terça-feira, janeiro 10, 2023

A vingança dos pequenos de agora é a de aviltar quem foi grande outrora.

Reduzir Sir Francis Drake - explorador, aventureiro, oficial da marinha, herói de guerra, corsário e político -  à condição de mercador de escravos é a mesma coisa que reduzir Vasco da Gama a exterminador de muçulmanos, Camões a rufia de tabernas e D. João II a assassino do cunhado. Assumindo esta lógica, posso reduzir Marcelo Rebelo de Sousa a comentador desportivo, Justin Trudeau a matador de camionistas, Ursula von der Lyen a contrabandista de vacinas, Rishi Sunak a corretor da Wall Street, Emmanuel Macron a inspector de finanças, Joe Biden a traficante de influências e assim sucessivamente até à obliteração curricular de toda a gente.

Mas, galhofa à parte, continuo como sempre a pasmar com a soberba dos imbecis: quem é que esta gente, que nada fez de na vida de grandioso, pensa que é para condenar moralmente pessoas que viveram há cinco séculos atrás, em condições incomparavelmente mais duras, num contexto sócio-económico e filosófico absolutamente diverso e que, ao contrário dos inúteis de agora, se libertaram da lei da morte por façanhas e aventuras, por génio e coragem, por vontade de transcendência e capacidade de sofrimento, que estes gordinhos da vida nem conseguem imaginar possível?

Se um destes coninhas censores da história fosse colocado numa máquina do tempo e levado à presença de Francis Drake, não iria por certo acusá-lo de malfeitorias. Ia borrar-se todo para um canto e chorar pelo Século XXI.