sexta-feira, agosto 07, 2026

Tucker Carlson e a moral do Estado.

 

"If it's a crime to lie to the federal government, then it has to be a crime for the federal government to lie to you."

 

Não é propriamente uma novidade que o movimento MAGA foi esquartejado pela traição de Donald Trump ao seu mandato eleitoral, e que esse massacre abriu caminho para um terceiro partido que, apesar de ser fundacionalmente de inspiração conservadora, pode esticar a veia populista para nem sequer se preocupar com a ideologia, ou seja: namorar e captar, para além dos libertários, alguns populistas de esquerda, como Cenk Uygur, que faz neste post, algo surpreendentemente, propaganda dessa ideia. 


O que é notícia é o facto de Tucker Carlson ter apresentado, na quarta-feira, uma plataforma programática para o movimento que uns dias antes tinha sido oficialmente inaugurado em sua casa, com a presença de Thomas Massie, Marjorie Taylor Green e Joe Kent.

 

 

No preâmbulo do longo monólogo que deixamos na conclusão do texto, Tucker Carlson declarou como colapsado o actual sistema político americano, unipartidário, alheado dos interesses e das aspirações dos americanos e terminalmente condicionado pela inércia, pela corrupção e pelo despesismo, que conduz ao saque dos contribuintes.

Neste contexto, disse ele, a ruptura com o estabelecimento é inevitável e poderá ter múltiplas configurações e novos partidos políticos, já que os dois actuais são essencialmente idênticos e incapazes de defender os valores da federação e as aspirações dos seus cidadãos. 

O manifesto propriamente dito veio depois, quando apresentou 10 princípios orientadores sobre o que a América “deveria ser” (em certos casos, segundo Tucker, já foi), como base para qualquer sistema futuro mais representativo e mais construtivo da prosperidade da nação e dos nativos.

São eles, em síntese:

  1. Justiça: As mesmas regras devem valer para todos os cidadãos, independentemente da sua posição hierárquica na sociedade. Haverá que combater a impunidade dos poderosos e a promoção dos incompetentes, que ascendem através de esquemas normativos não orgânicos como as iniciativas DEI.
  2. Soberania: O governo federal dos EUA deve operar livre de qualquer influência externa e deixar de fazer a guerra em nome de países e interesses alheios. O governo federal deve também exercer a sua actividade de forma não corporativa, evitando a captura pelo sector privado. Para ser soberano um Estado não pode ser devedor como os Estados Unidos são devedores. A redução da dívida pública tem que ser uma prioridade.
  3. Produtividade: Reconstruir sectores estratégicos de criação de riqueza material, como a agricultura e a indústria, para contrariar a economia de carácter eminentemente financeiro, dominada por Wall Street, Silicon Valley e o complexo industrial e militar. 
  4. Beleza: Acabar com a fealdade deliberada das cidades (arquitectura brutalista, graffitis, consumo público de drogas e criminalidade). A beleza alimenta a alma e é essencial para a sobrevivência de uma sociedade.
  5. Saúde: Dar prioridade à saúde física e espiritual (Tucker apoia a agenda alimentar de RFK Jr.), promover a sobriedade e reduzir o uso massivo de opioides, cannabis e álcool.
  6. Honestidade: O Estado existe para servir os cidadãos, que o pagam e legitimam, e por isso deve ser transparente com quem serve. A maioria dos documentos classificados pelo Governo Federal e pelas suas agências de inteligência e segurança (incluindo assassinato de JFK e o 11 de Setembro) devem ser desclassificados. Há que punir políticos e burocratas que mentem aos cidadãos enquanto cumprem cargo público. Se é crime mentir ao governo, tem de ser crime o governo mentir ao povo.
  7. Optimismo: Pensar a longo prazo, com o foco nas crianças. Ter filhos é um imperativo biológico e civilizacional; elites idosas e sem filhos ignoram o futuro e, por isso, destratam o presente.
  8. Sabedoria: As escolas devem ensinar como o mundo físico realmente funciona e verdades imutáveis da natureza humana (incluindo, por exemplo, diferenças inatas entre homens e mulheres,), em vez de ministrarem programas ideológicos, trends tecnológicos, deambulações abstractas e todo o tipo de transformismos sobre a realidade.
  9. Decência: O Estado deve favorecer a humanidade (Carlson diz que deve ser "pro-human") e até é estranho ter que sublinhar isto: há que dar prioridade às pessoas sobre os sistemas, as corporações, as abstracções. Os EUA devem pedir desculpa e pagar restituições sempre que matam civis, nas guerras que têm travado e inventado por esse mundo fora, e deixar de financiar ditos "aliados"que cometem crimes de guerra e genocídio (Carlson dá o exemplo de Israel).
  10. União: Os Estados Unidos da América devem ser uma nação íntegra e um povo coeso, com identidade, sentido histórico e concordante com fundamentais princípios filosóficos e morais. A unidade e coesão social de um país nunca será possível quando é sujeito a políticas de imigração descontrolada. 

O jornalista concluiu a hora e meia de monólogo declarando ser sua convicção que estes princípios, a serem adoptados, permitiriam travar o movimento suicida/genocida do actual sistema político, devolvendo o país a um destino promissor e vibrante.

Aqueles que estavam à espera de mais sumo político ficaram desiludidos e Carlson não desmentiu nem confirmou, mesmo que subliminarmente, os rumores de que poderá ser ele, em representação deste movimento, o candidato às presidenciais de 2028. Há muita gente que preferia ver Thomas Massie nessa candidatura, deixando Tucker fazer aquilo que ele faz bem, que é levar o processo político a justo escrutínio e partilhar os resultados desse inquérito com as massas.

Além disso, Tucker é amigo de JD Vance e não lhe deve estar a apetecer muito o combate político, que é sempre brutal, com o actual vice-presidente, que será, provavelmente, o candidato do estabelecimento republicano nas próximas presidenciais.

Mas na verdade nem é esta pequena política que é importante na iniciativa do jornalista norte-americano. Até porque os dez mandamentos que Tucker enunciou residem num sítio que é anterior à ideologia: 90% da humanidade deve estar de acordo com a ideia de que qualquer Estado deve ser justo, deve ser honesto e transparente, deve agir segundo sólidos princípios morais, deve ser soberano e deve promover a prosperidade dos cidadãos, procurando mantê-los saudáveis e educando os seus filhos no sentido da criação de uma sociedade funcional, que veja o futuro com optimismo.

Quem, de esquerda ou de direita, no perfeito domínio das suas capacidades intelectuais, é que não assina por baixo? 

Não por acaso, o ponto 10 do manifesto exalta a união nacional. É que todo o programa procura ter um carácter universal, que funcione, como foi sugerido no início deste texto, com mais gente do que apenas a metade exasperada do eleitorado de Donald Trump. 

Porque se este movimento não escapar ao estrito âmbito da direita americana, tudo o que fará será dividi-la e estender a passadeira para os democratas reduzirem definitivamente a federação a cinzas (trabalho que de qualquer forma já está a ser entusiasticamente cumprido por Donald Trump).

Tucker sabe que tem que trazer muita gente do outro lado, para o seu lado. Sabe que a maior parte dos americanos concorda que o Estado tem que ter uma razão moral e que o Governo Federal dos EUA tem que ser decente. 

Desviando o debate político para o campo ético, talvez seja possível, na universalidade destes pressupostos, criar uma plataforma abrangente.

Ou talvez não.