quarta-feira, setembro 21, 2016

Arturo diz de sua justiça.

Arturo Perez Reverte. Um escritor que oscila frequentemente entre a obra-prima e a catástrofe literária, mas que tem sempre coisas esclarecidas e importantes para dizer.  E na recente e desassombrada entrevista dada ao Público e desastradamente conduzida por um tal de Paulo Moura (que se mostra incapaz de esconder a sua boçalidade), diz bastantes coisas dessas. Recomendo a leitura integral da entrevista (e muita paciência para a estupidez cavalar do entrevistador), mas deixo aqui um excerto que me parece mais eloquente.



PM - Os protagonistas dos seus romances são as grandes figuras históricas, ou indivíduos excepcionais, heróis. Mas a ciência histórica de hoje não dá tanta importância às figuras proeminentes como dá aos fenómenos sociais, económicos e mentais, aos povos.
APR - O povo fez a Revolução Francesa. Mas dirigido por intelectuais. O mesmo com a revolução russa. Sem personalidades brilhantes, carismáticas, não há possibilidade de que o povo faça algo de positivo. O povo, sozinho, não faz nada. Precisa de orientações e de líderes. O problema da Europa neste momento é que não tem líderes. O melhor que conseguimos é Merkel. Rajoy é um medíocre. Portugal está como está.
 
PM - Há também forças de contestação, de mudança. 
APR - O mundo não muda sozinho. Fazem falta mecanismos que impulsionem, e os mecanismos são pessoas, seres humanos inteligentes. 
PM - Não são as forças económicas, as massas… 
APR - Não, não. Pode haver forças, mas quem as orienta são os líderes, que criam os carris que devem trilhar a evolução da História. Se essa gente desaparece, e está a desaparecer na Europa, a História não encontra os carris, e dispersa-se, gasta a sua energia em nada. Fazem falta Hegel, Kant, Spengler, Aristóteles, Platão. 
PM - E fora da Europa, há esperança? As culturas asiáticas… 
APR - Eu sou ocidental. A minha cultura é esta, não me interessam as outras. De que me vale a cultura ascética, a cultura africana? Respeito-as, mas não são a minha. Não ma podem substituir. A minha cultura é esta e eu sofro com ela. 
PM - Mas falou da civilização da Bíblia, do Talmude, do Islão, de Homero. Não há portanto uma guerra de civilizações. 
APR - Há, sim. Hoje há uma guerra de civilizações, uma guerra social entre o Islão e o Ocidente. Porque o Islão é incompatível com a democracia. 
PM - O islão, ou os radicais islamistas? 
APR - O Islão. É incompatível com os nossos valores. Repare, o comunismo fracassou no Islão.
PM - Também fracassou no Ocidente. Fracassou em todo o lado. 
APR - Sim, mas sobreviveu algum tempo. O Islão é incompatível com a democracia. 
PM - A história do seu livro mostra como já no século XVIII o Catolicismo era incompatível com as Luzes e a Razão. 
APR - Sim, mas no Ocidente lutámos contra isso. Houve uma grande e sangrenta luta para nos livrarmos das grilhetas que a Igreja Católica nos impôs. No Islão não houve essa guerra. E nós não podemos agora renunciar a séculos de luta pelas liberdades e direitos. Para que a minha filha possa usar minissaia na rua, ou o teu filho possa dizer ‘Me cago em Deus’, sem que o executem como blasfemo. Custou-nos muitos séculos de sofrimento, de guerras e de mortos. Mas eles não o fizeram.  
PM - Mas a civilização europeia é constituída também por elementos da civilização islâmica. 
APR - Isso é outra coisa. Portugueses, espanhóis, italianos, franceses vimos de uma civilização que esteve em contacto com o Islão. E o Islão deixou-nos coisas, tanto no sangue como na cultura, depois de muitos séculos. Mas essa herança islâmica evoluiu connosco. Tal como a herança cristã também evoluiu. 
PM - Isso não prova que o sistema democrático poderia hoje integrar várias culturas e religiões, incluindo o Islão? 
APR - Não é possível. É compatível com a democracia que, por exemplo, uma mulher não possa ser tratada por um médico homem? Não, o Islão não vai mudar, e é incompatível com a democracia. 
PM - Vamos então ter uma guerra de civilizações, como no tempo das Cruzadas? 
APR - Já estamos a ter uma guerra de civilizações. Com uma diferença importante: é que desta vez vamos perdê-la.
PM - Porquê? 
APR - Porque o Ocidente é débil, medíocre, cobarde. Tenta ser politicamente correcto, é velho, gordo, acomodado, cheio de tecnologia. Enquanto o Islão tem fome, tem rancor, tem ódio, tem juventude, tem tomates. Não tem nada a perder, e tem muito a ganhar. Por isso vamos perder a guerra. Mas não merecemos ganhar. 
PM - A civilização ocidental, democrática, vai desaparecer? 
APR - Sim. Dentro de 20 anos, chegarão os fascismos. Haverá movimentos neo-nazis vitoriosos por toda a Europa.
PM - Chegarão ao poder por via eleitoral? 
APR - Sim. As pessoas vão escolhê-los. Mas eu já não vou cá estar, já não me importa.

quarta-feira, setembro 14, 2016

segunda-feira, setembro 12, 2016

Pop na super caverna.



James Supercave . Better Strange

domingo, setembro 11, 2016

Summer Chill.


Foto de Frederico Romero Paixão

Setembro


Quando o verão está a acabar, começa o que tem de melhor o verão.
Há calor e silêncio, há a multidão que regressa e eu que parto
para onde a multidão esteve e já não infecta
o calor e o silêncio.

Quando o verão está a acabar, o Cabo Espichel manda uma ventania
diferente. A luz é outra e um gajo pega na merda do telemóvel e tira
uns bonecos especiais.

Quando o verão está a acabar, a baía, toda vaidosa, despe-se só para mim
e faz questão de caprichar ao entardecer, talvez por causa do rosé,
talvez porque deus me está a dizer: continua.

Quando o verão está a acabar, há mais sol para amadurecer uma amizade recente;
há mais marés para mergulhar a cumplicidade de amizades antigas;
há mais praia para que o vento me escalde a pele
e para que a água me enregele os tomates e há sobretudo
tempo ainda para que consiga escrever uma porcaria
de um poema.

Quando o verão está a acabar, surge a santa a oportunidade de fazer
lua de mel com a mulher com que sempre fui casado e de fazer
um irmão a partir de um sobrinho e de fazer
amor com a vida.

Quando o verão está a acabar, nasce a tranquilidade que é precisa para fumar
cachimbos da paz
e para ser o filho que devia ser
no Inverno.

Quando o verão está a acabar, fico muito mais próximo da lua e as estrelas
acarinham-me com intermitências secretas e o cosmos revela-se enfim,
liberto dos seus eternos e, às tantas, aborrecidos enigmas:

Eu estou aqui. Sou insignificante, mas sou um gajo. Chamo-me Paulo Hasse Paixão.
E por isso, sei de onde venho. Não sei para onde vou, claro, mas neste preciso momento
estou-me completamente nas tintas porque já bebi uns copos e porque o verão está a acabar
e essa é a parte que eu gosto mais do verão.
Estou bem disposto. Não quero morrer.
E é assim.

domingo, agosto 21, 2016

Olímpiadas outra vez, ou o que diz Pimenta.



Hoje, na final dos 800 metros femininos correram dois homens. Não me digam que Caster Semenya, da África do Sul e Margaret Wambui, do Quénia, são mulheres, porque não são. Como seria de esperar, os dois senhores conseguiram a medalha de ouro e a de bronze, respectivamente. Por estas e por outras, o atletismo olímpico tranformou-se numa espécie de freakshow, muito desagradável à vista e absolutamente imoral. O Comité Olímpico correu com os russos por causa do doping (como se os russos fossem os únicos a drogar-se), mas permite que homens compitam directamente com mulheres; e que canadianoss que já foram polacos corram agora pela Argélia; e que a equipa feminina americana dos 100 metros estafetas, que nas meias finais falhou a segunda passagem de testemunho, volte a correr, isolada na pista, para garantir um lugar na final; e que os aletas se apresentem nas provas carregados dos artefactos mais obscenos, dos penteados mais estrambólicos e das maquiagens mais estapafúrdias que se pode imaginar, num festival de mau gosto que só tem paralelo na presença medieval das atletas de alguns tristes países muçulmanos, que envoltas pelas suas burkas cumprem marcas que já eram ridículas quando os jogos da era moderna começaram. Por incrível que possa parecer, os mínimos olímpicos não são iguais para toda a gente, sendo que o COI reserva o direito de aplicar critérios étnicos e não desportivos nas regras de acesso aos Jogos.

Entretanto, Fernando Pimenta, o canoísta português que primou por não trazer qualquer medalha para casa, afirmou que as pessoas que criticam a prestação dos atletas nacionais não percebem nada do que é o desporto e dos sacrifícios que os atletas fazem para estar presentes nas várias modalidades em que são desgraçadamente mal sucedidos. Diz Pimenta que, enquanto as pessoas estão no sofá domingueiro, ele, coitado, está no rio a esfolar-se todo para conseguir ser medíocre.
Bom, eu não sei se alguém obrigou o Pimenta a ser canoísta ou canoeiro ou lá o que ele é e confesso que não percebo nada de canoagem ou canoada ou lá o que é. Se alguém o obrigou, tenho pena dele. Se ninguém o obrigou, o Pimenta não deve cobrar a ninguém o esforço sobre-humano que é resistir ao sofá numa manhã de domingo. Ele está lá no rio a esfolar-se todo e a  rapar o briol do inverno porque quer. Porque acha que essa estranha actividade é melhor para ele. De certeza que o Pimenta não entra na sua canoa por altruísmo e a pensar no bem social ou na glória pátria. Pelo contrário, desconfio que lhe pagam benzinho para fazer o que gosta mais (por muito estranho que seja uma pessoa gostar imenso de passar a vida dentro de uma canoa a remar como um desalmado). Nem todos têm essa sorte, bem entendido, pelo que o Pimenta não se devia queixar da sua ou usá-la como arma de arremesso contra quem pasma perante os péssimos resultados da selecção olímpica portuguesa.

A certa altura, nas suas enraivecidas declarações, Pimenta parece insinuar que, se os portugueses gostassem mais de canoagem, se entendessem melhor as complexidades e exigências dos desportos olímpicos e se fossem menos entusiastas e entendidos de futebol (Pimenta parece ignorar que o futebol também é um desporto olímpico), os atletas não sofreriam tanto com as críticas e conseguiriam por certo melhores resultados. Bom, eu confesso que não sou um perito em canoaria ou canoagem ou lá o que é. Mas não devo estar muito longe da verdade quando julgo que aos canoeiros ou canoístas ou lá o que são é solicitado que percorram, dentro de um barquito movido a remos, uma determinada distância em águas calmas. Os que remam mais rápido, chegam primeiro. E é assim. Não me parece que a modalidade seja propriamente um desporto para intelectuais. Além disso, é duvidoso que a generalidade dos alemães percebam grande coisa de ginástica desportiva, mas isso não os impediu de ganharem uma medalha de ouro e outra de bronze nesta modalidade. Desconfio até que os húngaros não devem encher estádios para ver competições de esgrima, mas, só nesta disciplina, vão levar 4 medalhas para casa. Tenho a certeza que o desporto nacional do Azerbeijão não é a luta livre. Mas a verdade é que, só nesta categoria, os seus atletas já somaram 7 títulos olímpicos. O facto dos portugueses criticarem os seus atletas olímpicos pela sua miserável performance não quer dizer que sejam ignorantes dos vários desportos em causa, ou especialmente indiferentes em relação a eles. Pelo contrário, mostra que existe interesse e até, pasme-se, algum entusiasmo. Perante rapazinhos como Pimenta, o que é surpreendente é a generosidade dos portugueses, que continuam interessados nas modalidades que os seus atletas tão desgraçadamente interpretam, que continuam entusiasmados, apesar de verem quase invariavelmente esse entusiasmo traído pela fraca prestação dos seus representantes.

A selecção olímpica nacional deixa o Rio de Janeiro com uma singular medalha de bronze (graças a deus por Telma Monteiro) e Pimenta acha isto perfeitamente normal. Acha que os portugueses é que não percebem a normalidade disto, porque são uns ignorantes que só gostam de futebol. O Pimenta, se calhar o mais ignorante dos portugueses, se calhar o mais anormal dos atletas, devia estar caladinho e, no próximo inverno, levantar-se um pouco mais cedo do que já se levanta e passar ainda mais umas horas dentro da sua canoa ou lá o que é. E remar ainda mais umas milhas do que aquilo que tem por hábito remar, porque aquilo que tem por hábito remar é manifestamente insuficiente para ser bem sucedido.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Estou passado com estes rapazinhos.



De volta ao estado puro do rock. Depois do Barroco, não há nada mais bombástico.

Catfish And The Bottlemen . Twice

Olímpiadas.


Uma rapariga completamente coberta pela sua honorável e imensa capa negra de escrava sexual corre uma eliminatória olímpica dos 100 metros em 15 segundos e isto é normal. Os rapazes que afinal não são terroristas islâmicos (um deles até deve ser casado com a rapariga completamente coberta pela sua honorável e imensa capa negra de escrava sexual) ainda não conseguiram rebentar com nada nem com ninguém e isso, sim, é que se estranha imenso.
Contra tudo o que seria expectável e apesar de todos os legítimos pessimismos, parece que os cariocas conseguem organizar umas olimpíadas. Já nós, portugueses, temos uma enorme dificuldade em trazer medalhas olímpicas para casa. Uma dificuldade que é, num raro uníssono ontológico, cultural e genética. Não somos atletas natos, claro. Mas também não somos uns competidores loucos. Os portugueses acham que perder é natural como os senhores do Comité Olímpico acham normal que a mais lenta atleta da história universal corra de burka imensa na direcção do mais absoluto ridículo.
São coisas da vida.
Entretanto, os jornalistas pátrios, na sua também comum comicidade, elogiam os nossos atletas em qualquer situação e sob a ameaça dos mais modestos resultados: quando eles perdem pontos ou falham um passe ou saltam baixinho ou lançam mal ou erram o alvo ou nadam como pedras ou se esquecem de acordar a horas. Estão a perder, mas estão a salvo da crítica. Afinal, são tecnicamente superiores. Ainda estou para ouvir que um atleta português é uma lástima técnica. Não senhor. Somos todos virtuosos. Perdemos invariavelmente, mas somos uns predestinados do caraças.
Os atletas, embalados por este carinho da imprensa, encolhem os ombros e desculpam-se: a competição é muito forte e as algas atrapalham; a humidade asfixia e o fuso horário desorienta; surgem dores de cabeça, ansiedades, alergias, fraquezas, desmaios. Todo e qualquer atleta português é um Fernando Mamede em potência e tem sempre a desistência no horizonte onírico. Desistir é o supremo alívio, a saída airosa, o desvio épico.
E mesmo quando terminam as suas provas, com as honrosas classificações de oitavo, vigésimo quinto ou quadragésimo sétimo, não está nada mal. Foi a melhor marca individual de sempre ou o melhor resultado possível. Uma excelente prestação. O atleta deu o melhor que tinha e sabia e não se pode pedir mais. Bateu o recorde do concelho da Amadora. Ficou apenas a nove centímetros da medalha de bronze. Apenas a sete centésimos da final. Apenas a seis pontos do penúltimo. Daqui a quatro anos, há mais. E será melhor. Na verdade, toda a gente sai das olimpíadas com a consciência do dever cumprido, não há hipótese. Ninguém ganha nada, mas são todos vencedores.
Claro que a triste realidade olímpica nacional não é só responsabilidade de atletas e jornalistas. É sobretudo o resultado da mais absoluta irresponsabilidade com que os dirigentes políticos e técnicos encaram o assunto. Portugal é, no que diz respeito ao desporto, uma país de terceiro mundo. Há futebol e há o deserto.  Não conseguimos levar aos Jogos uma equipa de basket, de andebol, de vólei. Falhamos incrivelmente em modalidades que podíamos e devíamos dominar como a vela, a canoagem ou o vólei de praia.  E a desculpa não pode ser a dimensão do país ou a escala demográfica. Países de dimensões semelhantes como a Holanda, a Hungria, a Irlanda, a Lituânia ou a Eslóvenia, só para falar de alguns exemplos europeus, são, comparativamente, muito bem sucedidos. No ranking dos Jogos modernos, o nosso país está classificado no sexagésimo quinto lugar, atrás de países super desenvolvidos como a Coreia do Norte, o Irão, a Argélia e essa potência desportiva que são as Bahamas.
Os Jogos Olímpicos são, assim, invariavelmente, um evento deprimente para os portugueses que ainda conseguem ter expectativas. Para aqueles que já não as têm, como eu, são um bocadinho mais suportáveis. Mas seria sempre preferível que nem puséssemos lá os pés. Essa sim, seria a mais honrada, a mais nobre, a mais higiénica das desistências.

segunda-feira, agosto 15, 2016

Amor à banda.



Amo esta banda. Amo-a desde o ano passado, quando conheci o fabuloso "Islands". E esta música que aqui coloco não é, de todo, a melhor do último disco. Nem pouco mais ou menos. Mas era o único clip disponível e assim sendo...

Bear's Den . Auld Wives

domingo, agosto 07, 2016

O sonho de uma slot mesmo espectacular está quase a realizar-se.



Isto foi só um ensaio. O próximo vídeo que publicar aqui sobre a SCX, será, estou certo, uma quimera concretizada. A Cognac também nasceu para isto. Agosto será o mês para levantar a estrutura. A produção vídeo vai demorar para aí uns seis meses. Mas a espera vai valer a pena.

sábado, agosto 06, 2016

Zung, bung, bang: malha.



Observer Drift . The Long Run

Porque sim.

Ah, porquê lutar, lutar, lutar?
Todo o gladiador vai morrer um dia na arena
(as probabilidades são como são)
e especialmente o campeão imbatível.

O campeão imbatível tem todas as hipóteses e mais alguma
de morrer na arena, exactamente da mesma maneira que o gladiador
que nunca chegou a ganhar um combatezinho que fosse.

O sangue dos dois vai correr pela serradura com o mesmíssimo
aparato de cinemascope.

Assim sendo:
lutar, lutar, lutar para quê?

O sítio das coisas giras.



A Cognac tem roubado espaço ao Blogville. Mas, de vez em quando, retribui com conteúdos super giros. Ainda por cima, como são fruto do esforço de uma equipa e não apenas meu, nem tenho que me preocumpar com a imodéstia (que, de qualquer forma, nunca foi grande preocupação minha).
Por exemplo, este filminho, tão simples, tão meigo, tão inocente, enche-me de vaidade.

domingo, julho 31, 2016

Já não há terroristas islâmicos.

A esquerda acabou com eles todos. Agora são doentes mentais ou oprimidos do capitalismo. São cidadãos americanos que fuzilam criancinhas porque podem comprar balas nos supermercados ou são desempregados, multi-discriminados, marginalizados e coitadinhos. São refugiados desesperados, são torturados esfomeados ou são fascistas-nazis-ultra-radicais. Terroristas islâmicos é que eles não são de certeza. Nem pensar. Se alguma vez existiram foi na mente perversa dos direitistas. E mesmo estes pobres diabos que não sabem o que fazem, fazem o que fazem porque o Bush filho, um animal ganancioso, facínora e ignorante, invadiu o Iraque para satisfazer a gula apocalíptica do complexo industrial-energético americano.
Que bom. Estamos todos muito mais seguros e tranquilos, agora que já não há, agora que nunca houve, terrorismo islâmico.

segunda-feira, julho 25, 2016

O cerco.



POR MÁRCIO ALVES CANDOSO

Parte da estratégia turca de cerco à Europa, aliás bem coordenada, mais dia menos dia, com a russa, passa por estrangular o abastecimento de combustíveis. Com agendas diferentes mas em alguns pontos coincidentes, turcos e russos criaram uma teia de gasodutos que deles dependem, e a que os poderes manhosos e covardes europeus tendem a resignar-se.

Os ucranianos foram os primeiros a sofrer com este tipo de prepotência. Depois de terem visto exauridas grande parte das suas reservas de gás - as maiores da União Soviética -, durante a longa noite comunista, viram o fornecimento que lhes chega através do gasoduto tutelado pela Gazprom cancelado em 2015.

A Polónia, a Hungria, a Grécia e até a Alemanha estão entre os próximos a tremer. Mas tudo ficará 'resolvido' quando o gasoduto ucraniano for destruído - já está previsto -, e o chamado 'Corrente Turca' entrar em funcionamento.

O Corrente Turca, com uma capacidade anual de 63 mil milhõs de metros cúbicos, foi anunciado em dezembro de 2014. A via de transporte de gás está prevista para ser executada pelo fundo do Mar Negro, da Rússia para a Turquia, e continuando a partir de um centro de distribuição na fronteira turco-grega, de onde o combustível poderia ser transferido para o sul da Europa, através da Grécia.

Alguns analistas não vêem como mero acaso o início da normalização de relações russo-turcas, iniciada em Junho passado. As dissenções em torno da Síria - Putin apoia Assad, Erdogan é contra - não falam tão alto como os negócios do gás. A destruição do gasoduto ucraniano deixará na mão destes oligarcas uma parte importante do abastecimento de gás à Europa.

É claro que em Paris, Londres ou Berlim já se poderia ter avançado imenso em, pelo menos, dois aspectos. Em primeiro lugar, agilizar todas as formas de diminuir a dependência de fontes externas de energia - ninguém bate a Europa ocidental em matéria de investigação nuclear, e os apoios ás energias alternativas já tiveram melhores dias. Em segundo, reforçar as relações com a Ucrânia e fazer frente a Moscovo e Ancara.

Com uma regularidade espantosa, a nomenclatura da União Europeia tem vindo a tomar partido pelo lado errado da História e da decência. Acho que se chama diplomacia...

Poema Pokémon

Enquanto caçavas pokémons
um islamita filho da puta explodiu com 11 alemães em Ansbach,
e um ayatollah atrasado mental mandou retirar cem mil antenas parabólicas
dos telhados de Teerão,
para evitar desvios da moral.

Enquanto caçavas pokémons
o teu querido primeiro ministro arranjou maneira
de foder loucamente o teu país
e passar por quem está a salvá-lo.

Enquanto caçavas pokémons
a Venezuela deixou de ter carne disponível
para o menú da Mcdonalds
e a tua mulher enfiou-se alegremente na cama
do teu melhor amigo.

Enquanto caçavas pokémons
aconteceu um apocalipse zombie,
mas tu não deste por isso
porque a aplicação não detecta mortos.
Nem vivos.

Enquanto caçavas pokémons
a tua mãe teve uma trombose
e o preço do gasóleo subiu dois cêntimos
e Marcelo Rebelo de Sousa passou a supremo líder
e os ingleses pensaram que o referendo era
um jogo de estratégia.

Enquanto caçavas pokémons
nasceu e morreu montes de malta
e chegaram para aí mais trezentos mil sírios à Europa,
devidamente acompanhados de trinta filhos da puta
dispostos a explodir com mais uma porrada de alemães.

Enquanto caçavas pokémons
os franceses não precisaram de sírios nem de filhos da puta
vindos da Síria
para serem explodidos, porque têm imensos filhos da puta
a viverem lá.

Enquanto caçavas pokémons
o teu parlamento discutiu a necessidade de obrigar os homens
a tirar licenças de parto
ou um outro qualquer e aberrante e fascista
assunto de engenharia social.

Enquanto caçavas pokémons
devem ter chacinado para cima de uma enormidade de cristãos
no médio oriente,
sem que os jornais do teu lado do mundo cristão
tenham dado por isso porque os jornais do teu lado do mundo cristão,
estranhamente,
ficam muito mais aflitos quando morrem muçulmanos.

Enquanto caçavas pokémons
Hillay Clinton ia sendo presa
e Donald Trump ia sendo presidente
do caralho dos Estados Unidos da América.

Enquanto caçavas pokémons
perdeste o momento em que a traça se fez borboleta
para dar um beijo no Cristiano Ronaldo.

Enquanto caçavas pokémons
alguém descobriu mais um poema desconhecido
do Fernando Pessoa.

Salvo o beijo e o poema, como vês,
não perdeste lá grande coisa.

Os pretos e os copinhos de leite.

 
POR MÁRIO ALVES CANDOSO

O presidente do PNR disse que não fazia sentido a selecção portuguesa jogar a final do campeonato da Europa contra uma 'selecção africana'. José Pinto-Coelho referia-se, claro está, ao facto de a França ter muitos jogadores negros no seu plantel. E aproveita para aconselhar que comparemos esta selecção francesa com a de há trinta anos, para vermos que está em curso uma substituição populacional na Europa.

O argumento tem tantos buracos como o PNR, na sua fraquíssima e reiterada votação. Se a França tem muitos negros, o William Carvalho, o Éder e o Renato Sanchez devem ser azuis escuros, e o Nani, o Pepe e o João Mário são azuis claros. Eu é que sou daltónico...

Mas recordo-lhe que, em 1966, alguns dos melhores atletas que integravam a selecção nacional de futebol se chamavam Vicente, Hilário, Coluna e Eusébio. Só para dar um exemplo.

Esta é a diferença entre um racista - José Pinto-Coelho - e um anti-multiculturalista - eu, por exemplo. O que poderia estar mal era a substituição de pessoas com integração na nossa cultura por outras que não a sentem, não a entendem e até lutam contra ela (no caso europeu, o exemplo mais vulgar são sem dúvida os muçulmanos radicais). O que manifestamente não parece ser, nos dias de hoje, o caso dos negros que integram a selecção francesa - cantam todos o hino, já agora - nem muito menos os da portuguesa.

Que fique bem claro. Não sou favorável à imigração massiva de estrangeiros para a Europa. Não sou favorável á tomada do poder por indivíduos que não têm nada a ver com a história e as etnias dominantes dos territórios onde vivem - o exemplo de que me lembro imediatamente é o dos brancos na África do Sul, durante os tempos do apartheid.

Mas não saber identificar o problema é o maior pecado de um político. E como não tenho interesse nenhum em que o PNR cresça, aconselho José Pinto-Coelho a continuar assim como é. Ou a fazer uma aliança com o outro extremo, o daqueles que acham que todos os 'refugiados' são bem-vindos. Infelizmente, tenho de viver com os tristes defensores de ambas as teses.

quarta-feira, julho 13, 2016

Catrapum, malha.



De Rosa . Spectres

segunda-feira, julho 11, 2016

Hoje à noite, em Paris.


Hoje à noite, em Paris, o Fernando Santos fez o jogo perfeito. o Éder fez o jogo impossível. O Rui Patrício fez o jogo improvável. O Nani fez o jogo da vida dele. O Pepe é que não. O Pepe fez o jogo do costume. E foi rei. Imperou MVP.
Hoje à noite, em Paris, aconteceu um fenómeno poltergeist que vingou Eusébio, que vingou Simões, que vingou Humberto Coelho, Chalana, Futre (sim, sim), Figo, Rui Costa, João Pinto e que vingou, claro, Cristiano Ronaldo. Que deu a mais saborosa das vinganças a um povo que adora futebol. A um povo que sabe jogar à bola (não faço a distinção do seleccionador nacional).
Hoje à noite, em Paris, aconteceu transcendência, pura e dura, e o futebol é, como muito bem escreve o enorme Bruno Vieira Amaral, uma experiência religiosa.
Assim sendo, hoje à noite, em Paris, fez-se um bom bocado de história da religião. Porque digam o que disserem, o golo lindíssimo do pretinho feio é completamente epistemológico.
Esta selecção não era a melhor selecção do torneio, como é óbvio. Mas isso não quer necessariamente dizer que não ganhámos bem. Ou que não merecemos ganhar. Já merecemos ganhar vezes demais para não sermos agora merecedores da boa glória.
Hoje à noite, em Paris, a glória foi de Portugal. Viva Portugal.

sábado, julho 09, 2016

São menos parvos do que parecem.



RNDM . Ghost Riding

Estes rapazes não nasceram para isto dos clips, mas já em relação há música que fazem são muito mais espertos. Ghost Riding é um daqueles discos giros que se estranham primeiro para se entranharem depois. E uma vez entranhado, é difícil fazer pausa.

segunda-feira, julho 04, 2016

Socorro, vêm aí as obras!






























POR MÁRCIO ALVES CANDOSO

Com nenhuma pompa e demasiada incircunstância, soou hoje um alerta civil grau cinco - agora é que as obras em Lisboa vão mesmo começar! A avaliar pelo pandemónio que já por aí vai, qualquer pacato cidadão deve começar a tremer.

Não estou a falar dos buracos de Pedrouços ou de outros arruamentos a precisar de arranjo. Isso é para meninos. O que Medina, Salgado & Empreiteiros Limitados preparam é a ruína do dia-a-dia dos lisboetas e de mais um milhão de pessoas que todos os dias se desloca à capital.

Mas o que me espanta mais - ou me indigna, porque eu espantado já raramente fico - é a unanimidade autárquica sobre a 'necessidade' das obras. Ouvi, com estes dois que a terra há-de comer, PCP, CDS e PSD criticar APENAS a oportunidade das obras. Porque é em cima das eleições, e eles acham que, se o Medina fizer as obras, isso é manobra eleitoral.

É todo um manual de estupidez, ganância e impreparação política que subjaz a estas declarações. Os 'opositores' não dizem que não fariam as obras. Mas criticam que sejam feitas com a intenção de o actual Executivo camarário ganhar as eleições. O que, a ocorrer, lhes dará mais quatro anos fora do tacho.

Não ponho as mãos no fogo pelo povão lisboeta. Se calhar o 'zé pagode' até gosta de ver a cidade esburacada e do mavioso som da picareta automática. Mas se houver muitos eleitores como alguns que eu conheço, é malta para fazer um manguito ao Medina e ao Salgado e mandá-los para umas férias com bilhete só de ida.

Porque as obras são incoerentes, desnecessárias e não resolvem nenhum dos problemas de mobilidade com que os utilizadores da capital do país se confrontam diariamente. Entupir ainda mais a 2ª Circular, tornar o acesso à Baixa e na via central Campo Pequeno-Marquês de Pombal quase impossível, dificultar a circulação automóvel sem - mais uma vez - criar alternativas, não é obra - é martírio!

E lá hão-de estar os lugares - acrescidos - de estacionamento pago e bem pago. A ameaça recai sobre , por exemplo, a Av. da Igreja, Santos-o-Velho, Carnide, Mercado de Benfica e Socorro. É isso mesmo, 'socorro' é do que a gente precisa!

Mas não se ralem. Vão ser criadas mais ciclovias. Não sei se a cabeça do Medina já reparou que existem em Lisboa mais colinas que na Holanda inteira. Não há problema, deve haver um 'voucher'muncipal para ir tudo treinar para o Holmes Place ou para o Club Seven. Estacionam no parque do Ritz.

A população da capital está envelhecida? Não faz mal, o exercício faz bem á saúde. E aliás, vão ser criadas mais uns milhares de habitações para jovens, com rendas reduzidas, para povoar o centro da cidade... Não? Ah, já me esquecia, esse projecto de requalificação foi parar às calendas!

Com mais passeios, mais esplanadas, sem lugar para pôr os carros e com um Metropolitano que continua a ser uma minúscula vergonha para uma cidade capital de um País da Europa - mas que já traz as mulheres-a-dias da Reboleira, porque os escritórios têm de estar limpos às sete e meia - creio bem saber para quem são estas obras necessárias - para o bolso dos patos-bravos que financiam os partidos - hoje um, amanhã outros - e para turistas.

Lisboa não será o maior bordel da Europa. Mas vai tornar-se, seguramente no maior hostel. Entretanto, o lisboeta é uma espécie em extinção.

sexta-feira, junho 24, 2016

Brexit e os limites da União.






















O resultado do referendo de ontem não devia surpreender ninguém. O que surpreende é o facto de se ter colocado esta responsabilidade sobre os ombros de um eleitorado que não faz a mais pequena ideia de quais serão as consequências, para as ilhas britânicas, para a Europa e para o mundo, desta secessão. E não, não estou a ser snob. O operário de Birminghan sabe exactamente o mesmo sobre este assunto que o burocrata em Bruxelas ou o corretor da City londrina. As variáveis em jogo são de tal forma complexas que não há uma alma no universo capaz de determinar o aftermath deste triste episódio.
Suspeito que o Brexit vai prejudicar mais a Inglaterra (até porque coloca em risco, no imediato, a coesão e existência do Reino Unido), do que as nações continentais. Mas não deixa de constituir uma excelente espécie de despertador histriónico para os atrasados mentais que lideram a União Europeia. Alguma coisa tem de mudar. E, se calhar, é de menos Europa que precisamos, para continuarmos a ter uma União minimamente credível. Se calhar, é com menos leis, com menos burocracia, com menos tribunais, com menos apparatchics, com menos compromissos, com menos instituições, com menos mandatos, com menos fascismos e, claro, com menos nações, que será possível sobreviver a este aparente colapso.
A Europa não é una. É diversa, é conflituosa, é, muitas vezes, antípoda. Não vale a pena forçar a federação que não existe de todo no terreno geofísico, psíquico e cultural. Mas isso não quer dizer que a comunidade esteja condenada à extinção. Há muitas e gordas vantagens em estabelecermos uma espaço comum em matéria económica e civilizacional, a primeira das quais: 70 anos sem guerra.
Há muitas e gordas razões para permanecermos ligados a um projecto Europeu que garanta a paz e a prosperidade num continente historicamente massacrado por pequenos ódios. Talvez o caminho a seguir seja menos ambicioso. Mas será com certeza muito mais sensato.

domingo, junho 19, 2016

Albânia: um Portugal inverso.


Não vi os dois jogos da Selecção Nacional e, pelos vistos, fiz bem.
Vi, até agora, apenas três jogos do Europeu, pela simples razão de que acho o futebol - como é jogado hoje - um aborrecimento tremendo.
Mas o último jogo desses três que vi foi bom de ver, e estou a referir-me, por incrível que pareça, ao encontro que opôs hoje a Roménia e a Albânia. A Roménia é uma selecção muito fraquinha, convenhamos, e ninguém pode dizer que a Albânia é uma excelente equipa de futebol. Porém, há uma inocência na interpretação da modalidade por parte dos albaneses, há um querer tão grande, uma vontade de transcendência tão incendiária, uma ingenuidade tão maravilhosa, que é impossível a uma pessoa de senso evitar apaixonar-se por estes rapazes e pelos ruidosos milhares de concidadãos que estavam presentes no Stade des Lumières.
Na segunda parte, a química entre os albaneses e a sua selecção atingiu níveis poltergeist e foi mesmo emocionante ver como a equipa estendia o esforço hercúleo em função da intensidade quase histérica do seu público.
Se este europeu de futebol tivesse mais equipas como a Albânia e menos aglomerados humanos como aqueles que são treinados por Fernando Santos, eu talvez visse mais jogos.
Se este europeu contasse com mais ilustres desconhecidos como Armando Sadiku e menos "cidadãos do mundo" como Cristiano Ronaldo, eu era capaz de sintonizar com outra frequência a porcaria da RTP.
Assim sendo, prefiro ver o Stephen Curry falhar lançamentos de 3 pontos (o que é raro).

Velhos amigos.



O Blogville já é amigo destes rapazes há uns anos largos. E eles, fiéis a esta amizade, continuam a cumprir com bombas que nunca mais acabam de explodir dentro da parte acústica do meu cérebro.

Frightened Rabbit . Woke Up Hurting