Reduzir Sir Francis Drake - explorador, aventureiro, oficial da marinha, herói de guerra, corsário e político - à condição de mercador de escravos é a mesma coisa que reduzir Vasco da Gama a exterminador de muçulmanos, Camões a rufia de tabernas e D. João II a assassino do cunhado. Assumindo esta lógica, posso reduzir Marcelo Rebelo de Sousa a comentador desportivo, Justin Trudeau a matador de camionistas, Ursula von der Lyen a contrabandista de vacinas, Rishi Sunak a corretor da Wall Street, Emmanuel Macron a inspector de finanças, Joe Biden a traficante de influências e assim sucessivamente até à obliteração curricular de toda a gente.
Mas, galhofa à parte, continuo como sempre a pasmar com a soberba dos imbecis: quem é que esta gente, que nada fez de na vida de grandioso, pensa que é para condenar moralmente pessoas que viveram há cinco séculos atrás, em condições incomparavelmente mais duras, num contexto sócio-económico e filosófico absolutamente diverso e que, ao contrário dos inúteis de agora, se libertaram da lei da morte por façanhas e aventuras, por génio e coragem, por vontade de transcendência e capacidade de sofrimento, que estes gordinhos da vida nem conseguem imaginar possível?Sir Francis Drake Primary School, named after the 16th Century slave trader, is now called Twin Oaks Primary School. The school in Lewisham said the "overwhelming majority" of 450 parents, staff, pupils and residents had voted for the new name. Read more: https://t.co/dJhMVbn1RC pic.twitter.com/pNdFtqVU0R
— BBC London (@BBCLondonNews) January 10, 2023
Se um destes coninhas censores da história fosse colocado numa máquina do tempo e levado à presença de Francis Drake, não iria por certo acusá-lo de malfeitorias. Ia borrar-se todo para um canto e chorar pelo Século XXI.