segunda-feira, janeiro 05, 2026

Sobre a barbárie da lei do mais forte.


 

O regime Trump formalizou na Venezuela uma nova ordem mundial, que se rege pela lei do mais forte.

Deixou de ser minimamente importante a legitimidade, a legalidade ou a moralidade subjacente a uma agressão militar. Os EUA intervêm militarmente onde e sempre que o desejarem porque podem fazê-lo, ponto final.

Para além de traduzir a morte da diplomacia e do direito internacional, esta nova filosofia estratégica norte-americana tem problemas sérios.

Primeiro, porque a premissa parte do princípio que os EUA são a nação mais forte, claro. Mas serão mesmo

 

Fragilidades e declínio moral.   

Mesmo pondo de parte a probabilidade grande de um conflito termo-nuclear que ninguém vai ganhar, num cenário extremo de conflito global entre o Ocidente e uma muito possível aliança oriental entre a Rússia e a China, de certeza que os Estados Unidos e os seus aliados teriam capacidade para levar de vencida estas duas potências?  

A Europa, como o episódio ucraniano bem demonstra, nem sequer se pode considerar uma potência militar. E o Pentágono não ultrapassou as suas fragilidades só porque tem um novo comandante-em-chefe e um líder civil que antes deste emprego era âncora na Fox News.

As forças norte-americanas do tempo presente foram desenhadas para intervenções em países que quando muito serão potências regionais, no médio-oriente e em África, contra exércitos tecnologicamente paleolíticos. E mesmo assim foi o desastre que tem sido. Imaginem o que aconteceria se o Pentágono tivesse que travar combate com uma potência rival, bem preparada tecnológica, logística e psicologicamente, com uma capacidade de recrutamento quase infindável, como é o caso chinês, ou com um índice de resiliência brutal, como é o caso russo.

Os problemas tradicionais e modernos da máquina de guerra americana não são passíveis de serem erradicados num ano. A mentalidade woke, o recrutamento DEI, a obesidade e a efeminização da soldadesca não desaparecem porque de repente alguém mudou políticas que presidiram à filosofia do Pentágono desde o primeiro mandato de Obama. E os antigos problemas que levaram a humilhações consecutivas na Coreia, no Vietname e na Somália, por exemplo, não foram também erradicados. O soldado americano, invariavelmente protegido por fortes argumentos industriais e tecnológicos, é frágil mentalmente e opera com um excessivo espírito de corpo, em detrimento de valores transcendentes, como a nação, a religião ou a cultura de um povo.

Enquanto o soldado britânico do século XIX, equivocado ou não, combatia para defender uma ideia de civilização, o soldado americano combate, como os marines gostam de afirmar, pelo camarada que está ao lado (que pode de repente cair morto) e por um conceito abstracto, e no seu própio país falido, de democracia liberal. 

Ora, acontece que este modelo de democracia liberal individualista que o Pentágono irradia é precisamente o motor da decadência do Ocidente. Na verdade, o espírito das tropas norte-americanas está montado sobre um sistema de valores que traduzem o seu próprio colapso moral e - logo - operacional.

Acresce que a arrogância e o comodismo dos generais, a ganância das elites, a tradicional incompetência na gestão dos processos imperiais e a recorrente divisão interna deixam invariavelmente a federação comprometida com variáveis que transcendem os objectivos militares. 

Os Estados Unidos da América são uma guerra civil à espera de acontecer. Se entretanto se enfiarem numa guerra com potências estrangeiras e pesadas baixas sem que os cidadãos encontrem uma justificação objectiva para que os seus filhos estejam a morrer do outro lado do mundo por razões que não entendem, é fácil adivinhar o que pode acontecer, rapidamente.

E aqueles que fazem uma leitura da operação em Caracas como um retumbante sucesso militar, deviam perguntar-se como é que foi possível às forças americanas entrarem e saírem da metrópole sem que um único tiro fosse disparado pelas autoridades nativas. É mais que óbvio que esta foi uma operação eminentemente desenhada pelos serviços de inteligência, com a colaboração até de protagonistas civis e militares do regime Maduro. Tudo indica aliás que a Casa Branca se limitou a exercer pressão sobre o regime, para depois capitalizar um golpe palaciano que estaria já na agenda de certas figuras do estabelecimento venezuelano, como a vice-presidente Delcy Rodriguez. 

Ademais, para os verdadeiros fazedores da guerra em Washington - os agentes do complexo militar-industrial americano - o objectivo de um conflito bélico não é a vitória, mas o dispêndio do Estado. O caso da guerra no Afeganistão é paradigmático: o Pentágono esteve vinte anos a combater um inimigo que acabou por deixar no poder, e para cúmulo, muito melhor armado do que o encontrou. Na perspectiva da indústria do armamento, no entanto, esta guerra não podia ter corrido melhor, já que foram consumidos ao erário público 2,3 triliões de dólares no processo, grande parte deles despendidos em compras de equipamento e tecnologia militar.

 

Pandora para todos.

A operação militar na Venezuela abriu a Caixa de Pandora para que os estados mais fortes exerçam violências várias sobre estados mais fracos. Se os americanos podem raptar o presidente de um país, e anunciar até que vão a partir de agora governá-lo, porque é que os chineses não podem fazer o mesmo em Taiwan, um país povoado por 95% de pessoas de etnia Han (a dominante na China), que fez parte do império chinês durante séculos?

E o mesmo se pode dizer dos russos em relação à Ucrânia, claro, pelo que a Casa branca, com este exercício de puro 'quero posso e mando' perdeu o já muito insignificante patamar moral que tinha, ou pensava que tinha, para criticar o Kremlin. 

Por outro lado, a não provocada e injustificada e ilegal intervenção americana em Caracas legitima completamente e por exemplo, o arsenal nuclear da Coreia do Norte: Ninguém vai raptar Kim Jong Un, por muito que a sua ditadura seja superlativamente horrível. O mesmo acontece com o Irão: os líderes persas sabem agora que o mesmo que aconteceu a Maduro lhes pode acontecer a eles, a não ser que... terminem o seu programa nuclear. Porque o risco de intervenção militar num país com bombas atómicas é excessivo e, logo, dissuasor de aventuras do género que o regime Trump accionou no fim de semana passado.

A verdade é que a lei do músculo vai levar toda a gente para o ginásio. 

 

Regresso à barbárie.

A estratégia global do regime Trump, mascarada pelo slogan "paz pela força", fundamenta-se na verdade apenas na "força pela força". E hoje foi a Venezuela, amanhã será Cuba, depois (ou antes), o Irão, e a seguir, quem sabe, a Gronelândia. 

Num jogo que não tem regras para além do exercício da violência, tudo é permitido. E Donald Trump, que ainda ontem passeou Maduro nas ruas de Nova Iorque numa carrinha com as portas abertas, seguindo o exemplo do que Júlio César fez com Vercingetorix, em Roma, está claramente embriagado de hubris.

E, como eu já tinha advertido ainda em Fevereiro de 2025, ninguém na verdade quer viver sob o jugo e o capricho de césares. Tanto mais que a Donald Trump falta até a sensatez, a sabedoria e o apego ao Direito dos melhores césares romanos. É, ao contrário e para todos os efeitos, um bárbaro ignorante. À frente da maior (já que não a melhor, graças a Deus) força militar da história da humanidade.

Vivemos agora num mundo onde a única lei é a da bala. E se agora a bala está a viajar na direcção de vilões, ou daqueles que fomos doutrinados a julgar como vilões, mais cedo do que tarde seremos nós os alvos.

Porque o poder, no século XXI, é absolutamente destituído de razão moral.