"If it's a crime to lie to the federal government, then it has to be a crime for the federal government to lie to you."
Não é propriamente uma novidade que o movimento MAGA foi esquartejado pela traição de Donald Trump ao seu mandato eleitoral, e que esse massacre abriu caminho para um terceiro partido que, apesar de ser fundacionalmente de inspiração conservadora, pode esticar a veia populista para nem sequer se preocupar com a ideologia, ou seja: namorar e captar, para além dos libertários, alguns populistas de esquerda, como Cenk Uygur, que faz neste post, algo surpreendentemente, propaganda dessa ideia.
On tonight's @TheYoungTurks, Joe Kent said the group that met at Tucker Calrson's house is trying to convince Tucker to run. They think JD Vance is too compromised. He also explained how they're going to try to appeal to the left to get a unity ticket to represent all of America.
— Cenk Uygur (@cenkuygur) August 5, 2026
O que é notícia é o facto de Tucker Carlson ter apresentado, na quarta-feira, uma plataforma programática para o movimento que uns dias antes tinha sido oficialmente inaugurado em sua casa, com a presença de Thomas Massie, Marjorie Taylor Green e Joe Kent.
We said no more foreign wars and we meant it and supported Donald Trump because he made that promise.
— Former Congresswoman Marjorie Taylor Greene🇺🇸 (@FmrRepMTG) August 1, 2026
But he’s betrayed us all.
Our commitment is America First for all Americans, right, left, and center.
The movement has begun. pic.twitter.com/mZXadw0kBr
No preâmbulo do longo monólogo que deixamos na conclusão do texto, Tucker Carlson declarou como colapsado o actual sistema político americano, unipartidário, alheado dos interesses e das aspirações dos americanos e terminalmente condicionado pela inércia, pela corrupção e pelo despesismo, que conduz ao saque dos contribuintes.
Neste contexto, disse ele, a ruptura com o estabelecimento é inevitável e poderá ter múltiplas configurações e novos partidos políticos, já que os dois actuais são essencialmente idênticos e incapazes de defender os valores da federação e as aspirações dos seus cidadãos.
O manifesto propriamente dito veio depois, quando apresentou 10 princípios orientadores sobre o que a América “deveria ser” (em certos casos, segundo Tucker, já foi), como base para qualquer sistema futuro mais representativo e mais construtivo da prosperidade da nação e dos nativos.
São eles, em síntese:
- Justiça: As mesmas regras devem valer para todos os cidadãos, independentemente da sua posição hierárquica na sociedade. Haverá que combater a impunidade dos poderosos e a promoção dos incompetentes, que ascendem através de esquemas normativos não orgânicos como as iniciativas DEI.
- Soberania: O governo federal dos EUA deve operar livre de qualquer influência externa e deixar de fazer a guerra em nome de países e interesses alheios. O governo federal deve também exercer a sua actividade de forma não corporativa, evitando a captura pelo sector privado. Para ser soberano um Estado não pode ser devedor como os Estados Unidos são devedores. A redução da dívida pública tem que ser uma prioridade.
- Produtividade: Reconstruir sectores estratégicos de criação de riqueza material, como a agricultura e a indústria, para contrariar a economia de carácter eminentemente financeiro, dominada por Wall Street, Silicon Valley e o complexo industrial e militar.
- Beleza: Acabar com a fealdade deliberada das cidades (arquitectura brutalista, graffitis, consumo público de drogas e criminalidade). A beleza alimenta a alma e é essencial para a sobrevivência de uma sociedade.
- Saúde: Dar prioridade à saúde física e espiritual (Tucker apoia a agenda alimentar de RFK Jr.), promover a sobriedade e reduzir o uso massivo de opioides, cannabis e álcool.
- Honestidade: O Estado existe para servir os cidadãos, que o pagam e legitimam, e por isso deve ser transparente com quem serve. A maioria dos documentos classificados pelo Governo Federal e pelas suas agências de inteligência e segurança (incluindo assassinato de JFK e o 11 de Setembro) devem ser desclassificados. Há que punir políticos e burocratas que mentem aos cidadãos enquanto cumprem cargo público. Se é crime mentir ao governo, tem de ser crime o governo mentir ao povo.
- Optimismo: Pensar a longo prazo, com o foco nas crianças. Ter filhos é um imperativo biológico e civilizacional; elites idosas e sem filhos ignoram o futuro e, por isso, destratam o presente.
- Sabedoria: As escolas devem ensinar como o mundo físico realmente funciona e verdades imutáveis da natureza humana (incluindo, por exemplo, diferenças inatas entre homens e mulheres,), em vez de ministrarem programas ideológicos, trends tecnológicos, deambulações abstractas e todo o tipo de transformismos sobre a realidade.
- Decência: O Estado deve favorecer a humanidade (Carlson diz que deve ser "pro-human") e até é estranho ter que sublinhar isto: há que dar prioridade às pessoas sobre os sistemas, as corporações, as abstracções. Os EUA devem pedir desculpa e pagar restituições sempre que matam civis, nas guerras que têm travado e inventado por esse mundo fora, e deixar de financiar ditos "aliados"que cometem crimes de guerra e genocídio (Carlson dá o exemplo de Israel).
- União: Os Estados Unidos da América devem ser uma nação íntegra e um povo coeso, com identidade, sentido histórico e concordante com fundamentais princípios filosóficos e morais. A unidade e coesão social de um país nunca será possível quando é sujeito a políticas de imigração descontrolada.
O jornalista concluiu a hora e meia de monólogo declarando ser sua convicção que estes princípios, a serem adoptados, permitiriam travar o movimento suicida/genocida do actual sistema político, devolvendo o país a um destino promissor e vibrante.
Aqueles que estavam à espera de mais sumo político ficaram desiludidos e Carlson não desmentiu nem confirmou, mesmo que subliminarmente, os rumores de que poderá ser ele, em representação deste movimento, o candidato às presidenciais de 2028. Há muita gente que preferia ver Thomas Massie nessa candidatura, deixando Tucker fazer aquilo que ele faz bem, que é levar o processo político a justo escrutínio e partilhar os resultados desse inquérito com as massas.
Além disso, Tucker é amigo de JD Vance e não lhe deve estar a apetecer muito o combate político, que é sempre brutal, com o actual vice-presidente, que será, provavelmente, o candidato do estabelecimento republicano nas próximas presidenciais.
Mas na verdade nem é esta pequena política que é importante na iniciativa do jornalista norte-americano. Até porque os dez mandamentos que Tucker enunciou residem num sítio que é anterior à ideologia: 90% da humanidade deve estar de acordo com a ideia de que qualquer Estado deve ser justo, deve ser honesto e transparente, deve agir segundo sólidos princípios morais, deve ser soberano e deve promover a prosperidade dos cidadãos, procurando mantê-los saudáveis e educando os seus filhos no sentido da criação de uma sociedade funcional, que veja o futuro com optimismo.
Quem, de esquerda ou de direita, no perfeito domínio das suas capacidades intelectuais, é que não assina por baixo?
Não por acaso, o ponto 10 do manifesto exalta a união nacional. É que todo o programa procura ter um carácter universal, que funcione, como foi sugerido no início deste texto, com mais gente do que apenas a metade exasperada do eleitorado de Donald Trump.
Porque se este movimento não escapar ao estrito âmbito da direita americana, tudo o que fará será dividi-la e estender a passadeira para os democratas reduzirem definitivamente a federação a cinzas (trabalho que de qualquer forma já está a ser entusiasticamente cumprido por Donald Trump).
Tucker sabe que tem que trazer muita gente do outro lado, para o seu lado. Sabe que a maior parte dos americanos concorda que o Estado tem que ter uma razão moral e que o Governo Federal dos EUA tem que ser decente.
Desviando o debate político para o campo ético, talvez seja possível, na universalidade destes pressupostos, criar uma plataforma abrangente.
Ou talvez não.
