segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Isto não é jornalismo?



Muito se diz do Correio da Manhã. Mas porque é que não se diz que o Correio da Manhã faz serviço público, como esta reportagem é serviço público?

Duas ou três coisas sobre um senhor chamado Konstantinos Mitroglou.



Toda a gente que nos últimos dois anos viu um jogo do Benfica comigo, já me ouviu dizer isto:
"Ninguém convence o Mitroglou que ele não é um tecnicista".
Acontece que o rapaz tem razão. Para a altura que tem, para o peso que tem, para a falta de figura de crack da bola que tem, Mitroglou é um tecnicista.
Este golo não é um golo; é um logótipo. Como já tinha acontecido no sobrenatural jogo contra os diabos de Dortmund, Mitroglou mete várias vezes os pés pelas mãos e vice-versa. Mas sabe ter calma. Sabe emendar. Percebe que o futebol é um jogo difícil. E percebe a importância que tem a humildade. O que conta não é o erro, que é comum quando jogas uma bola com os pés. O que conta é a persistência, a superação, a consciência plena de que as probabilidades estão contra ti.
Mitroglou é - para sua felicidade e para felicidade de milhões de benfiquistas - uma espécie de super-herói ao contrário. Uma espécie de anti-Jonas. Uma espécie de Prometeu com barbicha. Ninguém está à espera que este gajo desengonçado e equívoco roube o fogo da glória, ninguém está à espera que saia daqueles pés uma finta decente, um remate direito ou uma jogada de génio. Mas sim, o grego sabe fintar; mas sim, remata com imensa certeza no cagar e faz jogar até, espanto dos espantos, mais que muita gente do actual plantel do Sport Lisboa e Benfica.
A partida de hoje, contra uma equipa muito bem organizada, agressiva à brava e que sabia - até ao golo - o que estava a fazer em campo, só podia ter sido resolvida como foi resolvida. E foi resolvida pelo mestre da desfaçatez. Por um gajo que, aparentemente, não nasceu para isto. E que, talvez por isso, é um grande jogador de futebol. E um profissional exemplar. 

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Sobre o grego em particular e o benfica em geral, jornalismo de factos, por João Pedro Ferreira, no Mais Futebol:


"Kostantinous Mitroglou foi mais uma vez o herói da noite encarnada, como já tinha sido com o Arouca e com o Borussia Dortmund.

O grego foi, em 180 minutos de futebol, o único jogador do Benfica a enquadrar remates à baliza frente ao Sp. Braga e aos germânicos. Acertou lá dois, os suficientes para dois triunfos importantíssimos nos objetivos da equipa.

À pressão exercida pelo FC Porto após o triunfo sobre o Tondela, responderam as águias com nova vitória sobre os arsenalistas. É a sétima consecutiva, já agora.

O Benfica tem-se superiorizado ao Sp. Braga quer no campeonato, quer nas outras provas, Supertaça Portuguesa incluída: foi esse o primeiro jogo da temporada 2016/17, é bom lembrar.

Nesse encontro de campo neutro, Kostas Mitroglou não faturou. Mas a verdade é que o grego tem uma tendência para marcar golos aos minhotos. Em cinco jogos contra os arsenalistas já apontou outros tantos golos.

Esta é, aliás, a primeira vez que quando marca não o faz a dobrar frente ao Sp. Braga. Na época passada, Mitroglou tinha bisado na jornada 28 da Liga e já nesta temporada foi ele uma das principais figuras do jogo da primeira volta também com um bis, num triunfo por 3-1.

Há vários exemplos nas duas temporadas de como Mitroglou vale pontos. Em 2015/16, em Setúbal, o Benfica venceu por 4-2. O grego bisou. Também na época passada, um golo no triunfo sobre o Estoril (2-1) e outro com a Académica (2-1 também).

Na época que decorre, dois ao Sp. Braga na Luz (3-1), um ao Boavista (3-3) também em casa e o deste domingo. Golos sem os quais o Benfica não somaria os mesmos pontos nessas partidas.
 
Sem Jonas, com Raul Jimenez a voltar de lesão e com Gonçalo Guedes em Paris, Kostas Mitroglou tem sido o avançado mais regular e eficaz do Benfica. E aquele que está em melhor forma: nos últimos quatro jogos (Nacional, Arouca, Bor. Dortmund e Sp. Braga) fez cinco golos!

Tão eficaz que com apenas dois remates do grego, os únicos a irem na direção da baliza nesses dois jogos, as águias bateram o Dortmund, e vão em vantagem para a segunda mão da Champions, e também o Sp. Braga, o que deixa o FC Porto atrás na tabela."

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Anti-Valentim #2



Oh Wonder . All We Do

All we do is hide away
All we do is, all we do is hide away
All we do is chase the day
All we do is, all we do is chase the day
 
All we do is lie and wait
All we do is, all we do is lie and wait
All we do is feel the fade
All we do is, all we do is feel the fade
 
I've been upside down
I don't wanna be the right way round
Can't find paradise on the ground
 
I've been upside down
I don't wanna be the right way round
Can't find paradise on the ground
 
All we do is hide away
All we do is, all we do is hide away
All we do is chase the day
All we do is, all we do is chase the day
 
All we do is play it safe
All we do is live inside a cage
All we do is play it safe
All we do, all we do
 
I've been upside down
I don't wanna be the right way round
Can't find paradise on the ground
 
I've been upside down
I don't wanna be the right way round
Can't find paradise on the ground
 
All we do is hide away
All we do is, all we do is hide away
All we do is chase the day
All we do is, all we do is chase the day
 
All I did was fail today
All I wanna be is whites in waves
All I did was fail today
All we do, all we do

Anti-Valentim


segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Banda sonora para uma manhã de Inverno.



Tomaso Albioni . Adagio

3 grandes fitas.







Nocturnal Animals, de Tom Ford, Sully de Clint Eastwood e The Arrival, de Denis Villeneuve. Eastwood não sabe fazer nada que não seja uma obra prima e já chegou ao patamar da imortalidade há que tempos. Tom Ford é regular na qualidade (A Single Man é um excelente bocado de cinema) e o senhor Villeneuve também parece convencer (Sicario não é mauzinho de todo). Dois destes  ilmes contam com a presença de Amy Adams, que é uma rapariga capaz (e capaz de fazer muita porcaria, também).
Seja como for, eis a prova provada que, apesar do meu cepticismo e da mediocridade reinante, de vez em quando, muito de vez em quando, ainda conseguimos descobrir uns filmezinhos decentes.

sábado, fevereiro 11, 2017

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

O erro de Newton.

Fotografia de Sophie Ebrard . The Dunk Elite

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Freaking unbelievable.


Um drive para touchdown que percorre noventa e tal jardas seguidinhas, com a assinatura de Tom Brady. E com um catch surrealista de Edelman pelo meio. Ainda por cima, depois de somarem os seis pontos, os Patroits decidem - e bem - tentar novo touchdown para dois pontos (em vez da conversão por pontapé) para empatar o jogo. Vale a pena ver, aqui. É de loucos.

The greatest comeback in football history. And the greatest quarterback, too.


A quinquagésima primeira edição da Super Bowl vai ficar para a história. Nunca como hoje uma final da NFL tinha sido decidida em tempo extra (o tempo regulamentar esgotou-se com um empate a 28 pontos). Nunca como hoje uma equipa tinha sobrevivido a uma diferença pontual tão grande (o resultado chegou a 28-3 a favor dos Falcons). Nunca como hoje um jogador tinha conquistado a distinção MVP de uma final por quatro vezes. Nunca como hoje um jogador tinha ganho cinco títulos.
Tom Brady, o líder dos New England Patriots, é agora, sem disputa, o melhor quarter back de todos os tempos. E, muito provavelmente, o melhor intérprete deste belíssimo jogo a que os americanos chamam futebol. E hoje foi, durante a hora e meia que durou a incrível segunda parte da partida, um verdadeiro deus.
Estou completamente de queixo caído com o que acabei de ver. Que grande jogo de bola.

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

O cristal do espaço-tempo.

Imaginem um cristal que é em simultâneo feito de matéria e de tempo. E que se movimenta perpetuamente sem consumir nem criar energia. A profecia contra-intuitiva que o Prémio Nobel da Física Frank Wilczek anunciou em 2012 acaba de ser comprovada em laboratório, pela equipa liderada por Norman Yao, da Universidade de Berkeley-Califórnia. A matéria quântica revela finalmente a sua quarta dimensão e a partir daqui nada será exactamente como antes.

Mais informação sobre  esta descoberta verdadeiramente transformadora:
Phys.org
Eurekalert.org
Frank Wilczek na wikipédia

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Look who's back:



The XX . On Hold

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Jornal de Letras - Edição Especial - Colosso, de Niall Fergusson

As primeiras armas da América são meias de senhora, cigarros e outras mercadorias. Querem subjugar o mundo mas não conseguem subjugar a pequena Coreia.
Joseph Estaline


Crónica publicada a 13/07/16

A edição em Portugal de “Colosso” (Temas e Debates, 2015) – com o sub-título Ascensão e Queda do Império Americano – tem um problema irresolúvel de fundo. É que esta obra foi publicada em 2004. Desde aí, a América em especial e o mundo em geral sofreram alterações profundas nas variáveis geo-estratégicas, económicas, sociais e até ideológicas. O império americano de 2015 é muito diferente, de muitas maneiras, do que era há 12 anos atrás. No entretanto, tivemos um rol incrível de cataclismos naturais e sobrenaturais que mudaram de facto a face do mundo. Niall Fergusson escreve num momento da história que antecede a recessão económica iniciada em 2007, e respectivas crises das dívidas soberanas e da Moeda Única Europeia; a Primavera Árabe de 20010-11 e a desintegração de vários estados no Médio Oriente que se lhe seguiu; a eleição de Barak Obama e consequente retirada militar do Iraque e do Afeganistão; o surgimento do Estado Islâmico; os atentados terroristas de Madrid, Londres, Bombaim e Paris; a instauração de regimes socialistas no Brasil, na Venezuela e na Bolívia, a institucionalização do cartelismo no México, a morte de Bin Laden, o marmoto do Pacífico, o terramoto do Japão, etc., etc., etc.
Isto já para não falar da saída do Reino Unido da União Europeia, fenómeno do género poltergeist que soaria ao Professor Fergusson, em 2004, como uma novela distópica, de enredo excessivamente fantasista.
Por vezes, este abismo cognitivo resulta em favor do autor, que anuncia e prevê factos que vieram posteriormente a ocorrer; noutras, resulta em desfavor da obra, no seu todo e principalmente para o leitor, que não tem culpa de saber coisas desconhecidas em 2004. No prefácio, por exemplo, Fergusson especula que uma retirada ignominiosa do Iraque provocará o descalabro do império. Esse descalabro não aconteceu completamente, mas não deixa de ser verdade que a retirada americana facilitou, no mínimo, a afirmação militar de Estado Islâmico e a perda de influência dos EUA no Médio Oriente.
Niall Fergusson, eminente professor de Oxford, Harvard e Standford e célebre documentarista do Channel Four, procura nesta obra explicar as razões que estão na origem da incompetência imperial americana. São os Estados Unidos um império? Com certeza e, na verdade, o maior da história. Mas um império com limitações inéditas: é que, dadas as origens liberais e libertárias da sua nação federal, os americanos não gostam de ser ver como imperialistas. Isto embora, como o autor demonstra abundantemente – e muito bem acompanhado por outros ilustres académicos, como Yuval Noah Harari (1) -, a existência de impérios não seja propriamente algo de negativo na história humana. Pelo contrário, é a ausência de hegemonias imperiais que leva ao caos e à ruptura civilizacional. Niall Fergusson argumenta até que, em certos casos de nações falhadas, a invasão territorial de longo prazo seria muito preferível para a qualidade de vida dos povos nativos. Estamos assim a milhas do território politicamente correcto.


Um império em estado de negação.

Também, mas não só por causa das suas origens libertárias e anti-imperialistas, os americanos gostam de ser ver como a primeira potência global não imperial. O império americano é de governação indirecta, informal e não territorial. A política, nos casos de intervenção em países estrangeiros, tem sido a de criação de governos autóctones, mais ou menos fantoches, desde que cooperem com a filosofia mercantil americana. E, regra geral, quando invadem um país, fazem-no dentro de uma estreita janela temporal. Nunca pretendem de facto a ocupação de longo prazo.
É que, antes de ser um império político e militar, o império americano é uma iniciativa comercial. A “coca-colonização”, embora implique 752 instalações militares em mais de 130 países, é uma gigantesca operação de marketing cultural, que funciona melhor se os clientes permanecerem vivos, relativamente solventes e cidadãos de um estado de direito (ou pelo menos com o direito à propriedade minimamente assegurado). O espírito empreendedor e o poderio militar não fazem porém um império excepcional: a hegemonia americana tem muito em comum com os outros 70 impérios da história. E deve ser historicamente comparado.
No registo confessional em que é redigida a introdução, Niall Fergusson defende os impérios como forças benignas que impedem o terror dos pequenos estados contra outros estados, mas também contra os seus povos. E argumenta a favor de políticas imperiais que intervenham em estados como a Libéria (“estados fracassados” e/ou “regimes criminosos”), enquanto recusa carregar o insustentável fardo do homem branco: “A áfrica subsariana em particular tem empobrecido não devido à muitas vezes denunciada herança do colonialismo, mas sim a décadas de má governação desde a independência.
Logo no seu início mas muito frequentemente no seu decorrer, a obra traz para as luzes da discussão um factor de declínio civilizacional que é pouco discutido nos dias de agora, embora tenha reinado sobre o pensamento filosófico europeu durante séculos: a ausência de uma vontade de poder. As elites americanas hesitam historicamente perante a possibilidade do poder global. E esse deficit de vontade de poder pode muito bem-estar na origem da queda do império.


A Ascensão.

O território dos Estados Unidos, logo após a independência, constituía 8% do actual e, em 1820, existiam apenas 320.000 americanos à face do planeta. A nação é assim, e ironicamente, imperialista logo na sua génese, sendo a conquista territorial do Oeste um primeiro exercício dessa expansão imperial. Apesar de grande parte dos territórios anexados terem sido comprados a franceses, espanhóis, ingleses, mexicanos e russos, foi necessário fazer a guerra com muitos povos e em múltiplos palcos para unificar a nação e os Estados Unidos, se são hoje uma potência militar de primeira grandeza, foi também porque sempre conviveram com violentos e massivos confrontos armados, tanto internamente como nos territórios da sua esfera de influência imediata.
Envolvidos logo no século XIX num movimento comercial expansionista, de carácter global, os EUA sempre mostraram reticências no que diz respeito à ocupação territorial típica do colonialismo europeu. A guerra sanguinolenta com os independentistas nas Filipinas, depois da vitória fácil frente aos espanhóis, levou à rejeição do modelo convencional e à preferência pela instalação de “bons governos” que colaborem com os interesses económicos e geo-estratégicos do Uncle Sam. Mas enquanto a Nicarágua, Cuba e a República Dominicana corresponderam à filosofia de tributar sem anexar, mantendo a independência destes países sob um governo fantoche, já S. Domingos e o Haiti trouxeram mais complicações, resolvidas com operações militares e intervenção directa na constituição de regimes e governos, embora ainda assim sem anexação formal (com excepção das Ilhas Virgens).
Observando o destino tirânico destes e de outros países, o autor interroga-se se a anexação não teria sido preferível. Os somoza na Nicarágua, Fulgêncio Baptista em Cuba e Tiburcio Andino nas Honduras (só para citar alguns exemplos) demonstraram que a política de influência nem sempre resultou na instauração de democracias humanistas e liberais, tendentes a aceitar a cultura comercial americana e a promover a qualidade de vida e os direitos fundamentais dos povos nativos.
As posteriores e consecutivas políticas externas de Hoover, Roosevelt e Wilson, que visavam a instalação de democracias pró-americanas na América do Sul, falharam redondamente. A defesa dos interesses mineiros americanos no México também não foi bem-sucedida. Isto apesar do intenso empenhamento político e militar da América, testemunhado desassombradamente pelo General Smedley D. Butler, em 1935:
Ajudei a fazer do Haiti e de Cuba locais decentes para os rapazes do National City Bank obterem aí as suas receitas. Ajudei a saquear meia dúzia de repúblicas centro-americanas para benefício de Wall Street. O registo dos actos de extorsão é extenso. Ajudei a purificar a Nicarágua para o banco internacional Brown Brothers entre 1902 e 1912. Levei a luz à República Dominicana para os interesses da produção de açúcar em 1916. Ajudei a tornar as Honduras “adequadas” às empresas de frutas da América em 1903. (…) Retrospectivamente, sinto que até podia ter dado algumas dicas a Al Capone. O melhor que ele conseguiu fazer foi instalar os seus esquemas em três zonas de uma cidade. Nós, os fuzileiros, operámos em 3 continentes.


O imperialismo do anti-imperialismo.

A América assume o império global com o culminar da Primeira Guerra Mundial, mas o seu envolvimento no conflito deveu-se fundamentalmente ao afundamento do Lusitania por um submarino alemão, que matou 128 americanos. E, também, à desastrada política externa alemã, que colocou em causa a integridade territorial dos EUA a propósito de uma pueril aliança diplomática com o México. Pearl Harbour e o 11 de Setembro são, comparativamente, fenómenos semelhantes: mesmo considerando os valores universalistas que decorrem da Constituição americana, a verdade é que o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos militares de grande escala dependeu muitas vezes de um directo ataque aos seus interesses, aos seus bens e aos seus cidadãos e raramente de qualquer tipo de altruísmo ideológico.
Aliás, as duas grandes guerras não mudaram em nada o cepticismo com que os americanos encaram a acção imperial, embora a ameaça do Bloco Soviético, consequente ao desenlace da Segunda Grande Guerra, tenha sido levada muito a sério. Isto apesar da União Soviética ter recusado o modelo colonial que os americanos criticavam até aos seus próprios aliados.
Mais a mais, o século XX veio demonstrar que os Estados Unidos não são muito competentes quando precisam de implementar modelos de gestão territorial. A ocupação do Japão, que implicou o estacionamento de 400.000 homens no seu máximo e nunca menos de 100.000 até 1957, e a ocupação da Alemanha ocidental, constituíram responsabilidades financeiramente desastrosas, muito porque os países derrotados não estavam em condições de pagar a factura. Por um lado, existia uma vontade objectiva de diminuir as capacidades de produção industrial destes países, de forma a reduzir a possibilidade de voltarem a constituir ameaças à paz mundial, mas por outro era necessário criar condições de prosperidade que lhes permitissem o pagamento das compensações da guerra, juros das dívidas soberanas e custos da ocupação. As coisas nunca correram realmente a preceito para os americanos: “O que era planeado não acontecia. O que acontecia não era planeado. Não era tanto um império por convite mas um império de improviso.
Seja como for, a ajuda americana depois da guerra (incluindo o Plano Marshall e os largos milhões gastos no Japão) nunca superou os 2% do PIB e, na altura em que J. F. Kennedy proclamava que estava disposto a pagar qualquer preço pela liberdade, a ajuda externa do Uncle Sam desceu abaixo dos 1%. O investimento militar, no entanto, foi sempre mais significativo e chegou a atingir os 14% do PIB nos anos 50, que traduziam os gastos tecnológicos da era atómica mas, também, as exigências financeiras das bases militares instaladas em 64 países em 1967, e 168 intervenções armadas entre 1946 e 1965.
O domínio mundial subsequente às grandes guerras levou os Estados Unidos a aplicarem de facto políticas imperiais, mas sempre em nome do anti-imperialismo (neste caso, o imperialismo russo). E a preferência pela “guerra limitada” foi uma constante, quase sempre com péssimos resultados. Essa filosofia imperial envergonhada, carregada de políticas dúbias, teve como resultado derrotas militares (Vietname e Somália), impasses e compromissos (Coreia), e desastres geo-estratégicos (Médio oriente).
Com o fim da Guerra Fria, e dado a importância política, civilizacional e energética da região, a questão era saber se os EUA intervinham no Médio Oriente sozinhos ou acompanhados. O autor responsabiliza a proverbial timidez operacional da ONU pelo unilateralismo americano e afirma, com resoluta lucidez: “o multilateralismo também pode ser menos que esplêndido.” E se é verdade que os EUA pagam 22% do que a ONU custa anualmente, sendo seu o primeiro contribuinte, convém também saber que o orçamento anual das Nações Unidas corresponde àquilo que o Pentágono gasta em 32 horas. Daí que Fergusson conclua que a ONU precisa mais dos EUA do que os EUA da ONU.
Seja como for, foi a primeira guerra do Iraque, legitimada pela Organização sediada em Nova Iorque, que levou a um reforço da presença do Tio Sam nesta conturbada região do mundo. E foi precisamente essa presença que primeiro acendeu o ressentimento de certos sectores islamitas.
A incompetência americana para exercer o domínio militar que a sua tecnologia e disponibilidade financeira de facto permite, em paralelo com a total incapacidade das Nações Unidas para resolverem a esmagadora maioria dos problemas que se lhe deparam, é evidente na análise dos confrontos contemporâneos. Em Mogadíscio, como no Haiti, os americanos mostraram que não estão preparados para sofrer baixas. E nos Balcãs – enquanto a ONU permitiu e assistiu impávida aos genocídios e alemães, franceses e ingleses contribuíam também e muito desajeitadamente com achas para a fogueira, a administração Clinton decidiu tomar uma decisão que prometia uma possibilidade de zero baixas: a NATO bombardeou os sérvios, matando mais de 30.000 pessoas e deslocando 1 milhão, entre Dezembro de 98 e Maio de 99. Tudo isto sem autorização da ONU, mas também sem grandes protestos por causa disso, estranhamente. Entretanto, no Ruanda, ocorria mais um desastre operacional das Nações Unidas, que desta vez contou também com a negligência americana e a cumplicidade dos franceses – o massacre dos tutsis pelos hutu resultou em 500.000 mortos, pelo menos.
Sobre as recentes guerras no Iraque e no Afeganistão o autor manifesta uma opinião não convencional. Seguindo a doutrina que recomenda o ataque a países que albergam organizações terroristas, já que o terrorismo é difícil de combater de outra forma por forças convencionais, a administração Bush consegui o apoio da ONU para a acção militar no Afeganistão, muito porque foi rapidamente colocado um governo nativo no poder. No caso do Iraque, Niall Fergusson mostra algum espanto pelo facto deste país não ter sido invadido antes de 2005, dadas as constantes infracções à lei internacional cometidas pelo governo de Saddam Hussein, que levaram a 22 resoluções do Conselho de Segurança (!). E assinala o cinismo da posição francesa, que é uma constante da sua relação com os Estados Unidos, enquanto desvaloriza a importância dos interesses do complexo industrial e militar na tomada de decisão de invadir o país (a cadeia de retalho Wall Mart subiu mais na bolsa do que a Halliburton durante os anos da guerra).
O autor gosta de chamar islamo-bolchevistas aos radicais islâmicos. É preciso dizer que esta nomenclatura não é completamente correcta. Se podemos enquadrar nesse imaginário, com um esforço de boa vontade, o regime dos Ayatollas, no Irão, a nomenclatura só muito dificilmente é apropriada para qualificar a Alquaeda ou o ISIS no mesmo enquadramento ideológico. Mais abrangente e menos polémica será, porventura a definição Islamo-fascistas usada por outros eminentes analistas da realidade política no Médio Oriente (2).


A queda.

Niall Fergusson pergunta-se, com algum desassombro e por várias vezes nesta obra: não será melhor para certos estados ditatoriais ou fracassados uma ocupação que permita a transição para a democracia sob protectorado, mesmo que esta ocupação dure décadas? Parece evidente que esta solução é preferível na maior parte dos casos, até porque a descolonização descomprometida com os destinos regimentais dos países colonizados, como foi feita pelas potências ocidentais, não trouxe paz nem prosperidade a esses países. Ao contrário, as ditaduras que se seguiram foram, na perspectiva das populações nativas, bem piores que os impérios coloniais. Na maior parte dos casos, as ex-colónias ficaram mais pobres relativamente às metrópoles. E a globalização não é desculpa: para o autor, o problema da globalização não é o de exisitir. É o de ser pouco ambiciosa.
Por outro lado, as variáveis ambientais, geográficas ou de salubridade não justificam, na opinião de de Fergusson, o subdesenvolvimento das ex-colónias, como defendem vários e eminentes autores contemporâneos como o Professor Jared Diamond (3). O problema está na ausência de instituições democráticas e liberais, que assegurem os direitos da propriedade privada, as liberdades individuais, os direitos contratuais, a estabilidade governativa, a governação honesta, moderada e eficiente; uma opinião que tem vindo a ser secundada posteriormente por outros reputados académicos como Daron Acemoglu e James A. Robinson (4). É, assim, por omissão de civilização e não por excesso que pecam os impérios.
Seguindo a lógica desta linha de pensamento, não devemos criticar os americanos por intervirem em territórios além das suas fronteiras, mas por não estarem dispostos a prolongar a sua estadia por períodos mais longos, de forma a criar condições reais que alicercem o curso de democracias de inspiração ocidental.
Os britânicos ficaram 40 anos no Iraque, que é um estado inventado por eles. E quando permitiram a independência (controlada) e coroaram o rei Faisal, o hino que tocou na cerimónia oficial foi o “God Save the King”. É claro que a lógica de Fergusson tens as suas lacunas: mesmo permanecendo 40 anos no Iraque, o Império Britânico acabou por não criar um estado estável, como sabemos hoje muito bem.
E, de qualquer forma, percebe-se que os americanos prefiram residir no seu país e avaliar com cepticismo o colonialismo à maneira europeia. A nação federal oferece um nível de conforto material e civilizacional aos seus cidadãos que não tem comparação com o que era assegurado pela Inglaterra do século XIX (ou o Portugal dos Séculos XV a XX). Entre viver em Boston ou viver em Kabul, é compreensível que o americano médio prefira ficar em casa. Ou voltar para esse farto conforto o mais depressa que lhe seja possível.
Em oposição directa a escoceses e irlandeses, que usavam o serviço público colonial do Império Britânico como trampolim sócio-económico, os cidadãos mais discriminados dos Estados Unidos da América tendem, apesar de tudo, a querer permanecer nos Estados Unidos da América e, assim, os EUA lutam com uma escassez crónica de mão-de-obra para o “nation-building” que é necessário à boa gestão de um império (mesmo que apenas económico, mesmo que apenas cultural). Actualmente (leia-se: números de 2004), cerca de 3,8 milhões de americanos vivem no estrangeiro. Um oitavo do número de estrangeiros que vivem nos EUA. Destes americanos emigrantes, um milhão vive no México e 687 mil no Canadá. E dos 290 mil que vivem no Médio Oriente, dois terços residem em Israel. Há apenas 37 mil americanos a viver em África. A América é “um império sem colonos“. E como as faculdades americanas não têm vocação ideológica e técnica para a formação de quadros que operem além-fronteiras, é também “um império sem administradores“.
Além do mais, o apoio popular a aventuras além mares com duração temporal substantiva é cada vez mais escasso. Se no Vietname foram precisos 30.000 mortos e anos de combate acesso para que a opinião pública retirasse o seu apoio ao esforço de guerra, no Iraque bastaram 6 meses de confronto para que a administração Bush se visse a braços com a contestação geral. Isto embora a análise histórica demonstre o acerto de uma estratégia mais consistente. A presença militar na Alemanha, no Japão e na Coreia do Sul, porque foi de longa duração (décadas), gerou a formação de estados bem-sucedidos.
Por outro lado, e paradoxalmente, a hegemonia americana não parece ameaçada, como nos tempos da Guerra Fria, por nenhum inimigo cujo poderio bélico ou económico tenha que ser levado em conta. No entendimento do autor, a União Europeia é o único rival à altura. A demografia é superior em mais do dobro (450 milhões de europeus para 200 milhões de Americanos) e o PIB é ligeiramente superior (mais uma vez, em números de 2004). A economia da União apresenta bons índices de produtividade, a aproximarem-se da americana, e um peso comercial que é par, mas não está tão endividada. Porém, e mesmo que se trate de um aliado céptico e, muitas vezes, cínico, a União Europeia não tem impulso imperial, nem coordenação militar, preferindo contar, nessa área, com o protagonismo americano, mesmo que depois se prontifique a criticá-lo abertamente.
Acresce que a União Europeia tem vários handicaps: a população envelhecida, um crescimento económico decepcionante, um mercado de trabalho pouco flexível, com altas taxas de desemprego e baixo voluntarismo. Os trabalhadores americanos folgam menos, fazem menos greves e têm um terço dos dias de férias em relação aos trabalhadores europeus. As políticas comunitárias, que tendem ao proteccionismo sectorial, e a união monetária, que demonstra grandes fragilidades (o autor antecipa a crise do euro com extrema acuidade), são também factores que reduzem a capacidade dos europeus de competirem efectivamente com os Estados Unidos.
A China – candidata a primeira potência mundial em 2041 (e de primeira potência de facto até 1850) apresenta altas taxas de crescimento económico. Mas também sérios problemas de crescimento e de interdependência comercial. E não está, ou não estava em 2004, em condições de competir tecnológica e militarmente com os Estados Unidos.
Assim, o declínio e queda do império americano será devido, fundamentalmente, a duas circunstâncias internas: por um lado, o ruído de fundo psico-social que está na génese da nação e é anti-imperialista, tem por consequência uma constante ausência de voluntarismo para a acção externa. Por outro, a dimensão da dívida pública e a consequente permanência de um estado de crise orçamental – curiosamente, não por causa dos gastos militares, que têm descido em relação ao PIB, consistentemente, desde os anos 50.
O produto americano subiu de 10% do produto mundial em 1980 para 31% em 2002 e a economia americana é duas vezes e meia maior que a japonesa, oito vezes e meia maior que a chinesa e trinta vezes maior que a russa (à data da redacção da obra). Os gastos militares dos EUA excedem o conjunto dos orçamentos de defesa da União Europeia, da China e da Rússia.
Os custos da invasão do Iraque e do Afeganistão, ao contrário do que é muitas vezes propagado, foram marginais face ao PIB. Mas o peso do consumo público e privado, bem como com a segurança social, está a transformar a América numa nação vulnerável.


Conclusão

Manifesta-se no Século XXI americano a mesma má equação que aflige a Europa desde as últimas décadas do Século XX: a relação deficitária entre a demografia e capacidade do estado em manter as prestações sociais. A médio prazo os EUA podem ter que escolher entre pagar a dívida soberana ou as pensões. O professor de Harvard traça aliás um quadro muito negro do futuro financeiro e tributário dos EUA: mesmo que os impostos sobre o rendimento fossem aumentados para o dobro e em tempo real, a sustentabilidade do sistema a médio-longo prazo não estaria ainda assim garantida.
O recurso à tradicional e muito questionável solução de emitir mais moeda já não é nada atraente, porque o correspondente aumento da inflacção levaria inevitavelmente à subida das taxas de juro dos títulos do tesouro e da dívida. Ora, os mais significativos detentores da dívida americana são os chineses e os japoneses, o que é, em termos geo-estratégicos e civilizacionais, talvez um pouco complicado. A garantia contra a catástrofe está no facto de tanto os credores do Império do Meio como os da Terra do Sol Nascente não estarem assim tão interessados na ruína dos EUA como poderia parecer à primeira vista, já que muito dependem da prosperidade dos mercados de consumo americanos. Mas esta conjuntura económica pode sempre mudar, claro, e um dumping de títulos da dívida do primeiro motor económico mundial é algo que pode absolutamente mudar o universo como o conhecemos.
É que um império rico e forte não é necessariamente um império poderoso. Fergusson enumera 3 deficits do império americano que contribuem para a redução da sua influência global: o económico, por causa da dívida, o da força de trabalho, por causa da inexistência de um corpo de quadros disponível a dedicar-se a uma carreira além mares; e o deficit de atenção, na medida em que o povo americano tende a relativizar a importância dos acontecimentos políticos e militares externos e a colocar-se instintivamente com políticas de cariz imperialista.
O império em negação, que atribui recursos insuficientes aos aspectos não militares das intervenções e que procura transformar os territórios económicos e políticos dos países colonizados num prazo irresponsavelmente curto, é também um império de gordos: “o fardo do homem branco desceu-lhe para a cintura“. E atenção. Nem é preciso que o império caia para que se crie uma perigosa “apolaridade” global“, O futuro, em resumo, poderá revelar-se por algum tempo como apolar, um mundo em que não haverá sequer uma potência imperial dominante, talvez como o século IX mas sem o califado abássida”.
Niall Fergusson não é um prosador sobredotado. Mas, se compararmos este “Colosso” com outras duas obras do autor publicadas em Portugal (5), esta será talvez o trabalho de leitura mais aprazível e de tom menos académico, apesar dos problemas já referidos e que derivam do que aconteceu no mundo nos últimos 12 anos.
O autor pertence com certeza a uma tribo bastante assertiva de adivinhos. Prevê a crise económica que rebentou em 2007 com espantoso detalhe, profetiza o percurso da Moeda Única Europeia como se tivesse entrado numa máquina do tempo para ver a coisa acontecer uns anos mais tarde e palpita-lhe que o abandono precoce do Iraque poderia descambar em algo como o Estado Islâmico. Mas também é verdade que a ignorância sobre factos entretanto ocorridos, como a incapacidade de encontrar as armas de destruição maciça no Iraque, que era segmento fundamental do argumento para a invasão, impedem o bom professor de ter no seu leitor um dedicado apologista. Ainda assim, e considerando o acerto de muitas das suas previsões, será de levar muito a sério a perspectiva de uma ruptura do sistema financeiro americano, que o autor anuncia como incontornável. E uma consequente era de apolaridade que, atendendo objectivamente às lições da história, não é nada recomendável.
Um dos mais interessantes contributos desta obra é que se trata de um trabalho de vocação comparativa. O autor explica-nos outros impérios para nos explicar o americano. E principalmente explica com mestria e capacidade de síntese o Império Britânico. E é através desse esforço dialéctico que percebemos as fragilidades de um “império devedor”, uma excepção volátil às tradições imperiais anteriores, que investiam nos territórios da sua esfera de influência e eram essencialmente entidades credoras.
“Colosso – Ascensão e Queda do Império Americano” é um livro inquietante e provocador, polémico na mesma medida que é lúcido. E que por isso vive para além dos seus defeitos intrínsecos. E que por isso é um documento de profundidade inegável. E, a espaços, bastante assustador.


(1) Sapiens – De Animais a Deuses – Yuval Noah Harari – Campo das Letras Editora – 2015
(2) Islamofascism refers to use of the faith of Islam as a cover for totalitarian ideology. W. Schwartz. The Spectator . 2006
(3) Colapso – Ascensão e Queda das Sociedades Humanas – Jared Diamond – Gradiva – 2006
(4) Porque Falham as Nações – Daron Acemoglu e James A. Robinson – Circulo de Leitores – 2012
(5) – História Virtual – Niall Ferguson (Coord.) – Tinta da China – 2006; A Lógica do Dinheiro – Niall Fergusson – Temas e Debates – 2008

domingo, janeiro 22, 2017

Ao volante pela estrada de Sintra.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa que o poeta, que ia devagar, pela estrada de Sintra.
Vou mais depressa mas não tenho pressa: 
quero que a estrada se eternize no espaço e no tempo;
quero-a infindável e alucinante.
Vou a acelerar pela estrada de Sintra, mas não quero chegar a Sintra.
Não quero chegar a lado nenhum
porque querer chegar a algum lado é um mito.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra e tudo o que espero da estrada 
e tudo o que espero de Sintra
e tudo o que espero da vida
é morrer assim, veloz, bombástico, supersónico como um astronauta,
disparado como uma seta em direcção a nenhures,
embalado pelo malicioso ronronar do motor,
travando o menos possível nas curvas,
acelerando o mais possível nas rectas,
senhor de 230 cavalos enlouquecidos, embestados, bestiais!;
piloto de cilindros enfurecidos na grande combustão de tudo!;
soltando ruídos e faíscas e raters e explosões!;
até que a velocidade chegue a vertigem e a vertigem seja Deus.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra.
Por sorte não vou com um Chevrolet, como o poeta, 
Por sorte não guio um automóvel emprestado, como o poeta,
mas, como ele, vou ao luar e ao sonho pela estrada deserta
e outrossim sozinho guio, mas depressa porque não tenho pressa;
mas depressa porque ninguém me espera;
mas depressa porque eu não espero por ninguém;
mas depressa porque conduzo a emergência de não ter urgências
e a velocidade de não ter uma agenda.
Sim, não estou propriamente a reflectir sobre a paisagem
e a vida que levam as pessoas que habitam os casebres à beira da estrada
não me interessa nada.
Enquanto o asfalto rugoso, a borracha aderente e a electrónica alemã
seguram o automóvel às leis de Newton,
não tenho vagar para fazer filosofia.

Vou a acelerar pela estrada de Sintra porque sim,
porque posso, porque quero, porque estou vivo, porque vou morrer.
O acelerador é um fim em si mesmo
e o estômago colado às costas, as costas coladas ao assento,
o assento colado à carroçaria, a carroçaria colada ao chassis
e o chassis colado à estrada dão razão, dão sentido ao universo!

Vou a acelerar pela estrada de Sintra, e vou muito mais depressa
do que o poeta ia depressa quando finalmente se cansou de guiar devagar.
O poeta ia enfim depressa por tédio de ter vindo devagar
e eu venho depressa desde sempre para não me aborrecer.
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
e o meu coração dispara para as sete mil rotações por minuto
e a minha alma é fricção, binário, força e glória mecânica de pistões!
Vou a acelerar pela Estrada de Sintra
sem pressa pela estrada deserta,
sem travões pela serra que amanhece
ao som que faço com os nervos
e os cavalos.



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Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

Álvaro de Campos

sábado, janeiro 21, 2017

sexta-feira, janeiro 20, 2017

É matar até fartar.



Call of Duty: Infinite Warfare a bombar na PS4. Devastador. Estamos cada vez mais perto de ter jogos em imagem real. É que falta mesmo muito poucochinho.

Estes já carregam com mais décadas na carcaça.



Mas também não têm juízo nenhum.

Fujiya & Miyagi . Serotonin Rushes

Ainda nem têm barba...



mas nasceram nos anos 80.

Blossoms . Charlemagne

quinta-feira, janeiro 19, 2017

quinta-feira, dezembro 22, 2016

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Xmas Soundtrack



Kaiser Chiefs ensaiam uns eloquentes prolegómenos à arquitectura pop contemporânea. Licença para saltar (com ou sem para-quedas).

Kaiser Chiefs . Parachute