sexta-feira, novembro 07, 2025
Clássicos Britpop: Oasis, Blur e Stone Roses.
sexta-feira, setembro 26, 2025
Profetas e estetas dos anos 90: Eno & Cale, Flowered Up, REM e The Curve.
terça-feira, junho 04, 2024
sábado, janeiro 07, 2023
Graças a Deus por Tucker Carlson.
Ao contrário de outros heróis do Blogville, que têm passado a vilões a uma velocidade prodigiosa ou perdido a sua capa vermelha pelos caminhos infernais que a vida política e mediática trilha actualmente, Tucker Carlson nunca desilude. Está sempre do lado certo nas questões fundamentais. É impressionante. E este segmento sobre o que aconteceu nos últimos dias na Câmara dos Representantes do Congresso americano é bem sintomático desse acerto e dessa coragem e dessa lucidez.
If there’s one thing Washington hates, it’s accountability, and unfortunately the GOP is no different. No one’s ever punished or forced to explain their failures, and as a result, no one ever improves. They just keep getting rewarded for producing the same disasters. pic.twitter.com/Zmf2WOJzue
— Tucker Carlson (@TuckerCarlson) January 6, 2023
sexta-feira, junho 03, 2022
A discoteca da minha vida #112: "Tourist History", Two Door Cinema Club.
Primavera de 2010. Três irlandeses a sair da adolescência decidem libertar um foguetão melódico que nos últimos 3 anos tinham enchido de explosivos para ir rebentar com fúria acelerada e estrondo magnífico nos ouvidos da humanidade.
Bum. O efeito é o desejado. Completamente.
"Tourist History" é uma coisa imparável, prototípico produto da juventude inquieta que não sonha com doenças reumáticas, projectil pop que viaja à velocidade de mil riffs por minuto, sem que as baterias pareçam mostrar sinais de cansaço.
O trato desenfreado que os Two Door Cinema Club dão às guitarras, nesta obra que desafia os metrónomos de melhor indústria, é concomitantemente bárbaro e gentil, brutal e sensível, minimal e complexo, explosão de talento e pressa de chegar. Não sei se há muitos discos tão intensos na música ligeira do século XXI. Mas tenho a certeza que este foi feito para bater esse recorde.
Estou a ouvir os rapazes 12 anos depois de ter vibrado com eles, e é impossível não ficar bem disposto. A energia, o optimismo, a inocência, a velocidade, a filosofia de ataque, a incrível imensidão de um palco sonoro fabricado apenas com seis manápulas frenéticas, ainda me deixa meio espantado. Este disco faz bem à saúde. Mesmo apesar de corremos o risco de sofrer, logo à primeira audição, um ataque cardíaco.
Two Door Cinema Club. Quando de repente descobres que os teus tornozelos são capazes de ganhar asas.
sexta-feira, abril 08, 2022
A discoteca da minha vida #111: "The Five Ghosts", Stars.
Se os canadianos se podem orgulhar de três ou quatro bandas com génio no século XXI, uma delas é esta e "The Five Ghosts", de 2010, é talvez o trabalho, entre os 4 que conheço, porque a banda soma 22 anos de actividade e ainda agora editaram mais um disquinho, que melhor expressa o talento, a energia, a sensibilidade e o delicioso optimismo dos Stars.
A eletroquímica gerada pelo dueto vocal Torquil Campbell / Amy Millan, sobreposta a um palco sonoro digitalizado mas extremamente texturado, cria uma ambiência meio neo romântica, meio new wave, câmara de ressonância pop que encontra espaço para uma identidade original, carregada de poder inventivo.
A música dos stars é muitas vezes fantasmática, percorre corredores cerrados de trevas, mas traz sempre uma lanterna que ilumina o espírito do audiente: mesmo quando prometem assombrar o mundo, os Stars apenas lançam sobre ele um encanto e o arrepio na espinha não provém do terror, mas de uma espécie de benção, que acaricia os sentidos e dá vida aos tornozelos.
Os stars estão para a pop como Kierkegaard para a filosofia: percebem que a existência é uma condenação, mas abordam a fatalidade como um desafio lírico, na esperança de que a sua arte funcione como resolução das avarias da vida. Se a realidade está escangalhada, a música serve-lhe de arranjo.
A música aveludada, cortês e positiva desta banda de Toronto leva-nos numa viagem idealista, na qual somos tratados como passageiros de primeira classe: os Stars apostam na qualidade de serviço. E ninguém pode dizer que não cumprem o que prometem.
"The Five Ghosts" é um disco inspirado. Com um lugar muito especial na discoteca da minha vida.
sábado, março 19, 2022
A discoteca da minha vida #110: "Work", Shout Out Louds
Dos seis longa duração que produziram entretanto, conheço quatro e este sofisticado e aprazível "Work", de 2010, é aquele que talvez tenha de forma mais absoluta dominado o território acústico da minha sensibilidade.
Esta espécie de música ligeira, melódico passeio dos alegres que é feito para alegrar o coração e entreter o desespero, sempre me agradou deveras. Há qualquer coisa de profundamente positivo e optimista nestes rapazes de Estocolmo que me deixa sempre bem disposto. Que faz com que veja a vida com outros olhos.
O disco não tem um tema que não seja uma cuidada, burilada e aveludada obra pop. Ao upbeat delicodoce que é a imagem de marca dos Shout Out Louds, "Works" acrescenta alguma selvajaria, alguma intensidade épica, que rebenta de forma máxima no último minuto de "Walls", um tema que dura apenas três minutos e meio mas que podia prolongar-se por horas sem chatear nadinha.
Não sei se os Shout Out Louds caem bem nos tempos escatológicos em que vivemos. A banda faz a barba todos os dias, é excessivamente simpática, demasiado sincera, quase ingénua. Está interessada em fazer amigos e em espalhar o incenso da bonomia pelos corredores do inferno. Vivem noutro planeta, nitidamente.
Não são nenhuns génios. Não. Não vão mudar o mundo nem ficar para a História. Não. Mas eu gosto deles à brava. E é assim.
quinta-feira, fevereiro 17, 2022
A discoteca da minha vida #109: "The Boxer", Kele Okereke
O vocalista dos Bloc Party, que apenas como vocalista já é um gigante do rock, também tem uma carreira a solo. O som que sai é menos rockado. É mais pista de dança. Mas é completamente cinco estrelas. Senão vejamos:
"The Boxer", de 2010, o primeiro trabalho por conta própria de Kele Okereke, é um verdadeiro strob electrónico, para dar asas aos tornozelos e imaginação ao pescoço. Minimal, repetitivo, com uma força rítmica brutal, este disco quer que a discoteca só feche às dez da manhã.
Talvez por ser filho de nigerianos, talvez por ser um criativo maluco por natureza, Kele aproveita a distância dos Bloc Party para se reinventar e construir um palco sonoro meio tribal, muitas vezes assíncrono, francamente arriscado, espécie de movimento libertário que se concretiza numa obra original, frenética e poderosa.
Este rapaz de Liverpool é um prodígio. A sua capacidade vocal, carregada de sensibilidade e disponível para uma multidimensionalidade de graduações, entra neste disco como Jesus em Jerusalém: para salvar os pecados da música indie.
Um álbum para levar para uma ilha deserta, enchê-la de gente e fazer uma rave.
segunda-feira, dezembro 06, 2021
A discoteca da minha vida #107: "Telekinesis!", Telekinesis!
As capacidades vocais do menino não são, convenhamos, o seu forte, mas como instrumentista é capaz de fazer vibrar os seguintes utensílios: bateria, guitarra, baixo, teclados, trombone, violoncelo e violino.
Deve ser por isso que não precisa de mais ninguém.
O disco epónimo, de 2009, é o primeiro de cinco já editados, e é o que escolho só por ser o primeiro, porque não há nada que saia do engenho de Lerner que não seja agradável aos sentidos e criativamente poderoso. Apesar do que digo sobre a sonoridade rude dos trabalhos de Lerner, este álbum foi produzido por Chris Walla, guitarrista dos Death Cab For Cutie, o que constitui um cartão de visita que não é nada despiciendo.
A aparente simplicidade da música de Lerner é um bálsamo encantador. Os temas soam purinhos e delicados, amáveis e apelativos como um convite para o paraíso ou uma boleia para as Bermudas. Ouvimos estas músicas e sabemos que estamos bem entregues. Sabemos que do outro lado está um gajo com imaginação e saber técnico para dar e vender.
Telekinesis. A música despida de tudo o que não interessa à música.
segunda-feira, novembro 22, 2021
A discoteca da minha vida #106: "Reservoir", Fanfarlo
Ainda assim, Reservoir, o primeiro dos três longos formatos que a banda editou entre 209 e 2014, é um disco fenomenal, exuberantemente orquestrado e produzido com uma maturidade impressionante, carregado de temas inspirados e grandiloquentes.
Enquanto a voz de Justin Finch vibra com lamentos e maldições, a sonoridade da banda eleva-nos com alegrias harmónicas e complexidades tonais, numa colorida cenografia acústica que cativa o ouvido e abençoa os sentidos. E assim, mesmo contemplando o suicídio, há sempre uma saída de emergência quando a música funciona como anti-depressivo:
Polifacetados e preparados para tudo, os Fanfarlo usam gaitas e harmónicas, clarinetes e saxofones, concertinas e violinos - são mais acústicos que eléctricos - mas sem perderem nada na grandiosidade do seu palco sonoro: são tão capazes de melodias depuradas para fecho de bar como de composições épicas que iniciem com bravura e poder um concerto de estádio:
Contrastando com a amplitude estrondosa do tema anterior, reparem bem nesta representação acústica, de simplicidade arrepiante, de "Drowning Men".
Porque são talentosos e aventureiros, porque são técnica e criativamente dotados, porque se nota perfeitamente que sabem tirar prazer daquilo que fazem, estes rapazes, de insignificante presença na consciência coletiva da música independente contemporânea, ocupam um espaço nobre na galeria áudio da minha vida. E se mais razões não houvesse, estes dois geniais e poderosíssimos temas com que fecho o post justificam completamente o meu juízo.
segunda-feira, outubro 18, 2021
A discoteca da minha vida #105: "Fantasies", Metric
Liderados pela bela e talentosa Emily Haines (a sick muse que também participa em projectos tão interessantes como os Stars ou os Broken Social Scene), os Metric bombam um som indie muito personalizado e complexo, entre o veludo e o arame farpado:
O disco corporiza, talvez, o apogeu criativo e a maturidade artística da banda, que por esta altura vendia discos à séria, ganhava prémios a rodos e somava protagonismos vários, embora isso, já se sabe, vale o que vale; até porque independentemente da fama dos músicos, há aqui muito proveito para os fãs, principalmente quando Emily pede ajuda aos deuses pelo simples facto de estar viva:
Os Metric são o género de banda envolvente e irreverente que qualquer otorrinolaringologista minimamente competente há-de recomendar aos seus pacientes. E como agremiação rock de bom gosto e bom senso, entre os Beatles e os Rolling Stones, preferem os últimos:
E apesar de não estarem no trânsito da música para inventarem os semáforos, os Metric são capazes de composições realmente poderosas, com profundidade lírica e melódica, embora sem grandes preocupações estilísticas. E a verdade é que esta filosofia rebenta muitíssimo bem com a minha sensibilidade. E com a tua, gentil audiente?
terça-feira, outubro 05, 2021
A discoteca da minha vida #104: "Wolfgang Amadeus Phoenix", Phoenix
São de Versalhes. Mas nem por isso aristocráticos. Os Phoenix dedicam-se à pop, pura e simplesmente. É a profissão deles. São bons naquilo que fazem. E é assim.
De tal forma que a Eurosport, aqui há uns anos largos atrás, quando não tinha ainda fôlego para alimentar a emissão durante 24 horas por dia, optou por sonorizar o seu night loop assim:
"Wolfgang Amadeus Phoenix", de 2009, pode até ser um disco banal. Nem digo o contrário. Mas faz parte da minha pauta. Faz parte da minha vida, desde 1901.
A quarta de seis tentativas destes rapazes para serem felizes e fazerem feliz a sua alegre audiência está carregada de temas frescos, dançáveis, melodramáticos. Se a música pode saber a gelado de caramelo, os Phoenix sabem muito bem como é que isso se faz.
Talvez por serem franceses (ninguém é perfeito), talvez por serem leves como a espuma dos dias (não é fácil contrariar a gravidade), a banda consegue manter um precário equilíbrio entre o bom senso e o bom gosto que cai completamente bem na minha sensibilidade acústica.
Que me faz sentir palerma, despreocupado, sonhador, como um coxo num chá dançante.
sábado, setembro 11, 2021
A discoteca da minha vida #102: "I Had The Blues But I Shook Them Loose", Bombay Bicycle Club
O disquinho pegou. Porque está repleto de coisas poderosas como esta massiva e electrificada recensão rock:
Os Bombay Bicycle Club são uma fábrica de produção de volts. A energia deste primeiro disco, como dos outros quatro que editaram desde aí, é contagiante. E contrasta, em entretida dissidência, com a voz lamuriante e preguiçosa de Jack Steadman (AKA "Mr. Jukes"). A mistura, mais que explosiva, é épica:
Guardo, e para sempre guardarei, este disco acelerado e melodramático no meu coração auricular. Doze anos depois de o ter ouvido, lembro-me do que senti: vontade de subir drasticamente o botão do volume e de abanar o esqueleto da existência até à exaustão dos sentidos.
Bombay Bicycle Club. Rock com pedal para trocar as voltas ao mundo.
segunda-feira, agosto 16, 2021
A discoteca da minha vida #101: "Attack And Release", The Black Keys.
Parece que o ano de 2008 é uma colheita fenomenal. E eu estou claramente a embebedar-me com os discos deste sagrado ciclo solar.
"Attack And Release" não é o melhor disco dos Black Keys (o melhor disco deles é "Tighten Up"), mas é o último antes da fama global. É o último "de garagem". É o último antes de começarem a fazer parte de um número muitíssimo reduzido de bandas do século XXI que
podem rivalizar no concurso para a melhor orquestra rock de todos os
tempos.
Ainda assim, rebentam coisas destas:
Encho todos os números desta discoteca com adjectivos e superlativos e delírios sintáticos e exageros semânticos de toda a ordem e por isso, quando chego aqui, aos Black Keys, fico sem palavras. A vantagem é que os dois semi-deuses de Akron, Ohio, não precisam das minhas palavras para coisa nenhuma:
E não que "Attack and Release" seja um albúm imaturo. Na verdade é o quinto LP da banda, que lançou o seu primeiro trabalho, "The Big Come Up", sete ano antes. É precisamente este percurso clandestino de tantos anos de insistência e coerência que faz dos Black Keys um fenómeno à parte do universo conhecido. Porque Dan Auerbach e Patrick Carney nunca estiveram realmente interessados em fazer música para serem estrelas rock. Como o último disco, deste ano, prova completamente, os Black Keys estão interessados em fazer a música que lhes apetece fazer. Acontece é que, quando tens talento assim monstruoso, mais tarde ou mais cedo acontece-te a desgraça repentina de fazeres parte de um número muitíssimo reduzido de bandas do século XXI que
podem rivalizar no concurso para a melhor orquestra rock de todos os
tempos.
Nem que seja só por causa desta música:
Aposto que há fans dos Black Keys que aqui vieram parar e que nunca tinham ouvido estas três obras-primas. E é precisamente nessa expectativa, se calhar parva, mas bem intencionada, que escolhi este disquinho maluco.
E é claro que levava os Black Keys comigo, para uma ilha deserta, se só pudesse ser acompanhado nessa solidão por uma banda. Porque no meu ensurdecido entendimento de 54 anos de cantigas, esta é a banda vencedora no concurso de melhor orquestra rock de todos os
tempos.
segunda-feira, agosto 02, 2021
A discoteca da minha vida #100: "The Airborne Toxic Event", The Airborne Toxic Event.
Há exactamente treze anos atrás, corre pacificamente o verão de 2008, o planeta gira como de costume, entre glórias e infâmias e ninguém suspeita que, a 5 de Agosto, vai acontecer isto:
A banda de Mikel Jollett edita o seu primeiro longa-duração, homónimo, e acontece de facto um evento tóxico, que se espalha pelo ar e que resulta numa catástrofe monumental: toda a gente fica de queixo caído.
A energia, a criatividade, a recusa em alinhar com estereótipos, a gritaria; a orquestração que cai lindamente no pano post-punk, as guitarras que fazem sexo livre com os violinos, a percussão apocalíptica; a produção rude, garagista; os versos niilistas, poderosos, que ecoam sobre a acústica do tempo e do espaço: se este disco não faz justiça a uma ideia purista do que deve ser o Rock 'n Roll, é porque o Rock 'n Roll não tem esperança de redenção.
Repleto de temas vibrantes, operáticos, incendiários, embrulhado numa ambição épica de incontida rebeldia e selvática eloquência, o disco com que os The Airborne Toxic Event decidiram iniciar a sua abençoada carreira de trovadores do inferno é um hino descontínuo e orgíaco rumo à consolação através do grito. Através do pulo. Através da exaustão dos sentidos e do colapso físico: ninguém aguenta esta pedalada durante muito tempo.
A banda há-de continuar a parir rochedos e a fomentar ataques cardíacos deste género durante os anos seguintes (aqui, um post sobre uma outra obra prima, "Dope Machines") e continua em actividade no presente do indicativo, claro. Mas este iniciático e electrificado pontapé na história da música popular é incontornável, ocupando um lugar adequadamente centenário no pódio difuso da Discoteca da Minha Vida.
The Airborne Toxic Event. Uma das razões pelas quais Deus montou tímpanos nas orelhas do Homem.
quinta-feira, julho 22, 2021
A discoteca da minha vida #99: "The Age of the Understatement", The Last Shadow Puppets.
Entre as baladas de inspiração retroactiva e os temas que transpiram a nítida intenção de transformar o indie britânico num movimento orquestral de majestática vanguarda, The Last Shadow Puppets apresentaram-se à audiência como um projecto quase erudito, semi-snob, altivo. Sem parecerem pretensiosos, o que não é tarefa fácil.
A verdade é que, na altura, o disco caiu com a devida pompa e circunstância no panorama alternativo europeu, influenciando projectos futuros e até os percursos das duas estrelinhas que o criaram. Trata-se de facto de uma casa marcante na espiral ensandecedora do jogo da glória que é a música popular contemporânea.
E para além de tudo o mais, The Last Shadow Puppets é um dos melhores nomes que se podem inventar para uma banda, ponto final, parágrafo.
domingo, julho 11, 2021
A discoteca da minha vida #98: "Howe Sounds / Taking Abalonia", Said The Whale.
Os Said the Whale são uma espécie de instituição de utilidade pública. Desinteressados, descomprometidos, desaprumados, filantrópicos, bem humorados, canadianos no bom sentido da palavra (fenómeno raro), prestam à humanidade um impagável serviço trovadoresco, rico em substância criativa e desalinhado espírito de aventura, que deixa os queridos ouvintes, a cada acorde, meio desorientados, meio encantados, num labirinto sinfónico de referências cruzadas e estonteantes.
A banda de Ben Worcester e Tyler Bancroft não se leva muito a sério e está sempre a baralhar as expectativas. Agora conta uma anedota, depois vai a um velório. Aqui apresenta-se como uma grafonola folk, ali como um amplificador pop. Num momento estão zangados com o mundo, a seguir já estão enamorados com o cosmos. Pegam num cavaquinho com o mesmo à vontade que estrefegam uma guitarra eléctrica. Não interessa realmente para que ângulo se inclina o indicador do género ou que nível atinge o sensor do temperamento, porque os Said The Whale não cabem em cadernetas taxonómicas ou em escalas escolásticas. Fazem música para o lado que estão virados, num determinado instante.
Tenho um carinho enorme, misturado com admiração abundante, por esta banda camaleónica, que está constantemente a mudar de roupa interior, que está constantemente a perguntar-se por si própria, que está constantemente a virar o bico ao prego, num jogo de identidades que é de difícil resolução mas que acaba invariavelmente por ser consistente e fazer completo e rotundo sentido para os ouvidos.
Said The Whale. A música por amor da música.
quarta-feira, junho 30, 2021
A discoteca da minha vida #97: "Day & Age", The Killers.
Quando em 2004 a banda de Brandon Flowers lançou "Hot Fuss", desconfio que, da editora aos músicos, do público à crítica, toda a gente ficou com a clara convicção que tinha nascido um gigante. Os The Killers são, talvez acompanhados pelos Black Keys, uma das últimas grandes bandas de rock da história da música.
Arriscando um precário equilíbrio entre o registo croonie e a grandiloquência do palco sonoro que sabem montar como quase ninguém mais, lançando a ambição para patamares homéricos que são, no mínimo, perigosos e, no máximo, suicidários, a banda de Las Vegas (não podia ser de outro lugar) não tem medo do casino de probabilidades funestas em que se enfiou desde o princípio. Pelo contrário: apostaram tudo no número impossível e saíram a ganhar. Dos 6 discos que ponderadamente editaram em 16 anos de poker, não há uma obra menor, que defraude as expectativas da audiência ou a filosofia operática que assumiram desde sempre e para sempre.
Ainda assim, tenho que escolher "Day & Age", de 2008, o terceiro pontapé na lógica, não porque seja a aposta mais certeira, mas porque foi a que mais impactou o periclitante saldo da minha existência. Integrando duas cantigas declaradamente viradas para o jackpot comercial, "Human" e "The World We Live In", o disco vale muito para além dos dólares, e inclui também dois ou três black jacks como o febril foguetão melódico que é "Spaceman" ou a icónica e característica serenata "A Dustland Fairytale".
Sobre este último tema, que é de substância lírica e fôlego conceptual verdadeiramente impressionantes, acho que posso afirmar sem grandes reticências que reúne tudo aquilo que faz dos Killers uma banda de referência. Uma banda poderosa. Um fruto suculento entre serpentes insidiosas e pecados capitais.
sábado, junho 19, 2021
A discoteca da minha vida #96: "Dynamo", Faded Paper Figures
"But hearts are warm technologies
In failed democracies."
Julho, 2008. Os californianos Fade Paper Figures lançam o seu primeiro disco. É um beijo, uma carícia, um gesto de ternura em forma de música. Uma ópera meiga. Uma suave explosão de delícias. Um elogio à sensualidade electrónica.
É impossível ouvir este disco sem ficar subitamente bem disposto.
Optimista. Disponível para amar o mundo e estimar a humanidade. Nesse
sentido, "Dynamo" é uma espécie de evangelho.
Mais a mais, estes três doidos conseguiram, logo no seu primeiro trabalho, compor e interpretar um tema lindíssimo sobre a cisão entre democratas e republicanos no Estados Unidos da América. O que, convenhamos, não é nada fácil.
Faded Paper Figures. Se esta não é uma banda de culto, não sei o que é uma banda de culto.
segunda-feira, maio 31, 2021
A discoteca da minha vida #95: "Wait for Me", The Pigeon Detectives.
Assim sendo, escolho o primeiro álbum, "Wait For Me", de 2007, pela simples razão de ser o primeiro. Pela simples razão de começar assim:
A energia alucinante dos Pigeon Detectives só tem paralelo na sua pródiga capacidade de fabricar hits. Apesar de percebermos bem que os rapazes se estão completamente nas tintas para os cânones que é necessário respeitar de forma a aceder aos tops de vendas (que felizmente nunca frequentaram), apesar de nunca terem entrado no clube dúbio e milionário do mainstream britânico (Deus é grande), a verdade é que não há música, por muito histriónica que seja, que não fique na porcaria do ouvido e lá permaneça durante uns tempos. O resultado é que, em cinco discos editados, devemos conseguir colocar na boa umas quarenta canções na playlist dos melhores temas rock de todos os tempos, ponto final, parágrafo.
Quando pessoas que não me conhecem bem têm a infeliz ideia de me perguntar de que bandas é que gosto, costumo responder, para não desperdiçar o latim com quem faz uma pergunta assim imbecil: "Ah, eu sou um fã maluco dos Pigeon Detectives". É uma maneira de encerrar o assunto porque só alguém que não ama a música pode pensar que esta pergunta tem uma resposta que se possa dar em menos de 24 horas de enumeração ininterrupta de bandas e porque esse alguém de certeza que não vai saber que agrupamento obscuro é este e porque o nome é de tal forma parvo que o interlocutor, ironicamente, vai pensar que eu nem ligo muito a música e mudar de conversa com pronta rapidez ou, se eu tiver sorte, desistir de meter conversa comigo.
Mas agora a sério: esta é de facto uma das minhas bandas favoritas. Porque os rapazes de Leeds estão nisto do rock com paixão imensa e vontade purista. Porque disparam estes temas breves e fulminantes com pontaria de pistoleiros profissionais, porque mantêm uma frescura, uma juventude, uma certa e deliciosa imaturidade que é absolutamente revigorante; porque não têm um pingo de pretensão. Porque se decidiram chamar Pigeon Detectives. Porque são incondicionais, descomprometidos, livres. Porque estão sempre certos:
Mais sobre os Pigeon Detectives no Blogville.













