quarta-feira, janeiro 23, 2013

Uma história de violência.



Esta fita aqui é, para além de uma obra prima do seu género, um instrumento de verdade, do tipo de verdade que é - este sim - bastante inconveniente e que poucos têm coragem de assumir.
O que Kathryn Bigelow faz é contar a história da captura de Bin Laden do príncipio ao fim com uma sobriedade, com uma economia, com uma claridade, com um pudor absolutamente notáveis.
Como seria de esperar, a esquerda saltou logo da cadeira com protestos e impropérios. Este não é um filme dogmático, arrumadinho dentro dos estereotipos enjoativos a que o lobby democrata de Hollywood nos habituou (a CIA é um conglomerado de facínoras, o mau da fita é sempre o capitalista, o político corrupto é sempre um republicano, os soldados americanos passam a vida a matar crianças nas selvas e nos desertos dos países do terceiro mundo, etc., etc. etc.). Não, Zero Dark Thirty não é uma fita assim.
É, antes, um brilhante exercício documental sobre os triunfos (poucos) e os fracassos (muitos) inerentes ao combate contra uma organização como a Al-Qaeda, a mais letal e compente liga de fanáticos e niilistas desde o pós-guerra. Não há no filme qualquer glorificação da tortura, pelo contrário: o torturador é sujeito à violência física e psíquica que aplica no torturado. A relação entre os dois é intensa, pessoal, degradante. A humilhação a que é sujeito o torturado humilha também o torturador. Estão os dois no mesmo pântano de indignidade e vilania e sofrimento. Os dois cumprem o seu papel miserável com profissionalismo e abnegação. E não é nada bonito de se ver.
Não quero estar agora, aqui, a propósito deste magnífico filme, a argumentar sobre as virtudes e as ignomínias, a legitimidade ou a ilegalidade do uso da tortura como método bélico. Mas uma coisa é certa: no momento em que Obama proíbe a CIA de recorrer a este método, os seus operacionais ficam de mãos atadas. Como combater um inimigo que não tem um exército, um quartel-general, um território? Um inimigo subterrâneo, anónimo, draconiano, indetectável e altamente profissionalizado? Como chegar a Osama Bin Laden, o grande mestre da fuga, do logro e do disfarce, o mais ilusivo dos anti-cristos, sem quebrar alguém que lhe esteja próximo? E como chegar a esse alguém, quando oferecemos aos prisioneiros que capturamos os direitos, liberdades e garantias a que o nosso conceito de civilização obriga, mas que o inimigo se esforça por destruir?
Não creio porém que esta seja a questão que completa e justifica o histerismo da esquerda. Acho que o que mais chateia aquela senhora que comparou Bigelow a Riefensthal (não era essa a intenção, mas a comparação é, de certo modo, lisonjeira), é o facto de Zero Dark Thirty confirmar que a Casa Branca soube da localização de Osama Bin Laden quatro meses antes de se resolver a executá-lo. Por questões de manobra política (já para não falar de outro tipo de razões, mais graves), Barak Obama correu o risco de deixar Bin Laden escapar do buraco paquistanês onde se havia enfiado. E ofereceu-lhe mais 120 dias de vida. Convenhamos, isto diz muito sobre o actual Presidente dos Estados Unidos da América. Isto diz muito sobre os actuais Estados Unidos da América.