sexta-feira, outubro 20, 2006

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Não parece, mas o golf é um desporto de masoquistas. De endinheirados masoquistas, regra geral, mas nem por isso menos adeptos do mal estar de corpo e alma. Jogo de planeamento em tempo real e precisão sobre-humana, castiga severamente os atletas por pequenos lapsos, atira-os para o inferno dos bancos de areia e a malária dos lagos, para a ratoeira dos bosques e a maldição dos ventos; todos e mais algum instrumentos de tortura criados por sádicos arquitectos e outros grandes diabos da paisagística.

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Provavelmente, ninguém como Robert Tyre Jones the Third (Atlanta, 1902-1971) sofreu alegremente as piores agruras do jogo. Os erros consumiam-lhe o espírito, as derrotas escavacavam-lhe o metabolismo, a pressão matava-o. Mas também é verdade que as diversas úlceras e o terrível problema neurológico que acabou por o consumir - efeitos directos do stress da competição - contam pouco em função da aura de glória que coroa esta notável espécie de pessoa.

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Bobby Jones é ainda hoje considerado um intérprete tecnicamente perfeito da modalidade, e será sempre uma das grandes referências da história do Golf. Mas é talvez pelas suas lendárias características humanas que permanecerá imortal por dentro dos séculos. Verdadeiro cavalheiro, homem honrado, de grande honestidade e apurado sentido ético, o seu fair-play é proverbial: num célebre playoff do Open dos Estados Unidos, Jones tinha uma pancada difícil a executar, no rough junto à margem do green. Quando se preparava para dar a pancada, o ferro tocou ligeiramente na bola, provocando-lhe um ligeiro movimento. Jones alertou os marshals e o seu adversário para o facto, dado que ninguém, nem no público, se deu conta da falta. Sendo a única testemunha do seu próprio erro, Jones confirmou-o e solicitou a falta (que equivale ao registo de mais uma pancada). Este enormíssimo campeão, que viria a perder o Open exactamente por essa única pancada, ao ser congratulado por um marshal pelo magnífico exercício de integridade, replicou: "O sr. não cumprimentará por certo um ladrão por não roubar. Esta é forma como o Golf deve ser sempre jogado."

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Somando títulos profissionais tão sonantes como o Grand Slam (foi o único na história do jogo a conseguir ganhar os 4 maiores torneios do Golf numa época só), Bobby Jones nunca abdicou do seu estatuto de amador, dedicando-se apenas em part-time ao treino e recusando as fortunas e maus hábitos da prática profissional do desporto. Desconfio que este facto se deverá em parte à ausência de preocupações financeiras, dada a linhagem paterna de industriais, e ao transbordante talento académico: bacharel de Ciência em Engenharia Mecânica, bacharel de Artes em Literatura Inglesa (Harvard), Robert Tyre Jones demorou apenas um aninho para se formar em Direito, ofício de que fez profissão, como advogado.

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Abandonando o Golf, a conselho médico, com apenas 28 anos, Bobby Jones é adorado no seu país e foi, até John Glenn, o único americano a ser premiado por duas vezes com a célebre parada de Nova Iorque. É hoje considerado um dos grandes cinco mitos do desporto americano dos anos 20 e o melhor desportista amador de todos os tempos. Sofrendo horrores e castigado pelos nervos, acusando muito o insustentável peso do par mas dando invariavelmente a provar aos seus adversários o doce da sua leal cordialidade e o fel do seu jogo devastador, este é um herói inteiro do Século XX. Mais put menos put.

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