terça-feira, setembro 28, 2021

A ciência já foi um clube eclesiástico. Agora é um culto ateísta. Num caso como noutro, é preciso ter fé.

"Este lindíssimo sistema do sol, dos planetas e dos cometas só pode proceder do conselho e do domínio de um ser poderoso e inteligente"

Isaac Newton . Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, vol. 2 (Londres: 1729)


Ao contrário do que podes pensar, gentil leitor, a Ciência nem sempre se apresentou divorciada da Religião. Na sua génese, desenvolvimento conceptual e maioritário corpo epistemológico, o espírito científico está umbilicalmente ligado às igrejas cristãs. Foram ferozes católicos e convictos protestantes que inventaram a Coisa e que fizeram dela a glória que pensamos que é.

Copérnico, Espinoza, Giordano Bruno, Bartolomeu de Gusmão, Ockham, Bacon, Mendel e Lemaître eram clérigos católicos.

Kepler estudou para ministrar a lei protestante; Newton, Leibniz e Pascal notabilizaram-se como teólogos; Descartes dedicou-se febrilmente à constituição de um argumentário racional em favor da necessidade de um criador plenipotenciário e seria muito difícil convencer esta gente que o cosmos é afinal orfão da inteligência divina e criadora. Os seus gloriosos trabalhos académicos destinavam-se a entender as leis universais que Deus tinha estabelecido sobre a realidade. E é isto.

Na verdade, até ao primeiro terço do século XX, a fé e a razão sempre se deram lindamente. James Watt, o pai da Revolução Industrial, era um presbeteriano indefectível; Morse, o inventor do telégrafo, um calvinista dos sete costados; Maxwell, que descobriu os princípios da electro-magnética, era acólito da igreja evangélica; Nikola Tesla nunca abandonou o credo ortodoxo e Max Planck, para todos os efeitos o fundador da Física Quântica, massacrava toda a gente com um luteranismo evangelizador e fundamentalista. Pouco antes da sua morte, em 1970, Kurt Gödel, talvez o mais genial matemático do seu século, dedicou-se, na senda de Santo Anselmo, à elaboração de uma prova ontológica da existência de Deus, aproveitando o ba-lanço filosófico das conclusões a que chegara sobre a incompletude dos sistemas aritméticos.

Ainda assim, as disciplinas exactas foram sendo convertidas ao materialismo espúrio, primeiro e depois, ao credo ateu: inicialmente, talvez, com a irreverência filosófica de Voltaire, depois com a teoria da selecção natural de Darwin e, em definitivo, com o triunfo escolástico, dogmático e mediático dos físicos germânicos como Bohr, Heisenberg e Einstein, dos matemáticos marxistas da laia de Bertrand Russel e de niilistas como Carl Sagan e Stephen Hawking.

Há aqui, porém, um paralelo curioso: a força laicizante destes personagens surge precisamente quando a História da Ciência entra num labirinto de incertezas. Todos estes ateus na verdade só têm a convicção lúcida de que Deus não existe e de que o universo não tem um especial significado. Do resto, não sabem tanto como isso e assim sendo, este ateísmo militante mostra-se, a cada dia que passa mais e mais, um acto de fé.


Este testemunho de John Lennox, o decano professor de Matemática de Oxford, começa por colocar em causa toda a ética e toda a lógica ateístas das academias ocidentais. Mas termina precisamente no assunto específico deste post. Sem o Cristianismo, a Ciência, como (mal) a entendemos hoje, não existiria. Ponto final, parágrafo.