domingo, dezembro 29, 2019

Mensagem de Ano Novo.


O meu desejo sincero e intenso para 2020 é um absoluto regresso à normalidade. A sério. Desejo para mim e para ti, gentil leitor, um ano de tal forma convencional que até se torne aborrecido. Desejo coisas absolutamente prosaicas, a saber: que os banqueiros banquem, que os bombeiros bombem, que os policias policiem, que os sábios saibam, que os escritores escrevam, que os engenheiros engendrem, que os criativos imaginem, que os compositores componham, que os médicos exerçam medicina e que os jornalistas prefiram a verdade à ficção. Aquilo que é normal.

Desejo um ano novo carregadinho dos mais corriqueiros pressupostos: que a Igreja Católica seja liderada por um pontífice que acredite no deus católico. Que os partidos de direita sejam interpretados por pessoas de direita e que os partidos de esquerda sejam articulados por pessoas de esquerda. Que a esquerda defenda quem trabalha e que a direita defenda quem emprega. Que os tribunos não tenham problemas de fala, que os soldados guardem o paiol, que os políticos se preocupem mais com as pessoas que perdem os seus empregos do que com as pessoas que mudam de sexo; que o Presidente da República dispense a dose quotidiana de fama; que as feministas critiquem, por uma vez, a forma como os muçulmanos tratam as mulheres e que a Greta Thunberg vá maçar os chineses, que vivem na nação mais poluidora do planeta, de longe. Tudo isto é do mais elementar bom senso e podes até ter oportunidade para bocejar, querida leitora, num mundo assim lindamente desinteressante.

Para 2020 desejo também - e em vão, bem sei - que os ministros das finanças da comunidade internacional se unam sob a virtuosa bandeira da moderação fiscal, motor histórico de toda a prosperidade. Que os cientistas substituam a convicção de que Deus não existe por certezas demonstráveis sobre as disciplinas que estudam; que os professores ensinem em vez de doutrinar; que os pilotos voem em vez de protestar; que os enfermeiros cuidem em vez de reivindicar e que os astronautas façam aquilo que é suposto: escapar à órbita terrestre. Desejo menos leis, para que a Lei se cumpra; menos condecorações, para que a virtude seja distinguida; menos queixas, para que seja possível ouvir os lamentos de quem sofre de facto.

Não aspiro a mais que o tédio das coisas fazerem sentido. Que Hollywood seja uma indústria de entretenimento ao invés de uma máquina de propaganda ideológica; que os desportistas façam desporto ao invés de fazerem de conta que são intelectuais; que os juízes julguem segundo os códigos jurídicos e não segundo a raça, o sexo ou a classe social; que os criminosos sejam presos e que os inocentes vivam em liberdade. Outrossim anseio comedidamente por 365 dias em que os fumadores não sejam tratados como leprosos e que os leprosos sejam tratados; e, já agora, que me deixem em paz com o meu bife de vaca, com a minha carne de porco, com o meu sal e o meu pão e a minha bola de berlim e o meu whisky e o meu automóvel de combustão interna e os meus cigarros e os meus vícios e as minhas idiossincrasias que não chocam com as idiossincrasias de ninguém.

Sonho com aquilo que é possível e as minhas expectativas são modestas: que os países sejam demarcados por fronteiras porque foi para separar as pessoas umas das outras que foram inventados os países; que os profetas do apocalipse percebam que o apocalipse é uma mania de séculos, por todos os séculos fraudulenta; que os radicais encontrem a moderação e que os histéricos das causas fracturantes sejam medicamentados como os restantes histéricos; que os censores deixem a malta dizer o que pensa, mesmo que aquilo que se diz seja incorrecto, porque o erro é o único parteiro da verdade; que o preço dos combustíveis varie de acordo com as leis da concorrência e que os turistas não descubram Telheiras, para que eu possa viver no meu bairro sem ser filmado por japoneses, insultado por ingleses, incomodado por franceses, reeducado por suecos e condicionado por alemães.

Sim, sim, o que desejo é o mais aborrecido e sonolento ano novo que se possa imaginar. É que começo a ficar realmente cansado de viver tempos interessantes, num mundo ao contrário.

sábado, dezembro 28, 2019

Espírito de Ano Novo.

Vampiros extremamente bem dispostos acertam em cheio no groove certo para 2020:



Vampire Weekend . This Life

terça-feira, dezembro 24, 2019

Percepção vs Realidade

Diz a esquerda que Boris Johnson é um bruto, racista, ignorante, sexista, manhoso, fascista sem carácter. A esquerda sonha, porque a realidade é esta:



Todos os intérpretes políticos de direita na história de humanidade são uns brutos ignorantes, para a esquerda sonhadora. A realidade é ao contrário, claro. A realidade é que o actual primeiro ministro do Reino Unido é um intelectual puro e duro. Que disserta sobre Homero como nunca vi - ou ouvi - nenhum líder político, à esquerda ou à direita, dissertar.

Desejo boa sorte aos saudosos de Tony Blair e de Mário Soares e de José Sócrates e de François Miterrand e de Jimmy Carter e assim por diante. Desejo boa sorte a toda a gente que chama bruto a este senhor. Vão precisar dela.

terça-feira, dezembro 17, 2019

Toonville . Size matters.

Political Cartoons by Pat Cross

Bela e rápida prenda de Natal para quem gosta de automóveis.



Subaru STI Type RA Time Attack Car & the Transfăgărășan Highway

Do mito da Santa Inquisição como organização genocida: contributos críticos e comparativos para o restabelecimento da verdade histórica.


O Baptismo do Fogo . Avvakum . 1682


"Não podemos pedir perdão por actos que não foram cometidos." 
Cardeal Georges Corttier


Uma das rábulas sobre a história da Igreja Católica que sempre me fizeram espécie, que sempre me pareceram mais propagandísticos do que factuais, é a da Santa Inquisição. A opinião pública contemporânea tem a mesma ideia da Inquisição que tem dos campos de extermínio nazis ou coisa que o valha. Ora, seria talvez conveniente voltarmos aos dados estatísticos e à informação de campo que de facto temos, para fazer uma ideia do terror inquisitorial mais baseada na realidade e menos inspirada pela propaganda anti-católica.

Em primeiro lugar: a queima de pessoas como castigo último é tudo menos uma prática recorrente do cristianismo em geral e da Igreja Católica em particular. A morte pelo fogo é uma prática tão antiga como as primeiras civilizações do próximo oriente e foi introduzida na Europa pelos romanos primeiro e pelos celtas depois. Antes da Igreja Católica queimar fosse quem fosse, já os ortodoxos russos o faziam com bastante regularidade e é muito provável, à luz das estatísticas mais recentes, que a religião protestante tenha queimado muito, mas muito mais bruxas do que a Católica queimou hereges (já lá iremos).

Logo de seguida há que equacionar que as inquisições espanhola, portuguesa e romana queimavam muita gente em modo effigiantur, ou seja, não queimando os impenitentes propriamente ditos, mas sim figuras em palha que os representavam. A Inquisição Portuguesa queimou um terço dos condenados à fogueira desta forma. É recorrente que estes números seja atirados para a estatística dos mortos, quando, obviamente lá não deviam estar.

A terceira alínea desta quadro céptico tem que ser esta: todas ou quase todas as projecções estatísticas sobre o número de pessoas condenadas a morrer na fogueira pela Inquisição são apenas isso: projecções. A maior parte dos registos oficiais da igreja perderam-se ou foram destruídos.

Depois, convém fazer uma separação clara entre aqueles que foram queimados na fogueira pela Inquisição e aqueles que lá foram parar conduzidos pelas mais que diversas turbas, milícias, polícias, assembleias e salas de tribunal que infestaram a vida social, política, religiosa, judiciária e militar nos séculos XVI a XIX. O facto torna-se ainda mais significativo quando falamos da queima de bruxas, fenómeno histérico-social que durou cerca de um milénio e que, na verdade, pouco teve a ver com a actividade inquisitorial da Igreja, até porque ocorreu, em 95% dos casos em países onde a Inquisição não tinha sede nem exercia a sua dúbia justiça. A partir do século XVI, os campeões deste género específico de churrasco foram os protestantes.

Esta catalogação correcta da natureza e da volição dos incendiários é raras vezes feita pelos historiadores e pelos romancistas e pelos jornalistas e pelos cineastas e pelos formadores da opinião contemporânea, mas a verdade é que a Igreja assou muito menos gente do que o improviso secular, os aparelhos burocráticos, a justiça real ou o radicalismo calvinista. Por exemplo, Henry Kamen estima que até 1530 foram condenadas à fogueira por todos os tribunais espanhóis, cerca de 2000 desgraçados. Porém, William Monter calcula que entre 1540 e 1740 a inquisição espanhola foi "apenas" responsável por 1240 queimados vivos. Ora, considerando que organização foi fundada pelos reis católicos apenas em 1478, percebemos que morreu mais gente na fogueira a mando dos tribunais da coroa do que dos tribunais da inquisição.

Por último, os números possíveis: a Inquisição Portuguesa, que cumpriu a sua horrível missão entre 1540 e 1794, condenou à fogueira, nos tribunais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora, 1175 pessoas (menos do que 5 pessoas por ano de actividade), segundo um estudo de Henry Charles Lea. A Inquisição Espanhola, acreditando no exaustivo trabalho de Gustav Henningsen, levou a tribunal 44,674 casos, que resultaram em 826 execuções pelo fogo (cerca de 3 pessoas por ano de actividade; 0,06% dos casos julgados).

Sobre a inquisição Romana e Francesa, bem como sobre as suas sucursais na colónias à volta do mundo, os números variam imenso e têm muito pouca sustentação factual, mas um recente estudo do Professor Agostino Borromeo, considerado fidedigno por uma significativa quantidade de historiadores contemporâneos, demonstra que os números têm sido grandemente exagerados e calcula que ao todo, nos países onde esteve presente e durante os 300 anos de carta verde, a Inquisição julgou125.000 casos, condenando à morte pela fogueira cerca de 1% dos julgados, pelo que ficamos com um número de referência: 1250 pessoas.

Ora, é precisamente aqui que a porca da história torce o seu interminável rabo elíptico. Se compararmos estes números com outros do mesmo género, dentro do mesmo período histórico, percebemos que a Inquisição não foi de todo protagonista no cenário contextual de chacinas e mortandade em que exercia a sua actividade. Dou uns poucos exemplos referentes apenas aos séculos XVI - XVIII, para ser consistente em termos cronológicos:

1517-1648 - Europa: A Reforma Protestante foi um dos movimentos mais mortíferos da história da humanidade. Só na Guerra dos 30 anos, consequência directa deste cisma cristão, a Alemanha perdeu 25 a 40% da sua população. Os números não são certos, mas estima-se que tenham morrido na Europa, por causas directas ou indirectas (guerra, massacres, fome e doenças) desta revolução religiosa direccionada contra a Igreja Católica, 8 milhões de pessoas.

1570 - Chipre: as forças otomanas, em guerra contra Veneza, chacinaram a totalidade dos cristãos sitiados no Chipre. Calcula-se que foram mortas entre 30 a 50.000 pessoas.

23, 24 de Agosto de 1572 - Paris: sob a égide de Catarina de Medicis, 5.000 a 30.000 huguenotes (protestantes franceses) foram chacinados na Noite de S. Bartolomeu.

1645 - Yangzhou, China: As tropas do Imperador Quing mataram cerca de 800.000 residentes desta cidade, por terem aderido à resistência contra a dinastia no poder.

1645-46 - Sichuan, China - 1 a 3 milhões de habitantes desta província foram exterminados pelo exército de Zhang Xianzhong.

Setembro/Outubro 1758 - Lisboa: O Processo dos Távoras, liderado por Sebastião José de Carvalho e Melo (mais tarde Marquês de Pombal), leva ao cadafalso cerca de 20 a 30 desgraçados - incluindo crianças - com ligações a uma única família, e à prisão perpétua ou degredo de centenas de civis e padres jesuítas. Tudo isto com notáveis requintes de malvadez, que incluem torturas imaginativas de inspiração medieval e mortes bárbaras (estrangulamento e desmembramento simultâneo). Ninguém teve direito a algo parecido com um julgamento nem possibilidade de apelo.

1794 - Varsóvia - 20.000 polacos são assassinados por um exército russo em expedição de pilhagem.

Feitas as contas e colocadas as devidas dúvidas sobre os números "oficiais" e "oficiosos" percebemos rapidamente que a realidade da Inquisição, sendo com certeza sinistra, não é de todo comparável, tanto em escala de mortos como em impacto fascista sobre as sociedades, a uma multitude de outros fenómenos, muitos deles de brevíssima duração. E não merece por isso o ódio exclusivo e a desinformação insana a que tem sido sujeita. Todas as igrejas matam. Umas matam mais que outras. A Católica, se calhar e com boa matemática, até é das que menos matam, muito por causa do carácter extremamente pacifista do seu profeta fundador.

Tudo isto não impede porém que os próprios representantes contemporâneos da Igreja cavalguem de rédea solta sobre a falaciosa hipérbole. Escrevo este post precisamente porque ainda agora estava a ler o Padre Carreira das Neves, que na edição do Expresso sobre a Bíblia, comenta assim, no fecho do volume sobre a natureza do sacrifício nas escrituras:

"Jesus corta certeiro o vendaval da violência mimética, de toda e qualquer rivalidade, a nível pessoal, tribal, nacional, internacional. É um sistema em acção contínua, totalmente oposto ao sistema dos terroristas islâmicos, nazismos, socialismos estalinistas, mas também inquisições da Igreja Católica. Quanto tempo levará ainda para aprendermos a lição?"

Ora, comparar os trabalhos funerários da Inquisição aos exercícios genocidas de radicais islâmicos, nacional-socialistas e bolcheviques sanguinários é um disparate factual de tal forma exuberante que, à primeira vista, é de difícil explicação. Porém, basta consultarmos a opinião publicada por este padre, ou lermos os diversos volumes desta edição do Expresso, para percebermos que Carreira das Neves só é padre porque não encontrou entretanto na sua vida uma profissão mais promissora. Fundamentalmente ateu, abertamente anti-católico, o Padre Carreira das Neves devia ser despedido, se o Vaticano fosse uma organização minimamente funcional. Se o Vaticano não fosse actualmente liderado por outro padre ateu. Assim, passa por credível crítico e moderado analista dos sagrados testamentos. E mente sobre a Inquisição com quantos dentes tem a sua pena e como qualquer leigo marxista. Não porque ignora os factos, claro. Mas porque é inimigo da Igreja. E da verdade histórica.

domingo, dezembro 15, 2019

O Natal é Frank Sinatra ou outra excepção à regra dos cantos ortodoxos.

O pior actor da história barra melhor cantor de sempre é sempre: natalício.



A anacronia destas imagens é brutal. Isto parece uma coisa filmada num outro planeta. Ou neste, mas há trinta mil séculos atrás. Não passou porém assim tanto tempo. A verdade histórica explica que o iato entre o apogeu e a queda das civilizações é, regra geral, de relativa brevidade cronológica. Num dia o teu império nunca vê o sol descer sobre o horizonte e no outro estás com o pescoço entalado no gargalo de Robespierre.

Acho que a maior parte da malta ainda não percebeu que a Civilização Ocidental já foi. E que nem há volta a dar. Algures entre Robespierre e Frank Sinatra, perdemos a aposta com o diabo.

sexta-feira, dezembro 13, 2019

O povo é quem mais ordena.

marxist

Corbyn, o soviete-anti-semita-amigo-de-terroristas conseguiu obter o pior resultado do Partido Trabalhista desde 1935. Bum.

O Natal é canto ortodoxo.



Esta malta canta que é uma maravilha e o resto é conversa. Já há uns anos que considero que só há uma banda sonora para o Natal: canto ortodoxo.

Valaam Brethren Choir . Agni Parthene

A verdade do voto.

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As eleições de hoje no Reino Unido, talvez as mais importantes desde que Margaret Thatcher subiu ao poder, servem eloquentemente alguns pontos de vista que tenho expresso aqui no blog, a saber:

- Uma muito expressiva maioria de cidadãos britânicos querem sair da União Europeia. É o que vai rapidamente acontecer, agora que Boris Johnson tem uma maioria enorme.

- O populismo é hoje, ideologicamente, a mais substancial força política do Ocidente.

- O marxismo que tem assaltado a esquerda europeia e americana nos últimos anos é capaz de não ser assim tão popular como parece que é no twitter, na BBC, na Sky, na CNN e nos jornais "de referência" europeus e americanos. Corbyn levou hoje uma sova grande. Desconfio que em Novembro de 2020, o Partido Democrata americano - que é hoje para todos os efeitos um partido de extrema esquerda - também vai levar um histórico excerto de porrada eleitoral.

- A imprensa é, nos dias que correm e de uma maneira geral, um instrumento ao serviço de elites que vivem num lodo híbrido de capitalismo espúrio e bolchevismo radical. Os jornalistas esforçam-se loucamente por levar a cabo o sexo oral que lhes é exigido, mas a verdade é que já ninguém lhes liga nenhuma. O The Guardian, por exemplo, teve um papel completamente patético, nestas eleições, chegando ao ponto de pedir aos seus leitores para votarem trabalhista. Os eleitores escolheram ignorar a deprimente petição.

- Apesar dos esforços recorrentes para eliminar a liberdade de expressão e do fascismo politicamente correcto que impera institucionalmente, das academias aos jornais, dos aparelhos burocráticos dos estados às grandes corporações económicas, a verdade é que, até acabarem com as repúblicas fundadas na democracia representativa, as facções totalitárias terão grande dificuldade em ultrapassar a força e o bom senso dos eleitores. Há uma misteriosa sabedoria na manifestação eleitoral dos povos, que apresenta raras excepções de estupidez. Se alguma coisa continua válida nos regimes do Ocidente, é essa sabedoria. Seria bom que continuássemos a respeitá-la. A ver vamos.

quarta-feira, dezembro 11, 2019

O Natal é uma slot SCX.


Autista do ano.


A dúbia e infame distinção anual da revista Time é um assunto recorrente neste blog. Este ano, os rapazes não fugiram à regra espúria e elegeram nada mais nada menos que uma adolescente autista como personalidade do ano. Não tenho nada contra autistas, nem contra adolescentes, obviamente. Mas parece-me que este elogio político de uma miúda com deficiência é completamente imbecil. Greta Thunberg tem 16 anos. Não sabe nada de política e muito menos de ciência e ainda menos de ciência climática, na medida em que ninguém na verdade sabe grande coisa sobre o assunto. Nem os doutorados na matéria que não são adolescentes nem autistas fazem uma pequena ideia.
A eleição de Greta é uma manobra de propaganda ideológica super rasca e não passa disso. Não é por estarmos sempre a ser assaltados e incomodados pela indignação encenada e constrangedora desta infeliz rapariga que vamos debitar menos dióxido de carbono para a atmosfera, como é óbvio; e há muito boa gente, como eu, que ainda está para ser convencida de que essa libertação de dióxido de carbono é uma coisa má para a atmosfera. Nem é por fazermos desta criatura uma espécie deficitária de profeta do apocalipse que evitamos as alterações climáticas, porque o planeta sempre as produziu em quantidade abundante e porque o planeta é indiferente ao que dizem os adolescentes autistas, os cientistas do clima e os redactores da Revista Time. O planeta já aqui estava muito antes dos redactores da revista Time terem qualquer hipótese de eleger personalidades do ano e aqui permanecerá incólume muito depois da revista Time fechar por falência técnica, ou moral. O planeta não é frágil perante as "agressões" da raça humana, como gostam de dizer estes alarmistas manhosos. A raça humana é que é frágil perante a indiferença do planeta e a Revista Time conta tanto para o totobola das variações climáticas, como Greta para a lotaria da opinião pública. Daqui a uns meses, já ninguém se vai lembrar desta triste figura, a quem a natureza já tinha roubado a hipótese de uma adolescência normal e a imprensa furta agora a possibilidade da inocência. Mas vale tudo, em nome da virtude de plástico dos tempos que correm. E o pior ainda está para vir.

Sobre a crise da cosmologia contemporânea: novos contributos.

‘Enquanto a mãe Ignorância viver, não é seguro que a sua filha Ciência especule sobre as causas ocultas da realidade.‘ 
Johannes Kepler  


Não há limite para a ignorância humana, e muito principalmente para a ignorância do género científico. Semana sim, semana sim surgem notícias catastróficas para a Física, por exemplo. Para além de não sabermos nada sobre a origem, a natureza e a geografia de uma esmagadora quantidade de matéria cósmica, parece agora que também desconhecemos a sua idade.

Nos últimos 50 anos os cosmólogos têm chegado a conclusões divergentes sobre a idade do Universo. Em função do método usado (decaimento para o vermelho, radiação cósmica de fundo ou galáxias locais) a conta foi oscilando entre os 13 e os 14 biliões de anos. Mas ainda assim, as divergências podiam, com uma certa dose de optimismo, estar dentro da margem de erro provável para estas contas de aniversário, dada a ambiciosa e complexa tarefa.

Muito recentemente, porém, Eleonora Di Valentino, Alessandro Melchiorri e Joseph Silk publicaram um artigo na Nature Astronomy que caiu como uma bomba de hidrogénio na comunidade atarantada dos astrofísicos. Se considerarmos, como novos dados evidenciam, que o Universo é fechado (tem uma forma e um perímetro), e se alterarmos a equação que mensura a idade do universo de acordo com esse princípio axiomático, o universo terá afinal 18 biliões de anos. São muitos biliões para que o Modelo Standard da Física continue a valer como se nada fosse. Ainda por cima, os autores deste paper explosivo anunciam que, a acreditar nesta matemática, a quantidade de matéria negra terá também que ser superior ao que supomos, mais na ordem dos 50% do que dos 25%. Quer isto dizer que, se calhar, aquela parte de 7% da matéria que achávamos que conhecíamos, deve ser ainda mais ínfima do que ingenuamente acreditávamos.

Assim sendo, somamos a uma ignorância grande, uma outra em excesso. A simpática e articulada astrofísica Rebecca Smethurst dá uma idea da hecatombe epistemológica aqui:



Os cosmólogos de hoje em dia, com raras excepções, até dão pena: o universo é para eles um verdadeiro mistério. Não percebem nada do assunto e estão sempre a ficar chocados com as evidências e como as evidências não encaixam nos seus cálculos dogmáticos, de aprendizes de feiticeiro. Apesar de não conseguirem fazer uma pequena ideia do que é a realidade, insistem na velha e singular certeza de sempre: Deus não existe. Deus não existe, ouviram bem? Deus não existe de certeza absoluta.

Ora, quanto mais leio e pesquiso e estudo ciência, mas convencido estou da existência de um Deus Criador. E que há verdades que não nos são dadas, precisamente aquelas que a ciência procura, e verdades que nos são bem servidas, como as inscritas numa obra de arte, expressas num aparelho moral ou consagradas numa confissão religiosa.

A este propósito, arrisco até a hipótese de que a ciência, no seu frenesim, faz perguntas para as quais já existem ancestrais respostas. Gerald Schroeder provou, nos anos noventa, que o Universo tem de facto 6 dias de existência, como está determinado no Antigo Testamento. E fez essa prova recorrendo à matemática de Einstein. Porque o fluxo temporal de expansão do universo é observado de formas diferentes em função da perspectiva e localização do observador, e porque, continuando na senda da Teoria da Relatividade Geral, um dia passado no local exacto onde o BigBang teve a sua ignição equivale a 1 trilião de dias passados na Terra, as contas da bíblia batem certo com os cálculos da física contemporânea sobre a idade do universo, de que falei nos primeiros parágrafos deste post. 6 dias para Deus, 14 biliões de anos para nós.

Como o espectacular Professor James Tour faz notar com rara eloquência e entusiasmo abundante no clip com que fecho este post, a ciência não serve para aniquilar a fé. Muito pelo contrário. Nos seus melhores momentos, reforça-a.

Sou cada vez mais agnóstico. Cada vez menos ateu. E qualquer dia dou por mim, bicho sem fé, a acreditar numa ideia de criação divina.


sexta-feira, novembro 29, 2019

Como humilhar um campeão do mundo.

Por uma qualquer pipa de massa a Polyphony conseguiu convencer Lewis Hamilton a marcar tempos em vários circuitos do GT Sport. Erro monumental para o actual campeão do mundo de Fórmula 1, competição que conquistou pela sexta vez,  já que está a ser copiosamente batido por montes de gente. Gente como Steve Brown, o célebre youtuber Super GT, que dizima todos os tempos do seu glamoroso compatriota com uma calminha incrível, enquanto conversa com a malta e, em boa parte dos casos, depois de umas poucas tentativas apenas. Convenhamos: não há moeda no mundo que pague este bailareco.



Lewis Hamilton, que precisa de dinheiro como o diabo de um micro-ondas, podia ter poupado o ego a esta exposição pornográfica. Apesar de ser a primeira vez que a Polyphony disponibiliza um DLC pago para o GT Sport, e de este update não ter mais que 48 horas, já foram registados online centenas (milhares?) de tempos inferiores, em todos os circuitos da competição. É um bocado triste, pensando bem. Porque na sua profissão Hamilton também tem que correr - e corre - em simuladores. E, pelo menos no campo dos simuladores, perde 1 segundo por volta para muita gente, pá.

Sinceramente.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Os convidados eléctricos do costume estão em grande forma.

Electric Guest. O duo dinâmico que é amigo deste blog desde 2013 está de volta com "Kin". O tema de abertura cai lindamente no ouvido, logo à primeira audição. É groovy à brava. É feliz nos tímpanos e alegre nos tornozelos. É um chá dançante, que dá vontade de acordar para a vida.




Electric Guest . Dollar

terça-feira, novembro 26, 2019

Impeachment bullshit.



São todos diplomatas, os quatro cabeças de cartaz das audições do impeachment ao actual Presidente dos Estados Unidos da América, acusado de usar apoio militar e financeiro à Ucrânia em troca de uma investigação às muito suspeitas relações entre a família Biden e este país.

William Taylor, o actual embaixador para a Ucrânia, testemunhou que ouviu alguém dizer que Trump estava a fazer chantagem.

Alexander Vindman, Tenente-Coronel com assento no National Security Coucil, veio dizer que também ouviu falar nisso. E que o Presidente é um tipo horrível.  

Marie Yovanovitch, a ex-embaixadora na Ucrânia, jurou que estava muito magoada e triste por ter sido despedida por Donald Trump e assustada por causa dos tweets do Presidente.

Gordon Sondland, o embaixador para a União Europeia, depôs que nunca recebeu instruções directas de Donald Trump para fazer chantagem com a Ucrânia. Que ele chegou sozinho, em exercício especulativo, à conclusão de que a intenção do seu patrão era essa. E que julgava que fazer chantagem com a Ucrânia não era um crime. Que era natural nas bárbaras relações entre estados a que chamamos eufemisticamente diplomacia.

Portanto, as audições acabaram sem produzir um vestígio de evidência que possibilite a prova de crime praticado e um impeachment de carácter legal, ou a demonstração directa e inequívoca de matéria de tal forma censurável que justificasse um impeachment de carácter político.

Ouvir dizer não faz prova de nada, como o mais medíocre dos juristas sabe bem; o carácter dos presidentes não é constitucionalmente mensurável; os sentimentos feridos dos diplomatas não contam para o totobola e matar o tédio com tweets inconvenientes e de mau gosto retórico também não é um crime, até ver. Por fim, despedir diplomatas é um privilégio constitucional de qualquer presidente americano. Obama despediu todos os nomeados por Bush e a prática é, historicamente, recorrente.




As audições correram tão mal que o Partido Democrata está agora perante uma muito complicada questão operacional: se deixa cair o processo, admite a derrota, depois de ter prometido a vitória, que foi previamente anunciada ad nauseum pela CNN e pela MSNBC e pelo Washington Post e Pelo New York Times. Se prossegue com a votação necessária em Congresso para que o processo transite para o Senado, corre sérios riscos sem nenhum benefício. Para já, porque não é líquido que todos os congressistas democratas votem a favor da impugnação (terão depois que prestar difíceis contas ao seu círculo eleitoral). Por outro lado, a maioria republicana no Senado nunca irá votar favoravelmente, com total ausência de provas, a remoção de um presidente eleito e o processo pode rapidamente virar-se contra os procuradores iniciais. Adam Schiff (o Intelligence Committee Chairman e never trumper que lidera e iniciou o processo), os Biden e outros figurões ligados à intriga, não querem ser apanhados no banco de testemunhas do actual Senado americano. Ou vão mentir, o que na situação dá cadeia, ou vão passar um péssimo bocado. Isto é certo.

Mais a mais, as sondagens apontam neste momento para uma significativa descida na percentagem dos cidadãos americanos que apoiam a intenção de correr com Trump da Casa Branca, desta forma assim niilista.


Em conclusão, este impeachment não passou na verdade de uma péssima manobra política de que os democratas se vão arrepender amargamente em novembro de 2020. A não ser, claro, que Michelle Obama decida entrar na corrida das primárias. É que não há mesmo mais ninguém capaz de tirar Donald Trump da Sala Oval.

Uma última nota: se queres saber o que se passa nos Estados Unidos - ambição complicada, gentil leitor - não acredites em nada, mas nem numa vírgula dos jornais portugueses. E não acredites também numa só entidade da imprensa americana. Como 90% dela ainda mente mais do que a redacção do Observador consegue mentir (e são bastante mentirosos, estes rapazinhos), tens que passar umas boas horas a ler mentiras da esquerda e mentiras da direita para chegares a ter uma vaga ideia do que realmente se passa. Começa a ser bastante nítido que o jornalismo morreu, algures no fim do século XX.

Já abriu a época suicida.

Não consigo deixar de ficar pasmado com a coragem - ou a loucura kamikaze - destes rapazes.



domingo, novembro 24, 2019

Dirt 2.0: nos limites da simulação.

Este jogo está a matar-me, basicamente. A física é excelente (a melhor de sempre para um simulador de ralis), os gráficos melhoraram bastante, as condições climatéricas e de piso são diversas, complexas e imprevisíveis e o potencial de imersão é brutal, mesmo sem PSVR, porque a CodeMasters, inexplicavelmente, decidiu desta vez oferecer a realidade virtual apenas aos clientes PC.
O problema é que a coisa começa a ficar muito difícil a partir do nível Elite. Cometes um erro e já foste. Nem quero pensar no stress que vai ser quando chegar ao Masters.

Orquestra Folk.

Nesta interpretação alucinante de "Foggy Mountain" divertem-se loucamente 13 músicos. Até Steve Martin, o comediante de Hollywood, dá um jeitinho. Reina a boa disposição, o virtuosismo e, imperial, o banjo do grande Earl Scruggs. A energia e a alegria desta música funciona como uma espécie de Prozac. Uma espécie de jazz jovial que é absolutamente espectacular. Cada vez gosto mais de Folk americano.



Earl Scruggs and Friends . Foggy Mountain Breakdown

Mais Haikus do Tempo Suspenso


A melga é insignificante.
Mas a picada
não.



Vivi uma vida boa e cheia e
podia morrer agora e
no entanto.



O Facebook não se cala
e eu também não.
Fazemos uma barulheira enorme.



Às escondidas do seu polido humanismo
o Presidente da República
coça os tomates.



O grande estadista é vizinho
do torneiro mecânico.
No cemitério.



Não consigo escrever versos
tão curtos como o Kobayashi -
Tagarela!



O talento é uma virtude
para aqueles que não têm
outra.



O besouro é um bicho horroroso.
Ainda assim,
tem asas.



Se tivesse nascido no Japão
era mais íntimo
de Deus.



Não há um Sapiens igual ao outro.
A não ser quando se sentam
na sanita.



De serem tão populares
os santos
são laicos.



Não estamos sós,
diz a National Geographic.
Ninguém responde.



Os meus haikus são tão beras
como o rock
alemão.



Não faço contas às 17 sílabas
do cânone nipónico -
Barco à vela, com motor.



O preço de um lugar ao sol:
as putas das moscas
não me largam.

sábado, novembro 23, 2019

Folk de verdade.

1972. Earl Scruggs, o grande virtuoso do banjo, faz uma visita a Joan Baez. E é claro que esta visita só podia ficar para a história do Folk americano, até porque Scruggs traz consigo o cineasta David Hofman, que regista o momento para a posteridade. Neste excerto, Baez interpreta um famoso tema composto para ela por Bob Dylan, Love Is Just a Four Letter Word, que me deixa completamente arrepiado. E nostálgico de uma era que não foi a minha. Seis estrelas em cinco possíveis.



Seems like only yesterday
I left my mind behind
Down in the Gypsy Cafe
With a friend of a friend of mine
She sat with a baby heavy on her knee
Yet spoke of life most free from slavery
With eyes that showed no trace of misery
A phrase in connection first with she I heard
That love is just a four-letter word


Outside a rambling store-front window
Cats meowed to the break of day
Me, I kept my mouth shut, too
To you I had no words to say
My experience was limited and underfed
You were talking while I hid
To the one who was the father of your kid
You probably didn't think I did, but I heard
You say that love is just a four-letter word


I said goodbye unnoticed
Pushed towards things in my own games
Drifting in and out of lifetimes
Unmentionable by name
Searching for my double, looking for
Complete evaporation to the core
Though I tried and failed at finding any door
I must have thought that there was nothing more
Absurd than that love is just a four-letter word


Strange it is to be beside you
Many years and tables turned
You'd probably not believe me
If I told you all I've learned
And it is very, very weird indeed
To hear words like forever plead
Those ships run through my mind, I cannot cheat
It's like looking in the teacher's face complete
I can say nothing to you but repeat what I heard
That love is just a four-letter word 

quinta-feira, novembro 21, 2019

De P20 a P3 ou uma corrida perfeita.

Carlos Sainz jr. tem dado nas vistas, ao volante do seu Mclaren F1. Mas no fim de semana passado, em Interlagos, excedeu-se, nitidamente. Relegado logo na primeira qualificação para a última posição da grelha por motivos mecânicos, o espanhol fez pela vida, ultrapassou uma quantidade significativa de gente, foi feliz na paragem nas boxes e cruzou a linha de meta num circense quarto lugar. Com o (mais que justo) castigo aplicado a Lewis Hamilton, acabou por subir ao pódio.
A Fórmula 1 está finalmente a oferecer momentos de espectáculo aos seus dedicados fans e a época de 2019 tem sido prolixa em emoção e condução. Sainz, o smooth operator, é muito responsável por isso.


Insane pit stop.

Os recordistas mundiais da operação de boxes, experimentam a imponderabilidade. É uma idiotia. Mas é uma idiotia espectacular.


No safe sounds.

A bombar pop/rock alternativo desde 1988 (!) os Ride fazem parte da minha juventude e, pelos vistos, da minha meia idade também. Disco espectacular, este "This Is Not a Safe Space". Entre New Order e Jesus and Mary Chain, havia espaço para estas músicas. Não é um espaço seguro. E ainda bem.



Ride . Future Love

sexta-feira, novembro 15, 2019

Antes do destino, a precipitação.

Pensei que o meu querido amigo Márcio Candoso, insigne jornalista, máximo poeta, estrela do Facebook e esporádico colaborador deste blog, tinha desistido de editar o seu magnífico segundo livro de Poemas, que ele me pediu para prefaciar, e como já tinham passado uns bons dois anos sobre a redacção desse texto introdutório, publiquei-o no outro dia aqui no blog. Precipitei-me, nitidamente, porque "Antes do Destino" foi lançado ontem, na Ler Devagar.

Os versos do Márcio são de um tamanho enorme, apesar de se tratar de um pequeno livro. Se o virem numa livraria, e se gostam de poesia, comprem, que vale muitíssimo a pena.

Como retirei o post precipitado, volto a publicar o prefácio desta feliz edição da Orfeu.

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A obra como destino. Um prefácio inútil.


Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


Fernando Pessoa


O Márcio não simpatiza com Pessoa por aí além e não vai gostar que o prefácio a este seu segundo livro de poemas comece como começa. Mas o Márcio, como qualquer outro grande poeta, não percebe realmente nada sobre a própria e sobre a alheia grandiosidade. É aliás precisamente por isso que os poetas devem agradecer à humanidade pela esquizofrénica existência de críticos literários e outros inócuos escribas que conseguem escrever coisas tão inócuas como prefácios.

Há no entanto uma verdade que permanece na lírica do célebre antagonista: o destino tem mais poder que deuses e homens. E, aqui, o Márcio estará certamente de acordo comigo e com o bom e velho Fernando: o seu primeiro livro de poemas queria ser - e verdadeiramente era - uma pedrada de tal forma permanente no charco efémero das letras escritas em Português que lhe decidiu chamar "Antes do Destino". Estas coisas não acontecem por acaso, e se há coisas que não acontecem por acaso são os versos do Márcio Alves Candoso. Pelo contrário, há uma probabilidade estatística de surgirem como surgem, dada a aversão que a natureza tem pela página em branco e apesar da arbitrariedade das variáveis inclusas na equação do poema.

Na Física e no amor

Não há espaço para vazios

(Sejam de volume ou de área)

E p'ra esvaziar a dor

A ordem de qualquer factor

É por demais arbitrária!


Leis naturais à parte, o leitor mais esclarecido, mesmo que ainda no seu primeiro café da manhã, reparará inevitavelmente que este é um compêndio de versos imensamente carregado de um sentido existencial - não necessariamente existencialista - que é, no século XXI, de uma raridade arrepiante. Este fervor da vida concreta é, claro, para-ideológico: o poeta é de esquerda e de direita, nacionalista e internacionalista, conservador e liberal, reaccionário e revolucionário consoante a raiva que viaja no verso.

Eu vou
Vou de camisa preta, sangue vermelho
e dignidade imaculada
Vou de preto - a cor do meu luto por este
País que me estragaram
Vou de vermelho - porque é a minha força e guerra
(...)

Não vou à esquerda, nem à direita
nem muito menos ao centro... Vou acima
Levo comigo Viriato, comer a carne e o osso
Levo Afonso, que não quer
ser protectorado de ninguém...
Levo o Gama que me ensina o vento
Levo a pena e a espada
Levo os meus porque sou deles.
Levo os que não admitem
menos do que ficar na História


Este recurso recorrente à contradição em favor da coerência lírica é menos diletante do que militante. O Márcio Alves Candoso faz parte daquela espécie de cosmopolitas ao contrário que Voltaire gostava de convidar para jantar fora e esse cosmopolitismo de pernas para o ar torna-se de tal forma niilista, de tal forma inquiridor, que arrasa com os semáforos do bom senso e deixa o leitor com os pontos cardeais embrulhados num novelo electro-magnético de difícil resolução técnica.

Se eu fugir atordoado
para as montanhas do Nepal
e me passar para o Dalai la-rai-la-rai-lai-lai-Lama
serei mais feliz do que fumando
Lucky Strike numa reunião em Roma?


Mas atenção: diversos, intrincados e intrinsecamente paradoxais como são, os poemas aqui constantes não são passatempos, charadas, sudokus. Não são exercícios estilísticos ou panfletários; deseducados desafios à sensibilidade ou irritantes provocações à inteligência. Não são textos ensaísticos e armados em espertos nem trazem a promessa de uma qualquer terapia. Estes poemas não são de auto-ajuda nem recomendam dietas. Não são atenciosos com a forma como, por exemplo, são escravos do ritmo (o Márcio chama-lhe jazz). Não são preocupados com axiomas como são, assumida e distraidamente, enormes esponjas da história universal das boas ideias literárias venham-lá-elas-de-onde-vierem. Não respeitam especialmente as escolas, os maneirismos, os comodismos e as outras todas e resignadas abstrações da identidade. São cimento concreto, armado, com ferro lá dentro. São substanciais como um bife mal passado, prestes a ser devorado por Schopenhauer. São densos como as alegorias de Platão, mas sem a pretensão da fábula. São intensos como a cerveja de Rimbaud, mas não clamam pelo inferno. São sábios como os ensinamentos dos profetas, mas sem o LSD que foi preciso para umas semanas de deserto. São como os auto-retratos condenados à imperfeição do perfeccionista que era Rembrandt. Procuram, afinal como todos nós procuramos, um justo caminho para a salvação.

Não és nada, apenas um retrato a sépia de trunfa
mal iluminada, betume de interior do espaço
tão vazio como a cabeça dos que param
contigo à mesa dos medíocres orçamentos
do bafio dos ventos condicionados,
e do esquiço da aguarela mal pintada.
E interessa, isso? É postiço, praga!
E entesa? Não entesa nada!


Poesia lapidar, uma especialidade da apurada cozinha do autor. Mesmo quando se escrevem mais palavras, sempre, do que aquelas que surgem na impressão do menu. A maior parte das palavras que o Márcio despeja por cima do leitor nem precisam sequer da cumplicidade tecnológica de Gutenberg. Não têm necessidade do pigmento para estarem lá explícitas e para serem alegremente despejadas. Ficam gloriosas no que o verso deixa por dizer. E é por isso que tantas das estrofes deste livro são na verdade fantasmáticas. O poeta é uma manipulador único do fenómeno poltergeist a que usualmente chamamos magia negra. E o máximo feitiço desta poesia é que transcende até a necessidade da entrelinha. Ao invés da interpretação académica, temos a íntima, e assim profusa, liberdade de intuição. A leitura destas páginas traz a carne de cada um para fora da pele:

Quando pintaste a sacada, lembras-te?
Era eu que recitava a cor do Douro
E o Rio de la Plata, e o tango,
e a minha gravata e os teus chinelos


E esta é a pedagogia que toda a literatura deve trazer agarrada. Porque todos nos lembramos dos chinelos de cada situação, mesmo a mais romântica. Até a mais ridícula. Somos todos o Márcio, com a diferença absoluta de que só o Márcio é que soube escrever um poema com os chinelos e a gravata da comédia que todos nós guardamos em nós. O leitor será, prometo, invariavelmente apanhado em cuecas.

Neste sofisticado showroom da roupa interior da alma, não deixa, claro, de se exibir o grande romântico. Mas, convenhamos, a atitude romanesca que nos é sugerida em “Quando Tudo Era Tanto” deixaria Petrarca em estado de choque. A eterna Laura, musa medieva dos sonetos de métrica perfeita, é agora, setecentos anos depois, atingida com versos carregados electricamente com a alta voltagem do pragmatismo cínico - e todavia sincero - do homem pós-moderno.

Desculpa-me se te perco,
desculpa se não te chamo
eu descuido-me, incerto
na certeza que te tenho.


Deve porém o prefaciador alertar o paciente leitor: articular sobre o amor segundo o poeta Candoso é uma tarefa por demais ambiciosa e, porventura, vã. O diagnóstico do papel da mulher na sua poesia é, no mínimo, reservado. Gentil e paciente, materialista e exigente, a musa oscila com frequência assustadora entre a deusa, que excita até a fé dos ateus, e a vilã de telenovela venezuelana, que anula completamente o libido ao mais latino dos escribas.

Sei quase tudo de ti
Quando esperas, quando chegas primeiro
quando feres, quando raios que me partes
em cima, quando gostas dos meus ares
e imperas, ou lá o que é, quando sentes
no teu pé de laranja lima
como se eu me chamasse Zezé
e ainda por baixo
fosse pobre e muito pouco macho. 


É claro que há sempre uma vulnerabilidade, quase clássica, sempre ridícula, na voz lírica que se atreve à confissão passional. Mas essa fraqueza, esse saber certo que existe em cada homem de que em cada mulher há uma fortaleza inexpugnável, é rapidamente transcendida através do recurso à mais rude sobranceria, também ela de gosto romano:

Agora ficas a saber tanto como eu
das vitórias e dos meus escombros
Vê se ficas calada e abres finalmente a boca.
Eu tenho do Céu o canto que te cometo
o fogo de Prometeu
e da próxima prometo que te encho a Alma
até ao útero.


Além do mais, o Márcio Alves Candoso - é preciso dizer isto - não tem uma enorme devoção por Homero, ou por Virgílio, ou por Cícero, ou por Hesíodo ou até por Juvenal, de quem herdou tantas comichões. O que não deixa de ser estrondosamente divertido, porque os versos dele são construídos daquela forma tão antiga como a literatura, em que os adjectivos passam rapidamente a substantivos por serem prodigiosamente poderosos e de tal forma colocados no seu perfeito lugar frásico que realmente fazem romba a navalha de Occam. Há em Marte Bendito, por exemplo, o claro sabor clássico de Camões (embora remixado numa versão Ridley Scott):

E a mim, Marte, chegaram os humanos
Em dia obscuro, com pesados instrumentos
O tormento que passaram foi bem claro
Mas recebi-os e aos sorrisos que então deram.
Que ao passar nesta atmosfera onde me empenho
Em mares que eles nunca ultrapassaram,
Só lhes deixo este conselho, que é fecundo
Bem vindos, a outra terra, a outro mundo!


E depois, claro, sempre conseguimos encontrar nesta proverbial maneira de dizer coisas absolutamente não proverbiais, o escárnio de um escrevinhador furioso que não tem medo de ninguém - e neste caso, podemos bem dizer que o homem é a sua literatura e vice-versa:

Livro, sou mais livre e tu definhas
como os teus secredos publicados
em linhas tortas.  


“Quando Tudo Era Tanto” é uma espécie de manual de sobrevivência para as gerações vindouras, exactamente da mesma forma que o protocolo diplomático dos Xogun do século XVI, no Japão momentaneamente tolerante para com jesuítas e outros alienígenas, ajudou bastante a burocracia imperial do país no fim dos anos novecentos: ou te adaptas ao sexo oral que cada cliente exige ou vais à guerra. Nem é preciso dizer que nos versos que aqui encontrarás, gentil leitor, está todo o conflito bélico entre aquilo que o homem quer e aquilo que o homem tem. E se aquilo que o homem tem são uns quantos poemas (não necessariamente os que desejaria, mas os que estão escritos), será talvez melhor que sejam impressos. Será talvez melhor que sejam lidos.

Viste o filme? Corta agora! E manda publicar a fita.

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Paulo Hasse Paixão
Março de 2017 

domingo, novembro 10, 2019

No fucking miracle.

I'm not looking for a miracle, healing or redemption;
Just something to hold on to.


Feeder . Shapes and Sounds

terça-feira, novembro 05, 2019

O Império do Meio não gosta de ser contrariado e

procede assim, em Hong Kong:



Imagens arrepiantes e eloquentes sobre a ideia que o Comité Central do Partido Comunista Chinês quer comunicar à população da Região Administrativa Especial: submetes-te ou submetes-te. Na boa, se for o caso; com violência extrema, se não for. Temos todo o tempo de mundo, o que é mesmo muito tempo para quem está a levar porrada.
Esta é o verdadeiro rosto da China, o parceiro de negócios favorito de toda a gente.
Boa sorte.

segunda-feira, novembro 04, 2019

Ou mais simples ainda.

Esta malha é de tal forma poderosa que não precisa de clip.



Feeder . Shapes And Sounds

sexta-feira, outubro 25, 2019

Kobayashi e as abelhas.



vou-me embora —
arrendei a minha casa
às abelhas



flor aberta
uma abelha penetra-a
com o ferrão



a minúscula abelha
pensa em grande
flores do aniversário de Buda



as abelhas do campo
passam zumbindo
por dentro do templo


as abelhas com filhos
trabalham freneticamente
e recebem o seu salário



as abelhas
em volta do poste
reunião de condomínio




Kobayashi Issa . Os Animais [haikus] 
Assírio & Alvim . Versão em pt: Joaquim M. Palma

Sim Racing Beauty.

A propósito do último post, aqui fica o espectacular trailer da actualização V1.1 do Assetto Corsa Competizione, testemunho puro e duro do estado da arte moderna em simulação de corridas.


quinta-feira, outubro 24, 2019

O real e o virtual à mistura.

O Sul-africano David Perel é piloto em duas dimensões: na vida real conduz o Ferrari 488 GT3 Pro Am da Rinaldi Racing na Blancpain GT Series; e no palco virtual é um habitual ganhador de corridas online no Gran-Turismo, no iRacing e no Assetto Corsa.
O que vemos nos primeiros minutos deste vídeo é bem eloquente sobre a mistura explosiva que ocorre hoje em dia no automobilismo: os pilotos das corridas reais começam a aparecer nas corridas virtuais e os pilotos das corridas virtuais começam a aparecer na corridas reais. Cada vez mais. Neste caso super giro, David Perel escolhe, no Asseto Corsa, o carro que conduz realmente. Um momento verdadeiramente meta-fenomenal.


domingo, outubro 20, 2019

Enquanto o co-piloto reza pela vidinha, Vatanen segue prego a fundo.

1983. Ari Vatanen, provavelmente o mais destemido e espectacular piloto de ralis da história do automobilismo, acelera o seu Opel Manta 400 pela Ilha de Mann como se não houvesse amanhã. A certa altura (2'09" do vídeo) bate num muro do seu lado esquerdo e - milagrosamente - consegue equilibrar o carro e evitar a colisão a alta velocidade com um portão. Ainda assim, o filandês continua teimosamente a carregar com o pé na tábua, independentemente do furo que a batida provocou, do nevoeiro que entretanto se instala, da estrada escorregadia com precipícios a centímetros do asfalto e de qualquer vestígio de bom senso. Cinco minutos épicos.


sábado, outubro 19, 2019

Sinais do tempo.

O patrão sinistro do sinistro Facebook concedeu recentemente à impecável Dana Perino uma muito surpreendente entrevista em que - pasme-se - defende a liberdade de expressão.
Não que a pratique: o Facebook é uma máquina de censura tão porreira que obedece perfeitamente ao critério do Partido Comunista Chinês, com que Zuckerberg adora fazer negócio.
Ainda assim - e sem problematizar muito os motivos que o levaram a proclamar a heresia - é de louvar este desvio à política oficial dos últimos anos.



No entretanto, os atrasados mentais do Extinction Rebellion decidiram bloquear o metro de Londres na estação de Canning Town, pelas 7 da manhã de ontem.
Parece que até o metro, que é eléctrico e transporta muito apertadinhas as classes mais desfavorecidas da grande babilónia britânica, é um veículo condenável para os histéricos do clima.
A escolha da estação também não foi propriamente genial: Canning Town é reconhecidamente um bairro de gente de barba rija. Ainda assim, os rapazinhos decidiram subir para cima das carruagens com aquela irritante superioridade moral e total indiferença perante a vida das pessoas que está a começar a tornar-se insustentável. O que aconteceu a seguir é absolutamente delicioso.
 



Não sou um defensor da violência, em princípio. Mas há aqui uns pontapés que são bem merecidos.
Uma nota: a violência foi iniciada por um dos "activistas pacifistas", que agride o rapaz que o tenta puxar para o chão.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Budas das trevas.

Logo depois de Genghis Khan - o assassino que impera ímpar sobre a História Universal da Infâmia - vem Mao Zedong, exterminador de bastantes mais infelizes que o dueto sinistro de Hitler e Estaline em concerto afinado. Assim sendo, o actual Partido Comunista Chinês, accionista de facto de uma boa parte do capital de grandes corporações ocidentais e detentor de dívida soberana de uma quantidade aterradora de estados, é em simultâneo responsável material pelo segundo grande extermínio de que há registo na ensanguentada rábula dos homens.

Mas com a China ninguém se mete e a recente resolução do Parlamento Europeu, que equipara o horror do comunismo ao horror nazi, procura - formal e mediaticamente - evitar que qualquer salpico de crítica salte para o pano imaculável da bandeira do Império do Meio. Na notícia do Observador, boletim sempre muito obediente à cartilha mainstream, figuram apenas os dois satânicos marretas do costume: o russo e o alemão. Como se os totalitarismos de carácter marcadamente genocida, condenados na resolução, fossem uma particularidade geo-política: para cá dos Urais, matamos mais.

A anacrónica necessidade de votar uma resolução sobre este deprimente assunto é - em sim mesmo - espantosa. Pelos vistos, até aqui a posição oficial da União Europeia tem sido a de que o bom do Estaline tinha mais fama que proveito, que os Khmer Vermelhos eram anti-fascistas bem intencionados e que a família de presidentes da Coreia do Norte trabalha há três gerações para o bem da humanidade.

Mais a mais, a resolução permanece objectivamente falsa. Se os eurodeputados querem mesmo dedicar-se à discutível arte de medir o tamanho das pilinhas dos grandes homicidas, que o façam com rigor. O comunismo internacional matou duas ou três ou quatro vezes mais gente que o nazismo, até porque durou muito mais tempo; o tempo necessário para retirar qualidade de vida, liberdades e direitos a toda uma ópera de povos. Como produtor de infelicidade, o comunismo não tem rival pelo que a equiparação ao também tenebroso, mas muito menos bem sucedido regime nazi não é de todo credível.

Noto que a resolução recolheu 66 votos contra e 52 abstenções, pelo que temos 118 eurodeputados que são ineptos em Aritmética, ignorantes da História e destituídos de Moral. São muitos e são demais.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Não há vida sem acto criador.

Ainda sobre o assunto do último post, o genial (é dizer pouco) James Tour, químico pós graduado em Perdue, Doutorado em Standford e Professor de Ciência de Materiais e Nano-Engenharia na Universidade de Rice, explica com enorme eloquência porque é que a ciência contemporânea chega facilmente à conclusão que existe um Criador por de trás da Criação.
Aconselho vivamente a toda a gente os próximos cinco minutos deste vídeo. A sério.



"Organisms care about life. Chemistry, on the contrary, is utterly indifferent to life. Without a biological derived entity acting upon them, molucules have never been shown to evolve toward life. Never."

James Tour . The Mistery of the Origin of Life

A pergunta fundamental.

Aos 52 anos, chego à conclusão que a questão ontológica fundamental é esta: pode a ciência provar a existência de Deus?

Stephen Meyer, filósofo e director do Discovery Institute's Center for Science and Culture dá um contributo muito sério para uma eventual resposta à minha prioritária pergunta. Quem tem interesse na relação entre a ciência e a religião, deve prestar a esta palestra a atenção que ela merece.

quarta-feira, outubro 09, 2019

Junk pop e os cientistas do vício.

O sacaninha do Rick Beato consegue por-me a ouvir coisas deliciosamente intragáveis, como esta aqui:



Mabel . Don't Call Me Up

É claro que este blog não costuma abrir janelas para o pop mainstream americano, espécie de junk food para os ouvidos que não consola nem eleva, mas que tem, aqui e ali, um encanto imediatista que é difícil de resitir. A excepção à regra deve-se ao Rick e ao eloquente vídeo que explica porque raio é que esta música da Mabel funciona cientificamente como um Big Mac melódico que sabe bem nas primeiras dentadas e deixa remorosos no estômago da sensibilidade.


segunda-feira, outubro 07, 2019

Thunderstruck rednecks.

Ou como os AC/DC podem ser revistos por uma banda folk. Brilhante.



Steve'n'Seagulls . Thunderstruck

Uma República pela metade.

Com a desonrosa excepção do CDS, que Cristas reconduziu espectacularmente à condição de partido taxista, toda a gente ganhou as legislativas de ontem. O PS, como era expectável, o PSD porque o inenarrável Rui Rio conseguiu escapar à mais que merecida humilhação (e isso, para a criatura, é em si mesmo uma vitória retumbante), o Bloco porque sim, porque é o Bloco e porque o Bloco é  por natureza um triunfo (como o dos porcos do Orwell), o PCP como sempre (não há memória de um partido comunista sair derrotado de um acto eleitoral que seja e é por isso que, historicamente, o comunismo sempre procurou anular rapidamente o fastidioso acto eleitoral), o PAN porque é um fenómeno poltergeist, o Chega porque é insuportável e isso sempre dá votos, o Livre porque quer ser o Bloco quando for grande e a Iniciativa Liberal porque ainda há gente em Portugal (muito pouca) com algum optimismo e inocência bastante.

É mais que nítido, no entanto, que o resultado verdadeiramente significativo da fantochada eleitoral foi a abstenção, que obteve uma esmagadora maioria, segundo o critério de Hondt. Na altura que escrevo este post, 4,5 dos 10 milhões de eleitores registados ignoraram completamente o assunto da governação do País (eu também). E se somarmos à abstenção os votos brancos e os votos nulos, ficamos com quase, quase 50% para cada lado: uma República partida pela sua metade. Mas pelas caras sorridentes que vi, horrorizado e durante dez segundos, na televisão, pergunto-me: até que ponto é que os desgraçados intérpretes desta República vão continuar a assobiar para o lado, como se nada fosse? Qual é a percentagem de abstenção necessária para que esta corja perca a vergonha e reconheça o problema da legitimidade democrática e institucional que realmente existe? 60%? 70%? 80% de abstenção? Não creio. Depois de 45 anos de descaramento, a rapaziada formaria governo com 10 mil votos apenas. E de cara alegre, como sempre, porque o poder, mesmo que ilegítimo, é sempre um festival de contentamentos.

Tenho 52 anos. A minha vida está estabilizada e eu gosto dela. Não nutro, por isso, grandes desejos de revolução. Mas desconfio bem que esta cambada de palhaços ricos vai acordar um dia para uma muito desagradável surpresa. É uma questão de tempo. O tempo necessário para que a indiferença se transforme em ira.

domingo, outubro 06, 2019

Os patrões do rock contemporâneo estão de volta.

Inacreditavelmente, só me apercebi ontem que os Black Keys editaram um novo disco, sendo que a Obra foi lançada em Maio deste ano. Imperdoável lapso. Ainda não ouvi o disco, confesso, mas fica já aqui uma malha, embrulhada num clip super divertido, principalmente se considerarmos a ironia do enredo. É que, ao contrário do que vemos no clip, Dan Auerbach e Patrick Carney são os melhores amigos de que há registo na história da humanidade e, teórica e praticamente, incapazes de uma zanga que seja.



A prova da afirmação polémica com que termino o parágrafo anterior é esta deliciosa entrevista que os dois bons e velhos camaradas concederam a Joe Rogan, no mês de Setembro último. Bem sei que, como todas as entrevistas de Rogan, a coisa se estende muito para além do razoável, mas que vale a pena, lá isso vale.


Em busca da matéria perdida.

Uma equipa constituída por cientistas e engenheiros de todo o mundo está a construir no Arizona uma espécie de telescópio 3D - o DESI - que irá permitir, talvez, a detecção e identificação da energia negra, a força que constitui 27% da matéria cósmica e que é responsável pela expansão, a um ritmo exponencial, do universo e à sua alucinante perda de densidade. Se a complexa máquina experimental der resultados, comprovará que o modelo standard da física contemporânea ainda serve para alguma coisa. Caso contrário, mais vale começarmos do zero.
A ver vamos.


sexta-feira, outubro 04, 2019

Bom apetite.

No contexto da histeria colectiva a que chegámos com a versão Século XXI do apocalipse climático (e eu lembro-me bem de ser ameaçado até ao desespero com os vários apocalipses climáticos do século XX), isto já nem espanta:


terça-feira, outubro 01, 2019

Um buraco inventado.

Parece que não sou só eu que tem muitas dúvidas sobre a credibilidade científica da recente e famosa imagem atribuída a um buraco negro. E outrossim parece que estou bem acompanhado ao desconfiar que esta imagem não corresponde de todo a qualquer buraco negro pela simples e muito provável razão de que os buracos negros nem sequer existem. E, se calhar, seria uma boa ideia fazer prova de que eles existem pelo recurso ao bom e velho método científico e não através de uma imagem que se faz circular, com euforia espampanante, nas capas dos jornais de todo o mundo. O Professor Pierre-Marie Robitaille elabora sobre o assunto. E ele sabe do que fala.


quarta-feira, setembro 25, 2019

Rock on, Rick.

Rick Beato. Músico, compositor, professor, produtor, youtuber, mas sobretudo, amante de música. E no canal dele percebe-se bem o romance. Num dos segmentos que edita com regular persistência e apaixonada veia, "What Makes This Song Great", Beato explica muito bem explicado porque é que a mais épica das malhas já inventadas pelos Queens of the Stone Age, "Nobody Knows", é assim tão malha e é assim tão épica. Escolhi este vídeo porque, claramente, gosto tanto da música como o alegre youtuber. Mas qualquer melómano curioso vai de certeza encontrar a desmontagem fascinante de uma canção de vida, nos sessenta e tal episódios desta série. Beato adora o que faz e o que faz brilhantemente é ensinar música. E irradiar uma deveras consoladora pedagogia do gosto. Programa de televisão do momento.




domingo, setembro 15, 2019

quinta-feira, setembro 12, 2019

Patologia americana.

Este tweet do New York Times dedicado à traumática e dramática efeméride de ontem é eloquente sobre o momento insano que atravessa o panorama político - e jornalístico - americano. Afinal, foram os aviões que decidiram, há 18 anos atrás, rebentar com as Torres Gémeas. Os aviões é que são os terroristas. A ideia de que aos comandos dos aviões estavam uns tipos muita porreiros a quem costumamos (costumávamos?) chamar radicais islâmicos e que esses tipos muita porreiros é que foram responsáveis pelo horror, é uma teoria da conspiração sem pés nem cabeça. Porque os aviões é que são os culpados. Os aviões, ouviram?
O tweet foi rapidamente substituído por um ligeiramente menos ofensivo, mas ainda assim, convenhamos: há aqui um fenómeno nitidamente patológico.

terça-feira, setembro 10, 2019

Elogio da solidão.

Desde criança que sempre apreciei a solidão. Convivo bem com ela porque sei, sempre soube, que faz parte grande e importante da vida. É a solidão que me permite escrever, trabalhar, pensar. É quando estou só que o meu raciocínio se aprofunda, que a análise que faço de mim e dos outros é mais certeira. Sou uma pessoa de companhia, claro. Gosto da componente social e conservo, apesar de tudo, muitos e bons amigos com quem adoro estar. Com quem adoro conversar, beber uns copos, desabafar, rir, confessar ridículos e partilhar glórias. Mas tenho a convicção sólida de que a saudável convivência social só é possível quando sabemos ficar a sós. Quando aproveitamos a solidão para um melhor entendimento do mundo. E para a superior exploração do nosso potencial. E pelos vistos, Alain de Botton e os senhores da notável The School of Life concordam comigo. Pelos vistos, na minha opinião sobre a solidão, não estou sozinho:


Bandeiras erradas.

Em Hong Kong, os manifestantes erguem a bandeira americana, como uma tocha libertária. Em Boston, os militantes da Antifa queimam-na, como um símbolo do mal absoluto.
Manifestantes e militantes estão equivocados, claro. Uns deviam levantar a britânica Union Jack, que lhes ensinou a liberdade. Os outros deviam parar de queimar bandeiras, ponto. E dirigir essa energia antifascista contra as repúblicas que realmente expressam o mal absoluto. Dou ideias: República Popular da China, República Islâmica do Irão, República Bolivariana da Venezuela, República Árabe da Síria, República Popular Democrática da Coreia, República de Cuba, República da União de Myanmar, República Centro-Africana, República da Libéria, República Federal da Somália, e etc.

sábado, setembro 07, 2019

O triunfo de Cid.

Enquanto em Portugal não nos cansamos de promover a mediocridade profunda dos diversos Tonis Carreira que infectam a música popular, não deixa de ser irónico que os senhores da National Academy of Recording Arts and Sciences se tenham lembrado (a minha alma está parva) de atribuir a José Cid um mais que justo Grammy, que premeia a sua poderosíssima carreira como compositor, letrista, intérprete e impenitente romântico. Cid é, talvez a par de Zeca Afonso, o grande criativo da sua geração. E mantém ainda hoje, com a heroica idade de 77 anos, uma intensa actividade ao vivo, esgotando concerto sobre concerto nos mais diversos palcos.
Muito de vez em quando, neste mundo esquizofrénico, acontece algo que faz sentido. E celebrar o talento de José Cid faz todo o sentido.



José Cid . Morrer de Amor . 1981

Quando eu te conheci eras criança
Vivias no teu mundo de ilusão
E nem sequer sonhavas que poderias ser
A causa principal desta canção
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

E o tempo foi passando lentamente
Mas não morri de amor, sobrevivi
Foi-me invadindo a alma uma tristeza imensa
Que ditou a canção que te escrevi
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti