quarta-feira, maio 30, 2018

Meia tempestade.






Cidadão Sebastião #01


- Boa tarde.
- Boa tarde, cidadão.
- Um bilhete para Ponta Delgada, por favor.
- Desculpe cidadão, mas a companhia não oferece transporte para Ponta Delgada.
- Não? Mas ali no monitor das partidas indicam que sai uma composição às 10h30, para Ponta Delgada.
- Lamento, cidadão, mas permanece o facto de que não lhe posso vender um bilhete de comboio para Ponta Delgada. Será preciso articular sobre essa impossibilidade?
- Será. Será preciso, na medida em que a indicação é bem clara. Composição 12-43, Com partida às 10h30 de Santa Apolónia, e escala na Ilha do Pessegueiro. Está ali escrito, vê-se daqui.
- Cidadão, aqui no guichet vendemos bilhetes de viagens ferroviárias supra-sónicas para todas as capitais de distrito de Portugal continental e para a maior parte das grandes capitais europeias. Recentemente a companhia inaugurou a linha Lisboa-Funchal, é certo. Mas não temos qualquer ligação a Ponta Delgada, por todos os deuses da galáxia! Sobre o que mostra o placard das partidas nada lhe posso dizer. Terá que se dirigir ao Gabinete de informação electrónica da Companhia.
- Muito bem. Assim farei. E onde fica esse gabinete?
- Na Gare Ferroviária de Ponta Delgada.

Se isto não dá vontade de ser feliz,

 boa sorte com tudo o resto.



Glass Animals . Gooey

Slot como paixão de vida.



Esteve a bombar entre 2016 e 2018. Agora acabou-se.
Quando voltar a ter saudades invento outra maneira de ter espaço, de ter  vagar, de ter prazer com a minha, muita minha pista de carrinhos ScalexTric.

Arrepiante.


Este é um dos robots da BostonDynamics. Chama-se Atlas. E o que me arrepia não é propriamente o balanço, o pulo, a cambalhota. O que me arrepia é que Atlas parece perceber que no balanço, que no pulo, que na cambalhota, há um elemento de erro, há a probabilidade da queda, há a possibilidade do ridículo. Atlas parece hesitar, parece procurar pontos de equilíbrio que não estão no programa. Parece, em certos gestos, um mau ginasta. Parece, em certos movimentos, que tem consciência do risco.
E é isso que me arrepia.

Depois do silêncio,

a primeira música tinha que ser esta.



The Wombats. I Don't Know Why I Like You But I Do.

Carta enviada ao Observador.

Viva, bom dia.

Conforme documento em baixo, acabo de subscrever a assinatura Premium do Observador. Faço-o por me identificar com o programa editorial da publicação, muito mais do que pela qualidade técnica do jornalismo propriamente dito. E estando em desacordo com a filosofia de gestão que preside ao produto "premium", peço a vossa paciência para explicar esta discórdia.

Os jornais querem ganhar dinheiro, como qualquer outro negócio, e eu respeito completamente esta premissa, que, além de tudo, é óbvia.

O Observador ocupa um espaço único e corajoso no panorama mediático português. Muito pela razão prosaica de que não tem concorrência. Não há outros jornais de centro-direita, exceptuando talvez a newsletter semanal do arquitecto (que ninguém leva a sério) e o correio tabloide (que se devia levar mais a sério). Seja como for, em boa verdade, estas publicações não concorrem directamente com o vosso público alvo.

É verdade que o corpo da redacção e consequente conteúdo das notícias do Observador me parecem muitas vezes pouco alinhados com a filosofia editorial, mas bem sei que é difícil encontrar jornalistas de direita (ou de centro) que fujam ao mainstream da esquerda. Se isto é verdade nos Estados Unidos da América, terá que ser científico em Portugal. As colunas de opinião, no entanto, compensam imenso essa (triste) deriva.

Neste contexto, percebo que o Observador queira subir a fasquia do negócio. O que me parece incompreensível, num jornal liberal (leia-se liberal no sentido europeu do termo) é que pretenda facturar primeiro e justificar o lucro depois. Quero eu dizer: os meus amigos estão a pedir dinheiro aos leitores para que estes usufruam exactamente do mesmo produto que já tinham de borla (a "borla" era até um orgulho editorial do Observador).

Tenho a certeza que o Dr. António Carrapatoso, pessoa que não conheço pessoalmente mas que muito admiro, me dará razão, quando digo que esta não será a maneira mais adequada de capitalizar um produto com potencial. O lucro pressupõe um investimento. É assim nos negócios, como afinal, na vida.

Permitam-me que vos recomende a prática inversa: subam, por favor, o nível do jornalismo corrente, que é, todos os dias, praticado na redacção do Observador. Partilhem essa qualidade durante dois ou três meses. E depois, sim, peçam aos vossos leitores para pagar algo que entretanto se percebeu como um investimento. Como uma mais valia. "Estamos a fazer melhor jornalismo. Investimos nesse jornalismo de qualidade. Agora, caros leitores, é altura de contribuírem para a continuidade desse esforço."

Isto faz sentido. E é justo.

Quando assinei o The Economist, estive dois meses à experiência. Gostei da experiência. Assinei. Isto faz sentido. E é justo.

Aceitem os meus mais cordiais - e leais - cumprimentos;

Atentamente;

Paulo Hasse Paixão

Sobre a Eutanásia.

Não vou discorrer sobre a ética da morte ou da vida.
Tenho no entanto que dizer, neste regresso ao blog, depois de um ano do mais infame silêncio, que não cabe aos representantes desta legislatura formarem corpo de lei sobre esta matéria. Não foi para decidirem como é que as pessoas morrem que esta tropa de imbecis foi eleita.
Aliás, pensando bem, não foi para decidirem como é que os portugueses vivem, no sentido ontológico de existência, que esta tropa de imbecis foi eleita.
Esta tropa de imbecis pode decidir sobre coisas acessórias. Esta tropa de imbecis pode exceder-se até sobre matérias como a quantidade da sal que os padeiros colocam no pão (o que já é vilania ilegítima que baste).
Esta tropa de imbecis pode roubar os contribuintes até que chegue o dia da revolução.
Pode corromper e corromper-se até ao limite do sangue.
Mas não pode, de todo, substituir-se a deus. Não pode de todo reorganizar o caos que se intromete, soberanamente, entre a felicidade e o sofrimento. Entre a morte e a vida.

quarta-feira, junho 14, 2017

Abençoados 80 euros

que eu vou gastar em Outubro ou Novembro nesta máquina de felicidade:


terça-feira, junho 13, 2017

E também gosto destes.



O clip continua a ser manhoso, mas ao menos toca uma malha substancial.

Day Wave . On Your Side

segunda-feira, junho 12, 2017

Gosto destes.



Mas as melhores canções não têm clip...

British Sea Power . Bad Bohemian

terça-feira, maio 23, 2017

50 anos, caraças!

Por Nuno Miguel Silva



50 anos, caraças!
Entrados, entrudos,
Talvez sortudos…
100 trapaças
100 2 caras!
50, 100 máscaras
50 a fundo
Nunca 2º!
50, 1º!
100, depois
Amizade para 2
A gosto ou janeiro
50, caramba!
Carambola…
Na corda bamba,
Na nossa bola,
50, Paixão!
Sempre a pulsar
Muito a viver
50, meu irmão!
Espero por ti
Aguenta por mim
Tanto que vivi
100 ti, seria assim?

quarta-feira, maio 17, 2017

Uma pequena frase que diz quase tudo sobre os 43 anos desta república.

"No ominoso tempo do nazi-fascismo, Portugal era só o Festival da Canção, Fátima e o Benfica."
Bruno Oliveira Santos

segunda-feira, maio 15, 2017

sábado, maio 13, 2017

O Herói do Tetra.

Vivi o tempo suficiente para estar sentado no Estádio da Luz a ver o bom do Eusébio,
que chutava à baliza como se disso dependesse a sobrevivência da humanidade.
Vivi o tempo suficiente para estar sentado no Estádio da Luz a ver
o maluco do Simões
que fazia sempre a mesma finta, e era sempre bem sucedido naquela finta
que fingia que ia à linha, mas não era isso que acontecia
(como o Robben de agora).

Vivi o tempo suficiente para que o Humberto Coelho crescesse
para além da sua altura,
para além da sua classe,
para além do seu destino.
O tempo suficiente para que o Vitor Baptista perdesse o brinco da orelha direita
e para que o Chalana fizesse circo e transformasse o futebol
no maior espectáculo do mundo.
O tempo suficiente para que o Nené conseguisse finalmente
mostrar uma nódoa de lama nos impolutos calções de goleador cruel
e diletante;
o tempo suficiente para que o Pietra mostrasse a toda a gente o que significa
ser um jogador do Benfica;
O tempo suficiente para que o Carlos Manuel explodisse com o cabedal da bola
e o Diamantino revelasse à audiência que afinal era um intelectual
e o Alves marcasse livres directos de precisa geometria elíptica, gregos de tão belos,
sem um passo de balanço que fosse e apenas com o movimento das luvas pretas,
que eram pássaros;
que eram poemas.

Vivi o tempo suficiente para perder uma Taça dos Campeões Europeus
porque alguém mandou o Veloso chutar um penalti.
E o Veloso, que falhou eese decisivo penalti, e que sempre foi
um jogador de futebol de máxima competência,
ficou com as culpas.
Adoro-o por ter ficado calado, com as culpas todas que não eram dele.

Vivi o tempo suficiente para assistir, encantado, ao talento único
do Vítor Paneira.

Vivi o tempo suficiente para ver o Álvaro Magalhães parar de comer a relva e,
por um instante divino,
marcar um dos mais belos golos da história da Taça UEFA.
O tempo suficiente para que um dinamarquês e cinco suecos invadissem o relvado
com a sua arte serena, com a sua determinação engenhosa, com o seu método pagão:
Maniche e Magnusson, Stromberg e Thern, Schwarz e Lindelof.
Filhos, todos eles, de Thor.
Filhos, todos eles, de Wagner.

Vivi o tempo suficiente para assistir ao bailado viril e eficiente e camarada,
de Mozer e Ricardo;
vivi o tempo suficiente para me apaixonar por um puto canina, meio russo,
que numa célebre tarde, em Alvalade, foi, de longe, o melhor jogador do mundo.
Vinha de um bairro pobre do Porto,
vinha com aquele jeito reguila de génio irrequieto
e jogava à bola com o diabo no corpo e o coração nos pés:
chamava-se Pinto. João Vieira Pinto.

Vivi o tempo suficiente para pasmar com o gigantismo bravo, biblíco, ensandecido
do Isaías e a tranquila lucidez de Kulkov.
O tempo suficiente para que Rui Costa passasse de delfim a príncipe;
o tempo suficiente para que as minhas redes fossem guardadas
pelo melhor dos belgas,
o mais correcto dos homens,
o mais educado dos futebolistas,
o mais esbelto dos atletas:
Michele Preud'homme.

Vivi o tempo suficiente para que Paulo Futre  levantasse o Jamor
e Simão Sabrosa inventasse a ternura, na posição de extremo esquerdo.
O tempo suficiente para que Luisão garantisse o seu lugar no céu
e Nicolas Gaitán o seu canto no paraíso.
O tempo suficiente para que Fábio Coentrão percebesse
que era um grande defesa esquerdo;
O tempo suficiente para que Axel Witsel cometesse o disparate
de ir jogar para a Rússia,
O tempo suficiente para que Nemanja Matic fizesse esquecer Witsel
e que Enzo Perez pulverizasse a memória do belga e a saudade do sérvio.
O tempo suficiente para que alinhassem no onze inicial do meu querido clube
uma quantidade espantosa de monstros sagrados, a saber:
Valdo Cândido Filho,
Claudio Cannigia,
Carlos Gamarra
Karel Poborsky,  
Fabrizio Miccoli, 
Pablo Aimar, 
Angel Di Maria, 
Xavier Saviola, 
Ramires Santos.

Vivi o tempo suficiente para ter a consciência de que Jonas Gonçalves Oliveira,
nascido em 1984, na localidade de Bebedouro, Estado de S. Paulo, Brasil;
o mago acidental,
o mais improvável dos camisolas 10,
o mais equívoco dos cracks,
Jonas, ele mesmo, o alienígena sem carreira nem futuro,
é que é o herói, verdadeiro, desta tetralogia;
o  astuto Ulisses desta odisseia,
o derradeiro crack, o triunfante cromo,
o valente correio da glória 
que é ser benfiquista.

quinta-feira, maio 11, 2017

terça-feira, abril 18, 2017

Só sabem fazer bem feito.



Velhos amigos deste blog, os Said The Whale não sabem fazer nada que não seja pop de primeira linha. E este último álbum sobe por essa corda melódica até lá acima. Ao céu dos tímpanos.

Said The Whale . Confidence

sábado, abril 15, 2017

Loneliness is next to godliness.


Outro elogio da incompetência.

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."


Álvaro de Campos


Todos os meus amigos que escrevem poemas
(tenho bastantes amigos que escrevem poemas, por graça de Cristo)
gostam imenso que eu leia os poemas que eles escrevem.

O facto traduz, na verdade, uma lisonja parva porque
eu não sou propriamente o Luís Borges e porque
eu não sou sequer um legítimo crítico literário até pelo simples facto
de escrever também poemas.

Por muito má que seja a minha poesia
(tão má que serve a boa poesia dos outros, pelo contraste)
não deixa de ser poesia e um poeta que também serve
para crítico literário, é uma besta.

Eu próprio, fenómeno espantoso,
gosto imenso de ler os poemas que os meus amigos escrevem,
mesmo quando são de caras melhores que os meus
ou piores do que eu consigo imaginar.

Tudo isto não interessa realmente à poesia.
As pessoas gostarem ou não gostarem da poesia que se escreve é
completamente irrelevante.

Tudo isto não serve realmente à amizade.
Não é por ser amigo de poetas que sou amigo deles,
independentemente de eles serem bons ou maus poetas ou mais ou menos.

Digamos que me sinto um felizardo por ser amigo destes notáveis trovadores,
embora a qualidade da sua trova seja substancialmente indiferente
tanto para a história universal da literatura como
para mim.

A qualidade da minha própria poesia
é a coisa mais indiferente para mim que tu possas imaginar,
gentil e tolerante leitor.

Talvez por isso, ou por legítimo nojo estético, ou por justificada
inoportunidade ontológica, os meus amigos poetas evitam
o convívio dos meus versos, embora,
estranhamente,
procurem a benção da minha crítica.

Sendo um péssimo poeta serei ainda um pior crítico e é assim
que tantas vezes sinto aquilo que o engenheiro naval sentia:
a improvável singularidade de ser o único gajo que escreve
má poesia.

sexta-feira, abril 14, 2017

A corporação dos bandidos ainda bomba que se farta.



Já me tinha esquecido destes bons ladrões, que tanto beneficiaram os meus ouvidos quando estávamos a mudar de milénio. Mas eis que estão de volta; e de que maneira. Disquinho bombástico que só comprova a seguinte evidência: na música pop, o crime compensa.

Thievery Corporation . Letter to the Editor (feat. Racquel Jones)

Pé na Tábua.


Os senhores da Poliphony convidaram-me para os testes beta do Gran Turismo Sport. Estou com uma pica doida. Começa amanhã. Vroom.

quinta-feira, abril 13, 2017

domingo, abril 09, 2017

Um Lehane lunar.

Por Nuno Miguel Silva
Texto publicado a 24/02/17 no Jornal Económico

O último livro do escritor norte-americano Dennis Lehane publicado em Portugal surgiu nas livrarias nacionais no verão do ano passado, com o título ‘Moonlight Mile – A Última Causa’, mas data de 2010. O escritor que traçou inesquecíveis retratos da sua cidade-fétiche, e de centenas de personagens com que a povoou nas diversas obras, regressa ao thriller psicológico, terreno em que é um dos melhores escribas da atualidade. E retorna ao par de detetives que criou ao longo da sua profícua carreira literária: Patrick Kenzie e Angie Gennaro.
Boston volta a ser protagonista num tortuoso regresso ao passado, outra imagem de marca do autor. Uma mulher pediu para lhe encontrarem a sobrinha de quatro anos, que havia desaparecido. Os detetives conseguiram esse intento. A menina foi devolvida, mas a uma mãe negligente e alcoólica. Agora, 12 anos depois, Amanda volta a sair do radar e os detetives de Lehane voltam a entrar em cena.
Há um minucioso destrinçar dos laços familiares e sociais enquanto a cidade de Boston fervilha em pano de fundo. Lehane tem estilo, muito e bom; tem ritmo. É preciso, conciso, destila poesia, enaltece a amizade e o amor, desmascara a violência e alguns bastidores de poder. Há uma queda pelo gótico, pela ficção ‘pulp’, pelos filmes de série B, pelas noites negras. Há tensão e vingança, um bisturi manobrado com precisão.Tudo isso é verdade, certamente bem acolhida para quem com este livro se estreou na obra de Dennis Lehane. Mas para quem já leu grandes livros deste escritor – também autor do guião da série televisiva ‘Boardwalk Empire’ – como ‘Um Copo Antes da Batalha’, ‘Mystic River’ ou ‘Shutter Island’, ou mesmo a monumental ‘biografia’ de Boston, traduzida para português como ‘Terra de Sonhos (’A Given Day’ no original norte-americano), fica a desilusão de perceber que há pouco de novo na estrutura ficional em relação a essas obras incontornáveis. Há mais Lua e menos Sol. Mas vale sempre a pena lê-lo porque é um autor brilhante. E pelos diálogos deliciosos.

Ao ritmo dos glaciares.



Pace of Glaciers . 1905

Ode a Allen Ginsberg.

Allen Ginsberg, estás sentado ao balcão de um bar em New Jersey e eu estou a beber um dirty martini contigo e a falar-te do destino perdido dos escritores da América e tu bocejas de um sono antigo, onde pastam búfalos e washingtons de toda a espécie que fumam as mais estranhas marcas de tabaco azul. A barba chega-te aos pés e a poesia dá-te pela cintura e o teu barbeiro tem saudades tuas e tu tens saudades do after shave das sarjetas de Manhatan e do haxixe de algas de Atlantic City e do ácido estradista do Kerouak e da porrada dos polícias do Midwest e do Jazz ciclónico, carnavalesco, psicadélico-parvo de New Orleans. Como se New Orleans fosse alguma coisa de jeito. Não é.
Allen Ginsberg, estás a apanhar sol nas docas de Boston, que horror - Boston, e a alucinar como um cavalo no opiário. Montas esse cavalo loucamente, e estás a cavalgar a rua cor de rosa aqui no Cais do Sodré que dantes era das putas e que agora é da tua poesia e que devia ter continuado como rua das putas. As putas funcionam como rimas, pá, e tu que sempre recusaste as rimas, mas não tanto as putas; devias saber isso melhor que ninguém e não devias estar aqui comigo, sentado ao balcão de um bar onde o Cardoso Pires também já bebeu o seu copo a mais e o relógio conta o tempo ao contrário como se houvesse uma maneira de contar o tempo ao contrário. Não há.
Allen Ginsberg, fazes-me lembrar o meu amigo Márcio Candoso, embora na verdade o meu amigo Márcio Candoso seja muito melhor poeta do que tu, mas tem o problema de não se chamar Allen Ginsberg e de viver em Algés, que não é um sítio onde vivem poetas decentes. O problema imobiliário, o problema geográfico, o problema demográfico dos poetas é que são poucos e esparsos e não têm morada certa e nunca por nunca seriam capazes da enorme corrupção de comprar um apartamento em Algés. Os grandes poetas sofrem, regra geral, de insuficiência postal e tu, por exemplo, serias um gajo difícil de localizar até pelo Ministério das Finanças, que é uma polícia política que encontra toda a gente.
Allen Ginsberg, impenitente paneleiro, és potente como a pila de um gajo com dezoito anos, tu és erecto-veloz como uma bicicleta a descer pela Rua Poço dos Mouros em São Francisco, tu debitas prosápia como um amplificador Marshall debita as notas graves e a verdade é que escreveste uma quantidade enorme de poemas enormes que ninguém de facto consegue compreender, porque tu nunca escreveste para seres compreendido porque te disseram, talvez a tua mãe, talvez um teu obscuro professor de liceu, talvez o teu incauto mestre do curso superior que fingiste que tiraste ou que não tiraste de todo, não interessa; talvez o teu controlador do partido comunista americano de que nunca fizeste parte, talvez algum ignorante sem nome, génio sem sombra, te tenha dito um dia que tinhas alguma, se bem que remota, hipótese de escreveres num dia, se bem que remoto, um verso decente e tu acreditaste e deste na fúria de escrever versos remotos para entendimento de ninguém. A ver se saía alguma coisa que fizesse de ti um imortal. Nunca saiu.
Allen Ginsberg, mais valia ficares aqui comigo sentado neste bar de Odeceixe, para sempre, a ver as garças fazerem filhos; mais valia fazeres tu próprio alguns filhos, mais valia fazer eu três ou quatro ou setenta filhos. No meio do ruído todo dos teus poemas que ninguém realmente entende, camarada, o que se aproveita é aquilo que não conseguimos e o que não conseguimos foi: continuidade.
Allen Ginsberg, a vida só tem uma ambição: continuar a ser vida. E tu, estúpido, nem isso percebeste. E se nem inteligência tens para perceber isso, desgraçado, como é que esperas que todos os outros, que tiveram a inteligência para ter filhos, percebam a merda intrincada dos teus versos?
Allen Ginsberg, estás aqui sentado comigo, no bar absurdo de Telheiras, que até tem duas mesas de snooker e tudo e não consegues mais que umas estrofes ainda mais absurdas do que é costume, mas estás contente com elas porque a tua Beat Generation acha que és deus e mesmo que as estrofes sejam absurdas, fazem parte de um novo-antigo testamento e são sagradas porque sim. Estás aqui sentado comigo no improvável bar suburbano que não tem jukebox porque a MTV é à borla e entristeces porque o Kansas fica do outro lado do oceano e a estrada sessenta e seis ou sessenta e oito ou lá o que é não te leva para além da Amadora. Sem o faróeste não tens veia para os teus indecifráveis poemas de drogadinho. Sem a tua América de boleias e charros, sem os teus horizontes hollywodescos de estradas poeirentas e mezcal estragado, não encontras inspiração para mais do que teres sono - esse sono antigo onde pastam os fantasmas de uma civilização que já foi civilização e que os teus versos ajudaram a trair.
Allen Ginsberg, a verdade é que nem para companhia de bebedeira tu serves, ò fraude, nem para crepúsculo de Walt Whitman tu tens queda, ò mito! Tudo o que posso dizer de ti é que és fisionomicamente parecido com o Francis Ford Capolla e que o teu apocalipse de agora nunca chegou a acontecer: és um falso profeta e estás a ressonar.

quinta-feira, abril 06, 2017

Um bocadinho de bom senso.



It Would Not Be Cool If AI Were Conscious — It Would Be Dumb | Daniel Dennett

segunda-feira, abril 03, 2017

Optimista é um tipo que pensa que é Deus.


We are the Gods Now - Jason Silva at Sydney Opera House

sábado, abril 01, 2017