Um dado país pode ver as suas fronteiras abolidas e invadido alegremente por todo o tipos de gentes, independentemente da sua cultura, religião, funcionalidade social. Não interessa sequer se sabem ou um dia vão saber falar a língua nativa. Entra tudo e toda a gente é bem vinda.
Um dado país pode ensinar às suas próprias crianças que os avós delas não passavam de bandidos, racistas e esclavagistas, mesmo quando os avós transcenderam o seu destino pelas sete partidas do mundo, construindo civilização onde ela não existia.
Um dado país pode ter vergonha de si mesmo, honrar uma bandeira que representa as opções sexuais de uma pequena minoria acima da sua própria bandeira, aceitar ser governado por uma burocracia não eleita com sede numa cidade a milhares de quilómetros do seu perímetro.
O povo desse dado país pode ser empobrecido, desempregado, subsidiado, humilhado, marginalizado e fascizado. A sua língua pode ser assassinada com acordos ortográficos, a sua cultura pode ser maltratada e esquecida, a sua religião obliterada.
O povo desse dado país pode ser submetido ao inferno das identidades de género e da teoria crítica da raça, pode ser conduzido à destituição do seu legado pelo revisionismo histórico e o niilismo ideológico. Pode ser despojado das suas cidades pelos fundos de investimento imobiliário e a voracidade do turismo, pode ser manipulado pela propaganda, escravizado às redes sociais, condicionado ao consumismo mais espúrio, deseducado pelas universidades e analfabetizado pelos liceus.
O povo desse dado país pode ser despoticamente confinado e geneticamente envenenado por causa de uma constipação.
Nada disto é problemático.
Mas se esse país, se esse povo, assiste a uma partida de futebol em que a sua selecção nacional empata com a selecção nacional do Congo, bom Deus, isso é grave.
Este dado país é amado apenas quando rola sobre a erva a alquímica esfera de cabedal. Este dado povo é patriota de chuteiras, somente. A nação vibra e é exultada sempre que onze rapazes em calções, milionários todos, bilionários alguns, se dedicam à arte sofisticadíssima do pontapé na bola. É um nacionalismo de relvados. O quinto império do futebol total.
Este dado país, este dado povo, não merece a sua história, a sua cultura, a sua língua, a sua autonomia, a sua identidade. Não merece ser nação, sequer.
Este dado país, este dado povo, esta dada selecção nacional merece perder com o Congo. O empate foi uma dádiva de Deus, de insondável desígnio.
