sexta-feira, outubro 25, 2013

A natureza do mal.



"The sad truth is that most evil is done by people who never make up their minds to be good or evil."
Hannah ArendtEichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil - 1963

1961. Depois de uma bem sucedida operação da Mossad, Eichmann, o burocrata nazi responsável pela logística do holocausto, é capturado na Argentina e trazido clandestinamente para Israel, onde é julgado e condenado à forca. Hannah Arendt, já então uma incontornável referência no âmbito da ciência política, judia alemã refugiada nos Estados Unidos e professora em Chicago, escreve para o New Yorker oferecendo-se para fazer a cobertura do julgamento, em Jerusalém. Depois de assistir a grande parte das audiências e de ler bem lidas as 3600 páginas do inquérito judicial, Arendt chega a uma conclusão só: Eichmann não é parente de satã. Eichmann é, antes, um simples idiota que se limita a cumprir ordens sem querer saber das consequências. Este alheamento é, para Arendt, uma recusa da condição humana. Discípula e amante de Heidegger, ela acredita que o homem se define pela capacidade de pensar. Porque permite o exercício moral, o pensamento define a condição humana, não no sentido cartesiano e racionalista, mas na acepção transcendental. Eichmann, o mais banal dos genocidas, não é maldoso. É um burocrata sub-humano.   


O extenso artigo no New Yorker, e o livro que a este propósito edita pouco tempo depois, caem com aparato atómico nos círculos intelectuais e académicos americanos, bem como em Israel, onde será considerada persona non grata durante décadas (o "Relatório Sobre a Banalidade do Mal" só foi ali publicado muito recentemente). Arendt ousa até implicar as lideranças judaicas no holocausto, expondo situações de conluio e argumentando que, se as estruturas sionistas e os grupos tribais fossem menos organizados, os nazis teriam mais dificuldade em matar tanta gente. 

Este assunto do mal absoluto é mais antigo que o homem, na verdade, porque nasceu no mesmo dia e à mesma hora que Deus. Seja como for, sempre foi muito difícil entender as razões da vilania humana, tanto para o filósofo, como para o teólogo. De Santo Agostinho a Nietzsche, há muita teoria por onde escolher, mas nenhuma ajuda grande coisa. Para os teólogos, deve fazer alguma confusão que Deus - como entidade omnipresente e omnipotente - permita a uns tipos mais ou menos grotescos a liberdade de assassinarem milhões de pessoas (por exemplo, porque há mais males absolutos para além do genocídio). Para os filósofos, torna-se excessivamente irritante não conseguir libertar o homem dos seus piores instintos. Modelo filosófico sobre modelo filosófico, todos abrem falência perante a barbaridade inerente à raça dos homens. Ainda por cima, os grandes vilões da história parecem não obedecer a qualquer tentativa de sistematização: são cultos e ignorantes, brutos e sensíveis, estúpidos e brilhantes, banais e extraordinários. Não se percebe. 

Hannah Arendt, que não se preocupava muito com aquilo que os outros poderiam pensar, pensou bastante no assunto. E não tinha problema nenhum em escrever exactamente o que pensava. Da mesma forma que já tinha tido a coragem de enfiar Hitler e Estaline no mesmo saco da epistemologia do mal (em 1951 isto era escandaloso) no seu trabalho de referência, "As Origens do Totalitarismo", a autora alemã estipula uma tese sobre a ruindade que, não sendo politicamente correcta, resolve vários problemas: o mal não está na condição humana, na vertente do ser pensante, consciente e moralmente capaz. Ao contrário, o mal triunfa apenas quando o ser recusa o exercício moral e logo, a sua condição humana.

Convenhamos: isto é mais elegante que a equação da Relatividade Restrita.