sábado, outubro 07, 2023

A diferença que quatro anos fizeram.

Noutros tempos, que uma eternidade agora separa, estaria aqui a escrever coisas furibundas sobre o Hamas e os palestinianos que se sacrificam uns aos outros enquanto tentam por todas as maneiras matar judeus e os iranianos que sacrificam os palestinianos enquanto tentam por todas as maneiras matar judeus. 

Noutros tempos, longínquos como o sono da vigília, estaria aqui a defender com acérrima prosápia a legitimidade de Israel para se defender do Hamas e dos palestinianos e dos iranianos e do diabo que os carregue.

Mas hoje, depois dessa eternidade de três ou quatro anos, já não vejo assim as coisas. Já não vejo Israel como a "lança em África", muito porque essa "lança", a da civilização ocidental, se transformou entretanto numa arma nefasta, aleatória ao ponto de ser lançada contra o próprio ocidente, cega de valores, totalitária na origem do arremesso, exterminadora de inocentes no seu destino indiferenciado, como uma gigantesca bomba de fragmentação, que rebenta com casamentos e baptizados, aniversários e reveillons, deixando vivos apenas os terroristas, que entretanto são bem vindos em França e na Suécia e em Itália e no Canadá e têm salvo conduto na fronteira norte do México.

Hoje, depois da imensidão de dias que passaram desde que acordei para a realidade, já não entendo os judeus com a bonomia com que os percebia enquanto dormia pela História a dentro. 

Hoje, sei que Netanyahu persegue cristãos com a voracidade de Xi Jinping. Hoje sei que o estado de Israel criou duas classes de cidadãos com draconianos mandatos de vacinação. Hoje sei que a terra prometida tem uma embaixada feliz, em Davos. Hoje sei que os judeus em Nova Iorque, como em Los Angeles, como em Antuérpia, trabalham em nome de valores que abomino. Hoje sei que a liberdade de expressão e de religião não são ideais partilhados em Tel Aviv. Hoje sei quem são os amigos que o estado judaico preza:

 

 

Hoje choca-me que pessoas que admiro, ou que já admirei, pela sua qualidade intelectual e pela sua coragem política, se entusiasmem com chacinas e recomendem infernos:


 

Continuo, claro, a ter as convicções que sempre tive sobre o Hamas ou os sacerdotes oligarcas de Teerão. Já não considero porém que Israel seja inocente ou virtuoso, ou que os seus líderes sejam diferentes dos ayatollas. Não são. 

Nem vejo que diferenças existem entre fariseus e islamitas.

Hoje considero Israel como um estado inimigo. Não inimigo de um país em especial, de um modelo civilizacional em particular ou de uma ideologia específica (as ideologias faleceram).

Israel é meu inimigo. Tão inimigo como o Hamas. Mas, convenhamos, mais poderoso.

Israel é meu inimigo por muitas razões, a primeira das quais deriva deste simples facto biblíco (como é que eu demorei tanto tempo a perceber isto?): 

Sou cristão.