terça-feira, dezembro 18, 2018

Cântico de Natal #03

A banda sonora deste Natal é interpretada, quase a solo, pelos Young the Giant. Eis outro tema do último disco, "Mirror Master". Na verdade, qualquer das 12 músicas deste álbum podiam entrar na playlist do Blogville, sem problemas. Estou só a colocar os temas que têm clip...



Young The Giant . Call Me Back

segunda-feira, dezembro 17, 2018

Postal de Natal #02


Adão e Eva são produtos de directo fabrico divino e, assim, não biológico. No sentido técnico, que não é dispiciendo, não são mamíferos. São uma espécie de autómatos sem consciência de si, até que cedem à tentação de provar dos frutos da Árvore do Conhecimento, e por esse atrevimento serão condenados a uma árdua existência. A raça humana na verdade inicia-se apenas com a prole deste infeliz casal e sendo que o primogénito é Caim, assassino rematado do seu irmão Abel, ficamos avisados acerca da orgia sanguinolenta que vai manchar a narrativa daqui para a frente. Ficamos esclarecidos sobre o potencial de vilania que existe em cada um de nós. Mas também sobre os limites da justiça: Deus mostra-se severo para com Caim depois de saber do seu bárbaro cometimento. Mas, naquele que é o primeiro acto de corrupção judicial da história da humanidade, ameaça com violências septuplicadas qualquer tentativa de aplicação de castigo proporcional sobre o seu infame neto. E é por isso que a razão divina não deve nunca ser uma fonte do  Direito.




O Livro de Job é um dos mais discutidos e surpreendentes textos do Antigo Testamento. Transformado em mercadoria de casino por uma estranha aposta entre Deus e o Diabo e enclausurado numa tenebrosa galeria de horrores, Job, o mais fiel dos crentes, o mais justo dos homens, o mais próspero e amado senhor do oriente, vê num só dia o seu património aniquilado, o seu gado sacrificado, os seus servos exterminados e toda a sua prole extinta. Leproso, abandonado pela mulher, vilipendiado pelos irmãos e traído pelos amigos, o desgraçado arrasta-se em agonia por uma desventura que, de tão cruel e imerecida, pertence ao domínio do surreal. Job mortifica-se e pergunta-se pelos males que possa ter cometido para ser sujeito a semelhante conjunto de cataclismos. Mas é a sua resiliência, a sua resignação a um destino cujas leis não domina, que impressionam e que acabam por salvá-lo. No fim da história, Deus ganha a aposta que fez na fidelidade de Job e compensa-o finalmente, com redobrado património, dez filhos e a redenção social. O que foi entretanto sacrificado, em vidas e bens, passa a nota de rodapé e o herói nunca chega a perceber porque raio foi atingido por semelhante vendaval ontológico. Deve permanecer insondável o mistério do sofrimento.

domingo, dezembro 16, 2018

Em família.

Quando amas uma tribo de pessoas durante 30 anos, será sempre demasiado tarde para que esse amor se desvaneça, para que as pessoas se esqueçam. Para que a tribo sucumba.

Estes meus amigos são uma boa definição de família. Correm no meu sangue, circulam neurologicamente pelo meu pensamento; são a minha memória, com pernas; são a minha escassa sabedoria, com abraços. Fecham e abrem o círculo da minha existência.

Não interessa realmente se estamos juntos uma vez por semana ou duas vezes por milénio. Estamos sempre juntos. Somos todos da mesma tribo iniciática. Partilhamos todos desta mesma emoção.

Estes meus amigos, bons e sãos, sérios e loucos, generosos como o raio e leais até ao fim; que me fazem rir e chorar com a mesma virtude de gurus; deixam-me grato com a vida.


Estar entre eles é estar vivo. Fazer parte. Dar significado ao destino.


Postal de Natal #01



Mais que um livro, a Bíblia é uma enciclopédia. Encerra centenas de narrativas, milhares de personagens, provérbios e profecias, cataclismos e calamidades, poemas eróticos e épicos, parábolas e epístolas de toda a ordem. Curiosamente, as escrituras não desenvolvem assinalável filosofia sobre o prazer, a alegria ou a felicidade. O objectivo é que aprendas, pelo contrário, a viver com as mais que certas e muitas vezes terríveis dores da existência; com as injustiças, os mistérios e as angústias que, na clara convicção dos redactores dos livros sagrados, constituem a grande constante do universo. E é nessa convicção que reside a pertinência da Bíblia: mesmo que não acredites em Deus tens aqui um excelente manual de normas para sobreviveres a um cosmos difícil, cuja natureza ameaça o teu frágil balanço emocional e transcende largamente a tua capacidade cognitiva.

sexta-feira, dezembro 14, 2018

Lindo porquinho.


O meu cão velho e surdo e esperto como o raio para aquilo que lhe interessa e palhacinho e meigo como ninguém e alegre e feliz no seu reumático; o meu cão feiticeiro branco, eterno Gandalf; o meu cão mimado e adorado por mim e por toda a gente; amigável, simpático, ferrugento: é o mais inocente dos podengos, é o mais natalício dos porquinhos.

Foto: Susana Baptista

Cântico de Natal #02

Mais uma banda amiga do Blogville, com um novo disquinho maravilhoso, que não consigo parar de ouvir. Esta música aqui é uma espécie de jingle bells, para quem gosta de pop alternativo. Ainda por cima refere-se à capacidade ubíqua das sub-partículas atómicas. Eu tinha que amar isto.



I don't believe in faith
No psychic vision
But when things fall into place
Superposition

In any universe
You are my dark star

I want you 

To want me
Why don't we rely on chemistry
Why don't we collide the spaces 

that divide us
I want you 

To want me

Superstition aims
With imprecision
But when things can't be explained
Superposition

Oh, oh
In any universe
You are my dark star

I want you
To want me
Why don't we rely on chemistry
Why don't we collide the spaces 

that divide us
I want you
To want me
I want you
To want me

No matter what we do
I'll be there with you

I want you
To want me
Why don't we rely on chemistry
Why don't we collide the spaces 

that divide us
I want you
To want me 


Young the Giant . Superposition

quinta-feira, dezembro 13, 2018

Pela estrada fora #14





Um carro eléctrico, um carro autónomo, um carro de que não sou proprietário (três populares teorias sobre aquilo que vai ser o automóvel do futuro), não tem cavalos, não tem combustão, não tem poder, não tem liberdade para me fazer sair de casa.

quarta-feira, dezembro 12, 2018

Cântico de Natal #01



Orthodox Christian Chant "In the Dark Night" about the Birth of Lord Jesus Christ, by the Monks of Svetogorskaya Lavra in Ukraine.

Guerra ao Natal.


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Entre a comicidade e o dramatismo, sucedem-se todos os anos e com uma intensidade exponencial, os episódios de combate às tradições do Natal. Os presépios passam a manifestações da arte popular ou desaparecem por completo, as árvores de natal são árvores das festividades (de Christmas tree para Hollidays Tree), os cânticos religiosos são substituídos por corais seculares, os jingles natalícios são censurados, proibidos ou reescritos e a mais pequena referência ao verdadeiro e original evento que o Natal celebra - o nascimento de Jesus Cristo - é inapropriada e pressurosamente afastada, vilipendiada, esquecida.

Há exemplos vindos de todo o lado, a toda a hora, mas o que mais diverte e assusta ao mesmo tempo é o da directora do liceu público de Elkhorn, no Nebraska. Verdadeira missionária do fascismo anti-cristão que é o novo normal do Ocidente, Jennifer Sinclair enviou um memorando a todos os funcionários da escola com uma lista de práticas natalícias aceitáveis e inaceitáveis.

Entre as aceitáveis estão actividades que se relacionam com pinguins, bonecos de gengibre, bonecos de neve, chocolate quente, festejos multiculturais e prendas, entre outras deste nível de ridículo, que a professora considera apropriadas. É de notar que algumas têm fundamento pagão (os bonecos de gengibre, por exemplo), portanto religioso, mas desde que não sejam cristãos, servem.

Na lista das práticas inaceitáveis, encontramos a realização de materiais artísticos ou comunicacionais com pais natal, árvores de natal, elfos ou renas; a difusão ou interpretação de cânticos e músicas de Natal; a presença de árvores de Natal nas salas de aula; a oferta de livros com histórias de Natal, a exibição de filmes baseados na época festiva, o consumo de barras de rebuçado em forma de J (candy canes) e, cereja em cima do bolo, a utilização das cores vermelha e verde (!).

Se não acreditas em mim, caríssimo audiente, o pdf original que a senhora Sinclair enviou está aqui para download.

Não consigo perceber como é que chegámos a este ponto, sinceramente. Não consigo perceber como uma civilização que encontra os seus fundamentos na tradição judaico-cristã, uma civilização que, muito graças a esses fundamentos, é a mais bem sucedida da história da humanidade, a que mais facil e recorrentemente consegue garantir progresso, prosperidade, segurança, liberdade e justiça aos seus cidadãos, a que primeiro aboliu a escravatura e separou o estado da igreja, a que inventou e propagou o Direito e a norma constitucional, a que fundou cânones de referência para as artes plásticas, a literatura, a música; não consigo perceber como é que esta civilização se suicida todos os dias, assim, parvamente.

Esta gente ignorante que quer substituir S. Nicolau por um boneco de neve e Jesus por um pinguim, pretende obter, na redução da narrativa cristã ao zero absoluto, exactamente o quê? O inferno de viver sem valores. Porque é no inferno que está a última revolução de todas, a que vai transformar o mundo num imenso, num eterno, programa quinquenal estalinista.

Guerra à verdade.


Sobre a infame tradição da figurinha do ano, teimosamente perpetrada pela revista Time, já aqui protestei bastante. Volto a repetir uma frase desse post de 2015:

Na medida em que já elegeram gente tão ilustre como Chiang Kai-Chek (1937), Adolf Hitler (1938), Joseph Estaline (por duas vezes: 1939 e 1942), o Rei Faisal (1974, em plena crise energética) e Hayatolla Khomeini (1979), seria de esperar que mais tarde ou mais cedo achassem por bem terminar com esta actividade de mau gosto. Mas não. Persistem.

A eleição deste ano não fugiu à desastrosa regra. A capa de Dezembro celebra pomposamente um grupo muito discutível de jornalistas, com o lead "The Guardians and the War on Truth". Para além de ser deveras questionável a virtude de um grupo de jornalistas eleger outro grupo de jornalistas; para além do jornalismo que a Time defende ser precisamente o primeiro inimigo da verdade, como é óbvio para milhões e milhões de pessoas que deixaram entretanto de ler - e de comprar - este género de literatura doutrinária sem qualquer ligação à realidade (o que matou a imprensa escrita, não foi a internet, foi a ideologia); para além da péssima qualidade gráfica - e fotográfica - das 4 capas, há que esclarecer os meus escassos e pacientes leitores sobre o perfil de Jamal Khashoggi, o mais recente mártir do circo mediático internacional e um dos eleitos da Time.

Para começar, Jamal Khashoggi não é bem um jornalista, pelo menos não no sentido ocidental do termo. Entre as diversas actividades profissionais que desenvolvia, encontram-se as de diplomata, espião, spin doctor, lobista e consultor da família real saudita, que em outubro o torturou até à morte (aparentemente Jamal trabalhava para a família certa, mas para o irmão errado). O fantástico CV deste novo herói da imprensa está documentado, é do domínio público para quem quiser fazer uma breve pesquisa na web e está bem sintetizado aqui. Torna-se evidente que o jornalismo do falecido saudita surgia mais como uma ferramenta de reforço da sua performance multi-disciplinar, do que o inverso.

Neto do médico do primeiro rei da actual dinastia saudita, sobrinho de um riquíssimo e notabilíssimo traficante de armas e primo de Fayed, o célebre amante de Diana Spencer; membro da Irmandade Muçulmana, organização radical islâmica que luta pela institucionalização da lei da Sharia e que financia o Hamas, entre outras simpáticas agremiações terroristas; velho amigo de Osama Bin Laden, que entrevistou várias vezes, com quem viajou e a quem serviu de pombo-correio; zeloso defensor dos interesses do regime aristocrático de base medieval, constituído oligarquicamente por facínoras multi-milionários, e do consequente estado totalitário e, para todos os efeitos civilizacionais, bárbaro, que se instalou na Arábia Saudita desde que em 1927 os ingleses concederam a independência do território peninsular a Abdul Aziz; Khashoggi é um personagem complexo e pouco recomendável. Não merecia a horrível morte a que foi sujeito, claro, ninguém merece, mas está a milhões de anos luz de poder ser vendido como um guardião na luta pela verdade.

A verdade não é para aqui chamada, claro. Isto é apenas política. E baixa política.

Da correcção ao desemprego.

Comentário deixado no Observador, na peça sobre o perfil do terrorista de Estrasburgo:

Esta notícia foi escrita com tanto cuidado, com tanta correcção política, que mete nojo. O terrorista foi "alegadamente" radicalizado, mas os seus motivos podem ser outros completamente diferentes, claro (se calhar foi recrutado pelos coletes amarelos, esses malandros). Nem por uma vez se usa a palavra "muçulmano" e o islão é mencionado apenas a propósito do Estado Islâmico (deve ter custado horrores ao jornalista ter relacionado o "alegado" radical a esta organização) e somente no último parágrafo da peça, porque Alá é grande. Enquanto alguns colunistas do Observador ainda vão tentando convencer a audiência de que este é um jornal ideologicamente desalinhado com a maioria dos media, a redacção já não tenta enganar ninguém: é a cartilha do costume. O problema é que a cartilha do costume está a levar rapidamente os jornais à irrelevância. E os jornalistas ao desemprego. É que o Deus cristão também é grande. E não dorme.

segunda-feira, dezembro 10, 2018

Isto não é bem aquilo que os americanos consideram futebol.

Isto é uma espécie de manifestação religiosa. Um milagre em Miami. A sete segundos do fim do encontro, a perderem por cinco pontos e com um down a 70 jardas da end zone dos New England Patriots, os Dolphins decidem improvisar e conseguem o inconseguível. O que se mostra a seguir é mesmo muito raro, na NFL.

Pela estrada fora #13





A estrada acaba no penhasco sagrado da Costa de Prata: a Nazaré de um lado, a Praia do Norte do outro e o Canhão em frente. O Atlântico, brutal, lava-me a alma.

sábado, dezembro 08, 2018

Numa simples canção, os fundamentos da música pop.

A solo ou na bom companhia de Alex Turner, nos The Last Shadow Puppets, Miles Kane é um rocker poderoso e inspirado. O último disco, Coup De Grace, não desilude. E esta canção aqui tem poder encantatório que nunca mais acaba. Ando a cantarolá-la há uma semana.



Ghost eyes fall upon my baby doll
Ghost eyes love to watch me too
Ghost eyes don't say much but they see it all, yeah
 
Ghost eyes sleep beside my baby doll
All night when I'm in bed with you
Sunrise never sets on baby doll
Her ghost tears, some call it rain
Well I'm crying for just one name
 
I made it up in a dream I had
My French is bad, some say, "Je t'aime beaucoup"
I say, my darling, "Shavambacu"
 
I can't stand to see another day
I'm not in L.A. to have my way with you
My little darling shavambacu, oh honey I love you
 
Her ghost eyes float around my empty room
Do your eyes, but I can't tell it's you
Where I try, but I can't see for baby doll
Her ghost tears, some call it rain
Well I'm crying for just one name
 
I made it up in a dream I had
My French is bad, some say, "Je t'aime beaucoup"
I say, my darling, "Shavambacu"
 
I can't stand to see another day
I'm not in L.A. to have my way with you
My little darling shavambacu, oh honey I love you
 
Miles Kane . Shavambacu

quinta-feira, dezembro 06, 2018

Uma elegia como deve ser.

"The idea is to die young, as late as possible." 
George H. W. Bush

George W. Bush honrou o seu pai com belas e sentidas palavras, no funeral de estado de ontem, que decorreu na Catedral de Washington. Vale a pena ouvi-las.


O elfo de Lisboa.



Já há muito, mas mesmo muito tempo que não via um spot tão bem feitinho como este aqui. E acho que nunca na vida tinha visto uma campanha decente do Corte Inglés. Há de facto uma primeira vez para tudo. A agência Sra. Rushmore está completamente de parabéns. O filme é enternecedor, está bem carregado do espírito natalício, tem um jingle de antologia - que fica no ouvido sem ser facilitista - e funciona esplendidamente para os dois públicos (clientes e colaboradores). Cinco estrelas.

terça-feira, dezembro 04, 2018

Frase bombástica do mês:

"Um colapso do 'macronismo' dificilmente significaria o regresso ao anterior sistema partidário. Comecem, à cautela, a imaginar o inimaginável."

Rui Ramos . Três erros sobre a França dos coletes amarelos . Observador

Pela Estrada Fora #12

Enquanto a gasolina não for um produto de luxo, acessível apenas aos ambientalistas que se transportam em jactos privados, continuarei a fazer a estrada pela estrada.







sábado, dezembro 01, 2018

O último dos estadistas.

"We know what works: Freedom works. We know what’s right: Freedom is right. We know how to secure a more just and prosperous life for man on Earth: through free markets, free speech, free elections and the exercise of free will unhampered by the state."

George H. W. Bush . 1924 - 2018

quarta-feira, novembro 28, 2018

Matéria e consciência: a hipótese animista.



A Teoria da Emergência, de que já aqui falei, tem um grande aliado na escola do Pan-Psiquismo. Nesta surpreendente e interessantíssima palestra, o biólogo Rupert Sheldrake argumenta que o sol, como a galáxia, como o universo e como todos os sistemas que se auto-organizam, é uma entidade consciente. A tese, que integra correntes filosóficas que vão da Escola de Atenas ao naturalismo de Leibniz, dos animistas à ontologia processual de Whitehead, oferece soluções sólidas para muitos problemas das neurociências e da física contemporânea, inclusivamente o da matéria negra e da energia negra, que deixam de ser necessárias à orgânica do cosmos, bem como o da localização da memória no cérebro humano, um assunto que permanece em aberto e que Sheldrake procura resolver de uma forma muito elegante com a sua célebre Conjectura da Ressonância Mórfica.
Para além das questões científicas, o argumento que o biólogo inglês defende neste vídeo dá resposta a dores filosóficas que sempre nos atormentaram, como aquela que se estabelece sobre o significado da vida humana e a mistérios teológicos como a mecânica da omnisciência divina, sobre a qual apenas Newton teve a ousadia de especular.
A ideia do universo como um processo ondulatório, não materialista, de ganho de consciência é aqui articulada de uma forma particularmente sedutora. E dá que pensar. Dá muito que pensar.

Dos coletes amarelos à polícia do pensamento: uma elegia da Civilização Ocidental.


O movimento "Gilets Jaunes" é um dos mais sintomáticos fenómenos dos dias que correm. Enquanto as elites bem pensantes insistem nos fascismos culturais, linguísticos e ambientais - vendendo-os ainda por cima como valores virtuosos, auto-evidentes e por isso sem necessidade de discussão ou liberdade de contraditório - há cada vez mais gente que se revolta. A gente do meio. Aquele tipo de gente que não encontramos geralmente em manifestações e que não tem o glorificado hobby da cidadania e que costuma deixar a ciência política ao cuidado da inteligência dos comentadores de futebol. Esta estranha rebelião tem-se manifestado sobretudo através do voto, como aconteceu nos Estados Unidos com Trump, em Inglaterra com o Brexit, em Itália com Salvini e no Brasil com Bolsonaro, mas também chega às ruas, como agora acontece em França.

Assistimos na última década, na Europa e nos Estados Unidos, a uma divergência evidente entre as elites e as massas e esta divergência abre-se sobre vertentes civilizacionais de largo espectro como a imigração, a natureza jurídica das fronteiras e o conceito das nações; a identidade e a história dos povos; as virtudes da liberdade de expressão e os seus limites; a identidade étnica e rácica e o decorrente conflito com uma ideia de meritocracia; a sexualidade e as suas implicações nas dinâmicas sociais, no direito e na filologia. Há na verdade, nas sociedades ocidentais contemporâneas, um debate existencial, intrincado e barricado, entre as classes que medeiam e as classe que mandam.

De tal forma é vibrante e esquizofrénico este conflito, que até os polos ideológicos trocaram de lugar.  Hoje, é a direita que se manifesta contra os totalitarismos das classes dirigentes. É a direita que luta pela liberdade de expressão. Bem sei que o que vou escrever a seguir é do domínio do irreal, mas a verdade é esta: actualmente, a esquerda ocidental mantém muito melhores relações com o mundo empresarial e com as elites da esfera privada do que a direita. E tem mais facilidade em captar o dinheiro corporativo. Por outro lado, a direita apela agora muito mais aos segmentos sociais economicamente desfavorecidos. Os operários, os pequenos agricultores, as famílias de classe média e média-baixa, os desempregados. Este é o eleitorado típico da família Le Pen, só para citar um caso extremo, mas há mais: nas últimas midterm elections, 73 dos 100 mais ricos círculos eleitorais do congresso americano elegeram candidatos do Partido Democrata.

Uma das consequências mais nítidas desta rotação epistemológica de grande impacto é o monopólio da opinião. Enquanto a esquerda foi a frente rebelde contra o capitalismo e o mainstream industrial, constituía uma força de equilíbrio que contrariava naturais instintos humanos como a ganância, a corrupção, a insensibilidade perante o sofrimento alheio, etc. Esta posição justificava até, embora discutivelmente, a sobranceria moral que sempre presidiu à fundação das esquerdas.
Mas a partir do momento que entrou em alinhamento com as grandes estruturas do capitalismo, canonizando a globalização dos mercados, retirando à riqueza o seu cunho de pecado, alienando necessariamente a causa dos "trabalhadores" e capitalizando nas cruzadas das minorias e das políticas de identidade, a esquerda tornou-se rapidamente uma força reaccionária, na medida em que domina os media e os aparelhos do poder, sem ter perdido a arrogância ética. Vivemos hoje tempos extremamente perigosos, em que máquinas globais de esmagador poder propagandista, como a Google ou a CNN, funcionam livremente como polícias do pensamento e censores do discurso.

Ora, o que se passou no fim de semana passado em Paris é de difícil processamento para estas organizações de controlo da opinião, habituadas a ver na rua as suas vítimas eleitas (ambientalistas, chegevaristas, femininistas, independentistas, igualitaristas, marxistas, lgbtês e outros artistas do circo mediático ortodoxo) e não a tal resignada maioria silenciosa que, progressivamente, está a ter a deplorável ousadia de contrariar a resignação e quebrar o silêncio. Os motivos desta gente não são os do costume ou os da moda. Não protestam por causa do aquecimento global, nem montam barricadas nos Campos Elísios em defesa dos direitos dos homossexuais, nem levam porrada da polícia por horror da xenofobia. Ou melhor: se os franceses vieram para a rua gritar é precisamente porque estão fartinhos de viver numa república que se preocupa mais com as minorias do que com a classe média, que proteje as indústrias sexy dos Musks de todo o mundo e ignora os proletários de toda a França, que investe nas casas de banho para travestis e desinveste no combabe ao crime urbano, que é ávida a taxar e avarenta a servir quem é taxado. É claro que as redacções do Le Monde ou do New York Times não sabem bem o que fazer com esta matéria. Inimigos históricos das polícias de choque (pelo menos das polícias de choque ocidentais), não podem agora abençoar as cargas sobre civis. Indefectíveis defensores dos arruaceiros das causas fracturantes da esquerda, não têm desta feita grande margem de manobra para condenar a praxis vandalizante. Estes Coletes Amarelos são um embaraço enorme. Mas também e principalmente, um símbolo vivo do caos instalado.

O caso é que andamos todos com as voltas trocadas, nesta segunda década do vigésimo primeiro século depois de Cristo. Confortavelmente instalados nos sofás de um inédito conforto material e de um longo e raro período de paz, estamos, no Ocidente, a perder rapidamente a lucidez e a coragem dos nossos avós. A civilização que construímos, com o esforço épico e o sanguinolento sacrifício de centenas de gerações, cai com velocidade vertiginosa e ruidoso espalhafato num trágico-cómico poço sem fundo. E parece-me já demasiado tarde para que o cataclismo possa ser evitado. Voltemos ao caso francês: se é mais que nítido que Macron tem o futuro político definitivamente comprometido, a sua principal herança - ironia dos deuses da república - poderá muito bem ser a de abrir as portas do poder executivo, finalmente, à senhora Le Pen. E esta é a tragédia: também não vai ser esta senhora a salvar a França.

Até porque essa França que merece o combate pela salvação, aqui entre nós gentil leitor, já não existe para ser salva.


sábado, novembro 24, 2018

Da Poesia chinesa: Li Bai a sós com a montanha.

Sobre o inumerável, monstruoso e monumental corpo da poesia chinesa, já aqui foram postadas algumas pequenas coisas e hei-de, talvez, na reforma dos meus dias, escrever sobre o assunto mais aprofundadas linhas, sempre insignificantes, sempre necessárias para mim.
Por enquanto, tudo o que consigo produzir é uma pobre versão muito livre e muito minha de uma pérola do mestre Li Bai.

Caracteres originais e tradução literal:


独坐敬亭山     Sentado sozinho na montanha Jingting
众鸟高飞尽     As aves voam alto
孤云独去闲。 Nuvem solitária sozinho
相看两不厌, Não me importa o olhar de um para o outro
只有敬亭山。 Apenas a montanha Jingting


Versão Blogville:

Sento-me a sós contigo, Jingting.
Do céu passaram os pássaros já
E a única nuvem voou também.
Não me canso de te olhar e só há
uma montanha que me olha, Jingtin.

Primeiro o poema. Depois tudo o resto.



You always sleep with your clothes at the foot of the bed
Waiting for someone to wake you back up then you're gone again
Always knew you were a runner but I never thought you'd run

Run right back out to the street to yell
I don't know why I'm so angry but I'll try not to be
Catching a cab in the cold with you thinking I musta' gotten lazy
Me and this whole God damn city
Ain't that the way it always goes?
You hate what you love when it loves you the most

You always told me that someday you'd tear me apart
I didn't think I believed you, well I guess that I did
Always knew you were a winner but I never thought you'd win
Didn't even know we were playing

So run right back out to the street to yell
I don't know why I'm so angry but I'll try not to be
Catching a cab in the cold with you thinking I musta gotten lazy
Me and this whole God damn city
Ain't that the way it always goes?
You hate what you love when it loves you the most
Ain't that the way it always goes?
You hate what you love if it loved you first 


For Love . Boniface

Todas as grandes bandas fracassam.

Não gosto do último disco de uma banda que adoro: The Pineapple Thief. Mas como adoro esta banda e porque lhes desculpo completamente este último conjunto inferior de canções ("Dissolution"), aqui fica uma coisa magnífica, em formato acústico e só com a interpretação do insubstituível Bruce Soord, que se refere à penúltima Obra ao Branco que gravaram ("Rock") e que eu, na minha modestíssima opinião, considero como sagrada:



The Pineapple Thief . Tear You Up


Uma curiosidade: as colunas monitoras que Bruce tem no estúdio, e que são visíveis neste clip, são de uma marca que também é sagrada para mim: KEF. Tenho um par delas que me servem maravilhosamente há cerca de trinta anos.

quarta-feira, novembro 21, 2018

Nova SBE: um campus que é uma obra prima.

Como já aqui escrevi, a propósito da palestra de Jordan B. Peterson, fiquei agradavelmente surpreendido com a o projecto arquitectónico da Nova School of Business & Economics, um campus qualificadíssimo em Carcavelos. Vitor Carvalho Araújo Arquitectos, Tetractys Arquitectos, Global Arquitectura e GRID Consultas são as empresas que estão por trás do projecto e estão completamente de parabéns.
Ficam aqui umas quantas fotos, que na verdade não fazem justiça ao espaço, mas servem para dar uma ideia.
Nesta faculdade, ninguém tem desculpa para ser mau aluno.










terça-feira, novembro 20, 2018

Quando o espectáculo considera o espectador.

Ontem, no LA Memorial Coliseum, aconteceu aquele que foi, muito provavelmente, o melhor jogo de sempre, em época regular, da NFL.
Numa partida electrizante, Os LA Rams bateram os Kansas Chiefs pelo resultado insano de 54 - 51. Nunca num jogo da NFL duas equipas tinham marcado mais de 50 pontos e este é o terceiro mais volumoso resultado de sempre. Mas, para além dos números, a estonteante intensidade do jogo, bem como a incerteza do resultado, que só foi resolvido a um minuto do fim, contribuíram deveras para três horas de inigualável entretenimento.
No resumo que aqui deixo dá para perceber bem o vendaval atacante que assolou as 100 jardas do Memorial Coliseum. Há touchdowns de todas as maneiras e feitios, intercepções para todos os gostos e até um defesa como o linebacker Samson Ebukam, que pesa uns bons 111 quilos, foi capaz de dois touchdowns. Deu para tudo e deu para todos e, principalmente, deu para os espectadores. É que, ao contrário do que pensam os dirigentes e os adeptos de futebol, esse é que deve ser o primeiro objectivo de um espectáculo desportivo: divertir quem o vê.

sábado, novembro 17, 2018

Melodiosos e tontos.

Se fosse mais pateta, o clip seguinte rebentava. Porém, estes Future Generations fazem até um pop bastante aceitável, descomprometido e despretensioso, amigo do ouvido mas sem cair na tentação facilitista das bandas sonoras para bombas de gasolina. Não está nada mal.



Future Generations . Landscape

Parágrafo do mês.

"O futebol não é isto, diz-se. Então é o quê? Parece que, descontados os dirigentes, as “claques”, os comentadores, os empresários, as “estruturas”, o sr. Bruno de Carvalho, a “clubite”, a Liga daquilo, a Federação daqueloutro, a delinquência, a corrupção, as arbitragens, os “e-mails”, o fanatismo, a tutela, a cobiça, os canais generalistas e especializados, o sr. “Mustafá”, a violência, as trafulhices, o ódio, os pontapés na gramática e os casos judiciais, o futebol é uma coisa linda.
Eis a questão: será assim tão linda que justifique sofrermos as calamidades acima? E eis a resposta: não, evidentemente que não."

Alberto Gonçalves . Ópios do povo . Observador

Absolutamente belo.

O canhão da Nazaré é uma fonte inesgotável de belíssimas imagens. Esta sequência aérea, captada pela produtora Máquina Voadora, de uma onda gigante surfada por Sebastian Steudtner, é verdadeiramente espantosa.

sexta-feira, novembro 16, 2018

Jordan Peterson ao vivo ou a teatralidade da filosofia contemporânea.


Jordan B. Peterson, a estrela rock do panorama filosófico actual, esteve ontem a fazer aquilo que mais gosta - falar pelos cotovelos - na Nova School of Business & Economics, em Carcavelos. Com alguma sorte, consegui um bilhete e fui lá ouvir o homem e o homem, tanto como o evento, bem merecem umas linhas aqui no blog.

A primeira sensação que me fez cair o queixo, logo que cheguei, foi a criada pela magnificência arquitectónica desta escola, de cuja simples existência era desconhecedor. A Nova School of Business & Economics é uma espécie de campus paradisíaco, estendido junto ao mar sobre um perímetro imenso, com amplas estruturas exteriores e interiores. Deve ser mesmo fantástico estudar aqui, isso é certo. Num post futuro hei-de deixar algumas fotos que tirei da estrutura, que não deve ter paralelo em Portugal.


Os organizadores do evento (a faculdade e a editora do livro de Peterson em Portugal - a Lua de Papel) não acreditaram, nitidamente, que o psicólogo canadiano tivesse a popularidade em Portugal que tem no resto do universo ocidental e reservaram para o efeito um pequeno auditório. Rapidamente se aperceberam que estavam equivocados e a massiva procura de bilhetes obrigou-os a utilizar o main hall da escola, que é um espaço lindíssimo e consideravelmente amplo. Estava, claro, repleto. Tanto o reitor Daniel Traça, como o presidente do conselho científico da Nova SBE, Miguel Pina e Cunha, como o meu amigo de faculdade José Pratas, que representava a editora, manifestaram nas suas sucintas alocuções introdutórias algum espanto por tanta gente estar interessada em ouvir, durante duas horas, não um futebolista, não um político, não uma estrela de rock, não um socialite, mas um filósofo extremamente tagarela, que discursa sobre assuntos tão densos como o comportamento social das lagostas ou a natureza do bem e do mal na psiquiatria de Carl Jung. Miguel Pina Moura fez notar que a lotação atingiria ainda assim o seu limite mesmo que existissem o dobro dos lugares (eu calculo por alto que estavam cerca de 800 pessoas ontem na Nova SBE).


Acontece que Jordan B. Peterson é popular precisamente por ser denso. Precisamente por conseguir discorrer, com fluência e brilhantismo e sem qualquer cábula, duas e três horas seguidas sobre assuntos complexos e intrincáveis, que ele transforma em mensagens inteligíveis, coerentes entre si e extremamente poderosas junto dos muitos milhões de pessoas que estão cansadas das "verdades" vazias, simplórias e ideologicamente carregadas dos media convencionais. Falando sobretudo contra o vácuo moral do pós-modernismo e a falsa e inócua promessa da felicidade sem sacrifício, da igualdade sem responsabilidade e da ideologia sem ciência, a cruzada do autor canadiano trava-se pelo regresso dos valores fundamentais do Ocidente e pela importância de encontrar significado para a existência.
Imperativos categóricos típicos de Peterson, como aquele que aconselha as pessoas a levantarem a cabeça e endireitarem as costas ou a arrumarem o seu quarto antes de protestarem com a sociedade, podem parecer, à partida, primários, mas ressoam no imaginário de milhões de pessoas, principalmente dos jovens, como uma bomba atómica de razão pura.



12 Rules For Life já foi traduzido em mais de 40 línguas, tendo chegado a número um de vendas na Austrália, no Brasil, no Canadá, nos Estados Unidos, na Holanda, no Reino Unido, na Nova Zelândia e na Suécia.
Até o New York Times, ao mesmo tempo que omite escandalosamente a obra na sua famosa lista de livros mais vendidos, é obrigado a considerar que este é "o mais influente pensador do mundo ocidental".
O canal de Peterson no Youtube soma mais de 150 milhões de visualizações e 1,3 milhões de subscritores. A sua conta de Twiter tem "apenas" 300 mil seguidores. Através da Patreon, uma start-up online que angaria fundos para uma diversidade enorme de projectos, Peterson garante que 9500 admiradores financiem a sua frenética actividade com cerca de um milhão de dólares por ano.

Não admira, por isso, que também em Portugal o autor seja admirado e seguido por milhares de pessoas. Apesar de não ter praticamente nenhuma presença nos canais mediáticos convencionais (com excepção do Observador, que tem mais recentemente tentado seguir o fenómeno e que ainda hoje publica uma entrevista com ele).


Devo fazer notar que o evento de ontem decorreu sem perturbações nem aparato de forças de segurança, o que é muito raro na vida pública de Jordan Peterson. Em sua grande parte, as palestras de professor da Universidade de Toronto são acompanhas por um insuportável ruído de fundo: radicais de esquerda manifestam-se frequentemente à entrada e no interior dos recintos, interrompendo as palestras ou vandalizando as áreas circundantes ou criando mil maneiras de ensurdecer as pessoas que querem ouvir o que o canadiano tem para dizer. Ainda recentemente, na civilizadíssima Queens University, Peterson viu-se obrigado a articular o seu pensamento ao som de impropérios vindos do exterior e murros nas janelas da venerável sala da reitoria.



Muitas vezes, o bom do professor tem que ser escoltado pela polícia do hotel para a sala da conferência e vice versa. Acusado de ser nazi, fascista, machista, racista e retrógrado; vilipendiado e agredido de todas as maneiras e feitios pelas turbas de controlo ideológico na rua e nos estúdios das televisões e nas redacções dos jornais e nos fóruns das universidades, Peterson insiste, ironicamente, numa mensagem literalmente platónica que é tudo menos belicista: trata-te como tratas as pessoas que mais amas. Depois de conseguires isso, trata toda a gente como te tratas a ti.

No que diz respeito à palestra propriamente dita, Jordan transcendeu um pouco o propósito teórico, que seria o de falar sobre o seu best-seller, integrando o aparelho axiomático desse livro com um outro que publicou em 1999, "Maps of Meaning", e que marcou profundamente a psicologia das religiões, embora o seu impacto tenha incidido sobretudo no plano científico. Convém registar que antes do triunfo mediático, Peterson já tinha triunfado na vertente académica, com centenas, sim centenas, de papers publicados nas mais prestigiadas revistas académicas do mundo.


Com a sua habitual perícia oratória, acrescida de um teatral e eloquente uso da gestualidade, Jordan discorreu durante hora e meia sobre a ideia de que a geografia da realidade é na verdade uma geografia conceptual, na medida em que depende da percepção, da interpretação e da motricidade humanas. Esta geografia conceptual está, por razões de selecção darwiniana, biológica e neurologicamente dividida entre a ordem e o caos. O fundamento estrutural da existência é assim parametrizado dialecticamente entre o bem e o mal e é ao indivíduo e à sua capacidade moral que cabe a responsabilidade de manter a dicotomia em equilíbrio. É precisamente quando os indivíduos esquecem essa responsabilidade que acontecem os holocaustos, as grandes guerras, os genocídios, as trágicas desgraças da terrível história da humanidade. É quando esquecemos valores que são maiores que nós próprios, que conhecemos o inferno.


Por antítese, o apogeu moral, filosófico e industrial da civilização ocidental  - indiscutivelmente o mais bem sucedido modelo de governação dos povos na história - aconteceu precisamente porque inumerável gente, durante centenas de gerações, foi trabalhando incansavelmente e sacrificando os seus destinos em nome de valores sólidos e positivos como o direito constitucional e a protecção do indivíduo contra o estado, a liberdade, a tolerância, a segurança, o conforto material, a funcionalidade e estabilidade de governos e economias, a capacidade de sonhar e de materializar os sonhos que é uma promessa de progresso.


O produto histórico é assim, na filosofia de Peterson, o resultado épico da luta contra o mal. Contra o caos que é inevitável (mais inevitável do que a ordem), mas que tem sido equilibrado pelo paradigma da tradição judaico-cristã. Ao aniquilarmos, como temos feito no século XXI, os valores dessa tradição, estamos a colocar em perigo um equilíbrio periclitante. Porque Peterson concorda com Calvin: há monstros debaixo da cama. Há predadores na escuridão. Convém que cada um de nós faça o que for possível para que esses monstros permaneçam em repouso nas trevas, esse perímetro determinado pela civilização. Caso contrário, um apocalipse não é apenas possível. É bastante provável.



























No fim, como já tinha acontecido na sua chegada ao palco, a audiência aplaudiu de pé numa aclamação que diz mais sobre o trajecto, a mensagem e o perfil do homem do que sobre a particularidade do evento. Jordan Peterson é uma estrela. Se calhar, a única no firmamento da filosofia deste século. E isto não é dizer pouco.