sexta-feira, maio 29, 2020

Nem imaginas a falta que fazes agora à negra madrugada.

Foste embora esta noite, em paz sedada,
mas da minha vida já tinhas saído há muito e zangada.

Levas um quilo da minha carne, lá para onde vais,
e deixas remorsos, como a maré deixa lodo no cais.

Há muitas maneiras de morrer e só uma é definitiva:
gostava de te ter dito últimas palavras enquanto eras viva.

Foste embora esta noite, em paz sedada.
Nem imaginas a falta que fazes agora à negra madrugada.

Saíste em silêncio, por mal dos meus pecados,
depois de tantos e longos anos incomunicados.

E se é verdade que os deuses amam quem cedo se retira,
que exististe o suficiente tem que ser mentira. 

Da minha vida já tinhas saído há muito e zangada.
Nem imaginas a falta que fazes agora à negra madrugada.

quarta-feira, maio 27, 2020

A discoteca da minha vida: discos 16 a 20.

#16 - 1984 - Van Halen

É complicado eleger um disco entre a épica discografia dos Van Halen. Eu escolho este, o último com o estridente e saltitante David Lee Roth (que foi a seguir substituído por outro grande maluco, Sammy Hagar). Para além da embalagem, que é fabulosa, o vinil lá dentro bomba que nunca mais acaba e introduz, pela primeira vez na história da banda, a utilização de sintetizadores. O resultado não deixa de ser uma cena típica dos Van Halen - eléctrica, virtuosa e primordial - mas traz um sabor novo, mais sofisticado e onírico, que só eleva a fasquia de qualidade que a banda já trazia no seu recorde de belas e gritantes óperas rock.
Tenho a sensação de que se tivesse respeitado o desafio de enumerar 10 discos apenas, este 1984 estaria lá, nessa lista impossível para mim.





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#17 - Steeltown - Big Country

Bem vindos às terras altas. E agasalhem-se porque o que vos trago neste post é uma agreste e incisiva ventania escocesa. Se “Steeltown” fosse mais genuíno, rebentava. Se fosse mais verdadeiro, rebentava. Se fosse mais másculo, rebentava. Oscilando perigosamente entre o registo operário e a tradição rural do folk pátrio, de que fazem bandeira apocalíptica, os Big Country encontram aqui, há segunda tentativa, o seu equilíbrio estético e a sua vocação alternativa: este disco e esta banda são tão lado B da história que tive dificuldade em encontrar um clip decente para colocar na caixa de comentários. É que a bateria de poderosos lamentos sónicos, que podiam ter sido compostos por pastores renegados ou por mineiros em greve, está mais interessada na revolução do que na posteridade.
Mais a mais, os Big Country são a completa definição de uma banda de culto e nem que fosse só por causa disso, merecem esta entrada.





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A imagem pode conter: uma ou mais pessoas#18 - Purple Rain - Prince and the Revolution 

Tinha que ser, não é? Nunca simpatizei muito com ele, como estrelinha rock, para ser sincero, mas isso não quer dizer que o senhor Prince, ou lá como é que ele gostava de ser chamado, não mereça um lugar no inferno dos grandes artistas, porque merece completamente. “Purple Rain” é uma demonstração assombrosa de talento criativo e virtuosismo técnico que deixa qualquer um meio bêbado com meio vodka. O homem deve ter feito aqui um pacto com o diabo, ou assim. Canções eternas como “When Doves Cry” ou “I Would Die 4 You” ou “Purple Rain” não se produzem como máscaras cirúrgicas e não se encontram por isso com abundância estatística na história universal das pedras rolantes. É preciso ter muito poder e balanço e vontade de seguir um caminho próprio. É preciso não ter medo de correr riscos e fazer dos riscos, profissão de fé. E depois é preciso, claro, génio. Este disco, é de génio.
Next.





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#19 - Fugazi - Marillion


"Where are the prophets, where are the visionaries, where are the poets
To breach the dawn of the sentimental mercenary"
   
- Fish -

36 anos passados, fico todo fritado só de pensar que “Purple Rain”, o anterior disco desta lista sem fim, foi editado exactamente no mesmo ano que “Fugazi”, o vinil eleito de hoje. São objectos antagónicos. Diacrónicos. Némesis um do outro como anti-fotocópias.
Os anos oitenta não existem.
Este disco é, antes de ser música, poesia. Fish escrevia como um profeta ensandecido e o que realmente sempre me pasmou é como é que a banda conseguia fazer música sobre estes versos enormes e caóticos, grandiloquentes e pesadíssimas peças de mobiliário existencial; uma espécie de rap ao contrário.
Depois, claro, este disco é a sua progressão desenfreada e grandiosa. Nunca fui um doido por rock sinfónico, mas sou um doido pelo rock sinfónico dos Marillion, que é incapaz de dar seca seja a quem for. Os temas de “Fugazi” desenrolam-se no sentido do triunfo e o triunfo está lá, sempre. Num apogeu de sintetizadores analógicos e guitarras heroicas.
A coisa toda é uma epopeia romana, decadente e ensopada em ácidos, que eu, muito simplesmente, amo de morrer. E digam o que disserem.




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#20 - Mirror Moves - Psychedelic Furs


Por incrível que possa parecer nos dias de hoje, esta já foi a banda de rock alternativo mais amada que se possa imaginar. Em Benfica dos anos 80 toda a gente adorava isto. E por maioria de razão: os Psychedelic Furs não se confundiam com mais ninguém e a voz arrastada e melosa de Richard Butler caia perfeitamente nos riffs post-punk de Rich Good, num combinado que servia tão bem à depressão do adolescente com dor de corno, como à mais ganzada e bem disposta coquete da discoteca. Este disco, "Mirror Moves", será, talvez, o apogeu da banda precisamente por causa da sua abrangência melódica: ao rodeio eléctrico e alucinado de "Here Come Cowboys" somam-se aventuras de teor neo-romântico como "Heaven", trips melancólicas como "The Ghost In You" e correrias inesperadas no indisciplinado ginásio rítmico do brit pop como "Heartbeat". O talento chegava e sobrava para todo o género de aventuras e os Psychedelic Furs não se faziam rogados: disparavam malhas em todos os sentidos, sem perderem nunca o sentido do que lhes era fundamental - um impecável e inconfundível e rebelde primado estético. 
Que granda banda, bom Deus.

sexta-feira, maio 22, 2020

Tagarela de serviço.

Por princípio de responsabilidade sobre o que digo e escrevo (e digo e escrevo bastante, como sabem), acho que devo deixar aqui registo de um comentário que fiz na página do grupo criado no Facebook pelo Professor Jorge Buescu, dedicado à análise dos números do Covid-19 em Portugal, que é séria e rigorosa e que é produto honorável da generosidade de um mestre da matemática e da divulgação científica, mas onde todos parecem ter a mesma opinião e eu sou alérgico às situações em que as pessoas têm todas a mesma opinião. O comentário reza assim:

Não pretendo de todo armar espúria polémica nesta exemplar e civilizadíssima página de Facebook, mas é claro que é natural (e saudável) que as pessoas procurem neste momento um regresso à sua vida normal. E é também líquido que o número de infectados vai aumentar. E, se calhar, que a curva da mortalidade volte um pouco a registos anteriores. Mas o que fazer? Vamos continuar confinados até que não exista um mundo para o qual regressar? Vamos abdicar, por causa do medo e em nome da vida vazia de tudo menos de medo, ao direito à plenitude da existência? A vida é um risco. E o elogio da vida pela vida não faz sentido nenhum. Quem é que quer viver sem um abraço de um amigo? Ou sem poder beijar um neto? Ou sem poder confortar um filho? Ou acompanhar os pais, na sua velhice, que é sempre solitária? Ou sem o sabor de uma imperial numa esplanada junto ao mar? Ou sem a realização fundamental que o trabalho nos traz (de que é viva prova o labor do Professor, que nem todos podem neste momento exercer)? Sem a liberdade de movimentos e de iniciativa e de opinião, sem o aleatório e indomável arbítrio que é próprio da condição humana, o que é que nos resta? Um jugo inútil que é a ausência de significado.
Vá lá. Vamos ser sensatos e responsáveis e cuidadosos, sim. Mas vamos ser livres para perseguir o nosso destino, também.
Obrigado e desculpem qualquer coisa.

quinta-feira, maio 21, 2020

De liberal a subsidiado: crónica de um jornaleco manhoso.

Acho que a Secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media é uma coisa obscena e desnecessária, e até meio salazarenta, para dizer a verdade inteira; tanto como penso que o sr. Nuno Artur Silva não passa de um estupor e de um embuste que é empregado pela República porque a República é uma ignomínia de clientelas inúteis e estuporadas. Mas o que me incomoda mais nem é isso dos servicinhos entre camaradas (as coisas são como são e até Cícero se deu à corruptela). O que me incomoda de sobremaneira nesta notícia é a avidez torpe - e moralista - com que o Observador se faz pedinte dos dinheiros públicos. Que prejuízo pode ter tido este triste e glorificado blog que justifique o gratuito subsídio? Enquanto fomos aprisionados em casa, o negócio destes senhores deve ter tido mais cliques do que em toda a sua fraudulenta e infame história. Se ainda assim perderam investimento publicitário ou não captaram assinantes é porque a gestão financeira, comercial e de marketing se mostrou altamente incompetente ou porque já há uns anos bons que andam a trair o seu público original ou porque simplesmente tiveram azar. Devem portanto aguentar-se à bronca como os outros todos que foram incompetentes ou que defraudaram as expectativas dos seus clientes ou que tiveram azar. O que é que faz do Observador uma entidade assim tão especial? Nadinha. Zero. Nicles. Niente. Rien de rien ou, como dizia o Redentor da Luz: bola. Trata-se de uma empresa como as outras (e já estou a ser super, hiper, mega simpático). Mais a mais, informou o jornaleco miserável, com credibilidade e rigor jornalístico (já para não dizer científico), o seu respeitável público sobre a natureza do Covid-19 ou a realidade da ameaça que representava? Não. De todo em todo e nem pouco mais ou menos. Salvo um recente e deveras tardio artigo de opinião do seu publisher - e o facto de ter sido dada voz a Jorge Buescu (com cujo pensamento no caso concreto do C-19 eu não concordo, mas que respeito imenso como cientista e ser humano) - a adolescente redacção limitou-se ao que faz melhor: propagar sem escrúpulos éticos ou receios de inteligência a contraditória e muitíssimo frágil propaganda do Estado Português, do Estado Chinês, da União Europeia e das Nações Unidas. O serviço público do Observador nos últimos 3 meses tem sido absolutamente nulo. E nos últimos anos também.

Acresce dramaticamente o facto de que um jornal que se apresentava na sua fundação com ideais liberais (ideais esses que foram entretanto completamente anulados por uma quantidade de razões entre as quais a mais espúria aldrabice) e que agora estica os calcanhares histericamente para encaixar uns milhares de euros do nosso dinheiro é, pura e simplesmente, uma vergonha axiomática. E exemplo gritante da imprensa que temos e porque é que já ninguém confia na imprensa que temos.

Mas se é verdade que, salvo a comunicação social de âmbito desportivo, que foi mesmo apanhada em contrapé, ninguém escapa à vilania, porque é que eu estou sempre a malhar no Observador? Esta é fácil: porque teclar sobre a restante imprensa mainstream, portuguesa ou não, deixa-me enojado dos meus próprios dedos.

Suth up and obey #04


quarta-feira, maio 20, 2020

A discoteca da minha vida: discos 11 a 15.

#11 - Come'n Get It - Whitesnake 

A cada um a sua justa parte de Kitsch. E a minha legítima quota é esta: "Come an’ Get It", dos senhores Whitesnake. Gosto tanto deste disco. É carne da minha carne e é super piroso (reparem bem na anti-estética redundante desta capa). Em vinil ensinou-me a dar corda à aparelhagem, para que o Coverdale se ouvisse no fim da rua. Em CD Rom perpetuou-se esplendidamente pela minha imaturidade de adolescente de 30 anos e em mpeg tranquilizou-me as dores reumáticas - não estava enganado em 1981, como não estou enganado agora: Come’n Get It é uma colecção de malhas do outro mundo. Cruzando Soul, Folk e Hard Rock, músicos gigantes como Jon Lord, Micky Moody e Ian Paice conseguem dar ao trágico-patético trovadorismo de David Coverdale um palco sonoro digno de qualquer majestade lírica. E se nunca ouviram um tema deste álbum (os Whitesnake posteriores são mais famosos, mas falsos como o raio), oiçam, por gentileza, a superior e autêntica cantiga que coloco em baixo. E depois digam de vossa justa razão.
 



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#12 - Breakfast in America - Supertramp

“Take a look at my girlfriend, she's the only one I got
Not much of a girlfriend, I've never seem to get a lot”


Ao facto de estar com dificuldades em avançar nos anos 80, acresce um regresso a 1979. Mas tem que ser.
O primeiro concerto da minha vida é o da digressão deste disco imortal, no Dramático de Cascais. Era tão novinho que mesmo o meu melhor amigo, que era dois anos mais velho do que eu, teve que levar a irmã para tomar conta da gente. Lembras-te, Zé?
Como acontece com todos os casos anteriores, este disco sou eu e vice-versa. A quantidade de horas de felicidade que os Supertramp me ofereceram, no correr da vida, com esta obra de arte pop, não tem contabilidade possível.
Enquanto em discos de que já falei e noutros que mencionarei a seguir, estes são os anos iniciais da celebração romântica que infectou a pop da década de 80, Rick Davies e Roger Hodgson propõem um registo mais cínico e existencialista, que é um um dedo indicador a rodar sobre uma ferida aberta. Como um pequeno-almoço com Sartre, num café da Broadway, “Breakfast In America” é um triunfo artístico porque nos faz cantar no duche, sim, mas sobretudo porque nos faz pensar na vida. E no seu peso insustentável.





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#13 - From A to B - New Musik

Numa tarde quente da primavera de 1980, o bom do Luís Filipe Barros debita para a frequência da Rádio Comercial uma música que grita qualquer coisa de novo. Como um sistema físico-químico nunca antes catalogado, “This World of Water” é visceral e estranha-se para se entranhar como uma segunda pele, alienígena. Fica no ouvido mas o ouvido está pasmado.
“From A to B” é isso mesmo: um pasmo. E vai marcar muita da música que se vai fazer nessa década. É um festival de criatividade e poder inventivo. É uma maneira airosa de dizer: quero que os Whitesnake se fo***.
A boa música é assim: pode mandar toda a gente à merda, até os teus heróis, que não parece mal.




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#14 - Iron Fist - Motörhead

1982. A minha mãe volta de Londres com dois discos para mim. Um deles é este (o outro é “I Love Rock’n Roll” da Joan Jett) e eu devo ser o único adolescente no planeta Terra que foi iniciado em Motörhead pela senhora sua mãe.
Todos os puristas do heavy metal vão dizer que este não é o melhor disco dos Motörhead, mas não quero saber porque este é o MEU disco dos Motörhead. Uma incursão brutal, minimal, soturna e épica no Dark Side do rock destes tempos de paleolítica comédia humana. Se Darth Vader tocasse baixo, tocaria baixo como o Lemmy Killmister. E os resto é conversa.




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#15 - A Flock of Seagulls - A Flock of Seagulls

O filme de ficção científica que nunca realizei tem esta banda sonora. 38 anos depois de ter sido gravado, o sacana do disco ainda soa muito à frente: é uma decadente-futurista e visionária discoteca do século quarenta e dois com, convenhamos, a capa mais feia que alguma vez escondeu uma rodela de vinil. Mas também com uma malha que deve estar entre as minhas 20 mais amadas de sempre: "Spage Age Love Song".
A Flock of Seagulls. A banda que te dá asas. De Ícaro.

Só um verdadeiro petrolhead

é que fica com os cabelos em pé, depois de ver este vídeo. Reparem bem na sinfonia que este motor debita e não me lixem: o automóvel de combustão interna é, até ver, a mais brilhante e diabólica invenção da engenharia humana.


sábado, maio 16, 2020

Elon Musk tem razão.

O título deste post custa-me horrores porque não morro de simpatias pelo senhor, mas aqui, neste momento, subscrevo inteiramente as suas sábias palavras.


A correr pelas escarpas.

Granda maluco.



Suth up and obey #03


Obamagate e o silêncio dos crápulas.

Tenho a certeza absoluta, ou quase absoluta, que a maior parte dos poucos leitores deste blog nunca ouviram falar no Obamagate. Isto embora o escândalo que envolve os últimos meses da presidência de Barak Obama seja hoje em dia a mais sensacional notícia a correr nos Estados Unidos da América. Existem evidências, tornadas públicas nos últimos dias, de que a anterior administração da Casa Branca recrutou a CIA e o FBI para espiar o candidato Trump e incriminá-lo fosse como fosse (a ele e aos seus mais próximos colaboradores). Os factos que estão hoje a céu aberto envergonhariam Nixon, isso é certo. O caso Watergate é uma brincadeira de crianças mimadas, comparado com esta obscenidade.
O assunto é intrincado, mas Carl Benjamin explica tudo muito bem explicadinho.



Agora, resta perguntar: porque é que a imprensa portuguesa, por exemplo, esconde este escândalo?

sexta-feira, maio 15, 2020

Crónica de um mundo ao contrário.

Num mundo ao contrário, cidadãos são presos por abrirem os seus pequenos negócios, enquanto criminosos são soltos das prisões para não sofrerem de gripe.
Num mundo ao contrário, pessoas inteligentes e bem formadas aceitam com naturalidade que lhes sejam retirados os direitos mais fundamentais, como o do exercício da actividade económica e da liberdade de movimentos e da liberdade de expressão.
Num mundo ao contrário pessoas inteligentes e bem formadas incentivam entusiasticamente a anulação do direito constitucional e o colapso da civilização, enquanto aplaudem os profissionais da saúde por fazerem nem mais nem menos que o seu trabalho.
Num mundo ao contrário cancelam-se os cuidados de saúde àqueles que são vítimas de doenças graves, para dedicar todos os recursos àqueles que foram contaminados por um vírus banal.
Num mundo ao contrário os representantes eleitos no contexto de um Estado de Direito aproveitam esse vírus para exercerem antigos sonhos de poder.
Num mundo ao contrário pessoas inteligentes e bem formadas resignam-se a receberem cheques de estados falidos, quem imprimem moeda desenfreadamente, até que a moeda valha menos do que o papel em que é impressa.
Num mundo ao contrário essas pessoas e todas as outras são aconselhadas a não se tocarem. A não se cumprimentarem. A não se beijarem. A fecharem-se silenciosamente nos seus casulos cibernéticos, vazios de tudo menos de medo.
Num mundo ao contrário não há História, nem Filosofia, nem Ciência, nem rigor, nem vergonha: Há telejornal. O inimigo é o amigo, a verdade é um tweet e a amizade um engodo.
Num mundo ao contrário, altera-se o registo do passado em função das necessidades actuais da propaganda, e somos todos racistas de nós todos. E somos todos fóbicos de nós todos e sexistas de nós todos e todos nós nazis.
Num mundo ao contrário o fascismo passa por democracia, o comunismo por redenção, a infâmia por fama.
Num mundo ao contrário exageram-se os óbitos presentes para mitigar os mortos do futuro. E esquecem-se os que perderam a vida, gerações sobre gerações deles, em nome de valores e virtudes que agora deixamos cair na lama como frutos apodrecidos de uma árvore envenenada.
Num mundo ao contrário a cultura, a tradição, o costume, a família valem menos que zero, porque o imediato e o inócuo e o volátil e o fútil e o espúrio são os tesouros mais prezados.
Num mundo ao contrário as elites borram-se todas ao primeiro sinal de um perigo imaginado, enquanto desvalorizam a coragem daqueles que venceram terríveis ameaças. Num mundo ao contrário ser fraco é ser forte, enquanto a sabedoria se transformou numa aplicação para o telemóvel.
Num mundo ao contrário recebes um telefonema da Scotland Yard, que te admoesta a propósito de um criminoso post de rede social, em que dizes que só conheces duas maneiras de nascer: com pilinha ou com pipi.
Num mundo ao contrário proíbem-te a ida à igreja romana, enquanto as mesquitas recebem livremente os seus fiéis e os sindicatos organizam coreografias com multidões.
Num mundo ao contrário convencem-te que a economia é uma ilusão e que tudo vai correr bem a seguir, porque na verdade o trabalho é acessório e tu não precisas de todo de contribuir minimamente para o produto bruto, até porque o produto bruto cresce nas árvores do socialismo.
Num mundo ao contrário és sempre reduzido à tua insignificância.
Num mundo ao contrário há vizinhos em vez de amigos, turbas em vez de tribos, estados em vez de nações. Num mundo ao contrário Deus foi assassinado e substituído pelo Benfica e pela Sonae. Num mundo ao contrário somos todos cuidadosamente separados pela internet, identificados pelo Facebook, censurados pelo Google, amordaçados e conduzidos ao mais irrelevante destino pelos profetas do vazio de todas as coisas.
Num mundo ao contrário escrevo estas linhas vãs, incapazes de fazer a guerra sobre a vilania imperial. Pequenas-nenhumas linhas, impotentes.
Agradeço a Deus a bênção de não ter tido filhos.

O mais lúcido comentador desportivo da história da humanidade.

Dave Portnoy produz e apresenta um bastante vulgar mas extremamente popular stream dedicado à discussão dos desportos profissionais americanos. Consegue porém chegar a conclusões mais clarividentes do que as "autoridades" políticas e científicas que os media nos tentam desesperadamente vender.



Uma pergunta: como é que chegámos aqui?

terça-feira, maio 12, 2020

Shut up and Obey #02


Toonville . Magnifying Fear

Political Cartoons by Pat Cross

Que luão.


A discoteca da minha vida: discos 6 a 10.

#6 - Saturday Night Fever - Vários

Sei bem que estou a colocar-me na posição óptima para ser gozado, mas este duplo álbum tem que constar da lista de discos fundamentais, porque é parte integrante do meu ritual de passagem da meninice para a adolescência. E convenhamos: se Saturday Night Fever – o filme - é uma merda sem nome que foi ruindo pelas décadas e é hoje não mais que um objecto da Arqueologia do Gosto Duvidoso, já a banda sonora, bom deus, é a mais garrida e espalhafatosa das obras, sinfonia multicolor que fez, faz e fará girar todas as bolas de espelhos da grande discoteca que é a imaginação acústica do ser humano.
Para além das imortais composições dos Bee Gees, capazes de abanar o esqueleto do mais empedernido bota de elástico – ou de derreter o coração de Átila – há toda uma miríade de fugas disco, umas mais pirosas que outras, mas todas gloriosamente gay, gloriosamente dançáveis, gloriosamente destinadas a ficarem gravadas no bocadinho da massa encefálica que presta atenção ao ritmo e às consequências do ritmo na triste figura de cada um.
Saturday Night Fever não é afinal uma banda sonora. É uma monumental explosão de confetis. Um triunfo de lantejoulas e strobs. A promessa fútil, mas idílica, de uma noite feliz, na pista de dança da juventude. E não, isto não é dizer pouco.






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#7 - High 'n' Dry - Def Leppard

Depois de eleger um disco para todos os públicos no último post desta série, alerto que este aqui é só para homens de barba rija: High 'n' Dry dos Def Leppard. É preciso não confundir este disco com os que se lhe seguiram, porque, com o estrelato, os Def Leppard perderam autenticidade e virtude, transformando-se numa banda de plástico, formatada para grandes audiências. Esta sinfonia de arame farpado, porém, é nua e crua e rude e impenitente como deve ser o rock, está cheia de riffs durinhos que só são possíveis de criar numa garagem mal cheirosa de Sheffield e transpira rebeldia em todas as estrias do vinil.
Grandiloquente e mal criado, High 'n' Dry não está preocupado com o que a tua namorada possa pensar: é a definição de um produto genuíno, francamente desalinhado entre o Heavy Metal e o Hard Rock, símbolo talvez máximo de uma estridente e extinta forma de fazer boa música. A banda sonora perfeita para um mergulho no concreto betão da piscina seca.





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#8 - 4 - Foreigner
 

1981. Os Foreigner, que já eram grandes nos mercados anglo-saxónicos, editam um círculo de policloreto que vai fazer explodir os amplificadores de todos os adolescentes em todos os cantos do universo. 
4 é um disco icónico por muitas razões: inclui o mais célebre solo de sax da história universal da cultura pop (em "Urgent"), é tremendamente lamechas enquanto debita electricidade como se fossemos todos ficar sem luz amanhã de manhã (em "Break It Up"), faz o elogio de si mesmo sem parecer gorduroso de vaidades (em "Juke Box Hero"), glorifica a mulher fatal como só Lauren Bacall conseguira até aí fazer (em "Woman in Black"), enquanto preenche todas as caixinhas da checklist que dá acesso ao Olimpo do Rock. Se este disco não fizesse parte da minha lista, a minha lista seria um brutal exercício de injustiça. 





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#9 - The Lexicon of Love - ABC


"Who broke my heart, you did, you did 
Bow to the target, blame Cupid, Cupid 
You think you're smart, stupid, stupid 
Shoot that poison arrow to my heart 
Shoot that poison arrow" 

Não sei o que o gentil e paciente leitor deste post poderá achar sobre o meu estranho critério, mas eu acredito mesmo que este refrão vale bem pela juvenil, folclórica e espalhafatosa década de 80. Se os ABC fossem apenas um bocadinho quântico mais melosos, explodiam. Mas por incrível que agora possa parecer, isto era na altura considerado cool à brava. The Lexicon of Love é uma opereta neo-romântica como deve ser, que declina as rendas nas mangas e as perucas de Versalhes para investir mais na produção orquestral e na intensidade lírica. A sofisticação melódica dos 10 temas deste disco será talvez apenas igualada, dentro do género, por uns rapazes de que falarei mais adiante, mas está muito próxima do máximo possível neste momento da história da música pop. Além disso, este magnífico disquinho funciona como um manual de normas para as misérias e os triunfos do amor passional - sem sacrifício do pudor ou da elegância. Os ABC são uma banda extremamente bem educada, e como a ética é uma estética, esta é uma obra realmente bela. E bela sobre o passar dos anos, virtude acessível apenas a uns quantos, afinal poucos, favoritos dos deuses.




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#10 - Back In Black - AC/DC


“Rock And Roll Ain’t Noise Pollution”
-Malcolm Young-

Julho de 1980. Cinco breves meses depois da morte por overdose do seu icónico e selvagem vocalista, Bon Scott, com quem tinham gravado a generosa quantidade de 6 discos, os AC/DC regressam de luto, com aquela que é, na minha mendiga opinião, a sua obra primeira e um monumento megalítico na história do Rock: “Back in Black” é um prodígio de virtuosismo e de energia, raro e electrizante fogo de Santo Anselmo e testemunho da afirmação, logo nos primeiros minutos do disco, de um outro icónico e selvático vocalista, Brian Johnson.
A estridência fabulosa destes dez temas, que vão ecoar sobre a eternidade como batalhas alexandrinas, é difícil de colocar em palavras sem sucumbir à tentação do exagero (porque este disco é um exagero de muitas coisas boas); e de qualquer forma toda a gente sabe do que estou a falar e eu estou a falar de uma banda divina. Por isso, querido amigo, gentil amiga, não te esqueças de revisitar “Back in Black”, de vez em quando. Vale uma aposta que a disposição sobe logo de tom?

Virulogia.

Parece impossível e ninguém diria. Afinal, o honorável líder chinês e o ilustre senhor etíope são pessoas distintas e campeãs da verdade dos factos, legítimos e impolutos representantes da vontade dos povos, que só pensam em salvar vidas e isso tudo. É calúnia. Só pode ser. Se isto fosse verdade, os senhores do Expresso e do Público e do Observador e da Sic Notícias já tinham dito qualquer coisa à malta, não é?

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E assim é que devia ser no Ocidente, também. Ou obedeces ou vais de cana. Até porque depois de termos libertado tantos criminosos de delito comum há muito mais espaço para os criminosos de delito de opinião.

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A sério? Não pode ser. Então o vírus não é proveniente do mercado de peixe e dos morcegos que esse mercado, por acaso, nem vende? E a epidemia não eclodiu em dezembro? Então o Partido Comunista Chinês não tem sido exemplar na partilha de informação sobre o Covid-19? E não devemos acreditar no que nos diz a imprensa e a OMS? Claro que sim. Isto são teorias da conspiração. Ouviram? Teorias da conspiração. Calem-se e sigam o guião, caraças.

Depois da tempestade.

segunda-feira, maio 11, 2020

domingo, maio 10, 2020

A imprensa como motor de teorias da conspiração.

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Parece que agora os adolescentes da redacção do Observador acham que já não é uma teoria da conspiração dizer que o vírus escapou do laboratório de Wuhan (como era há uma ou duas semanas atrás). Agora a teoria da conspiração é que o vírus foi fabricado, porque a ciência do Observador não encontra prova disso. Se, ou quando, surgirem evidências indisfarçáveis que o vírus foi afinal fabricado, a teoria da conspiração passa a ser que o vírus afinal fabricado foi libertado com intenção maliciosa, porque a versão oficial vai ser a de que se tratou, obviamente, de um acidente. E assim sucessivamente.

Dá vontade de rir, mas a propaganda de base totalitária da imprensa ocidental é, em última análise, a responsável por todas as teorias da conspiração. Como ninguém acredita nos jornalistas (porque se transformaram - na sua muito substantiva maioria - numa deprimente companhia de palhaços do circo do poder), cada um é livre para juntar as peças na construção da narrativa que quiser. Essa é uma das razões pelas quais o jornalismo clássico faz imensa falta às sociedades contemporâneas. Deixámos de ter um registo independente - e de referência - sobre a fenomenologia social. E, em consequência, acreditamos mais em nós. Na nossa verdade interior, que é irredutível. E ainda por cima temos um megafone sempre à mão, embora na verdade os tipos que nos colocaram o megafone na mão não simpatizem muito connosco - aqueles que pensam pela sua própria cabeça porque na verdade não têm outra opção, dada a escassez de profetas credíveis.

Qualquer pessoa que perca cinco minutos nos threads de comentários do Observador percebe que a magna parte da audiência tem uma espécie de nojo dos jornalistas que lá trabalham. Isto não é por acaso, mas é chocante. Regressemos não mais que vinte anos atrás e seria impensável que os leitores de um jornal desconsiderassem assim os seus jornalistas. As coisas mudaram radicalmente e com uma rapidez de foguetão. Não porque a vil populaça - essa massa deplorável que se atreve à classe média e que pensa que tem direito a uma opinião - tenha ficado mais estúpida, mas porque a elite bem pensante, os privilegiados-arrependidos, os inteligentes da sinalização moralista, os dogmáticos de tudo, meteram os pés pelas mãos. À grande.

É de romance distópico, bem sei, mas são as mentiras dos jornais que geram mentiras nas redes sociais, e não o contrário.

sexta-feira, maio 08, 2020

Não se percebe.

Se alguém, dentro da multidão dos advogados do lockdown, conseguir explicar-me estes números, muito agradecido fico.

Infectados por um milhão de habitantes:

Sem lockdown
Suécia : 2.445
Coreia do Sul: 209


Com soft lockdown
Japão: 123
República Checa: 754
Alemanha: 2.040
Suíça: 3.518

Com full lockdown
França: 2.054
Holanda: 2.412
Portugal: 2.653
Reino Unido: 3.181
Itália: 3.605
Estados Unidos: 3.922
Bélgica: 4.513
Espanha: 4.732

Full lockdown policies in Western Europe countries have no evident impacts on the COVID-19 epidemic.
MedRevXiv . The Preprint Server for Health Sciences

A discoteca da minha vida: discos 1 a 5.

A convite do meu amigo Carlos Rafael, meti-me nesta empreitada de discorrer um bocadinho sobre os discos que considero fundamentais na banda sonora da minha existência. O desafio falava em dez discos, mas sendo eu o Hasse Paixão que sou, é claro que tinha que me esticar e vão ser seguramente algumas dezenas. Não há grandes regras a não ser a de escolher não mais que um disco por banda ou autor. Tento dar um sentido cronológico há recolha, mas até nisso falho redundantemente, como verás, gentil audiente, no correr dos posts. Não sei quanto tempo vou demorar a chegar ao presente do indicativo, sinceramente. Mas desde que faça isto com prazer, a coisa vale, mesmo que exaustiva, mesmo que incompleta (todas as playlists deste género são incompletas), mesmo que desregrada. Boa sorte e boa viagem (para mim e para ti).


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#1 - Concertos de Brandenburgo . Johann Sebastian Bach

 
Para começar, os Concertos de Brandenburgo, do bom e velho J. S. Bach, conduzidos por Luigi Varesi, interpretados pela Musici Di San Marco e publicados pela Sonata em 1988. Este é sem dúvida nenhuma o disco que mais influenciou o meu ouvido. E aquele que provavelmente ouvi mais vezes na vida. É claro que o imortal kapellmeister produziu obras primas suficientes para completar uma lista interminável. Mas vamos ser sensatos. Os Concertos de Brandenburgo são eloquentes testemunhos do génio. E um hino de insustentável beleza à sensibilidade artística e capacidade criadora do género humano.



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#2 - 69 Love Songs . Magnetic Fields
























O segundo disco da minha lista de obras magníficas tem que ser o célebre triptico de Stephin Merritt (AKA Magnetic Fields).
Lançado no já distante ano de 1999, 69 Love Songs debita um volume prodigioso de criatividade só para aí comparável a uma obra prima do barroco ou coisa que o valha. Estes 3 discos guardam autênticas maravilhas folk, supremas epifanias punk, pungentes suicídios grunge, espectaculares orgias beatnick, desesperados lamentos blues, violentas paixões soul e intensos elogios do rock n'roll. Da canção medieval ao registo grunge, do orgasmo esquecido à redenção da entrega, está lá tudo dentro do pacote. É impressionante. Nem vale a pena falar da beleza das melodias porque é preciso ouvir, ouvir e ouvir até saber trauteá-las todas no duche.

"I decided I'd write one hundred love songs as a way of introducing myself to the world. Then I realized how long that would be. So I settled on sixty-nine."

"69 Love Songs is not remotely an album about love. It's an album about love songs, which are very far away from anything to do with love."

-Stephin Merritt-



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#3 - Remote Control . The Tubes
























Março, 1979. Na ressaca de uma digressão super atribulada e altamente polémica, a banda mais subvalorizada de sempre edita a sua opera magna: "Remote Control". Este disquinho dos The Tubes, que incluo com fanática convicção na lista dos dez magníficos, é sagrado para mim. Acompanha-me desde os 12 anos e iniciou-me no rock independente. Ao longo dos seus 11 prodigiosos temas dá-se uma sublime convergência entre punk electrónico e pop desalinhado, num embrulho futurista de sintetizadores analógicos e raiva de músicos fora da lei, que anunciam o apocalipse do rock clássico dos anos 70 e introduzem o caleidoscópio sensorial que vai acontecer na década que se segue. Praticamente ignorados em Portugal e hoje já esquecidos em todo o lado, os Tubes sempre foram pioneiros em tudo. Uma banda à frente no tempo. E este "Remote Control", que hoje se ouve tão bem como no ano paleolítico em que foi lançado, é uma coisa eterna. E intensa como o raio.
Se tivesse que eleger um só disco na categoria Rock, elegia este.



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#4 - Sinatra - The Main Event, Live . Francis Albert Sinatra
























O quarto disco maravilha da série de discos maravilha tem que ser este, que ficou para sempre tatuado a ouro no coração dos meus tímpanos: Sinatra, The Main Event - Live.
Gravado em 1974 no célebre Madison Square Garden de Nova Iorque, é a definição de um apogeu. Eis Francis Albert Sinatra com 59 anos, no ringue da sua glória, maturo e sábio trovador maior que a própria vida, com a sua voz olímpica ainda imaculada, sexy como o diabo, monstro melódico no auge da carreira. As 12 faixas deste disco podem ser enviadas para o espaço, como testemunho de que no planeta Terra existiu um dia algo a que se pode chamar Civilização. E mais não digo.



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#5 - Rocket to Russia - Ramones
























1977. No contexto da Guerra Fria que se vivia no tempo (e que hoje seria motivo para vários lockdowns por ano e sucessivas crises existenciais das flores de estufa que poluem o ambiente emocional do planeta), os Ramones decidem gozar o prato: antes de ser um manifesto punk, Rocket To Russia é um corrosivo exercício de humor. Os 14 curtos e grossos temas que habitam este disco são parcimoniosos em acordes e avarentos com os versos ("I Don't Care" tem 3 acordes e 3 versos) mas não deixam por isso de ter enorme capacidade retórica. O Disco Sound é ridicularizado. A religião é ridicularizada. A família é ridicularizada. O apocalipse nuclear é ridicularizado. E de ridículo em ridículo, os Ramones edificam a sua posteridade, à velocidade de 78 rotações por minuto.
Esta pérola mudou muita coisa dentro dos meus tímpanos e no fundo do meu cerebelo. Fiquei a saber que a economia é uma virtude melódica. Que as calças de ganga devem ter buracos para os joelhos respirarem. Que homens muito feios podem ser símbolos sexuais. Que o punk é dançável e que a ironia é uma arma superior à bomba de hidrogénio. Fiquei a saber imensas coisas, através de um disco que na verdade não pretende ensinar nada a ninguém. Rocket To Russia é um monumento à dissidência e só quer ser isso e é isso que faz dele uma obra prima. Sheena is a punk rocker. Sheena is a punk rocker. Sheena is a punk rocker, now. 




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quinta-feira, maio 07, 2020

A cura mata mais que a doença.

"The evidence mounts on a daily basis that locking down whole populations in the hope of “flattening the curve” was a catastrophic error, perhaps the worst policy mistake ever committed by Western governments during peacetime."

Toby Young


- Disruption to tuberculosis services due to the Covid-19 pandemic could lead to as many as 6.3 million additional cases of TB and 1.4 million deaths worldwide over the next five years, a new study has shown.

- Already this year global deaths by suicide are significantly higher than those attributed to the coronavirus. According to the respected Worldometers running tallies, there have already been 374,225 suicides since the start of 2020, whereas the Wuhan coronavirus has claimed 251,898 lives, Johns Hopkins University reveals.

- The COVID-19 emergency in England could result in at least 20% more deaths over the next 12 months in people who have been newly diagnosed with cancer, according to a UCL study with DATA-CAN: The Health Data Research Hub for Cancer in the UK.

quarta-feira, maio 06, 2020

Embrulhem lá esta.

Kayleigh McEnany, a nova press secretary da Casa Branca, não está para aturar merdas. Um minuto de puro profissionalismo.



O Expresso é mau demais.

 

Num qualquer e infame número de Abril, a Revista do Expresso declara a morte da família nuclear com toda a alegria do mundo. Como quem anuncia o paraíso na Terra, os imbecis de serviço na redacção deste órgão oficial do Bloco de Esquerda festejam a emergência da "nova família", esse agregado progressista que desistiu do legado biológico e o substitui por "novos laços de coabitação", arrepiantes fantasias sociais e socializantes que trazem a promessa de amanhãs que cantam. Que importam os 80.000 anos de história do Sapiens, cuja sobrevivência, propagação e constituição civilizacional dependeram sempre e primeiro dos elos de sangue? Nadinha. Os adolescentes deste pós-socialismo niilista sabem mais, sabem tudo. E acham que não precisam da família para coisa alguma. Que a família é descartável no grande salto para a frente rumo à distopia final.
Podia desejar-lhes boa sorte, com esta interpretação espúria da condição humana, mas seria cínico da minha parte, porque quando eles chegarem à conclusão de que sem a família convencional, biológica e irredutível, são apenas mais uns símios solitários no grande desespero de um mundo sem valores, não há boa fortuna que lhes valha. E, desculpem lá, mas é muitíssimo bem feito.

terça-feira, maio 05, 2020

Não acredito nisto.

Na outrora notável publicação The Atlantic, encontramos este miserável artigo: no que tem a ver com a liberdade de expressão, o Comité Central do Partido Comunista Chinês tem toda a razão (sempre teve toda a razão) e a malta no Ocidente está errada (sempre esteve errada). Urge portanto aproveitar o Covid-19 para implementar a censura e o controlo da opinião na net.
Só me apetece dizer Fod****.

Haikus da Quarentena.



Fechado em casa.
Até as paredes estão fartas
de mim.



A civilização é frágil
como um formigueiro no caminho
do tractor.



Ruas desertas.
Só o silêncio
e o medo.



Quem preza mais a segurança
do que a liberdade
nunca esteve preso.



Não há pior silêncio
que o de um cobarde.



As multidões obedecem.
Deve ser por isso que na História
a ditadura é tão comum.



A mosca morta rodopia
pela minha cela.
Condenados os dois.


 
Quarentena placebo.
Não purga
nem cura.



Quarentena cruel:
obriga famílias
a quatro paredes.



Confino o meu corpo,
mas não a minha
voz.



Distância social.
Outra maneira de dizer
apocalipse.



Os melros fazem mais barulho
que a Segunda Circular.



Quando um dia fores
à procura do tempo perdido,
vais um dia
tarde demais.



Os meus clientes não existem.
Literalmente.



Eu fico em casa.
Mas o jardineiro, com a sua metralhadora de aparo,
não.



Não há nada
de bom
no fascismo.



Um imenso carnaval:
para onde te viras
vês pessoas mascaradas.



Até os cães estão fartinhos
de me aturar.



Quantos mortos vale uma ideia
de liberdade?



Uma definição de inferno:
Hollywood confunde-se
com a realidade.



A Netflix vive agora
no espaço ontem ocupado
pelo café do meu bairro.



Depois de décadas de trabalho duro,
percebes que és ingénuo.



Viver é correr riscos.
Só na campa há segurança.



Depois da afonia urbana,
a baía barulhenta.
O Atlântico tem o volume no máximo.

domingo, maio 03, 2020

Lockdown: the game.

As regras são complicadas, mas o jogo, criado pelo inventivo James Veitch, é hilariante.


sexta-feira, maio 01, 2020

Virar o bico ao prego sem bico.

Depois de elogiar os métodos draconianos de contenção do vírus na China e de os recomendar a todas as nações (com enorme e deprimente sucesso), a Desorganização Mundial de Saúde acaba de subscrever o método Sueco, que é o oposto.
A OMS não deu, na verdade, uma para a caixa no que se refere ao C-19. Primeiro "informou" que o vírus não era transmissível de pessoa para pessoa. Depois, que o vírus tinha sido contido e que não ia disseminar-se globalmente. Depois, que o uso de máscaras não era necessário e seria até contraproducente. No entretanto, apelidou de racistas todos os que se referissem à origem chinesa do vírus. Quando a pandemia se tornou global, recomendou o lockdown com febril e autoritário zelo. Agora vira, com ligeireza espantosa e absoluta falta de vergonha na cara, o bico ao prego.
E ainda há quem defenda estes piratas da razão moral. Ainda há quem lhes preste tributo. Ainda há quem siga as suas desviadas e desviantes directivas. Por amor de Deus.