Duas coisas que são trágico-cómicas nesta pequena historieta e em todo o testemunho de Scott Aaronson:
- A primeira é que as resoluções por inteligência artificial são ininteligíveis até para matemáticos de calibre como este senhor, ou seja: a Open AI diz que resolveu a Conjectura de Jogos Únicos, enuncia a resolução, mas ninguém percebe patavina daquilo, até porque os modelos nem se preocupam assim tanto como isso em explicar aos humanos o curso do seu génio. Assim sendo, o que a OpenAI diz que fez não pode ser verificado por seres humanos. Ou melhor: a senhora que é esposa de Aaronson e que passou metade da vida dela a tentar provar a Conjectura, vai passar o resto da vida a tentar compreender a prova que a máquina entretanto pariu. E se, por crueldade divina, ela descobrir, aos sessenta e cinco anos, que a Open AI a esteve a aldrabar este tempo todo? Mas a comédia não acaba aqui: como o próprio marido afirma, todo contente e quase orgulhoso dela, a senhora está a utilizar um sistema de AI para descodificar o linguarajar produzido por outro sistema de AI. É como um condutor de Uber, que comandado pelo algoritmo para virar aqui ou ali nas ruas de uma cidade que não conhece, precisa de outro algoritmo para saber distinguir a direita da esquerda.
- A segunda coisa trágico-cómica é que Aaronson parece feliz e deslumbrado com o facto da inteligência artificial estar, aparentemente, a resolver problemas matemáticos que partem a cabeça aos académicos há vários séculos, o que me parece no mínimo esquizofrénico, porque ele:
a) Não consegue ler as equações que saem da máquina, pelo que na verdade está tão certo como eu sobre a sua validade;
b) Parece não perceber que, caso os enunciados da OpenAI estejam correctos, a sua profissão está agora definitivamente condenada. O senhor doutor e os seus filhos vão passar a vida a fazer coisa nenhuma de significativo, a não ser, talvez, a verificar a validade e a explicar a complexidade dos teoremas enunciados pela máquina, o que, convenhamos é capaz de ser uma despromoção para o intelecto humano em geral e para este cientista computacional em particular (como ele próprio até reconhece durante a conversa, por acaso).
Dir-me-ão que a alegria do homem, sendo sincera ou fingida, se deve ao facto de que a inteligência artificial está a conquistar novas fronteiras para o conhecimento humano (não discutindo sequer a dúbia importância que tem para a humanidade provar certa a Conjectura de Jogos Únicos, para não adensar este texto). Mas, caramba, se a prova foi realizada pelo algoritmo será, por definição, uma conquista da máquina e que vai alimentar o espólio cognitivo da máquina, e não do Homem, até porque estes modelos trabalham na verdade - e como já alertei várias vezes em textos sobre esta matéria - para além do entendimento dos seus engenheiros.
Ou seja: A OpenAI está a debitar uma prova que não pode ser validada pelos seres humanos, porque está para além do seu entendimento. Fazendo para isso recurso a princípio operacionais que os humanos desconhecem. Com a finalidade de última de destituir os seres humanos da capacidade de se exercitarem como matemáticos.
Qual é a glória disto?
Entre outras formas malucas de lidar com o motor de humilhação a que os académicos estão a ser sujeitos por Silicon Valley, Jaimungal e o seu entrevistado sugerem que a resolução de problemas e a prova de conjecturas nunca foi a verdadeira missão dos matemáticos, que é talvez a mais imbecil forma de alinhamento narrativo que eu já ouvi na vida. O que estes dois nos estão a enfiar pela goela abaixo é que a verdadeira missão de um matemático é a de inventar problemas e conjecturas para o algoritmo provar ou desprovar. Portanto: todos os matemáticos da história da humanidade estavam a trabalhar para que no Século XXI Sam Altman lançasse finalmente o Chat GPT.
É espantoso.
