sábado, outubro 06, 2012

O contrário de um país.

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Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, 
define com perfil e ser 
este fulgor baço da terra 
que é Portugal a entristecer 
– brilho sem luz e sem arder, 
como o que o fogo-fátuo encerra. 

Ninguém sabe que coisa quere. 
Ninguém conhece que alma tem, 
nem o que é mal nem o que é bem. 
(Que ância distante perto chora?) 
Tudo é incerto e derradeiro. 
Tudo é disperso, nada é inteiro. 
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... 

É a Hora! 

Fernando Pessoa | Mensagem | Nevoeiro 


Começo pelo fim e digo ao contrário: mais lixem me não que, deuses os mim de rir se de parem que!
Porque eu começo já a ficar deveras exaurido e por demais fartinho desta comédia tragédia, de que este eterno 5 de Outubro de 2012 não podia ter sido melhor logotipo. Este eterno 5 de Outubro de 2012 não podia ter sido mais transparente sobre o esqueleto do regime. Este eterno 5 de Outubro de 2012 vai ser recordado como o dia do Raio X. Nunca se tirou, como hoje, um negativo tão eloquente ao regime que nos escraviza a dignidade: a cenografia pomposa e de acesso reservado a uma elite envergonhada, perplexa, incapaz; a senhora que fura pelos gorilas e que vem do meio do "povo" (e que é o "povo"!), implorando e acusando e conseguindo, na sua profissional competência de amadora, encenar em dois minutos um drama que Mário Soares (mesmo a levar todas as noites com pedras na cabeça em directo para o telejornal) não saberia realizar em cinquenta anos; a rapariga, muito solene e com nervos, disparando as atonias de Lopes-Graça e as atonias de Lopes- Graça soarem precisamente a uma rajada de metralhadora, sobre a audiência gelada; a bandeira colocada ao contrário, e ainda assim hasteada por Sua Excelência o Presidente da República, que finge, sorridente, não se dar pelo desastre ou que ignora, sorridente, a iconografia da nação; Sua Excelência o Presidente da Câmara de Lisboa a fazer campanha para Primeiro Ministro; os ministros a fugirem da idiotia da imprensa; a imprensa exultante de tanta miséria. Está tudo no boneco. Toda a decadência, toda a presunção, toda a miséria material, toda a falência intelectual, toda a ausência de ideias e de valor, todo o menos que zero da República, exposto, nú, crú, pornográfico, em alta definição e super slow motion.
Correu mesmo muito mal à organização, este dia eterno, mas na verdade é justo que assim seja porque não existe qualquer coisa de parecido com uma República digna de ser celebrada. Nas suas três tristes trevas, não se encontra luz nenhuma. A Primeira República foi o que foi: um concubinato infame de assassinos, ladrões, caciques, oportunistas, diletantes, destituídos, irresponsáveis, lunáticos e outros bem falantes. A Segunda República foi o que foi: uma orgia de um homem só, um império em Santa Comba Dão, uma deprimente, avarenta e envergonhada coisinha regimental, estado novo com reumático, nacionalista de sacristia, que, se durou só meio século, foi porque o homenzinho lá fez o favor de cair do banco abaixo e porque toda a gente com juízo tinha medo da Terceira República, que é o que é: um outro e um mesmo concubinato infame de assassinos, ladrões, caciques, oportunistas, diletantes, destituídos, irresponsáveis, lunáticos e outros bem falantes.
O problema é que - antes das três trevas da República - o que tivemos foram mais escuridão, as trevas das quatro desgraçadas dinastias que desafortunadamente completaram a monarquia. Sim, porque até Filipe II - provavelmente o mais poderoso rei da história da humanidade - foi aqui, reduzido a Filipe I, um medíocre governante.
Portugal resiste com rara risiliência a uma remota possibilidade de sucesso dos regimes, das constituições, dos estadistas, dos governos e dos programas políticos. E assim, é tão ridículo ser-se republicano como monárquico. É tão ridículo ser-se fascista, como social-democrata. É tão ridículo ser-se miguelista como liberal. É tão ridículo ser-se revolucionário como conservador. Escolha-se o clube ideológico que se escolher, é-se ridículo. Ser português é ser ridículo. A ridicularia está na raíz da nossa identidade. Se não nos achássemos todos ridículos em Portugal, D. João II teria tido mais dificuldades em recrutar marinheiros para dobrar o cabo, na justa medida em que o português acredita infantilmente que, saindo de Portugal, se torna menos ridículo. E também não é por acaso que se diz que somos um país de poetas. Os poetas, mais que fingidores, têm forçosamente que ser ridículos como uma carta de amor.
O actual governo constitucional, como os outros todos que o procederam, não foge à regra esmagadora da estupidez e da ignomínia históricas e multiplica-se em incompetências, numa sequência explosiva de dislates e disparates, numa roda viva de cobardias e equívocos, numa procissão de hesitações e mãos-na-cabeça, num festival de pânico, numa exibição constrangedora da mais absoluta impreparação, da mais escandalosa incapacidade que podemos conceber num dado momento (a não ser, claro, que recordemos outro qualquer momento do género, interpretado por outro qualquer governo constitucional).
Afinal, Portugal é o contrário do que deve ser um país e o engenheiro que arranjou maneira da bandeira ser içada de pernas para o ar sabia bem o que estava a fazer e fez ele muito bem. Palmas para o engenheiro! O engenheiro que arranjou esta maneira gráfica e genial de dizer que Portugal é o contrário do que deve ser um país, de dizer que Portugal é um território ocupado pelo inimigo, é o herói do Dia do Raio X!
Devo confessar porém que tudo isto começa a cansar-me até à flor da inconsciência e este dia eterno de 5 de Outubro de 2012 foi ensandecedor por demais.
E acabo no princípio, mas ao contrário: deuses os lixam me porque?