmas can be tough as hell.

Bom deus:



que filha da mãe de musiquinha. Operática, repetitiva e minimal, para quem acha que a música do Blogville é demasiado comercial (ou seja: raparigas com bigode).


Birdpen . The Solution Is The Route Of All My Problems

quarta-feira, novembro 30, 2016

Como é que é possível



não haver um clip para esta malha fabulosa? Hã?

Moon Taxi . Who's To Say

terça-feira, novembro 29, 2016

Sou mau. Sou muito mau.


Golf GTI MKVII - Performance Pack - 230Cv. Finalmente, o meu carro de sonho. 
Foto - Road Killers

quinta-feira, novembro 17, 2016

Karaoke power. Full power.



Que saudades tinha eu deste rapaz. E que bom tem sido matá-las com este disquinho simplesmente fabuloso. Cantem comigo. Dancem comigo. Pulem comigo. Ou sem ser comigo. Mas curtam bem este grandessíssimo bocado de pop.

The Courteeners . The 17th

quarta-feira, novembro 09, 2016

América condenada #9


América condenada #8

Agora vou eu dormir. Ninguém ainda anunciou a óbvia vitória de Trump. Mas deixo uma última nota que é de importância histórica: o próximo presidente dos EUA vai negociar a entrada de 4 a 6 novos juízes do Supremo Tribunal. E se não entendes a magnitude desta última frase, caro leitor, muda de blog. É que pensar em Donald Trump como o tipo que vai poder influenciar decisivamente aquela que vai ser a jurisprudência constitucional americana durante as próximas duas ou três gerações, é tão assustador como foi para mim ter um muçulmano marxista a viver na Casa Branca durante 8 anos. Sinceramente.

E volto ao tema que este blog assumiu nos últimos anos: vivemos num mundo ao contrário. Em definitivo, num mundo ao contrário.

América condenada #7

A certa altura desta dura campanha, Trump, com a sua habitual prosápia de canalha, afirmou que, num certo contexto, não admitiria a derrota. Não a admitiria formalmente, quero eu dizer. Estalou um escândalo enorme. Os democratas passaram-se completamente. E isso até se percebe, A ironia é que, neste preciso, muito real e muito concreto momento, a Fox está a reportar que Hillary Clinton já foi para casa, sem admitir a derrota.
Que vergonha.

América condenada #6



Faded Paper Figures . Red State

I will be blue in a red state
all the long day with you.
I will be blue in a red state

all the long day with you.
And when iron curtains start to fall,
foreign lovers reaching through the wall.
These policies will freeze,
But hearts are warm technologies
In failed democracies.
I will be blue in a red state
all the long day with you.
I will be blue in a red state
all the long day with you.

América condenada #5

Os americanos estão prestes a eleger para supremo líder da sua desgraçada e decadente federação um tipo que acha que as mulheres, quanto mais bonitas são, mais devem ser agarradas pelas suas conas. Que disse que os pretos são os responsáveis pelos assassínios dos brancos, que disse que os mexicanos não passam de um bando de violadores. Que disse que o chefe de estado com que mais se identifica é Vladimir Putin (e vice-versa). Que disse tanto disparate, que disse tanta obscenidade, que disse tanta coisa perigosa, que só pode ser realmente o maior idiota da história universal da infâmia.

Mas como é que um gajo atrasado mental, como Donald Trump é atrasado mental, chega a líder do mundo livre? Quem é que tem culpa? É ele? Mas ele é tão estúpido que não pode ser realmente responsável. É o povo americano? Mas o povo americano, na verdade, é o mesmo povo que elegeu outras pessoas um pouco menos estúpidas. Só nesta geração, elegeu um gajo inteligentíssimo ainda agora (para a esquerda) e um outro gajo que, não sendo inteligentíssimo, foi um presidente muitíssimo competente (para a direita).

Podemos especular que os americanos escolheram o menor de dois males porque a pobre da Hillary não convence ninguém. Isto é verdade. A pobre da Hillary não conseguiu sequer parecer mais inteligente que o seu imbecil adversário. E isto não é dizer pouco. Mas ainda assim, a culpa é dela? Afinal, não era Hillary Clinton, há dois ou três anos atrás, a grande senhora da América? A grande embaixadora da América? A grande mulher-de-estado-promessa-de-todos-os-femininismos? Depois de um negro na Casa Branca, não era mesmo uma mulher que ficava bem na mesma morada? Não foi ela eleita para governadora do estado de Nova Iorque na ressaca de ser a campeã das cornudas? Não era ela amada, respeitada e querida para a última e primeira posição do poder executivo?

Bem vistas as coisas, o problema não é de Trump, que é demasiado parvo. O problema não é do eleitorado, que é demasiado diletante. O problema não é de Hillary, que é apenas vítima das suas circunstâncias. A coisa vai mais fundo. É um mal mais intestino. É uma ferida mais cancerígena.

America condenada #4

Wall Street vai abaixo com a previsível vitória de Trump. O capitalismo não acredita no capitalismo. E está tudo dito.

América condenada #3


Reparem bem neste mapa eleitoral. Foi tirado agora mesmo de uma infografia do Público. É mais que perceptível que existem duas américas. A costa nordeste e a costa oeste, densamente habitadas e ferozmente democratas. Democratas, muitos deles, que a serem portugueses votariam no Bloco de Esquerda. E quase todo o resto, ferozmente republicano. Republicano de tal forma que não votaria em coisa nenhuma em Portugal ou em qualquer país europeu, pelo singelo desprazer de na Europa não existirem partidos assim tão ferozmente libertários. Sim, libertários. Esta palavra, nos Estados Unidos, pertence à direita. Como a palavra liberal, nos Estados Unidos, pertence à esquerda.
Não me lixem: este mapa, por si só, anuncia uma segunda secessão.
No outro dia fui quase ridicularizado por um amigo, que considero intelectualmente, por ter dito que os Estados Unidos da América são uma guerra civil à espera de acontecer. É uma coisa que digo recorrentemente e que já articulei o bastante aqui no blog. É claro que posso estar a delirar. Mas pensem nisto: como é que a esquerda marxista americana, que, pela voz de Bernie Sanders, deu uma luta danada a Hillary Clinton nas primárias, vai viver com uma presidência interpretada por Donald Trump?
Vai viver mal. Mas apenas mal?

América condenada #2

Trump vai ser o próximo presidente destes Estados Unidos da América. O que ninguém está a dizer é o óbvio de cor magenta: Barak Obama tem muita responsabilidade nisto. Basta vermos os resultados decisivos de Trump em áreas eleitorais decisivas para Obama nas duas últimas eleições presidenciais. (O candidato republicano lidera, neste momento, até no estado da Pensilvânia!). É tão clara a desilusão com os 2 mandatos do muçulmano que até faz impressão.
Outra coisa que ninguém diz: o decaimento do Partido Republicano à esquerda justifica também, e muito, esta total esquizofrenia.

América condenada #1

São 4 e 47 da manhã e os rapazes na CNN estão desesperadamente a procurar votos eleitorais onde a Madame Clinton possa fazer a diferença. Não conseguem realmente esconder o desespero. E essa incapacidade é deprimente.

quinta-feira, novembro 03, 2016

Os clips continuam maus. A música continua boa.



Estes rapazes aqui não ligam grande coisa à apresentação visual dos seus temas, mas já é o segundo disco deles que oiço em 2016 e posso garantir: a música vale mesmo a pena.
Para ouvir de olhos fechados.  

Graveyard Club . Nightcrawler

terça-feira, novembro 01, 2016

Que banda maluca.



Drowners . Cruel Ways

Como já tinha dito aqui em 2014, estes rapazes têm um rock tão fundamental, de tal forma genuíno e carregado de pura energia, que me deixam completamente com vontade de pulos. On Desire é um disco poderoso. Mesmo, mesmo p-o-d-e-r-o-s-o.

Slot SCX: já bomba, na Cognac.