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domingo, outubro 04, 2026

Sobre a navegação existencial do cristão.


Sou cristão. Na moral e na metafísica; ou seja: o terrorista islâmico ou o Peter Thiel, por muito que me custe a consciência disso, são exactos filhos de Deus. Emmanuel Macron também. Friedrich Merz é sagrado, como produto da criação divina. Devo respeitar o milagre maluco que é existir uma senhora von der Leyen, condescendência que, convenhamos, será sempre de difícil resignação.

Não estou a ser irónico. Ser cristão é ter que sacralizar necessariamente toda a gente: amigos, inimigos, doces pessoas como os piores filhos da puta. É assim e quem não estiver psicologicamente preparado para isto deve seguir evangelhos outros, que não contem a história do Homem-Deus que se sujeitou ao pior suplício do Império Romano para redenção minha, e tua, gentil leitor, e sua, estimada leitora, e de toda a gente que carrega no coração uma alma.

Mais: não é só o ser humano que devemos consagrar. Devemos consagrar TUDO. Montanhas e bezouros. Lagos e ursos. Árvores e lesmas, não interessa a espécie e a classe e até nem interessa se é animada ou não. Se pensarmos bem, uma montanha é mais animada que todos os mamíferos da planície pelo simples facto de estar ali sujeita à entropia transformista de milhões de anos.

A formiga e o furacão.

A borboleta, como o bisonte.

O falso vácuo entre o Sol e a Terra.

O ilusório vazio entre os corpos astronómicos e as tensões electromagnéticas dos átomos.

O infinito que reside em todas as coisas que findam e o fim de tudo o que não acaba nunca.

Deus meteu o dedo nisso. Deus meteu a pila criativa nisso. Fez a sua génese. E o que Deus cria, devo respeitar, acima de qualquer outra consideração.

Devo adorar, acima de qualquer adoração.

Devo amar Deus, acima de tudo o que amo, sim.

Nem que seja porque foi Deus que me fez assim, capaz de amar.

Milagre do caraças.

 

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Não é fácil ser cristão, agora. Escolhi até ser cristão na segunda e terceira décadas do século XXI, precisamente quando isso é mais difícil - mas não me estou a queixar: Quem acredita em Cristo, entende o universo. Sai do sistema. Escapa à corrupção da matéria. Eleva-se.

O cristão é um ser humano eminentemente livre, mas sem licença para matar (legítima defesa à parte?). 

Sem licença para odiar o outro, magoar o outro, sentir-se de algum modo superior ao outro. E a partir daqui, tudo o resto fica subitamente acessível à sensibilidade e estranhamente cognoscível ao intelecto.

Por exemplo: não será o mandato de amar o inimigo o caminho definitivo para a paz?

Outro exemplo: não viverás melhor se corrigires os teus erros, em vez de passares a vida a acusar os outros dos seus?

Mas não, não é fácil ser cristão, agora, considerando o jugo satânico e quando a vida que escolheste te arrasta pela lama do mundo e a infâmia dos homens, dia sobre dia. Porque sendo infames, são sagrados na mesma, e é isto que é ser cristão.

Porque até o pior dos assassinos tem acesso à redenção, e é isto que Cristo diz.

Porque não é a amares os teus aliados, mas a saberes perdoar os teus adversários, que te salvas.

É complicado. E consolador.

 

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Aos olhos de Deus somos todos únicos, somos todos iguais, e sem paradoxo porque somos todos iguais quando saídos do parto, em excruciante dor de mãe e filho, mas não seremos pares no fim do caminho, em função dos nossos erros.

Deus não é nenhum marxista e Cristo ia antipatizar seriamente com Trotsky (como antipatizou seriamente com os fariseus), embora dificilmente aceitasse que à mesa da última ceia se sentassem - convivenciais - miseráveis e bilionários (para jejum destes últimos).

Seja como for, pobres e ricos, virtuosos e crápulas, seremos todos sujeitos a um critério transcendente, no fim desta caminhada pela curvatura planetária.

Como há a certeza de um Deus, haverá um incontornável julgamento.

Pelos teus erros, pagarás um preço. Pelos teus acertos, serás agraciado.

Aqui na Terra, como no Céu. 

terça-feira, setembro 08, 2026

Odiar a Casa Mãe: uma análise clínica.

Porque é as elites ocidentais desprezam a civilização ocidental?

A oikofobia - essa estranha tendência para criticar ou rejeitar o próprio lar, sociedade ou nação, enquanto se elogiam pátrias alheias, muitas vezes alienígenas até do ponto de vista cultural -, é historicamente recorrente, acompanha e motoriza o declínio das civilizações e triunfou nas universidades, nas redacções e nas estruturas corporativas das sociedades contemporâneas, deste lado do mundo. 

A patologia, que Joomi Kim diagnostica neste interessante vídeo-ensaio, conduz até a caricatas sintomatologias, como a de políticos eleitoralmente bem sucedidos, como Barak Obama, incorporarem no seu discurso público um constante desdém pelos próprios eleitores e pelas nações que foram por eles incumbidos de dirigir.

Do legado helénico a Voltaire, da Roma imperial à América liberal, percebemos que a doença é endémica, e que, de forma aparentemente contra-intuitiva, é até resultado da prosperidade e da sofisticação das sociedades onde se propaga.  

Alimento para os neurónios.

sábado, setembro 05, 2026

A Verdade em estilhaços: cinco lições cruciais (e incómodas) sobre o futuro da informação.

A democracia não exige que todos tenham a mesma opinião, mas precisa de um acordo sobre factos essenciais. Sem uma base comum de realidade, o debate civilizado dá lugar a conflitos constantes entre mundos paralelos que não se comunicam. A crónica de Francisco Henriques da Silva.


 

segunda-feira, agosto 31, 2026

Hegel Entre a Razão Sistemática e o Mistério do Real

Celebrar Hegel é reconhecer que o seu pensamento continua vivo e em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo. A revisitação de António Justo.


sexta-feira, agosto 21, 2026

Com Deus a Janela é Maior

O problema começa quando imaginamos que a nossa janela é o mundo. Mas nenhuma perspectiva humana contém a paisagem inteira. Nesse horizonte, a fé não precisa de ter medo da razão e a razão não precisa de ridicularizar a fé. Um ensaio de António Justo.


 

domingo, agosto 16, 2026

Da Ontologia do Domínio à Ontologia da Relação

A vida não nos entrega um projecto acabado. Entrega-nos relações. E assim, se a antiga ontologia perguntou sobretudo o que é o ser, uma ontologia relacional terá de acrescentar: como é que o ser se torna na relação? Um ensaio de António Justo.


 


quinta-feira, agosto 13, 2026

Epicteto e a libertação face ao poder da tirania.

O poder é a capacidade de controlo sobre o que valorizamos. Assim, o segredo para nos libertarmos da influência de qualquer tirania é valorizar aquilo que podemos controlar sobre aquilo que não podemos.


 

domingo, julho 26, 2026

A Odisseia Transformada em Manual de Instruções da Cultura Ocidental

É chegada a hora da civilização ocidental escapar à corrente da propaganda e ao pantanal das ideologias moralistas e ler Homero e a Bíblia como antropologias do conflito e não como cartilhas da submissão. Um ensaio de António Justo.


 

sexta-feira, julho 10, 2026

Filósofo alemão Hans-Eckardt Wenzel: “Estamos às portas do inferno a acreditar que é o paraíso.”

O filósofo, poeta e músico alemão Hans-Eckardt Wenzel enuncia um diagnóstico devastador da sociedade ocidental, iludida e dividida por definição, desprovida de identidade e logos, e convencida de que nada pode ser feito quanto ao seu terminal e sinistro destino.


 

segunda-feira, junho 29, 2026

A Ilegitimidade do Julgamento Civilizacional.

Se os valores ocidentais são apenas o resultado de uma prática política específica e legitimada no tempo, então por que haveriam de ser superiores aos valores que orientam outras práticas políticas? Uma reflexão de António Justo.


O Funcionamento Interno da Polis Democrática.

O relativismo cultural seguido na governação não tem coerência interna nem externa, provocando em muitos sentimentos de impotência e noutros uma reacção de autodefesa nacionalista. A crónica de António Justo.


 

terça-feira, maio 05, 2026

Famosas últimas palavras ou o verbo como Extrema Unção.

As últimas palavras de figuras históricas representam um fascinante vislumbre da mente humana no limiar da morte, reflectindo as crenças profundas e as circunstâncias finais daqueles que as proferem e deixando à posteridade um vestígio eloquente das suas personalidades.


 

terça-feira, abril 28, 2026

Tudo fica, menos nós.

A perda não é um erro do sistema. É o sistema. A vida não é uma sucessão de perdas por acidente; é uma longa operação de desapropriação. Primeiro tira o supérfluo, depois o necessário, por fim o essencial. Uma crónica de Walter Biancardine.


 

quinta-feira, abril 23, 2026

Meditação do H₂O

A água aceita ser gelo para sustentar o inverno; aceita ser rio para servir a planície; aceita ser vapor para vestir o céu. O calor que desencadeia essa metamorfose não é uma temperatura; é uma metáfora do amor que desaba sobre o sólido do medo. A meditação de António Justo.


 

segunda-feira, março 23, 2026

Morreu Jürgen Habermas, o filósofo que quis tornar o mundo um pouco melhor.

Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, herdeiro da tradição iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa tão simples de enunciar quanto difícil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. A elegia de António Justo.


 

terça-feira, março 17, 2026

Este homem rebenta-me com os neurónios todos.

No bom sentido, claro.

Na lição que publico em baixo, dedicada à análise da natureza, orgânica e dinâmica do Regime Epstein, o Professor Jiang Xueqin disserta sobre o aparelho de transformação da realidade que foi montado nas sociedades ocidentais (não por acaso, a dissertação começa com a Alegoria da Caverna, de Platão) e desmonta todo o processo criminoso a que estamos a ser submetidos pelas elites globalistas, com uma profundidade e ousadia absolutamente incríveis.

Há um momento delicioso na palestra, que é resumido por esta imagem aqui:

A palavra a azul centrada na parte superior do quadro é "parasites". E quem são os agentes parasitas do sistema? Os espiões ("intelligence"), os criminosos ("crime") e... os cientistas ("science).

Lúcido como poucos, Jiang sabe bem que a academia contemporânea é uma máfia assente num negócio de extorsão, e não tem problema nenhum em denunciar essa actividade criminosa.

É claro que este comportamento disruptivo e dissidente do professor-profeta só é possível porque ele ensina na China. Ninguém no Ocidente lhe ia pagar para dizer assim a verdade, à boca cheia.

Uma hora luminosa, que vos recomendo vivamente. 

quinta-feira, março 05, 2026

Iluminados jacobinos.

Curt Jaimungal articula neste vídeo-ensaio uma inspirada e assertiva crítica a cientistas dogmáticos como Neil deGrasse Tyson que se recusam a admitir que acreditam seja no que for e que são apenas fieis aos factos materiais que o método científico produz, confundido credo com fé e escapando-lhes a ironia de que esta afirmação constitui ela própria um sistema de crença. Crença que o método científico é absolutamente fiel na descodificação da realidade. Crença de que os factos materiais dispensam qualquer outro produto de análise da realidade (como a filosofia, por exemplo). Crença de que um cientista não precisa de um sistema de crença. Crença de que a descrença de tudo os salvará, no fim.

Jaimungal destrói completamente esta visão redutora e falaciosa do papel do cientista e da ciência no conhecimento humano, com brilhantismo retórico e erudição epistemológica que dá gosto de consumir.

Pelo menos para mim, que, no meu sistema de crença, tenho a convicção de que a arrogância obtusa de figurinhas do decadente estabelecimento académico como Neil deGrasse Tyson devem ser contrariadas assim, galharda e eloquentemente, em praça pública.