O email do Contra recebe com alguma recorrência insultos, elogios, reparos, observações, confissões, enfim, uma série maluca de recados, que merecem mais ou menos atenção, embora eu procure responder àqueles que investem de boa fé o seu tempo a elogiar ou a criticar, porque não é a crítica ou o elogio, mas a seriedade e o tempo investido que merecem resposta.
Tem porém acontecido ultimamente um fenómeno que considero absolutamente surrealista e que consiste em pessoas que me enviam emails redigidos por inteligência artificial. Ou seja: dão-se ao trabalho de enviar o email, mas confiam num bot qualquer para manifestarem a sua "opinião".
Reparem neste exemplo recordista:
A propósito do aborto em Inglaterra:
The claim in the image suggests that only 1% of the public agree with a law allowing abortions up until birth, and that peers in the House of Lords backed this law.
In the UK, abortion laws are governed by the Abortion Act 1967 (as amended), which generally permits abortions up to 24 weeks of pregnancy under certain conditions, with exceptions beyond that for specific medical reasons. There is no recent law allowing abortions "up until birth" that has passed with minimal public support as described.
The statement appears to be misleading or misrepresenting UK abortion legislation and public opinion. For accurate information on UK abortion laws, consult official government sources or reputable news outlets.
O segmento "A propósito do aborto em Inglaterra" é da autoria do José Farinha, que me enviou o email, mas tudo o resto, não. Trata-se apenas um preguiçoso e equívoco reflexo daquilo que ele acha que pensa e daquilo que ele acha que é factual.
O José Farinha refere-se neste email a um artigo do Contra que tem pontes para as fontes todas daquilo que no texto se afirma e ninguém aqui está a inventar nada. A conversa em assunto é até viral, neste momento, no Reino Unido, e já tinha sido anteriormente reportada pela publicação.
Mas o José Farinha acha que o bot é que sabe. O bot é omnisciente e tem mais razão que as fontes humanas citadas no artigo, mais razão que sondagens sobre a opinião das pessoas, mais razão do que aquela que ele próprio pode expressar (!), mais razão do que aquilo que está à frente dos olhos dele, mas que ele não quer ver. O José Farinha acha que os aristocratas da Câmara dos Lordes têm imensa consideração por aquilo que a plebe pensa sobre o aborto, contra todas as evidências, porque o bot de inteligência artificial lhe diz umas coisas que lhe confortam a opinião política, que ele próprio não tem tempo, pachorra ou capacidade para articular.
É espantoso.
Para além do simples desastre intelectual que é argumentarmos através de um algoritmo; para além do desvio cognitivo de confiarmos num algoritmo para discernir o que é certo ou errado; para além da pretensão de tentar destruir um texto criado por um ser humano com uns parágrafos criados artificialmente; para além do José Farinha se dedicar a contrariar, recorrendo ao facilitismo tecnológico, notícias do ContraCultura, quando a a imprensa corporativa, de que ele será talvez ávido consumidor, não faz mais nada se não propaganda; a imensa preguiça e a total ausência de sentido dialéctico que é manifesta nesta mensagem, faz-me espécie.
E é eloquente sobre o bocadinho de espaço-tempo em que nos encontramos. Este tenebroso momento em que as pessoas desistiram de pensar.