quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Louvor e celebração d'Ofélia

Trazes, na profundidade pastoral dos teus olhos,
a sabedoria que sábios olvidam e filósofos almejam. 

O conhecimento que tens do mundo
é a inveja de biólogos, e o desespero de sacerdotes.

Há académicos cem vezes mais estúpidos;
há prodígios desprovidos da tua sagacidade.   

Vives em harmonia com gatos e gaivotas
e és leal e jovial vizinha de vizinhos.

O teu instinto descodifica o Mistério
e a tua perfeita proporção resolve a paisagem. 

És bela sem dar por ela; és joia sem valor de mercado,
e o teu trote não tem vestígio de vaidade.

Brincas com o cosmos, despreocupadamente, e eu 
sou capaz de apostar que tratas Deus, por tu.

Caminhas comigo pelos interstícios da noite 
com solene e fraterna alegria.

E somos os dois, cadela e homem, apenas um bicho
no fim da caminhada. 

O teu calor consola-me os invernos
e a tua beatitude pacifica-me o feitio.

És minha amiga máxima como amizade fiz apenas
com outros da tua espécie. 

És isenta de pecado e de culpa -
A literal encarnação da inocência.

És doce como uma virgem escocesa,
tão doce, que quase dói o teu carinho.  

És a minha redenção de quatro patas,
anjo da guarda que me guardas de todo o mal. 

Há quem acredite que os cães não têm alma, mas tu, Ofélia,
confias em mim para desprezar essa gente.