A teoria da conspiração da Tartária afirma que existiu um vasto império mundial avançado chamado Grande Tartária ou Império Tartariano, que se estendia por grande parte da Ásia (desde a Sibéria e a Mongólia até o Afeganistão e além), e cuja influência alcançava todo o planeta. Seus habitantes, frequentemente descritos como gigantes, dominavam tecnologias superiores, incluindo energia livre e sem fios, e construíram as grandes obras arquitetónicas que hoje conhecemos — como as Pirâmides do Egito, a Grande Muralha da China, o Taj Mahal, o Capitólio dos Estados Unidos, a Notre-Dame de Paris e inúmeros edifícios clássicos e de feiras mundiais do século XIX e início do XX. Este império pacífico e altamente desenvolvido teria sido destruído por uma ou várias catástrofes de “inundações de lama” (mud floods) que enterraram cidades inteiras, deixando muitos edifícios parcialmente soterrados abaixo do nível atual do solo. Depois disso, as elites e governos modernos teriam deliberadamente apagado a Tartária da história oficial, reescrevendo a cronologia e atribuindo as construções sobreviventes a outras civilizações, de modo a ocultar a existência dessa civilização perdida e o seu conhecimento tecnológico.
Devo dizer que, como hipótese de trabalho, a tese é um bocado esticada, altamente especulativa e deveras improvável. Mesmo para mim, que sou um teórico da conspiração de alta tolerância. Devo dizer outrossim que, como narrativa histórica do género contrafactual, é absolutamente bela.
Há montes de canais super-giros que se dedicam à "documentação" da civilização tartariana e à "demonstração" dos factos que sustentam a sua existência e grandeza tecnológica e cultural, bem como o seu súbito apocalipse. Deixo neste post dois bons exemplos, por serem muito diferentes em estilo - um mais lírico, o outro mais "jornalístico".
Bem sei que estes canais vivem muito de click bait e inteligência artificial e vários truques de retórica e prestidigitação, mas não me interessa. Fascina-me a ideia de que um Great Reset ocorreu no Século XIX. Interessa-me encontrar ideias novas, mesmo que fictícias, que justifiquem a quantidade maluca de encobrimentos e mentiras, de histórias mal contadas e fraudes monumentais que infestam a performance das elites ocidentais no correr dos últimos 150 ou 200 anos (desde o Iluminismo, na verdade).
E a Tartária, tentacular nas suas ramificações especulativas, arrepia e motoriza-me a imaginação.
É também esteticamente consoladora a ideia de uma civilização onde impera o belo, a monumentalidade, a prosperidade - uma utopia de energia livre e espírito clássico, uma Belle Époque de gigantes de gravata e chapéu alto, que resolve, mesmo que em romance, muitos dos mistérios da História.
Além disso, estes investigadores de um passado improvável, levantam, aqui e ali, perguntas muito sérias, e escavam com profissionalismo de inquiridores encartados certas lacunas nas narrativas oficiais e nos dogmas académicos. Como neste caso em que Kenny Lowden descobre que a maior parte dos capitólios dos Estados Unidos (o federal e os estatais) têm uma origem muito dúbia, já que nem os planos arquitectónicos nem os registos de construção se encontram, como deviam, no National Archives, e não há documentos que ilustrem a construção destes enormes edifícios de inspiração clássica, que foram construídos aparentemente em tempo recorde, apesar da sua dimensão e complexidade estrutural.
Detalhes deste género detectivesco à parte, fica o imaginário, onírico e magnífico. Porque na verdade, a Tartária não é tanto uma teoria da conspiração como se assemelha mais a um mito, uma lenda, uma espécie de Atlântida em sépia, com catedrais e zeppelins na paisagem.
Se não existiu, devia ter existido.
