Nigel Farage foi. Georgia Meloni foi. Javier Milei foi. E Donald Trump, também, claro.
É espantoso.
É verdade que o presidente-norte americano roubou completamente o oxigénio à turba do costume, e a agenda luciferina do WEF não deslizou alegremente para os canais de propaganda corporativos como é habitual.
Na sua alocução ao Fórum, Trump gabou-se das suas conquistas económicas (de que os americanos comuns, como ele próprio já confessou, não conseguem beneficiar), enfatizou a importância da soberania nacional, da preservação cultural das nações, da "força do eixo transatlântico" e do comércio justo (incluindo as tarifas como instrumento de ajuste da balança), posicionando os EUA como o motor da economia global.
Trump aproveitou o palco do WEF para insistir na questão da Gronelândia, prometendo que não usaria a força militar para conseguir o que quer, enquanto negociava um acordo sobre o território com Mark Rutte, o holandês que é chefe civil da NATO e que, segundo o inquilino da Casa Branca, é um tipo mais importante para a boa resolução do imbróglio que as autoridades dinamarquesas e os representantes políticos dos 50.000 infelizes que vivem naquela na ilha gelada.
Os rumores falam de um acordo que concessiona aos EUA parcelas do território da Gronelândia, o que, a confirmar-se, não deixa de ser um recuo relativamente à retórica do presidente americano nas últimas semanas. Mas este acordo, se é que existe, não foi ainda retificado pela Dinamarca. Nem por ninguém, na verdade.
A agenda do regime Trump é, claramente, a de substituir o great reset globalista europeu por um great reset globalista americano. Os dois programas convergem em certos pontos e divergem noutros.
O regime Trump alinha completamente com a agenda WEF no que tem a ver com a filosofia trans-humanista e tecnocrática, aposta com o mesmo fervor na vigilância e controlo das massas, insiste numa lógica imperialista do Ocidente, que também agrada às elites europeias, e defende histericamente, como em Davos religiosamente é defendido, o sionismo mais belicoso e genocida que podemos imaginar.
A discórdia entre Washington e Davos resume-se hoje a dois vectores apenas: as políticas de imigração e as políticas de identidade. De resto, mais coisa, menos coisa, os dois programas convivem bem.
Talvez por Zelensky ter chegado atrasado ao encontro com os seus padrinhos, o assunto da guerra foi pouco discutido. A omissão, em Davos, é sempre suspeita e se ninguém quis incomodar o elefante magenta que estava sentado no grande auditório da estação de esqui, é porque na verdade toda a gente sabe bem que, a continuarmos por este trilho, a III Guerra Mundial é inevitável.
Não por acaso, mas muito surpreendentemente, o discurso mais interessante deste encontro de tiranos e aspirantes a tiranos foi o do primeiro-ministro canadiano. Sim, é verdade. Mark Carney, que está em Davos como o mexilhão na orla marítima, disse aquilo que toda a gente pensa para dentro mas ninguém deita cá para fora: não vale a pena continuar a fingir que as relações internacionais se baseiam no direito. Não vale a pena continuar a falar em paridade entre as nações e a lembrar os valores da Carta das Nações Unidas e a insistir na diplomacia. Isso é tudo treta. E sempre foi treta, mas agora, meus caros, já nem sequer há qualquer razão para insistirmos na falácia. Agora, impera a lei do mais forte e a regra do salve-se quem puder, de tal forma flagrantemente que é apenas cómico disfarçar o facto com flores de plástico e advérbios de modo.
Citando até Tucídides, Carney afirmou:
"Parece que todos os dias somos relembrados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que 'os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem'”.
A Carney escapa a ironia intestina do seu discurso, já que como gestor de fundos em Wall Street e governador do Banco do Canadá, entre outros cargos só acessíveis aos senhores do universo, é um representante máximo do mais aviltante elitismo oligárquico e sectário que é possível encontrar à superfície do terceiro calhau a contar do Sol. E, nesse sentido, o primeiro-ministro canadiano tem feito durante toda a sua vidinha o que pode e o que não pode para que os fracos sofram o que devem.
Mas na ausência de gente com órgãos reprodutores de tamanho acima da média, foi preciso que um globalista empedernido dissesse duas ou três verdades, mesmo que para isso tivesse que perder a vergonha na cara.
Porque, sim, o great reset continua de vento em popa. A diferença é que agora quem está ao leme é o César de Queens, que tem outros métodos para criar o caos. Que tem outras manias de grandeza. Mas o resultado vai ser o mesmo, amigos: barbárie e destruição.
O fim do Homem.
