sábado, janeiro 17, 2026

Completamente livre.

Advertência prévia: este texto é confessional. Estou a usar o blog como o usava antigamente - e que me faz falta - como se a página fosse habitada por amigos e não por milhares de utilizadores que não a frequentam para saber da minha vida, mas para seguirem a actualidade política ou, aqui e ali, algumas aventuras de contexto cultural.

Se este texto for constrangedor para esses estimados leitores, larguem-no rapidamente, por gentileza, e perdoem-me o abuso. 

E mesmo para aqueles que me conhecem, hoje uma pequena parcela desta audiência que às vezes até me assusta (este blog tem o dobro das visitas do ContraCultura), o que tenho a dizer poderá ser muito justificadamente lido como uma gabarolice despudorada. Lamento. Mas preciso de escrever estas palavras porque elas estão aos saltos, por entre o bater do meu coração. 

Já foi o Blogville, velho de 22 anos, palco para o inverso, montra do desdém que sentia por mim próprio, pelo que não me falta legitimidade para ser sincero de outras maneiras.

Nos últimos meses, tenho arrumado a minha vida, e bem arrumada. Em Novembro do ano passado, saí finalmente de Lisboa. Encontrei em Sesimbra um lar, construído sobre um sonho antigo. 

Nunca acreditei no conceito de felicidade como permanente; sempre achei, ao invés, que as pessoas são felizes por uns momentos, infelizes noutros momentos, e assim seriam até à morte.

Não é verdade. Eu sou, agora, uma criatura estruturalmente feliz, aqui. Desde que acordo até que caio de sono, caminho bem disposto e tranquilo sobre os dias. Gosto imenso de viver, para dizer a verdade. E o meu estilo de vida mudou muito em muito pouco tempo, para um plano bem mais saudável, que me dá imensa latitude para a contemplação, a meditação e, logo, para explorar o contexto espiritual da existência.

Ajudou a isto, claro, um fenómeno prévio: a minha conversão ao cristianismo, se bem que este post não se possa alongar sobre esse assunto, sob risco de perder o pé.

O assunto-fundamento destas linhas é que hoje, nas primeiras horas do dia 17 de Janeiro de 2026, encerrei em definitivo um vector que tem motorizado o meu percurso de adulto sobre a curvatura da Terra, para o bem e para o mal: deixei de uma vez por todas o ofício de publicitário, que tenho cumprido desde 1990.

Para além da óbvia insustentabilidade técnica e existencial de se ser um 'criativo' com 58 anos de idade, a verdade é que a profissão já me pesava moralmente, como nunca me pesou. 

Trabalhei para inúmeras marcas e empresas e entidades públicas, sem sombra de pecado nem problemas de consciência (absolutamente nenhuns), durante três décadas. Até que chegou o ano de 2020. 

A partir daí, tudo mudou. Mas, ironicamente porque a vida é, também, um exercício de comédia, a campanha que mais prazer me deu esgalhar em toda a minha carreira de publicitário até foi a propósito da pandemia. Porque estabeleci um acordo de princípio com aquele que era na altura o meu principal cliente - a Câmara Municipal de Setúbal - que a comunicação teria que ser diferente do registo fascistóide que por todo o lado imperava e tive a sorte ou o mérito, não sei, de ter do outro lado gente lúcida e corajosa que me deixou trabalhar de acordo com a minha consciência. 

Só para perceberem do que estou a falar, deixo uma arte final de um anúncio de imprensa dessa campanha, que se estendeu por dois anos.

Mais adiante no tempo hei-de voltar a este assunto, porque há até nesta campanha peças bem mais disruptivas que merecem um olhar retroactivo.

Mas voltando a 2020. Foi por essa altura que a minha visão do mundo se alterou radicalmente. E, assim sendo, também a ideia que tinha sobre a profissão que exercia. Comecei a ter vergonha dela.

Quando percebes que vives num mundo ao contrário, não queres trabalhar em favor dessa contrariedade. E a publicidade é um dos vectores fundamentais desse movimento de colocar a realidade de pernas para o ar. 

Na minha perspectiva, a profissão tornou-se até luciferina. 

Mas é claro que só podemos dar-nos ao luxo de ter vergonha do nosso ganha pão quando temos carcaças para comer e enfiar no congelador.

Acontece que eu não preciso de muitas carcaças porque sou uma pessoa de modestas ambições (sempre fui), não sou um consumista maluco (nunca fui) e não tenho dívidas, nem materiais nem morais.

Para mim, é fácil viver com pouco. Talvez por isso, dá-me completamente a sensação que tenho o bastante. 

Sou agora um animal mais livre do que alguma vez fui, mesmo nos tempos em que pensava que era o mais livre dos animais (a juventude é uma máquina de gerar equívocos). 

Segura-me a responsabilidade prática do ContraCultura (enquanto escrevo este texto, lembro-me que ainda não agendei os artigos para amanhã), mas do Contra não depende nada na minha vida, a não ser este senso de dever, a que me obrigo.

Ou seja: as minhas obrigações são para comigo e para aqueles que amo, apenas.

E assim sendo, deixam até de ser obrigações. São deveres. E os deveres, não pesam na vida (pode parecer paradoxal, mas os direitos pesam mais).

Estou de bem com o facto de ter nascido como nasci, e de ter vivido como vivi. Podia morrer agora, que seria grato a Deus por tudo aquilo que me foi oferecido. Deveras.

Encontrei em vida a independência, a paz e a liberdade com que sempre sonhei. 

Já não tenho que aturar clientes! 

Já não tenho que aturar fornecedores!

Sou meu senhor e dono. 

E nada temo. 

E é assim.