terça-feira, janeiro 06, 2026

A Ceia de César.

César janta com a Primeira Matrona
aquelas coisas requintadas que se jantam nos palácios dos césares.

Lagostins de Osaka, Ostras da Bretanha, Percebes de Sagres,
mas, antes do Bife Argentino (com brócolos de Alexandria), 
é interrompido pelo mordomo altivo
que lhe segreda íntimo palavreado. 

Fecha o semblante, limpa as beiças com o guardanapo de puro linho italiano,
lava a boca com a soda que sobrava no copo de cristal suíço 
e cospe no escarrador texano para, de boca lavada, informar solenemente
a solene conjugue:

- Lamento, querida, mas tenho que ir até à Sala da Guerra
Para me certificar de que as pessoas estão a ser devidamente mortas
no País dos Nhurros.

Caminha, entre peidos e arrotos, pelos mármores turcos do palácio, 
arrependendo-se severamente de não ter usado a sanita de platina
dos lavabos cesários,
até encontrar a escadaria em pedra negra angolana
que conduz às antecâmaras do labor proibido dos césares,
habitadas apenas pelo seu círculo mais íntimo
de generais e lambe cus.

Entra na Sala da Guerra escancarando as portas de aço coreano 
ainda meio indisposto dos intestinos e
exigindo satisfações:

- Quantos matámos já, no País dos Nhurros?

Os generais e os lambe cus levantam-se e dobram-se e,
com os testículos no chão, cantam em coro grego:

- Paz pela Força: para cima de cem mil, senhor!

César acomoda-se na cadeira de couro de flor integral da Patagónia,
observa distraidamente a parede de monitores ao fundo da mesa de mogno brasileiro
e pede um Jim Beam ao ajudante de campo:

- Já sabes, rapaz, com muito gelo e dois dedos de Pepsi.

César não está satisfeito com aquilo que vê. 
As imagens que chegam por satélite são difusas, 
escasseia o sangue e o fogo de artifício,
o rosto esverdeado dos lambe cus não inspira confiança
e o ar cheira à cobardia dos generais. 

- Por Juno, alguém me consegue explicar por que raio 
é que tenho um bife portenho a arrefecer no domicílio imperial?

Sufocado pelo silêncio dos congéneres e a urgência do supremo líder,
o Chefe do Estado Maior tosse os nervos, 
ajusta a gravata de seda afegã,
e decide-se a dizer:

- As milícias do País dos Nhurros, senhor...

César contém a impaciência durante dez eternos segundos. 
Mas o seu olhar dispara todas as ameaças que um tribunal militar pode produzir.
Passam a quatro as cinco estrelas do general de cinco estrelas,
passam a três, 
passam a duas até que o suor frio obriga ao verbo:

- As milícias do País dos Nhurros... 
Enfim, senhor, parece que o inimigo...
Matámos muitos, Senhor, sem dúvida que matámos muitos,
para cima de cem mil (Paz pela Força!) 
e temos os nossos melhores homens
no teatro das operações
mas as milícias, Senhor...

O silêncio na Sala da Guerra é agora mais profundo
do que aquele que Deus escutava
antes da criação. 

César levanta-se, apoia os punhos na mesa, 
e enquanto tenta desesperadamente conter um peido
deixa-se gritar:

- Foda-se para esta merda toda! 

Bebe o Bourbon de um golo e sai da Sala da Guerra 
com o mesmo despacho com que entrou.
Tenta encontrar satisfação na frágil garantia de ter matado muitos
no País dos Nhurros.
Mas sabe, no fundo da sua majestática alma, que vai ter que inventar
- rapidamente - uma guerra nova.

O País dos Párias está mesmo a pedi-las.
O País dos Parvos não tem milícias.
O País dos Prognatas precisa de um soco no queixo.

Felizmente há muitos países por onde escolher e 
O Rei da Judeia saberá melhor 
sobre os que podem viver e os que devem morrer
(toda a gente e até César
tem afinal um patrão).

Mas para já, para já
há que dar bom curso ao trânsito intestinal.