quarta-feira, outubro 16, 2019

Budas das trevas.

Logo depois de Genghis Khan - o assassino que impera ímpar sobre a História Universal da Infâmia - vem Mao Zedong, exterminador de bastantes mais infelizes que o dueto sinistro de Hitler e Estaline em concerto afinado. Assim sendo, o actual Partido Comunista Chinês, accionista de facto de uma boa parte do capital de grandes corporações ocidentais e detentor de dívida soberana de uma quantidade aterradora de estados, é em simultâneo responsável material pelo segundo grande extermínio de que há registo na ensanguentada rábula dos homens.

Mas com a China ninguém se mete e a recente resolução do Parlamento Europeu, que equipara o horror do comunismo ao horror nazi, procura - formal e mediaticamente - evitar que qualquer salpico de crítica salte para o pano imaculável da bandeira do Império do Meio. Na notícia do Observador, boletim sempre muito obediente à cartilha mainstream, figuram apenas os dois satânicos marretas do costume: o russo e o alemão. Como se os totalitarismos de carácter marcadamente genocida, condenados na resolução, fossem uma particularidade geo-política: para cá dos Urais, matamos mais.

A anacrónica necessidade de votar uma resolução sobre este deprimente assunto é - em sim mesmo - espantosa. Pelos vistos, até aqui a posição oficial da União Europeia tem sido a de que o bom do Estaline tinha mais fama que proveito, que os Khmer Vermelhos eram anti-fascistas bem intencionados e que a família de presidentes da Coreia do Norte trabalha há três gerações para o bem da humanidade.

Mais a mais, a resolução permanece objectivamente falsa. Se os eurodeputados querem mesmo dedicar-se à discutível arte de medir o tamanho das pilinhas dos grandes homicidas, que o façam com rigor. O comunismo internacional matou duas ou três ou quatro vezes mais gente que o nazismo, até porque durou muito mais tempo; o tempo necessário para retirar qualidade de vida, liberdades e direitos a toda uma ópera de povos. Como produtor de infelicidade, o comunismo não tem rival pelo que a equiparação ao também tenebroso, mas muito menos bem sucedido regime nazi não é de todo credível.

Noto que a resolução recolheu 66 votos contra e 52 abstenções, pelo que temos 118 eurodeputados que são ineptos em Aritmética, ignorantes da História e destituídos de Moral. São muitos e são demais.

terça-feira, outubro 15, 2019

A obra como destino. Um prefácio inútil.

Aqui há dois anos e tal atrás, o meu amigo Márcio Candoso solicitou-me um prefácio para o seu segundo livro de poemas, "Quando Tudo Era Tanto". Parece que entretanto se arrependeu de o publicar. Mas como eu não me arrependo do prefácio que escrevi, aqui fica, para registo futuro.

____________

Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


Fernando Pessoa


O Márcio não simpatiza com Pessoa por aí além e não vai gostar que o prefácio a este seu segundo livro de poemas comece como começa. Mas o Márcio, como qualquer outro grande poeta, não percebe realmente nada sobre a própria e sobre a alheia grandiosidade. É aliás precisamente por isso que os poetas devem agradecer à humanidade pela esquizofrénica existência de críticos literários e outros inócuos escribas que conseguem escrever coisas tão inócuas como prefácios.

Há no entanto uma verdade que permanece na lírica do célebre antagonista: o destino tem mais poder que deuses e homens. E, aqui, o Márcio estará certamente de acordo comigo e com o bom e velho Fernando: o seu primeiro livro de poemas queria ser - e verdadeiramente era - uma pedrada de tal forma permanente no charco efémero das letras escritas em Português que lhe decidiu chamar "Antes do Destino". Estas coisas não acontecem por acaso, e se há coisas que não acontecem por acaso são os versos do Márcio Alves Candoso. Pelo contrário, há uma probabilidade estatística de surgirem como surgem, dada a aversão que a natureza tem pela página em branco e apesar da arbitrariedade das variáveis inclusas na equação do poema.

Na Física e no amor

Não há espaço para vazios

(Sejam de volume ou de área)

E p'ra esvaziar a dor

A ordem de qualquer factor

É por demais arbitrária!


Leis naturais à parte, o leitor mais esclarecido, mesmo que ainda no seu primeiro café da manhã, reparará inevitavelmente que este é um compêndio de versos imensamente carregado de um sentido existencial - não necessariamente existencialista - que é, no século XXI, de uma raridade arrepiante. Este fervor da vida concreta é, claro, para-ideológico: o poeta é de esquerda e de direita, nacionalista e internacionalista, conservador e liberal, reaccionário e revolucionário consoante a raiva que viaja no verso.

Eu vou
Vou de camisa preta, sangue vermelho
e dignidade imaculada
Vou de preto - a cor do meu luto por este
País que me estragaram
Vou de vermelho - porque é a minha força e guerra
(...)

Não vou à esquerda, nem à direita
nem muito menos ao centro... Vou acima
Levo comigo Viriato, comer a carne e o osso
Levo Afonso, que não quer
ser protectorado de ninguém...
Levo o Gama que me ensina o vento
Levo a pena e a espada
Levo os meus porque sou deles.
Levo os que não admitem
menos do que ficar na História


Este recurso recorrente à contradição em favor da coerência lírica é menos diletante do que militante. O Márcio Alves Candoso faz parte daquela espécie de cosmopolitas ao contrário que Voltaire gostava de convidar para jantar fora e esse cosmopolitismo de pernas para o ar torna-se de tal forma niilista, de tal forma inquiridor, que arrasa com os semáforos do bom senso e deixa o leitor com os pontos cardeais embrulhados num novelo electro-magnético de difícil resolução técnica.

Se eu fugir atordoado
para as montanhas do Nepal
e me passar para o Dalai la-rai-la-rai-lai-lai-Lama
serei mais feliz do que fumando
Lucky Strike numa reunião em Roma?


Mas atenção: diversos, intrincados e intrinsecamente paradoxais como são, os poemas aqui constantes não são passatempos, charadas, sudokus. Não são exercícios estilísticos ou panfletários; deseducados desafios à sensibilidade ou irritantes provocações à inteligência. Não são textos ensaísticos e armados em espertos nem trazem a promessa de uma qualquer terapia. Estes poemas não são de auto-ajuda nem recomendam dietas. Não são atenciosos com a forma como, por exemplo, são escravos do ritmo (o Márcio chama-lhe jazz). Não são preocupados com axiomas como são, assumida e distraidamente, enormes esponjas da história universal das boas ideias literárias venham-lá-elas-de-onde-vierem. Não respeitam especialmente as escolas, os maneirismos, os comodismos e as outras todas e resignadas abstrações da identidade. São cimento concreto, armado, com ferro lá dentro. São substanciais como um bife mal passado, prestes a ser devorado por Schopenhauer. São densos como as alegorias de Platão, mas sem a pretensão da fábula. São intensos como a cerveja de Rimbaud, mas não clamam pelo inferno. São sábios como os ensinamentos dos profetas, mas sem o LSD que foi preciso para umas semanas de deserto. São como os auto-retratos condenados à imperfeição do perfeccionista que era Rembrandt. Procuram, afinal como todos nós procuramos, um justo caminho para a salvação.

Não és nada, apenas um retrato a sépia de trunfa
mal iluminada, betume de interior do espaço
tão vazio como a cabeça dos que param
contigo à mesa dos medíocres orçamentos
do bafio dos ventos condicionados,
e do esquiço da aguarela mal pintada.
E interessa, isso? É postiço, praga!
E entesa? Não entesa nada!


Poesia lapidar, uma especialidade da apurada cozinha do autor. Mesmo quando se escrevem mais palavras, sempre, do que aquelas que surgem na impressão do menu. A maior parte das palavras que o Márcio despeja por cima do leitor nem precisam sequer da cumplicidade tecnológica de Gutenberg. Não têm necessidade do pigmento para estarem lá explícitas e para serem alegremente despejadas. Ficam gloriosas no que o verso deixa por dizer. E é por isso que tantas das estrofes deste livro são na verdade fantasmáticas. O poeta é uma manipulador único do fenómeno poltergeist a que usualmente chamamos magia negra. E o máximo feitiço desta poesia é que transcende até a necessidade da entrelinha. Ao invés da interpretação académica, temos a íntima, e assim profusa, liberdade de intuição. A leitura destas páginas traz a carne de cada um para fora da pele:

Quando pintaste a sacada, lembras-te?
Era eu que recitava a cor do Douro
E o Rio de la Plata, e o tango,
e a minha gravata e os teus chinelos


E esta é a pedagogia que toda a literatura deve trazer agarrada. Porque todos nos lembramos dos chinelos de cada situação, mesmo a mais romântica. Até a mais ridícula. Somos todos o Márcio, com a diferença absoluta de que só o Márcio é que soube escrever um poema com os chinelos e a gravata da comédia que todos nós guardamos em nós. O leitor será, prometo, invariavelmente apanhado em cuecas.

Neste sofisticado showroom da roupa interior da alma, não deixa, claro, de se exibir o grande romântico. Mas, convenhamos, a atitude romanesca que nos é sugerida em “Quando Tudo Era Tanto” deixaria Petrarca em estado de choque. A eterna Laura, musa medieva dos sonetos de métrica perfeita, é agora, setecentos anos depois, atingida com versos carregados electricamente com a alta voltagem do pragmatismo cínico - e todavia sincero - do homem pós-moderno.

Desculpa-me se te perco,
desculpa se não te chamo
eu descuido-me, incerto
na certeza que te tenho.


Deve porém o prefaciador alertar o paciente leitor: articular sobre o amor segundo o poeta Candoso é uma tarefa por demais ambiciosa e, porventura, vã. O diagnóstico do papel da mulher na sua poesia é, no mínimo, reservado. Gentil e paciente, materialista e exigente, a musa oscila com frequência assustadora entre a deusa, que excita até a fé dos ateus, e a vilã de telenovela venezuelana, que anula completamente o libido ao mais latino dos escribas.

Sei quase tudo de ti
Quando esperas, quando chegas primeiro
quando feres, quando raios que me partes
em cima, quando gostas dos meus ares
e imperas, ou lá o que é, quando sentes
no teu pé de laranja lima
como se eu me chamasse Zezé
e ainda por baixo
fosse pobre e muito pouco macho. 


É claro que há sempre uma vulnerabilidade, quase clássica, sempre ridícula, na voz lírica que se atreve à confissão passional. Mas essa fraqueza, esse saber certo que existe em cada homem de que em cada mulher há uma fortaleza inexpugnável, é rapidamente transcendida através do recurso à mais rude sobranceria, também ela de gosto romano:

Agora ficas a saber tanto como eu
das vitórias e dos meus escombros
Vê se ficas calada e abres finalmente a boca.
Eu tenho do Céu o canto que te cometo
o fogo de Prometeu
e da próxima prometo que te encho a Alma
até ao útero.


Além do mais, o Márcio Alves Candoso - é preciso dizer isto - não tem uma enorme devoção por Homero, ou por Virgílio, ou por Cícero, ou por Hesíodo ou até por Juvenal, de quem herdou tantas comichões. O que não deixa de ser estrondosamente divertido, porque os versos dele são construídos daquela forma tão antiga como a literatura, em que os adjectivos passam rapidamente a substantivos por serem prodigiosamente poderosos e de tal forma colocados no seu perfeito lugar frásico que realmente fazem romba a navalha de Occam. Há em Marte Bendito, por exemplo, o claro sabor clássico de Camões (embora remixado numa versão Ridley Scott):

E a mim, Marte, chegaram os humanos
Em dia obscuro, com pesados instrumentos
O tormento que passaram foi bem claro
Mas recebi-os e aos sorrisos que então deram.
Que ao passar nesta atmosfera onde me empenho
Em mares que eles nunca ultrapassaram,
Só lhes deixo este conselho, que é fecundo
Bem vindos, a outra terra, a outro mundo!


E depois, claro, sempre conseguimos encontrar nesta proverbial maneira de dizer coisas absolutamente não proverbiais, o escárnio de um escrevinhador furioso que não tem medo de ninguém - e neste caso, podemos bem dizer que o homem é a sua literatura e vice-versa:

Livro, sou mais livre e tu definhas
como os teus secredos publicados
em linhas tortas.  


“Quando Tudo Era Tanto” é uma espécie de manual de sobrevivência para as gerações vindouras, exactamente da mesma forma que o protocolo diplomático dos Xogun do século XVI, no Japão momentaneamente tolerante para com jesuítas e outros alienígenas, ajudou bastante a burocracia imperial do país no fim dos anos novecentos: ou te adaptas ao sexo oral que cada cliente exige ou vais à guerra. Nem é preciso dizer que nos versos que aqui encontrarás, gentil leitor, está todo o conflito bélico entre aquilo que o homem quer e aquilo que o homem tem. E se aquilo que o homem tem são uns quantos poemas (não necessariamente os que desejaria, mas os que estão escritos), será talvez melhor que sejam impressos. Será talvez melhor que sejam lidos.

Viste o filme? Corta agora! E manda publicar a fita.

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Paulo Hasse Paixão
Março de 2017

segunda-feira, outubro 14, 2019

Não há vida sem acto criador.

Ainda sobre o assunto do último post, o genial (é dizer pouco) James Tour, químico pós graduado em Perdue, Doutorado em Standford e Professor de Ciência de Materiais e Nano-Engenharia na Universidade de Rice, explica com enorme eloquência porque é que a ciência contemporânea chega facilmente à conclusão que existe um Criador por de trás da Criação.
Aconselho vivamente a toda a gente os próximos cinco minutos deste vídeo. A sério.



"Organisms care about life. Chemistry, on the contrary, is utterly indifferent to life. Without a biological derived entity acting upon them, molucules have never been shown to evolve toward life. Never."

James Tour . The Mistery of the Origin of Life

A pergunta fundamental.

Aos 52 anos, chego à conclusão que a questão ontológica fundamental é esta: pode a ciência provar a existência de Deus?

Stephen Meyer, filósofo e director do Discovery Institute's Center for Science and Culture dá um contributo muito sério para uma eventual resposta à minha prioritária pergunta. Quem tem interesse na relação entre a ciência e a religião, deve prestar a esta palestra a atenção que ela merece.

quarta-feira, outubro 09, 2019

Junk pop e os cientistas do vício.

O sacaninha do Rick Beato consegue por-me a ouvir coisas deliciosamente intragáveis, como esta aqui:



Mabel . Don't Call Me Up

É claro que este blog não costuma abrir janelas para o pop mainstream americano, espécie de junk food para os ouvidos que não consola nem eleva, mas que tem, aqui e ali, um encanto imediatista que é difícil de resitir. A excepção à regra deve-se ao Rick e ao eloquente vídeo que explica porque raio é que esta música da Mabel funciona cientificamente como um Big Mac melódico que sabe bem nas primeiras dentadas e deixa remorosos no estômago da sensibilidade.


segunda-feira, outubro 07, 2019

Thunderstruck rednecks.

Ou como os AC/DC podem ser revistos por uma banda folk. Brilhante.



Steve'n'Seagulls . Thunderstruck

Uma República pela metade.

Com a desonrosa excepção do CDS, que Cristas reconduziu espectacularmente à condição de partido taxista, toda a gente ganhou as legislativas de ontem. O PS, como era expectável, o PSD porque o inenarrável Rui Rio conseguiu escapar à mais que merecida humilhação (e isso, para a criatura, é em si mesmo uma vitória retumbante), o Bloco porque sim, porque é o Bloco e porque o Bloco é  por natureza um triunfo (como o dos porcos do Orwell), o PCP como sempre (não há memória de um partido comunista sair derrotado de um acto eleitoral que seja e é por isso que, historicamente, o comunismo sempre procurou anular rapidamente o fastidioso acto eleitoral), o PAN porque é um fenómeno poltergeist, o Chega porque é insuportável e isso sempre dá votos, o Livre porque quer ser o Bloco quando for grande e a Iniciativa Liberal porque ainda há gente em Portugal (muito pouca) com algum optimismo e inocência bastante.

É mais que nítido, no entanto, que o resultado verdadeiramente significativo da fantochada eleitoral foi a abstenção, que obteve uma esmagadora maioria, segundo o critério de Hondt. Na altura que escrevo este post, 4,5 dos 10 milhões de eleitores registados ignoraram completamente o assunto da governação do País (eu também). E se somarmos à abstenção os votos brancos e os votos nulos, ficamos com quase, quase 50% para cada lado: uma República partida pela sua metade. Mas pelas caras sorridentes que vi, horrorizado e durante dez segundos, na televisão, pergunto-me: até que ponto é que os desgraçados intérpretes desta República vão continuar a assobiar para o lado, como se nada fosse? Qual é a percentagem de abstenção necessária para que esta corja perca a vergonha e reconheça o problema da legitimidade democrática e institucional que realmente existe? 60%? 70%? 80% de abstenção? Não creio. Depois de 45 anos de descaramento, a rapaziada formaria governo com 10 mil votos apenas. E de cara alegre, como sempre, porque o poder, mesmo que ilegítimo, é sempre um festival de contentamentos.

Tenho 52 anos. A minha vida está estabilizada e eu gosto dela. Não nutro, por isso, grandes desejos de revolução. Mas desconfio bem que esta cambada de palhaços ricos vai acordar um dia para uma muito desagradável surpresa. É uma questão de tempo. O tempo necessário para que a indiferença se transforme em ira.

domingo, outubro 06, 2019

Os patrões do rock contemporâneo estão de volta.

Inacreditavelmente, só me apercebi ontem que os Black Keys editaram um novo disco, sendo que a Obra foi lançada em Maio deste ano. Imperdoável lapso. Ainda não ouvi o disco, confesso, mas fica já aqui uma malha, embrulhada num clip super divertido, principalmente se considerarmos a ironia do enredo. É que, ao contrário do que vemos no clip, Dan Auerbach e Patrick Carney são os melhores amigos de que há registo na história da humanidade e, teórica e praticamente, incapazes de uma zanga que seja.



A prova da afirmação polémica com que termino o parágrafo anterior é esta deliciosa entrevista que os dois bons e velhos camaradas concederam a Joe Rogan, no mês de Setembro último. Bem sei que, como todas as entrevistas de Rogan, a coisa se estende muito para além do razoável, mas que vale a pena, lá isso vale.


Em busca da matéria perdida.

Uma equipa constituída por cientistas e engenheiros de todo o mundo está a construir no Arizona uma espécie de telescópio 3D - o DESI - que irá permitir, talvez, a detecção e identificação da energia negra, a força que constitui 27% da matéria cósmica e que é responsável pela expansão, a um ritmo exponencial, do universo e à sua alucinante perda de densidade. Se a complexa máquina experimental der resultados, comprovará que o modelo standard da física contemporânea ainda serve para alguma coisa. Caso contrário, mais vale começarmos do zero.
A ver vamos.


sexta-feira, outubro 04, 2019

Bom apetite.

No contexto da histeria colectiva a que chegámos com a versão Século XXI do apocalipse climático (e eu lembro-me bem de ser ameaçado até ao desespero com os vários apocalipses climáticos do século XX), isto já nem espanta:


quinta-feira, outubro 03, 2019

terça-feira, outubro 01, 2019

Um buraco inventado.

Parece que não sou só eu que tem muitas dúvidas sobre a credibilidade científica da recente e famosa imagem atribuída a um buraco negro. E outrossim parece que estou bem acompanhado ao desconfiar que esta imagem não corresponde de todo a qualquer buraco negro pela simples e muito provável razão de que os buracos negros nem sequer existem. E, se calhar, seria uma boa ideia fazer prova de que eles existem pelo recurso ao bom e velho método científico e não através de uma imagem que se faz circular, com euforia espampanante, nas capas dos jornais de todo o mundo. O Professor Pierre-Marie Robitaille elabora sobre o assunto. E ele sabe do que fala.


quarta-feira, setembro 25, 2019

Rock on, Rick.

Rick Beato. Músico, compositor, professor, produtor, youtuber, mas sobretudo, amante de música. E no canal dele percebe-se bem o romance. Num dos segmentos que edita com regular persistência e apaixonada veia, "What Makes This Song Great", Beato explica muito bem explicado porque é que a mais épica das malhas já inventadas pelos Queens of the Stone Age, "Nobody Knows", é assim tão malha e é assim tão épica. Escolhi este vídeo porque, claramente, gosto tanto da música como o alegre youtuber. Mas qualquer melómano curioso vai de certeza encontrar a desmontagem fascinante de uma canção de vida, nos sessenta e tal episódios desta série. Beato adora o que faz e o que faz brilhantemente é ensinar música. E irradiar uma deveras consoladora pedagogia do gosto. Programa de televisão do momento.




domingo, setembro 22, 2019

Porque sim.



Van Halen . Runnin' With Devil

domingo, setembro 15, 2019

From dusk till dawn.



Som da Frente.

O bom do António Sérgio ia de certeza passar estes putos, depois da uma da manhã, na Rádio Comercial de 1992.
E isto não é dizer pouco.



Winterbourne . Too Many

quinta-feira, setembro 12, 2019

Patologia americana.

Este tweet do New York Times dedicado à traumática e dramática efeméride de ontem é eloquente sobre o momento insano que atravessa o panorama político - e jornalístico - americano. Afinal, foram os aviões que decidiram, há 18 anos atrás, rebentar com as Torres Gémeas. Os aviões é que são os terroristas. A ideia de que aos comandos dos aviões estavam uns tipos muita porreiros a quem costumamos (costumávamos?) chamar radicais islâmicos e que esses tipos muita porreiros é que foram responsáveis pelo horror, é uma teoria da conspiração sem pés nem cabeça. Porque os aviões é que são os culpados. Os aviões, ouviram?
O tweet foi rapidamente substituído por um ligeiramente menos ofensivo, mas ainda assim, convenhamos: há aqui um fenómeno nitidamente patológico.

terça-feira, setembro 10, 2019

Elogio da solidão.

Desde criança que sempre apreciei a solidão. Convivo bem com ela porque sei, sempre soube, que faz parte grande e importante da vida. É a solidão que me permite escrever, trabalhar, pensar. É quando estou só que o meu raciocínio se aprofunda, que a análise que faço de mim e dos outros é mais certeira. Sou uma pessoa de companhia, claro. Gosto da componente social e conservo, apesar de tudo, muitos e bons amigos com quem adoro estar. Com quem adoro conversar, beber uns copos, desabafar, rir, confessar ridículos e partilhar glórias. Mas tenho a convicção sólida de que a saudável convivência social só é possível quando sabemos ficar a sós. Quando aproveitamos a solidão para um melhor entendimento do mundo. E para a superior exploração do nosso potencial. E pelos vistos, Alain de Botton e os senhores da notável The School of Life concordam comigo. Pelos vistos, na minha opinião sobre a solidão, não estou sozinho:


Bandeiras erradas.

Em Hong Kong, os manifestantes erguem a bandeira americana, como uma tocha libertária. Em Boston, os militantes da Antifa queimam-na, como um símbolo do mal absoluto.
Manifestantes e militantes estão equivocados, claro. Uns deviam levantar a britânica Union Jack, que lhes ensinou a liberdade. Os outros deviam parar de queimar bandeiras, ponto. E dirigir essa energia antifascista contra as repúblicas que realmente expressam o mal absoluto. Dou ideias: República Popular da China, República Islâmica do Irão, República Bolivariana da Venezuela, República Árabe da Síria, República Popular Democrática da Coreia, República de Cuba, República da União de Myanmar, República Centro-Africana, República da Libéria, República Federal da Somália, e etc.

sábado, setembro 07, 2019

O triunfo de Cid.

Enquanto em Portugal não nos cansamos de promover a mediocridade profunda dos diversos Tonis Carreira que infectam a música popular, não deixa de ser irónico que os senhores da National Academy of Recording Arts and Sciences se tenham lembrado (a minha alma está parva) de atribuir a José Cid um mais que justo Grammy, que premeia a sua poderosíssima carreira como compositor, letrista, intérprete e impenitente romântico. Cid é, talvez a par de Zeca Afonso, o grande criativo da sua geração. E mantém ainda hoje, com a heroica idade de 77 anos, uma intensa actividade ao vivo, esgotando concerto sobre concerto nos mais diversos palcos.
Muito de vez em quando, neste mundo esquizofrénico, acontece algo que faz sentido. E celebrar o talento de José Cid faz todo o sentido.



José Cid . Morrer de Amor . 1981

Quando eu te conheci eras criança
Vivias no teu mundo de ilusão
E nem sequer sonhavas que poderias ser
A causa principal desta canção
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

E o tempo foi passando lentamente
Mas não morri de amor, sobrevivi
Foi-me invadindo a alma uma tristeza imensa
Que ditou a canção que te escrevi
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti.
 

Ah morrer de amor
É bem melhor do que viver a vida sem te ter
A morrer de amor
É bem melhor do que viver sem ti

domingo, setembro 01, 2019

Haikus da Baía #6


O discurso atónico de Jordan B. Peterson
cruza-se com os gritos assíncronos
das gaivotas.

Tudo converge numa sonata antiga.


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Os meus tímpanos conseguem discernir,
aqui e ali e ao longe,
o rotor de um ar condicionado,
o escape de uma motorizada,
o queixume de uma gaivota.

Mas aqui quem manda é o deus
do silêncio.


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A arte do haiku não está na sua
síntese,
mais do que reside na sua
permanência.


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Sermos todos filhos do mesmo
deus menor,
não nos faz iguais na nossa pequenez.


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Se um mero mortal sofre infernais labores
para apenas sobreviver,
imaginem a carga de trabalhos que é necessária
à imortalidade.


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O YouTube grita, grita,
mas não convence como a eloquência
deste fim de tarde.


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Chego à falésia
no feliz momento da retirada dos outros.

A idade é muito sábia.


_____
 

Sabes que tens um dia pacífico à tua frente
quando até a maré da manhã
faz silêncio.


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O haiku amanhece na minha cabeça
como um ataque de preguiça traz crepúsculos
aos meus ossos.


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Como seria ético
um universo sem moscas.


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Do outro lado da bússola,
o Atlântico protesta com furacões de grau cinco.

Deste lado, não.



 

Elogio do riff.

No meu modesto entender, a guitarra eléctrica é mais um instrumento de riff do que de solo. Para solar, há instrumentos mais prolixos e sensíveis, como o violino ou o piano ou a voz humana. Mas só a guitarra eléctrica consegue inventar acordes redundantes, extremamente poderosos, como estes aqui:



Chamo a atenção do gentil audiente para o facto de que este riff é de tal forma bem sucedido e eloquente que invalida a necessidade de um solo, numa música que em tudo o resto conserva inteirinha a tradicional arquitectura do rock. 

Idlewild . All These words

Comédia de culto.

Dave Chappelle, outra vez. Agora numa hilariante dissertação sobre o estranho caso de Jussie Smollett. E-s-p-e-c-t-a-c-u-l-a-r.


sábado, agosto 31, 2019

A verdade sobre os automóveis eléctricos.

Os governos, a imprensa e as próprias marcas continuam a mentir descaradamente, mas a verdade é que um automóvel eléctrico não é muito mais amigo do ambiente que um automóvel convencional. A diferença é quase nula, principalmente nos países que produzem electricidade a partir do carvão, como os Estados Unidos da América. Senão vejamos:

quarta-feira, agosto 28, 2019

Dave Chappele parte a loiça toda.

O inconformado - e corajoso - comediante Dave Chappelle tem um novo espectáculo a bombar na Netflix, Sticks & Stones, que é absolutamente demolidor, num momento da história em que é preciso ter muito cuidado com as palavras e é por isso que a comédia contemporânea é um cadáver absoluto. E é por isso que recomendo absolutamente a performance do homem. Se és de esquerda vais rir e vais sofrer. Se és de direita vais sofrer e vais rir. É bardoada, curta e grossa - e frequentemente hilariante - para todo o lado do espectro sócio-político. Vejam só este bocadinho, para abrir o apetite:



Um gajo indignado grita do balcão: "And what the fuck are you gonna do if Trump gets reelected?" 
Chappelle responde: "I'll probably get a significant tax break."

terça-feira, agosto 27, 2019

Em busca do tempo perdido (ainda e sempre).

Um pertinente e sossegado clip da School of Life, para acalmar os nervos e preparar as férias.


Haikus da Baía #5

A minha mulher passa tardes de tempo
entretida com um complicadíssimo jogo de gomas.
(Perante a complicação de um jogo de gomas ficas a saber
que nunca serás um intelectual).


______


 
Fim de tarde e a baía adormece,
mas as gaivotas ainda discutem.

O silêncio, paz de pássaros,
virá com a lua cheia.


______



A beleza de um parque de estacionamento
está na cara do condutor que encontrou
um lugar para estacionar.



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A gaivota é um bicho stressado.
Até para as aves a vida é difícil.


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O vento precisa da árvore para ter voz
e a árvore precisa do vento para ter vida.

A natureza não brinca em serviço.



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A baía é um triunfo.
Todos os dias vence sobre o caos.


______



Quanto mais vezes testemunho o decaimento do sol,
melhor entendo a razão de Deus.


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Sobre o valor do dinheiro estamos todos de acordo,
mas quanto vale em euros
esta tarde de Julho?


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De tanto escrever haikus do alto da falésia,
fico com vertigens.





terça-feira, agosto 20, 2019

Novas harmonias vampirescas.

Os Vampire Weekend regressam com "Father of the Bride", um disco feito nitidamente à revelia do habitual registo da banda, mas que soa muitíssimo bem. Senão ouçamos:



Vampire Weekend . Harmony Hall

Serviço de Emergência.

A prova que a Teoria da Emergência, de que já falei aqui no blog, está a ganhar tracção na comunidade científica, é este vídeo da respeitável Quanta Magazine, que tenta, com algum sucesso, a difícil missão de sintetizar uma tese super complexa em 3 minutos e meio.


domingo, agosto 11, 2019

Completamente.

Jeremy Clarkson nunca se cansa de ser um herói dos antigos. E neste pequenino e brilhante manifesto está a demonstração de que nem toda a gente ensandeceu. Ainda há uns quantos sobreviventes que permanecem lúcidos. Mas até quando?