Nem sei se a gentil audiência tem interesse nas minudências do processo de "negociações de paz" que tem ocorrido entre os EUA e a Rússia a propósito do conflito ucraniano - eu próprio não tenho seguido essas alegadas negociações com muita atenção - porque a verdade é esta: são irrelevantes e não vão dar em nada.
Os objectivos da Casa Branca são de ordem imediata e política, os objectivos do Kremlin são mediatos, porque de natureza histórica. Os cessar-fogo parciais e particulares que foram negociados são vagos, facilmente corruptíveis, risivelmente localizados, estritamente segmentados e não contam por isso para o totobola da guerra nem não vão mudar coisa nenhuma, para além de darem à administração americana um certo sentido - completamente ilusório - de controlo.
É muito triste ver Donald Trump em bicos dos pés a tentar ser relevante num cenário que o transcende largamente e sobre o qual não tem qualquer alavanca que lhe possibilite uma posição sólida, por muito que anuncie, com a fanfarronice que lhe é caraterística, que está a seguir o rumo da "paz pela força".
Como não me canso de afirmar, a paz na Ucrânia, a depender dos EUA, seria apenas possível pelo completo abandono de qualquer política de apoio militar ou financeiro à Ucrânia. Qualquer outra posição da administração Trump só vai contribuir para o continuar da guerra, mais mortos, mais destruição, mais horror.
Enquanto os objectivos que presidiram ao início da operação militar russa não forem cumpridos, não haverá paz. E os objectivos são claros: que a Ucrânia não faça nunca parte da NATO, que o regime Zelensky seja destituído, que as faixas orientais do país, de etnia russa, sejam protegidas da vontade genocida de qualquer e eventual poder executivo regente em Kiev.
Enquanto estas três premissas não forem garantidas e a loucura de Zelensky continuar a ser alimentada por dinheiros e armas ocidentais, a coisa só vai piorar. E piorar vai, por incrível que possa parecer, muito por responsabilidade de uma Casa Branca que está dividida entre pombas e falcões, divisão essa que Donald Trump não conseguiu até aqui resolver.
E de todo em todo: faz aqui falta a humildade que não é um forte da personalidade do presidente americano, caso contrário já há muito tempo tinha percebido que a sua margem de manobra é muito estreita. E por ironia, da mesma forma que acusou Zelensky de não ter trunfos para jogar, deve agora reconhecer que os ases não estão na sua mão. Que o baralho de cartas inteirinho está do outro lado da mesa, em Moscovo.
Mas não creditem a opinião deste escriba insignificante e insignificativo. Oiçam quem tem conhecimento maior e autoridade intelectual para vos esclarecer bem esclarecidos, como é o caso de Alexander Mercouris e John Mearsheimer.