Os propagandistas da revista Der Spiegel decidiram que a capa da edição da semana passada devia ser esta:
Acompanhando uma foto de tropas nazis envolvidas na Operação Barbarossa (invasão da URSS) durante a II Guerra Mundial, e celebrando o 85º aniversário dessa ofensiva militar, o headline universaliza e prolonga a ancestral hostilidade entre germânicos e russos, afirmando literalmente:"A nossa guerra contra a Rússia."
Nesta capa é assim estampada a agenda globalista das elites europeias em geral e dos líderes do arco do poder alemães, em particular: atacar militarmente a Rússia, como fez Hitler em 1941.
E antes de explorar esta afirmação, talvez seja pertinente revisitar a história dos conflitos entre alemães e russos.
Em 1242, ordens militares católicas germânicas (Cavaleiros Teutónicos e a Ordem dos Portadores da Espada) tentaram conquistar os territórios das repúblicas russas de Pskov e Novgorod durante a chamada "Cruzada da Livónia". O avanço germânico foi travado de forma decisiva pelo príncipe russo Alexandre Nevsky na famosa 'Batalha do Gelo'.
Durante a Guerra dos Sete Anos (1756–1763) a Prússia de Frederico, o Grande, enfrentou uma coligação que incluía o Império Russo. Não se tratou de uma invasão prussiana ao coração da Rússia, mas sim de combates violentos nas fronteiras e em territórios disputados (como a Prússia Oriental). Apesar dos russos enfrentarem na altura aquela que era a primeira máquina de guerra da Europa, uma espécie de Esparta do Báltico, o exército russo chegou a invadir a potência germânica e a ocupar Berlim temporariamente. A Prússia foi salva da derrota total pelo "Milagre da Casa de Brandeburgo", quando o novo Czar russo, Pedro III (que admirava Frederico, nasceu na Alemanha e foi educado sob forte influência germânica), retirou a Rússia da guerra.
Em 1812, a Prússia participou directamente na invasão do território russo como um aliado forçado de Napoleão Bonaparte. Um corpo de exército prussiano de 20.000 soldados operou no flanco esquerdo da invasão francesa, atacando a Rússia na direcção de Riga. Os resultados catastróficos desta invasão são bem conhecidos, embora, comparativamente com as baixas francesas, o exército germânico tenha sido poupado à extinção. tendo perdido 'apenas' um quarto dos seus soldados.
Logo após o início da Primeira Guerra Mundial, o Império Alemão atacou a Rússia czarista. Os alemães avançaram profundamente pelo território do Império Russo e, posteriormente, da Rússia Soviética.A ofensiva alemã resultou no colapso militar russo, culminando na Ofensiva de Gorlice-Tarnów (1915). Em 1918, a Operação Golpe de Punho avançou ainda mais pelo interior da Rússia, forçando o governo bolchevique a assinar o Tratado de Brest-Litovsk. A Rússia viu-se obrigada a ceder um milhão de quilómetros quadrados de território, um terço da sua população e a maior parte das suas indústrias essenciais. Mas em Novembro desse ano, com a rendição dos alemães, o tratado foi anulado pelos aliados, com uma boa parte dos territórios perdidos devolvidos à Rússia (Ucrânia e Bielorrússia).
Em 22 de Junho de 1941, a Alemanha Nazi lançou a Operação Barbarossa, no contexto da II Guerra Mundial. Foi a maior invasão terrestre da história militar, com mais de 3 milhões de soldados do Eixo a avançar pela fronteira da União Soviética, incluindo o coração da Rússia. A invasão tinha como objectivo a destruição do Estado soviético e a conquista de "espaço vital" (Lebensraum) para colonização alemã. A campanha estendeu-se até 1945, terminando com a derrota total da Alemanha pelas forças soviéticas que avançaram até Berlim, tomando a capital e fechando para todos os efeitos o conflito na Europa.
Assim sendo, e como é fácil de constatar, milícias teutónicas, exércitos prussos, tropas do Kaiser e toda a formidável máquina de guerra nazi não foram capazes de grandes sucessos, muito pelo contrário. Isto apesar das forças germânicas, regra geral, terem sido responsáveis pelo início dos conflitos. No caso da II Guerra Mundial, a invasão nazi aconteceu até e para enorme surpresa de Estaline, quando os dois países cumpriam um importante tratado de não agressão e cooperação industrial - o Tratado Molotov-Ribbentrop.
Dado o contexto histórico, a capa do Spiegel é obscena, por vários motivos.
A revista alemã está a celebrar um dos maiores descalabros militares da histórica, que levou directamente à aniquilação do regime nazi e à destruição da Alemanha, sendo que se estima que entre 3 a 4 milhões de soldados alemães perderam a vida na frente leste. Só para termo de comparação, as tropas napoleónicas sofreram não mais que meio milhão de baixas na invasão francesa da Rússia, também ela um monumental desastre militar, no princípio do Século XIX.
A revista alemã está a celebrar uma guerra mundial que foi provocada pelos alemães, para sua desgraça. E a invasão de um país que acabou por ser o primeiro responsável por essa mesma desgraça.
A revista alemã está a celebrar uma agressão militar perpetrada por um dos mais draconianos e genocidas regimes da história. Os horrores cometidos pelos nazis são do conhecimento geral, mas valerá a pena sublinhar que durante a operação Barbarossa a Wehrmacht e as SS mataram mais de três milhões de civis russos. Só no Cerco de Leninegrado morreram mais de 500.000.
A revista alemã está a forçar loucamente a ideia alucinada de que os cidadãos da Alemanha Nazi têm o mesmo tipo de valores que os alemães contemporâneos, e que as motivações do regime de Hitler são as motivações dos povos germânicos ao longo da história e dos cidadãos contemporâneos da federação.
A revista alemã está a revelar a agenda, querida dos globalistas, de que a guerra contra a Rússia é agora necessária e inevitável, e que ao contrário do que nos têm dito (mentindo com quantos dentes têm) é a Europa que pretende invadir a Rússia e não a Rússia que pretende invadir a Europa.
Por último (para fechar este extenso texto mais do que para exaurir as conclusões que se podem tirar desta sinistra decisão editorial), a revista alemã está a sugerir, contra todas as evidências históricas, contra todos os factos estatísticos, demográficos e logísticos, que a Alemanha é capaz de derrotar militarmente a Rússia.
A Alemanha, cujo exército não incorpora mais de 190.000 activos, neste momento.
A Alemanha, que vive numa crise industrial e energética sem precedentes e é unanimemente considerada como uma potência económica em acentuado declínio.
A Alemanha, cuja marinha de guerra incorpora na sua frota apenas 11 fragatas, 5 corvetas e 6 submarinos. Em vários momentos recentes, devido à falta de peças de reposição e atrasos na manutenção, esta meia dúzia de submarinos ficaram parados ao mesmo tempo, deixando o país temporariamente sem capacidade subaquática.
A Alemanha, que não tem armas nucleares e que nos últimos quatro anos tem entregado, de borla, boa parte do seu arsenal à Ucrânia.
A Alemanha que, para constituir uma ameaça militar séria a qualquer outro país, precisa da NATO, num momento em que a NATO está fragilizada por claras alterações na filosofia geoestratégica dos EUA, que são o seu principal motor e contribuinte, de longe.
A Alemanha, que tem tais dificuldades de recrutamento de soldados, que aumentou recentemente a idade do serviço activo para 45 anos e nem as modestas metas da NATO consegue cumprir, sendo que as suas forças armadas apresentam um défice de 60.000 homens em relação às exigências da aliança atlântica.
A Alemanha, cujos poderes instituídos vivem em guerra aberta com um terço da sua população, perseguindo activamente a liberdade de expressão e a dissidência política.
Esta Alemanha quer tentar, pela enésima vez, invadir a Rússia.
Se não suspeitássemos que o objectivo dos líderes globalistas europeus é a destruição material e espiritual de um modelo civilizacional, e se não compreendêssemos que uma guerra perdida é a melhor forma de o conseguir, não haveria maneira de entender isto.
Mas os meus leitores sabem melhor. E percebem perfeitamente o que está em questão.




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