domingo, março 15, 2026

A Lei da Convergência Escatológica, explicada às massas pelo professor-profeta.

A lição de Jiang Xueqin que deixo no fim deste texto é uma coisa do outro mundo. Nada mais nada menos que uma teoria de convergência entre todas as profecias escatológicas do Ocidente, a saber: a zoroastriana, a judaica, a protestante (do cristianismo sionista, no poder actualmente em Washington), a maçónica, a católica e a ortodoxa.

A tese do professor-profeta é a de que todas estas escatologias convergem numa plataforma de poder global, que irá conduzir à edificação do Terceiro Templo de Jerusalém e à deflagração da enigmática e indecifrável guerra de Gog e Magog, a última guerra antes do utópico império de Deus, ou segunda vinda de Cristo, ou ainda, se quiserem, o fim da História.

Não sei se me faço explicar (ele fá-lo melhor, claro), mas o que é aterrador, quando seguimos o raciocínio de Xuequin, é que todas as versões escatológicas aqui enunciadas trabalham efectivamente para o mesmo fim do mundo, independentemente da diversidade das suas profecias e interpretações das respectivas escrituras sagradas ou visões apocalípticas.

O professor está convicto que a actual guerra com o Irão vai resultar na posterior guerra de Gog e Magog e assim sucessivamente até ao Armagedão. Podemos concordar ou não com ele, mas convém recordar que este homem tem estado certo desde que iniciou o seu percurso como mestre em história preditiva e que adivinhou, por exemplo, que Trump faria a guerra com a república dos aiatolás mesmo antes do magnata de Queens ter sido eleito.

Um detalhe deveras interessante: à luz da interpretação das várias escatologias analisadas neste sistema teórico, a China e os Estados Unidos não serão relevantes nos últimos estágios da convergência escatológica, ou seja: quando se der a derradeira porrada de Gog e Magog, estas nações já nem sequer farão parte do mapa geopolítico, ou pelo menos não terão nele um papel decisivo. 

No caso norte-americano a previsão de Xuequin é prosaica: a guerra civil. Mas talvez porque não se queira meter em sarilhos com o regime que vigora no seu país de origem e onde neste momento exerce o seu magistério, o professor não alvitra razões para a queda específica do 'Império do Meio'.

Alvitro eu: serão económicas e não políticas. 

Como resultado de tudo isto, o professor-profeta prediz, relativamente à guerra agora espoletada contra o Irão, que os Estados Unidos vão colocar 'botas no terreno', o que por sua vez implica um recrutamento militar obrigatório que vai conduzir necessariamente à guerra civil, porque a faixa etária recrutável não está disponível para o sacrifício em nome de valores morais nenhuns (eu diria que mesmo que valores alguns existissem, não estaria disponível na mesma).

Depois, Xuequin prevê que a invasão terrestre do Irão será mal sucedida (neste específico ponto, não é preciso ser um adivinho dotado para antever a catástrofe), que os Estados Unidos perdem a guerra e as unidades militares do CENTCOM (comando das forças norte-americanas no Médio Oriente) retiram para Israel (porque não têm nesta altura uma nação para onde voltar). 

Acresce que os países do Golfo vão no processo entrar em colapso económico, o que serve perfeitamente os interesses sionistas, no sentido de terem condições para estabelecer finalmente a profecia bíblica do 'Grande Israel', que se estende por todo o Médio Oriente, entre o Egipto e o sudeste da Turquia.

O professor antecipa também e necessariamente a entrada na presente guerra da Turquia e da Arábia Saudita, porque na sua opinião o conflito está a ser manipulado de forma a enfraquecer as nações que não compaginam com a convergência escatológica enunciada anteriormente.

E enquanto a Mesquita de Al-Aqsa (que foi erigida no local onde o Terceiro Templo deve ser levantado) será destruída, o Irão, vitorioso desta guerra, regressará ao estatuto de grande potência persa, o que também serve a escatologia sionista, porque a guerra de Gog e Magog será, afinal, uma guerra contra a Pérsia e contra a Rússia.

Mais: na medida em que os Estados Unidos mergulhem numa guerra civil que os condene à selvajaria tribal e à irrelevância geopolítica, a tecnocracia americana imigrará para Israel onde promoverá enfim a tão almejada distopia digital (ou pax judaica).

No entretanto, Moscovo ganha a guerra com a Ucrânia e cumpre a sua profecia ortodoxa de constituir a 'Terceira Roma' (ou a segunda Constantinopla) e agregar nesse movimento todo o mundo ortodoxo (que está dividido entre gregos, bálticos, ucranianos e russos). Esta projecção implica que gregos e turcos entrem em conflito, o que pode parecer estranho aos olhos de qualquer pessoa que viva no século XXI e não tenha lido dois ou três livros de história, mas que é sempre uma possibilidade real, num contexto de caos global. É claro que no processo dessa guerra a NATO acabará por ser extinta (a Turquia e a Grécia são estados membros), tanto como o conceito de um Europa politicamente coesa.

Neste sentido, a guerra na Ucrânia, segundo o professor Jiang, tem menos a ver com a protecção de esferas de influência do que com a unificação da ortodoxia por Moscovo e a destruição da Europa liberal, de forma a que a Rússia cumpra o seu destino de 'Terceira Roma'.

Ou seja: tudo de facto converge neste momento para um cenário apocalíptico, seja qual for a escatologia em causa.

E isto que temos aqui, que nem sequer é monetizado pelo autor, não é uma lição. É um sacana de doutoramento. Numa hora apenas.

Bestial.