sábado, fevereiro 14, 2026

Valores de mercado.

Não é de todo incomum que as pessoas me perguntem que sentido faz trabalhar assim como eu trabalho para o Contra, quando não ganho um centavo com isso.

Essas mesmas pessoas, numa outra conversa, num outro dia, desvelam queixas sem fim sobre as quantidades malucas de publicidade que têm que aturar no Youtube, e as quantidades malucas de botões em que têm de carregar para entrar no Observador, e as quantidades malucas de advertências e lixo comercial a que são sujeitas para obterem informação ou entretenimento mais que sofrível.

Sem perceberem a ironia.

Por um lado, a convicção altruísta faz-lhes confusão (e, se calhar, incomoda-lhes a consciência). Por outro, condenam as lógicas de intensificação do capitalismo contemporâneo, não a propósito dos seus males profundos, mas porque não têm paciência para a (má) propaganda que corre no meio dos seus conteúdos de eleição: pornografia, gatos, comentários políticos dos palhaços de Hollywood, cenas de porrada da vida real, fintas de futebol salão e o Mr. Beast a fingir que é filantropo. 

Mais a mais, se repararem, quando entram no ContraCultura, pela homepage ou seja por que conteúdo for, não carregam num único botão, não têm que evitar pop ups, cookies malucos, janelas que saltam, banners que pulam. Nadinha de nada para além do conteúdo propriamente dito. 

Dir-me-ão que haverá um meio termo, quando não há meio termo nenhum. De um lado está a máquina de alienação das massas, do outro, uns quantos baris, nos quais me incluo, sem quaisquer preocupações materiais, mas com uma ideia de dever, e uma firme ligação à realidade e ao bom senso, que é imperativa.

Dentro deste estrito grupo, há aqueles que ganham dinheiro com isso, também e legitimamente. O caso dos dois gregos alexandres de que tanto falo aqui no blog (apesar de um dos gregos ser inglês e outro cipriota), é um caso limpinho de quem sai limpo deste imbróglio: a única cena que eles fazem para ganhar dinheiro é publicitar, com moderada acuidade, o seu próprio merchandising.

Outros, que precisam de dinheiro como uma sanita de merda, vendem produto como se amanhã o comércio lhes fosse interdito, o que é para mim incompreensível, mesmo quando nutro por eles alguma admiração, como é o caso de Tucker Carlson. O homem já nasceu muitíssimo rico, e por causa do seu percurso profissional ficou mais rico ainda. E quando deixou a Fox News para iniciar o seu trajecto de free lancer ainda mais rico ficou, se possível. Continua porém a inundar de publicidades os seus seguidores. Mais: mesmo aqueles, como eu fiz até ao fim do ano passado, que pagavam a subscrição dos conteúdos TCN, eram bombardeados constantemente com mercantilismos de toda a ordem.

Porra... O que é que um gajo faz com tanto dinheiro assim? 

Eu, na minha mísera condição de classe média baixa portuguesa, que trabalho oito a doze horas por dia no Contra sem ganhar um chavo que seja, e vivo daquilo que até aqui a custo amealhei, fico parvo com os parvos que não me entendem, tanto como fico estúpido com os espertos que não conseguem saciar a fome de lucros.

Dir-me-ão que o excesso mercantilista deriva de um velho e consagrado conceito: se não tens patrocinadores é porque não és relevante. Se o que fazes não gera dinheiro é porque o que fazes de nada vale.

Pois eu direi: não me importo nada de não ganhar dinheiro com aquilo que faço porque sei bem o que é preciso fazer para ganhar dinheiro, neste mundo sujo.  

Um exemplo: se o Contra dependesse das audiências e das respectivas receitas para viver, teria que esconder a podridão do regime Trump, cuja exposição desagrada a grande parte dos seus leitores (bem sei). Mas esse imoral escrúpulo trairia a razão de ser da publicação, completamente.

Ainda assim, no crossover das plataformas, o ContraCultura está agora a comunicar com uma média de 50.000 contactos por mês (post sobre este assunto a publicar mais à frente, quando o blog somar um milhão de visitas e o Contra meio milhão, lá para o Verão deste ano), o que é, para mim, muitíssimo gratificante. Gratificante o bastante para nem pensar em dinheiro. Para sentir apenas que estou a cumprir o meu dever.

Dir-me-ão que se não valorizo as receitas também não devia valorizar as audiências. Dir-me-ão que os números de que falo nem são assim nada de especial (é verdade que nem são, no abstracto mediático contemporâneo). 

Eu digo que valorizo quem me lê e me ouve mesmo que as audiências fossem de 20 amigos por mês, como já foram, aliás. Eu digo que esses números são uma conquista grande para um gajo absolutamente independente e dissidente e com espírito de contradição, que trabalha a solo (se bem que conte com uma já respeitável legião de contribuintes da coluna de opinião, a quem sou imensamente grato), e que escreve em português sobre assuntos que transcendem largamente a realidade portuguesa.

Acresce que o meu público é absolutamente espectacular, porque eu escrevo, a mais das vezes, contra as expectativas e as convicções do meu público. Mas a missão é essa: ficar o mais possível próximo da verdade. E como não aufiro rendimentos desta actividade, sou completamente livre para arriscar esse compromisso.

E disso, meus caros, sou vaidoso.

E dessa vaidade não fico refém, porque não é tributável pelo estado nem pilhável pelos bancos nem censurável pelos poderes instituídos.

Outros inocentes, outrossim motivados por lógicas espúrias, perguntam-me porque não uso as ferramentas de edição de artigos do X para publicar os conteúdos que publico, em vez de ter os encargos de uma plataforma própria, sem poder capitalizar a massa crítica de uma gigantesca rede social.

Eu respondo, com um sorriso enorme rasgado na minha trombeta castigada por quase seis décadas de invernos: mesmo que hoje possas publicar o que bem entendes no X (o que de qualquer forma não é verdade), quem te garante que o possas fazer amanhã? No contra-cultura.com mando eu. No x.com manda o Elon e amanhã mandará outro filho da puta qualquer e eu não quero que a minha missão panfletária seja dependente de filhos da puta.

E tudo isto para dizer: eu, Paulo Hasse Paixão, não sou um valor de mercado. O ContraCultura não é um valor de mercado. Mas isso não quer dizer que aquilo que faço e aquilo que o Contra faz não tenha valor.

Pelo contrário: é por ser pobre que é livre, é por ser oneroso que é gratuito, é por ser materialmente descomprometido que é sinceramente comprometido com ideais, é por ser modesto que é ambicioso. 

E é assim.