quinta-feira, outubro 01, 2026

A tragédia dos vivos.

Giaele e Sisara . Giuseppe Vermiglio . 1620

 


Choro pela mãe de um assassino
Pelo pai de uma prostituta
Pela irmã de um pedófilo
Pelo filho de um escravo

Pressinto o amor e a repulsa
Esse estreito sofrimento
Essa lâmina de culpa
E o remorso do pecado alheio
Estranho peso nos ombros
Dor umbilical de criar um monstro
Vergonha da servidão alheia

As pessoas sobrevivem a destinos
Tantas vezes ingratos
Tantas vezes malditos
E acendem velas em templos
E sorriem na rua aos estranhos
E vão até bem dispostas pela vida
Quando a vida deixa

As pessoas vencem sobre humilhações e jugos
E dramas indizíveis e acordam no dia seguinte
E vão trabalhar
E têm filhos
E fazem abortos
E discutem filosofia
E suicidam-se
E votam em políticos que as desprezam
E apaixonam-se loucamente umas pelas outras
E fuzilam-se furiosamente umas às outras
E incendeiam igrejas com pessoas lá dentro
E são atingidas por todo o tipo de estilhaços colaterais
E morrem sem compreensão do mistério 

Choro pelos torturados e pelos crucificados
Pelos esfomeados e pelos destituídos
Choro pelos culpados que não tiveram culpa
E pelos condenados que não cometeram crime 
Choro por aquele homem que é amigo
De um outro homem que foi para a cama com a mulher dele
Choro pela rapariga cuja madrasta
Estoirou as poupanças do pai no Casino
Choro pelo soldado regressado da guerra
Para encontrar o filho morto
Choro por aquele rapazinho a quem pegaram fogo
Por duas gramas de cocaína
E pelo desgraçado que perdeu as pernas 
Nas trincheiras do Donbass
E pelas meninas rebentadas 
Naquela escola de Minab
E pelas meninas violadas
Nos kebab de Birmingham

Somos vivos e logo condenados ao caos e à tragédia
Sujeitos indistintamente à violência que é a Matéria Escura 
Do cosmos