terça-feira, outubro 20, 2020

A discoteca da minha vida #71: "Black Market Music", Placebo

 

"It's your fault that God's in crisis"

Se a minha lista de discos fabulosos fosse minimamente justa, os Placebo já tinham subido ao palco no século XX, só que o objectivo desta humilde iniciativa não é a justiça, mas o egocentrismo, e o disco fundamental desta banda, no contexto da minha vidinha, é o terceiro: "Black Market Music", lançado no redondo ano de 2000.
Os Placebo configuram um género de fenómeno poltergeist, mas ao contrário: sendo que a intenção de Brian Molko é inevitavelmente a de assustar a audiência com uma visão do mundo e da existência humana que deixaria Jean Paul Sartre meio envergonhado, a verdade é que o resultado final, muito por culpa dos acordes de Stefan Olsdal, é contraditoriamente elevado e inspirador. Da cave berço de todos os pesadelos, somos rápida e energicamente transportados pelo elevador da glória ao terraço de todas as possibilidades. A música desta malta é só aparentemente um elogio da eutanásia. Quando os ouvimos melhor, quando entramos neste universo denso e difícil e picaresco, percebemos que afinal se trata de um processo de redenção. "Black Market Music" não foi feito para incentivar o suicida, foi feito para o convencer a permanecer vivo. Sim, a vida é fodida. Sim, vais ter que aprender a lidar com o sofrimento. Sim, vais aparecer com um olho negro na entrevista para o emprego mais importante da tua vida. Sim, vais levar com um valente par de cornos, ou dois. Sim, os teus pais isto e aquilo. Sim, às vezes dá a sensação que há qualquer coisa de profundamente errado contigo. Sim e ainda assim: continua. Passivo-agressivo, deprimido-coitado, desperdício ontológico na sarjeta do inferno. Continua. Até que os deuses te obriguem a devolver os átomos que pediste emprestado ao universo, pega numa guitarra e continua.
Placebo. Estes rapazes não são bem uma banda. São o diabo de um monumento ao rock.

segunda-feira, outubro 19, 2020

O herói improvável.

Na etapa de ontem, a mais difícil do Giro até ao momento, João Almeida perdeu tempo para o seu mais directo adversário, Wilco Kelderman, mas, ao conservar a liderança da prova num esforço solitário e hercúleo pela cruel subida de Piancavallo acima, deixando gente consagrada como Nibali e Majka e Bilbau para trás, provou em definitivo que é um voltista e que, nos próximos anos, vamos ter um português a bater-se com os melhores profissionais do circuito internacional de ciclismo. Se o João tivesse nem que fosse um só companheiro de equipa com ele nesta derradeira subida, as coisas teriam sido muito diferentes e eu estaria aqui a prever uma vitória portuguesa no Giro. Mas a Quick Step, sendo a equipa mais vitoriosa da primeira divisão do ciclismo mundial, não está programada para ganhar competições de 3 semanas e não trouxe escaladores que acompanhem a pedalada necessária, até porque ninguém esperava que o puto de 22 anos das Caldas da Rainha tivesse pernas e condição anímica para liderar a prova, à entrada para o seu último terço.

Seja como for, temos herói. Isso é garantido.
 

domingo, outubro 18, 2020

On Planet Dune #03


 

A discoteca da minha vida #70: "The Hour Of Bewilderbeast", Badly Drawn Boy



Setenta discos depois de ter aceite o convite do meu amigo Carlos Rafael, que apenas solicitava a eleição de dez, lá consegui chegar ao século XXI, nada mau.
E o primeiro longa duração deste século por acaso até é um daqueles que amo muito, muito especialmente: "The Hour Of Bewilderbeast", da inspirada autoria do Rapaz Mal Desenhado.
Há tanta coisa, há tantas músicas que adoro neste disco que nem sei como começar. Damon Michael Gough, aka Badly Drawn Boy, é o género de músico e compositor que nasceu para fornecer generosas doses de contentamento e consolação àqueles como eu, que gostam de canções bem dispostas, bem ritmadas, criadas para fazer as pazes com a vida enquanto testamos a agilidade das articulações, porque ninguém consegue ficar mal disposto, ou estático, enquanto ouve "Once Aroud The Block", por exemplo.
O disco, que por acaso até é o primeiro deste simpatiquíssimo autor, vale por uma embalagem extra-grande de Prozac. Vale por não sei quantas curas para a ressaca. E o bom do Damon há-de ter um lugar já reservado no paraíso, por ter feito, com a sua jovial veia, tanta gente feliz.

A discoteca da minha vida #69: "Jesus Life for Children Under 12 Inches", Kid Loco


Para acabar o século XX com um desabafo minimal e repetitivo: Kid Loco e o seu terceiro longa duração, "Jesus Life for Children Under 12 Inches". Porque sim. 

quarta-feira, outubro 14, 2020

Bach. Como deve ser tocado.

 
Xaver Varnus plays Toccata and Fugue in D minor on the great Sauer Organ of the Berliner Dom. Recorded live on the Opening Night of the "Berliner Internationaler Orgelsommer 2013".

terça-feira, outubro 13, 2020

Epitáfio

A minha vida são dois dias:
fui parido a tantos do tal,
serei enterrado no prazo normal.
Vivi a mais sinóptica das biografias,
história sem memória e voz sem audiência.
Nunca exerci poder ou trafiquei influência
e já dentro da idade foi a mediocridade
que me conservou a inocência.

Não fiz filhos por cautela
e evitei sarilhos como a febre amarela;
não sofri torturas nem conjurei vilanias.
A minha vida são dois dias
mas com uma noite apenas:
aquela em que cai cansado, enrolado enfim
no colchão das penas
que tenho de mim.

A minha vida são dois dias:
aquele em fui nado,
aquele em que serei terminado.
Não provei doce glória ou exagerei alegrias
e às tragédias fui poupado.
Amei esporadicamente e esporadicamente fui amado;
dança de um só passo que no silêncio deste espaço
não há tango nem fado.

Deixo a mais sintética das biografias:
não fui senhor, não fui criado,
nasci em Portugal e em Portugal serei sepultado.
A minha vida são dois dias
de horas céleres e vazias;
nunca me aconteceu nada de especial,
foi discreto o meu astral
e morrerei de um qualquer mal.

A minha vida são dois dias
mas com uma noite apenas:
aquela em que adormeci ferido
na mais doce das arenas
e sonhei romano com o ser humano
que podia ter sido.

Que raça de coisa gira é esta?

O último disco dos Neighbourhood é de difícil entendimento para a inteligência dos ouvidos. Ainda não percebi bem se é um fracasso ou um triunfo. Tenho que ouvir mais vezes. Mas esta música aqui, que explica bem o carácter híbrido de "Chip Chrome And The Mono-Tones", mata-me completamente.



The Neighbourhood . Lost In Translation

A Scotland Yard como polícia política.

Numa entrevista à BBC, o youtuber Darren Grimes disse que  escravatura não é o mesmo que genocídio. Vai daí, a Scotland Yard abriu uma investigação sobre o rapaz, por alegada intenção de fomentar o ódio racial.

Podemos concordar com Grimes ou não. Eu por acaso não concordo. Concordo porém com o direito que ele tem de pensar assim ou assado e de dizer o que lhe apetecer. Ao direito que temos de pensar assim ou assado e de dizer o que nos apetecer chamamos livre arbítrio (ou liberdade de expressão, se quiserem). E o livre arbítrio é, em muitos casos, protegido constitucionalmente pela nações ocidentais.

O problema é que a constituição inglesa é consuetudinária (fundamenta-se no costume e não no formalismo de um documento escrito), o que sempre foi um ponto de honra para os bifes, enquanto o mundo vivia tempos normais. Como vivemos na mais absurda anormalidade, faz agora falta aos bifes um documento constitucional que proteja malucos como Darren Grimes. Porque chegarmos ao ponto em que a polícia abre investigações sobre cidadãos por causa da opinião que têm sobre isto ou aquilo parece-me, no mínimo e para não estar para aqui a irritar-me com as minha próprias palavras, preocupante.

Uma polícia que fiscaliza aquilo que as pessoas pensam e dizem é, necessariamente, uma polícia política. E só existem polícias políticas em estados totalitários. Logo, esta inacreditável decisão da Scotland Yard, que vem no seguimento de outras do género, coloca em questão a natureza do estado e do regime britânico.

Isto vai de mal a pior.

On Planet Dune #2











segunda-feira, outubro 12, 2020

A discoteca da minha vida #68: "Californication", Red Hot Chili Peppers

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As vermelhas e quentes cabeças de piri-piri podiam ter constado desta lista há que tempos, claro. Acontece que o melhor disco desta épica e gigantesca banda, na minha opinião muito discutível, só acontece no último ano do século XX e depois de duas décadas de boas tentativas. "Californication" é o apogeu da discografia imensa dos Red Hot. Ponto final, parágrafo.

Da glória dos atletas à infâmia dos jornalistas.

João Almeida e Ruben Guerreiro lado a lado numa foto que fica para a  história - Fotogalerias - Jornal Record

Ontem aconteceu um fenómeno poltergeist, no Giro d'Italia. No cimo do Roccaraso, Ruben Guerreiro ultrapassou Castroviejo para ser o segundo português de sempre a ganhar uma etapa no Giro, somando à vitória os pontos que são suficientes para passar a ser o novo proprietário da camisola Azzurri (líder da montanha). Para ajudar à festa, o espectacular João Almeida, que como já tinha avisado aqui, é um ciclista com grande futuro e que está a fazer um Giro absolutamente fenomenal (já lidera a prova desde a terceira etapa) resistiu a mais um jornada de alto nível de dificuldade, perdendo uns poucos segundos para alguns dos favoritos, mas garantindo a camisola Rosa (e a Bianca também, porque é o melhor classificado entre os sub 23) por mais uns dias, e ainda com uma vantagem mais ou menos confortável, de 30 segundos, sobre o segundo classificado, Wilco Kelderman, e de 1 minuto sobre Vincenzo Nibali, o favorito entre os favoritos. E se considerarmos que a etapa mais decisiva da próxima semana será provavelmente o contrarrelógio, que pode favorecer o ciclista português, é bem possível que João Almeida chegue às altitudes alpinas da terceira semana do Giro com uma vantagem um pouquinho mais expressiva. A ver vamos. 

Seja como for, para quem gosta de ciclismo, o dia 11 de Outubro de 2020 vai ficar bem na gravado na memória como um dos episódios mais importantes da história do desporto nacional. E devo confessar que vivi momentos de intensa emoção e pura alegria. Primeiro com o Ruben, depois com o João. Numa etapa só. Que pinta.

Resta uma nota sobre a merda de jornalismo que temos: no site da Bola, não há um destaque para o que aconteceu ontem. No site do Record é para aí a sétima notícia. No Público, é a nona notícia na página de desporto, porque na homepage, nada. No Observador, a homepage destaca este dia inesquecível depois de cinco notícias sobre o miserável jogo de futebol entre Portugal e a França, que eu não vi mas tenho a certeza que foi miserável como são todos os jogos de futebol da selecção nacional desde que é comandada pelo homem-depressão, rei do empata, grão duque da mediocridade, carrasco de qualquer hipótese de espectáculo, mais conhecido por Fernando Santos.

No caso do Observador, sempre recordista da imbecilidade e da infâmia, o triunfo de Nadal no Roland Garros tem mais destaque do que aquele timidamente oferecido aos feitos dos dois portugueses.
Entre um mau jogo de futebol, que termina num empate sem golos, o rotineiro triunfo de um tenista espanhol (deve ser para aí a décima terceira vez que Nadal ganha este torneio) e a glória dos dois ciclistas portugueses, os jornais optam pelo absurdo.  

Mas seria de esperar outra coisa?

quarta-feira, outubro 07, 2020

A discoteca da minha vida #67: "Gran Turismo", The Cardigans

Ainda na senda do fabuloso ano de 1998, chamo ao palco uma das minhas bandas pop favoritas de sempre e para sempre: The Cardigans. Se a Suécia foi capaz de parir qualquer coisa de decente depois dos Abba, foram estes cinco magníficos. Nina Persson, a vocalista fatalista, nasceu com o rabiosque virado para a lua, nitidamente, porque, para além de ser um borracho de cair para o lado, e de se apresentar como competente escrevinhadora de rimas, é senhora de uma voz cujo poder imenso está entre o erotismo e o pudor, entre o desespero e o apogeu romântico, num festival lírico capaz de arrepiar os pelos da nuca a qualquer eunuco. Mais a mais, podia contar com uma orquestra de bolso à altura, liderada por Peter Svensson, músico completo, produtor, compositor e géniozinho discreto que se entretém hoje em dia a escrever canções para que certos artistas mainstream, que nem nomeio porque são meio obscenos, ganhem grammys com fartura. Os próprios The Cardigans ganharam 4 destes infames prémios, entre muitos outros infames prémios, o que constitui talvez o seu único defeito.
"Gran Turismo", o quarto dos 6 trabalhos de estúdio, é um daqueles discos encantados, abençoados por deus e lindíssimos por natureza, concebidos num máximo momento de inspiração e que vivem, por isso, para sempre. O que não é fácil, considerando que se trata de um trabalho de grande simplicidade, sem pretensões nenhumas nem gorduras de ambição desmedida. "Gran Turismo" é exactamente e apenas aquilo que quer ser: um descomprometido - mas eloquente - exercício de música popular.
E a prova da abismal competência dos The Cardigans é que podemos ouvi-los 22 anos depois sem correr o risco da decepção: continuam tão contemporâneos como eram. E elegantes como sempre foram.

On Planet Dune #1








A discoteca da minha vida #66: "The K&D Sessions", Kruder & Dorfmeister

No momento da história da música popular em que, como nunca, Berlim convivia com Buenos Aires, Londres com o Rio de Janeiro e Los Angeles com Bombaim, numa quase pornográfica salganhada globalista - archote do optimismo sem rédea desta década - os campeões do fenómeno, espécie de Dupont e Dupond do drum and bass, são dois austríacos: o rapaz Peter Kruder e o rapaz Richard Dorfmeister. Desde 93 que estavam a tentar substituir o chip do ouvido a muita gente, mas é com o seu quarto lp, "The K&D Sessions" que substituem definitivamente o meu. A partir daqui, passei a ouvir música de outra maneira. Ponto.
Os 21 temas desta obra de patinagem artística numa selva tropical constituem um cânone pós-moderno que noutras artes raras vezes encontrarás, porque o pós-modernismo é mais um movimento de destruição do que de invenção. Acontece que os Kruder & Dorfmeister conseguem fazer da destruição, uma invenção. Entre ressureições de temas pop, dissertações dub e viagens ao Brasil, "The K&D Sessions", de 1998, é um paraíso perdido. Como todos os paraísos.
Se está alguém desse lado que não conheça este disco, rogo que invista uns minutos de acuidade auditiva na versão genial de "Useless", dos Depeche Mode, que deixo em baixo. É, ou não é, um perfeito exercício de ritmo? É, ou não é, um sacana de um manifesto estético?
Kruder & Dorfmeister. Até o raio dos apelidos soam bem.

 

Nota: Como o Blogger tornou a edição vídeo num pesadelo, a apresentação da discoteca da minha vida teve que sofrer alterações e agora vai ser disco a disco, o que se calhar até é mais justo para os artistas.

sábado, outubro 03, 2020

Super fun steam speed.

Get woke, go broke: a queda da NBA.

"Republicans buy sneakers, too."
Michael Jordan

Se há fenómeno contemporâneo que me irrita loucamente, é o contágio entre a política e o entretenimento. Para além da histeria ideológica de Hollywood, da Netflix, da HBO, da Spotify e etc., o desporto foi também completamente contaminado com conteúdos políticos, que ainda por cima passam mascarados como verdades indiscutíveis e valores consagrados universalmente (como se todos tivéssemos que concordar com o movimento Black Lives Matter, por exemplo).

A NBA é talvez o exemplo máximo deste irritante e fraudulento fenómeno. Os multimilionários e super privilegiados profissionais da liga tentam desesperadamente passar por vítimas de racismo e de sexismo, amaldiçoando as virtudes da democracia que os enriqueceu e privilegiou enquanto pactuam desavergonhadamente com o totalitarismo do regime chinês (o dinheiro continua a poder mais que a ética, principalmente quando a ética é falsificada). Nos tempos que correm, é impossível vermos um jogo de basquetebol sem apelo à revolução. Os jogadores ajoelham-se durante o hino, em sinal de protesto contra sabe-se lá que ameaça terrível, usam camisolas com dizeres caricatos e frequentemente fundados em fantasias de extrema-esquerda, choram baba e ranho nas redes sociais de cada vez que a polícia prende ou mata um criminoso (desde que o criminoso seja negro, claro), cancelam jogos por não se sentirem seguros (como se eles próprios e a NBA não gastassem fortunas todos os dias em aparatos securitários que envergonham os serviços secretos destacados para a Casa Branca), enfim, a fantochada total levada ao máximo nível circense. E tudo isto entusiasticamente suportado pela própria organização da liga, que é mais papista que o papa e obriga os franchises a todo o tipo de iniciativas absurdas, desde a inserção no recinto de palavras de ordem que envergonhariam o Bloco de Esquerda, à imposição de normas linguísticas, o que corresponde, na prática, à censura de toda a opinião divergente da ortodoxia marxista barra justiceira social barra igualitária barra politicamente correcta. Para piorar um bocadinho mais este cenário orwelliano, os jornalistas e as estações televisivas que acompanham, relatam e transmitem a modalidade transformaram-se numa espécie de dois em um, dedicando-se afincadamente a misturar o comentário desportivo com o comentário político, sendo este último invariavelmente condicionado à opinião da liga e dos seus infelizes intérpretes. É muito possível, embora pareça impossível, ouvirmos um comentador da ESPN elogiar agora um afundanço de Lebron "Zedung" James e depois, como se a propósito, largar uma crítica à administração Trump.

Acontece que este movimento "woke" é descendente em termos de rentabilidade dos negócios. Há uma grande fatia da audiência que não está para ser aviltada por mensagens radicais, altamente divisivas e que nada têm a ver com o desporto. E o resultado está à vista: o primeiro jogo das finais da NBA deste ano foi o que teve a mais baixa audiência televisiva de sempre, na história da liga. Em relação às finais do ano passado, que também já tinham registado um gordo decréscimo, a queda foi de 44%. O jogo foi visto por sete milhões de pessoas, e se pensares, caro leitor, que sete milhões de pessoas é muita gente, posso-te dizer que há gamers no Youtube, como Pewdiepie, que têm maior audiência em cada vídeo que publicam. Nem é preciso dizer mais nada.

Este é o tipo de falência técnica que, num mundo normal, levaria as pessoas responsáveis pela liga a pensar duas vezes. Mas nada disso. Até que não reste pedra sobre pedra a NBA vai seguir este rumo autofágico. Muito simplesmente porque a destruição pela destruição é o sentido único, é o end game, da esquerda americana dos tempos que correm. No desporto, como em tudo o resto, interessa aniquilar o que fazia da América a América: os desportos profissionais, como a produção cinematográfica; a indústria automóvel, como a aero-espacial; a república federal, como a constituição; a história, como os seus grandes vultos. Só quando chegarem ao zero absoluto é que vão ficar felizes. 

Felizes entre as ruínas.

sexta-feira, outubro 02, 2020

The Epic Split ou a raridade de um bom spot publicitário.

Uma das indústrias mais afectadas pelo declínio criativo e artístico da civilização ocidental tem sido, inevitavelmente, a publicidade. É hoje muito raro vermos uma campanha decente ou um spot minimamente imaginativo. Eis uma excepção. E pelo que investiguei, o filme é realizado sem efeitos digitais nem truques escondidos que garantam a segurança de Jean Claude Van Damme. Além disso, o que se vende aqui é o produto, objectivamente (a precisão direccional da nova gama de pesados da Volvo). A ideia é muito boa, mas não abdica de servir perfeitamente o objectivo comercial da marca. É para isso que serve a publicidade e o marketing, afinal. Porque o que muitas vezes acontece é que nos lembramos de uma campanha, mas esquecemos rapidamente que produto pretende vender. E isso, não é publicidade. Isso é deitar dinheiro à rua.

sábado, setembro 26, 2020

Haikus da Lagoa Mar.



 


Onde é que acaba a lagoa
e começa o oceano?
O Flamingo sabe.



__


Nas dunas,
estás noutro planeta.

Passa um turista.


__


O Atlântico bate na praia
como um pai violento
e embriagado.


__


Ruge e roga pragas
o oceano zangado.
Para quando a paz?


__


Até os meus cães sabem
que esta terra
não é deles.




 

A paisagem pede versos
e eu estou a ficar
sem tinta.


__


No coração do Atlântico Norte
nasceu a onda que agora rebenta
nos meus tímpanos.


__


Outubro e
os flamingos rumam a sul.
Não são parvos nenhuns.


__


Podes ser amado pelos deuses,
mas no café és maltratado
como toda a gente.


__


O haiku já está escrito.
Eu limito-me a procurar por ele
entre as dunas.






 

Durante a madrugada
rolam tractores na praia.
O Atlântico faz mais barulho.

__



Às vezes sinto a presença de Deus.
Mas é raro.


__


50 quilómetros de praia virgem
sem 50 horas de aviação.


__


As ondas hoje estão simpáticas.
Para quem não vai
ao banho.


__


Há pessoas que gostam de levar porrada.
Das ondas.






 

A sós com a natureza.
Borro-me de medo.


__


Insectos.
Ataques de mau feitio
da Mãe Natureza.


__



A rã coaxa. O grilo canta. O mar protesta.

O silêncio vence.


__


O mundo podia cair em apocalipse
que eu aqui
nem dava por ela.


__


Esqueci-me do casaco em Lisboa.
Nortada.







 

Tremo e vibro e vou com a maré
na Praia da Costa
de Santo André.

quinta-feira, setembro 24, 2020

Como é óbvio.

Parece que um juíz federal americano chegou à conclusão óbvia para toda a gente de bom senso: num estado de direito constitucional, qualquer lockdown é uma iniciativa fundamentalmente ilegal.


terça-feira, setembro 22, 2020

Tugas no topo.

 

A propósito de momentos épicos, Filipe Albuquerque ganhou a categoria LMP2 nas 24 Horas de Le Mans, ao volante do Oreca nº 22 da United Autosports. E António Felix da Costa fez segundo, na mesma categoria. Dois portugueses num pódio de muito difícil acesso. Parabéns aos pilotos e viva Portugal, caraças.

50 minutos para a história.



Não é preciso gostar de ciclismo. Basta, por exemplo, ter interesse em história do desporto para ver e rever a última hora da etapa 20 do Tour de France, que se disputou ontem, em modo crono-escalada (contra-relógio de montanha). É o momento mais épico do desporto de alta competição do século XXI, isso é certo. O eslovénio Primoz Roglic, favorito dos favoritos, partiu para esta etapa convencidíssimo - como toda a gente estava convencida - que o Tour deste ano estava no papo. Tinha 57 segundos de vantagem sobre o seu compatriota Pogacar, um puto que faz hoje 22 anos e que, ao contrário de Roglic, que corre numa super equipa, pedalou sozinho entre os gigantes da prova durante boa parte, a parte da alta montanha, das três semanas. Enganou-se redondamente. Pogacar pedalou como um deus e deixou Tom Dumoulin, o segundo classificado da etapa, especialista no contra-relógio e outra super-estrela do ciclismo internacional, a mais de um minuto e vinte. Roglic perdeu um minuto e cinquenta e teve que despir a camisola amarela, engolir em seco e chorar um bocadinho. Desde o célebre duelo dos anos 80 entre Laurent Fignon e Greg LeMond que não se via nada assim. Já passaram 24 horas e eu continuo para aqui de queixo caído. Tadej Pogačar, na sua primeira participação nesta lendária prova, arrecadou, num esforço glorioso e espectacular de 50 minutos, a camisola amarela, a camisola da montanha e a camisola branca, tornando-se o primeiro ciclista desde Eddy Merckx a terminar o Tour com 3 camisolas no saco e o mais jovem vencedor desde 1904 (!). Acresce que a probabilidade de dois eslovenos disputarem a vitória na volta à França deve ser de um para dois mil milhões ou assim. Que coisa de doidos.
E ainda há gente que gosta de futebol.

sexta-feira, setembro 18, 2020

Soneto da Praia da Armona.



A ilha-língua estende-se em pitagórica bissectriz
Sobre os limites do horizonte e a orla do oceano.
O universo abre via verde e sorri solarengo o céu sano
Que mostra a sua virtude, longitude e matriz.

Faz uma tarde perfeita e na esplanada-imperatriz
Ameijoas e vinhos saúdam o queijo e a azeitona.
Erguem-se bravos os copos entre as dunas da Armona
E corremos atrás do barco que abordamos por um triz.

A ria vibra, a vida brilha, o sol perdura
e a dada altura levanta-se um sapiens que diz:
Até o caixote do lixo está feliz.

Percorremos livres o Portugal pequeno
de seno a cosseno e na tangente o sobrinho diz:
Até o caixote do lixo está feliz.

quinta-feira, setembro 17, 2020

A verdade que vem do frio.


Esta notícia é daquelas oportunidades que tenho para deixar de ser o prego e passar a ser o martelo. Não a posso perder.
Primeiro: alguém vai ser já despedido, no Diário de Notícias. Publicar a verdade neste jornal (como nos outros todos, mas muito especialmente neste) é algo de imperdoável e terá consequências sérias. Isso é certo.
Depois: tenho que chatear um bocadinho a malta que me partiu a cabeça, aqui no Facebook e noutros lugares, nos meses de março e abril e junho e julho e agosto (vocês sabem quem são). Sim, vocês malta adepta de confinamentos e entusiasticamente concordante com a retirada dos direitos mais básicos da civilização ocidental, terão alguma coisinha de pertinente a dizer sobre este muito incómodo e inconveniente facto sueco?
E a outra malta, a malta que desgraçadamente elegemos para tomar apenas as piores decisões, no exacto momento em precisávamos das melhores, reconhecerá porventura o imenso, histórico e, tudo indica, criminoso erro?
Claro que não.
Uns como outros permanecerão convictos das suas vilanias porque a realidade não interessa. O que interessa, para uns e para outros, é que a narrativa se mantenha firme e não altere as horas de sono nem as lógicas de poder. Custe o que custar.
Certo, rapaziada?

quarta-feira, setembro 16, 2020

My name is joe Biden and I forgot this message #n

Há um séria probabilidade deste débil, confuso e senil senhor ser eleito para presidente dos Estados Unidos da América. E caso não seja, há outra séria probabilidade: a da guerra civil.
Eis o mundo como uma conspiração de estúpidos.


A discoteca da minha vida: discos 61 a 65

#61 - A Maximum High - Shed Seven

1996. Shed Seven, a operática banda de York, edita o seu segundo trabalho de estúdio: "A Maximum High", que é factualmente uma pedra máxima no panorama apoteótico da britpop desse momento histórico. Não faltam grandes discos a essa apoteose; já inclui uns, já exclui outros, mas estes rapazes ficam. A sofisticação melódica, a energia incomensurável e a pretensão circense, que resulta encantadora, fazem dos Shed Seven um incontornável monumento-rock. E deste disco, uma ode de fim de século.
Are you going for gold?
Bum.




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#62 - Moon Safari - Air

1998. Dois franceses meio lunáticos que gostam de se entreter com sintetizadores analógicos lançam o seu primeiro trabalho de estúdio, a que muito apropriadamente decidem chamar "Moon Safari". A partir daqui, nada vai ser como dantes. A partir daqui há virgens suicidas e space pop. Há walkie talkies dançantes e lendas de 10.000 hertz. Há sinfonias de bolso e melodias inesquecíveis, de uma delicadeza inebriante. A partir daqui, há Air para respirar.
Disco iniciático.




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#63 - Prolonging The Magic - Cake

Os croonies do rock and roll atacam pela terceira vez em 1998: "Prolonging The Magic" é um ensaio cool, frank sinatrista, sobre o destino do pop rock alternativo. Uma piada privada, que só consegues entender se perceberes que o maior êxito dos Cake até aqui tinha sido um cover da Gloria Gaynor.
Embora neste caso seja fácil escolher o melhor disco da banda, é porém excruciante eleger uma música para a caixa de comentários, porque este disco encerra uma porrada de temas realmente poderosos, esplendidamente orquestrados e carregadinhos da ironia que é característica desta malta da Califórnia.
Estou a ouvir este magnífico disco e a pensar para comigo que os últimos anos do século XX foram musicalmente riquíssimos. E algo ingénuos. E uma coisa tem a ver com a outra.
Disco iniciático.




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#64 - International Velvet - Catatonia

Entra na discoteca da minha vida a galesa Cerys Matthew, proprietária de uma das mais belas e texturadas vozes dos anos 90. "International Velvet", o segundo disco dos Catatonia, é completamente um espelho do rock que se fazia na altura: vibrante e sensual, vociferante e confessional, tentando o equilibrio impossível entre a rebeldia e a fome de fama.
O vigor lírico das cordas vocais e dos poemas de Cerys, e o poder libertador da guitarra de Mark Roberts preencheram uma boa parte da dimensão acústica dos meus dias de fim de século. E é com alguma nostalgia que volto a ouvir estas explosões de talento e energia criativa.
Uma banda muito minha. Que eu adorava.
 
 
 
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#65 - Version 2.0 - Catatonia

Os Garbage não envelheceram bem, é verdade. Mas esta não é a lista dos discos que envelheceram bem, mas sim a lista dos discos da minha vida e "Version 2.0" tem que constar, porque o pop aveludado, meio decadente e deveras diletante desta banda constava absolutamente da grafonola ideal do fim dos anos 90. E este disco está repleto de malhas que arrendaram para sempre uns milímetros de residência no congestionado e caótico imobiliário da minha memória timpânica. Next.

terça-feira, setembro 15, 2020

O Prémio Nobel da Paz já não presta ou nunca prestou?

Correm tempos de tal forma esquizofrénicos que de repente podemos verificar que estamos perigosamente de acordo com os nossos inimigos. Recentemente, publiquei no facebook um post em que concordava com um artigo do obsceno panfleto propagandístico a que ainda têm a lata de chamar Washington Post. Quer dizer, concordava com a conclusão desse artigo, não com as razões que resultavam nessa conclusão: depois das eleições presidenciais de novembro, vai haver merda nos EUA. Hoje estou de acordo, da mesma forma, com este infeliz artigo do outrossim grotesco "The Atlantic".  Sempre achei que o Prémio Nobel da Paz é uma palhaçada sem nome. Já foram premiados terroristas. Já foram premiados ditadores. Estão constantemente a serem premiados imbecis. E todos, ou quase todos, com algo em comum: são gente de esquerda. O critério é ideológico e absolutamente parcial pelo que, por minha vontade, já devia ter sido cancelado.
Acontece que, como Trump tem este ano e até ver, duas nomeações para este triste e vergonhoso troféu, a esquerda quer já cancelar a coisa. E lá está: por razões simetricamente opostas, estamos todos de acordo. Creepy.

segunda-feira, setembro 14, 2020

Totalitarismo total.

Uma rapariga, grávida, é presa na Austrália por ter publicado um post no Facebook onde convidava os seus amigos a participarem num protesto contra o lockdown imposto pelo governo. Se isto não é tirania, não sei bem o que é tirania, afinal.


quarta-feira, setembro 09, 2020