Cai a noite de oito de Março de mil novecentos e troca o passo.
O poeta está de pé, debruçado sobre uma cómoda breve, e escreve
entre pequenos golos de bagaço.
Escreve por três homens que não existem
criados no momento com o tormento da imaginação
e o útero do papel almaço.
20 anos depois, em carta ao amigo Monteiro,
explica o poeta, tal e qual e por inteiro,
com detalhe esteta e veia fiel
esse parto triunfante naquele quarto diletante
do número vinte e quatro, terceiro esquerdo da Rua Passos Manuel,
em Arroios.
Mas disputam críticos e biógrafos, espertos e saloios,
a veracidade do relato:
sabem mais, por bacharelato, que o poeta por fantasia;
dito por não dito, dizem que mente o escriba parturiente
só porque se confessou fingidor um dia.
Bolas para a gente ter que aturar isto!
Que não foi crucificado Jesus Cristo
são até capazes de jurar os fariseus
da literatura!
(Durante o Genesis enganou-se Deus
ao criar as moscas e os críticos, em vez de serradura.)
Se diz o gigante bardo
que assim pariu o Alberto, o Álvaro e o Ricardo -
e se calhar mais gente -, de um dia para o outro, literalmente,
que comichão faz ao analista, que lhe pesa o fardo?
Não entendem os eruditos que não há cultura sem mitos?
Bolas para a gente ter que aturar isto!
Não fora a paz de Jesus Cristo
seriam supliciados os heréticos como proscritos
da literatura!
Deixem o Pessoa contar a história dos seus escritos,
que ele bem sabia que é a lenda que perdura.
