"A razão pela qual o tempo acelera não é porque o teu cérebro está a falhar. É porque o teu cérebro está a tornar-se demasiado bom no que faz. Está a tornar-se eficiente. Está a ficar organizado. E aos olhos da física, a ordem é rápida. A desordem, o caos, a novidade, isso é que é lento. Isso é que é rico. (...) O segredo para uma vida longa, uma vida que pareça longa, não está apenas no número de vezes que respiras. Está no número de vezes que és surpreendido com algo de novo. Trata-se de recusar o descanso ao átomo."
Richard Feynman
Aqueles que de entre a respeitável audiência somam mais de 40/50 anos já devem ter notado que quanto mais velhos somos, mais o tempo corre depressa. E todos nós, independentemente da idade, já certamente pressentimos a convicção de Einstein de que o tempo não é uma constante, mas uma variável. Se estamos uma hora à espera que o oftalmologista se digne a receber-nos, essa hora corre bem devagar, mas os mesmos 60 minutos diluem-se num instantinho, quando fazemos algo que nos seja grato, como beber um copo com um velho e bom amigo que há muito não víamos ou namorar a rapariga que nos roubou o coração.
No clip muito giro que deixo em baixo, ouvimos Richard Feynman explicar o fenómeno à luz da física. Mais propriamente, à luz do conceito de entropia (o movimento termodinâmico da ordem para a desordem, que se manifesta no cosmos). Quando somos crianças, tudo é novidade, ou seja - tudo é caos (desordem). O cérebro trabalha em slow motion para poder absorver cada detalhe, cada fotograma, cada aroma, sabor, sensação, sentimento, porque é a primeira vez que processa essas experiências, porque está a aprender e nesse processo de aprendizagem está, naturalmente, a procurar estabelecer ordem sobre a desordem (catalogando a realidade). É por isso que, quando éramos infantes, uma tarde durava uma eternidade e as férias de Verão nunca mais acabavam: quando a entropia reina, o tempo rende, porque o cérebro não tem, literalmente, neurónios a medir e, por isso, tem necessariamente que baixar o ritmo cronológico.
Inversamente, quando chegamos a uma certa idade, já tudo está catalogado, previsto, mensurado, conhecido, rotinado. Reina a ordem e a entropia é baixa. Há um excesso de redundância e o cérebro já não tem tanto trabalho a lidar com a realidade. Pode por isso acelerar a experiência porque não precisa de classificar e identificar aquilo que já está classificado e identificado. As mesmas rotinas, os mesmos sabores, as mesmas pessoas, os mesmos cenários, a mesma viagem para o emprego não precisam tanto assim de processamento neuronal nem da abertura de novos ficheiros na memória. As sinapses já ganharam o hábito de processar e partilhar essa informação e assim, todas essas experiências repetidas são voláteis, passam vertiginosamente pelo percurso existencial, em direcção à morte.
O mesmo acontece quando fazemos uma estrada pela primeira vez e pela centésima. Da primeira vez, parece-nos bem mais longa do que à centésima. Na verdade, parece que a distância vai diminuindo à medida que a fazemos mais vezes, mesmo que o tempo contado no relógio seja sempre mais ou menos o mesmo (dependendo do trânsito, claro).
E a lógica também se aplica aos momentos aborrecidos, que parecem mais longos que as experiências divertidas. O tédio é de baixa entropia. O divertimento é de alta entropia, principalmente quando é existencialmente disruptivo, como uma viagem de montanha russa, por exemplo.
É como diz Feynman: convém mantermos os átomos em vibração constante, não lhes darmos descanso. Porque quando eles descansam, o tempo passa mais depressa.
E assim sendo, o assertivo conselho do Nobel da física de 1965 é até muito simples: se queres desacelerar o tempo, faz batota e quebra as rotinas, procura experiências novas, sensações diferentes, conhece o que desconheces, arrisca, inventa, sai da tua zona de conforto, vai pelo caminho mais longo, dá trabalho aos neurónios, faz dançar os átomos, deixa-te espantar com as maravilhas deste mundo e o milagre da existência consciente.
Porque a vida não é longa apenas em função das vezes que bate o teu coração, mas também da frequência com que estremece o teu cérebro.
