Para o bom entendimento deste texto vamos partir do princípio que a dicotomia ideológica esquerda/direita ainda é válida como instrumento taxonómico nesta terceira década do Século XXI, e que o populismo se enquadra à direita desse espectro. Eu não acredito em nada disso, claro, mas dá jeito neste contexto.
Ora, acontece um fenómeno por estes dias, à direita do espectro ideológico e mesmo ente populistas, que me tem deixado um bocado irritado, ou confuso, ou pasmado, nem sei bem.
Esse fenómeno consiste numa certa assimetria cognitiva em relação às narrativas regimentais. Os populistas, de uma maneira geral, rejeitam essas narrativas, mas abrem excepções constantes em função de simpatias e antipatias antigas. Por exemplo, há os populistas MAGA que, por incrível que pareça, ainda não perceberam que estão a ser traídos completamente e que a Casa Branca desenvolve neste momento a agenda da Classe Epstein, que é uma versão americanizada e, logo, sob esteroides, do programa de Davos, na verdade. Há os populistas que acham que Vladimir Putin é a encarnação do Conde Drácula e a NATO uma espécie de Santa Aliança. Há os populistas que se entusiasmam com o genocídio que o governo sionista está a promover em Gaza e no sul do Líbano e com os bombardeamentos que o Pentágono se entretém a realizar por todo o lado, até ao limite do seu stock de munições. Há também aqueles que não conseguem desligar a costela liberal e ainda não perceberam que o capitalismo corporativo é um obstáculo fundamental ao seu próprio ideário.
Enfim, há populistas que pensam de maneira diferente sobre montes de assuntos e, num outro contexto político, económico, social e histórico, isso seria até mais que normal.
O que é que me deixa então assim irritado e confuso e pasmado?
É muito simples: é que estes populistas todos, que percebem os efeitos nefastos com que impactam a Civilização Ocidental as oligarquias globalistas e respectivos aparelhos totalitários de poder, que não confiam na imprensa corporativa e sabem que são mentidos, enganados, manipulados e fascizados por ferozes máquinas de propaganda, conseguem ainda assim comer por verdadeiras certas narrativas que lhe são impingidas, como se aqueles que lhes mentem sobre a maior parte dos assuntos lhes pudessem dizer a verdade, de vez em quando, sobre temas que lhes são mais gratos.
As narrativas regimentais são falsas em relação à Covid. Mas verdadeiras em relação à guerra na Ucrânia. São fraudulentas em relação à imigração e às virtudes da diversidade, mas correctas em relação à legitimidade que Benjamin Nethanyhau tem para promover o genocídio em Gaza. A imprensa mainstream é perversa no que diz respeito à ideologia de género, mas é íntegra quanto à ameaça nuclear representada pelo Irão; e deturpa os factos quando fala de Trump, mas é eticamente exemplar quando cumpre a propaganda da NATO, e assim sucessivamente.
Estão preparados para que os seus filhos morram nas trincheiras da Ucrânia enquanto clamam pelo "drenar do pântano". Querem enforcar Anthony Fauci em praça pública enquanto conseguem, miraculosamente, esquecer todo o horror dos ficheiros Epstein.
Fico banzado com esta gente, sinceramente. São espertos nos dias pares e retardados nos ímpares.
