I
Caminhas, pela calçada do Inferno na Terra,
carregado dos meus erros
e os de toda a gente que alguma vez viveu.
Sobes a chicote pelo caminho que te vai levar
ao pior suplício do Império Romano
com o peso do mundo sobre os rins.
És filho de Deus e sofres como um cão
abandonado pelo diabo
e vergado e violentado, prossegues.
Se de joelhos fizesse eu todo o percurso
da vida, não seria ainda grato
p'la redenção que inventaste.
Se o teu sacrifício lindo e horrível não fosse
a minha fonte de verdade
seria apenas justo condenares-me.
Mas desconfio, Senhor, que na verdade tu
não condenas ninguém, nem quem
deita lixívia sobre o teu sangue.
II
Acredito nas tuas palavras, que não na tua igreja.
Sou herético dos teus que não de ti e
nem sei rezar, mas tu ouves-me.
Não sei se te mereço, penso que não, mas também
não creio que te seja interessante
o merecimento de cada um.
Se és filho de Deus, és por certo meu irmão;
se és Deus, és misericordioso pai:
não me levas a mal.
Se tiveste mão criadora nesta imensa turba
de vis génios e virtuosos vilões;
não levas a mal a humanidade.
III
Caminhas, sequioso e ensanguentado, pelo calvário
que os homens calcetaram
para salvação dos homens.
Nietzsche estava completamente equivocado, porque
se há um super-homem na história,
o super-homem és tu.
As tuas leituras de Platão perdem-se pela Paixão acima
e a coroa de cardos aleija-te a dialéctica, mas
tu sofres com a bravura de Sócrates.
E se os de Esparta ainda tivessem ido a tempo
de ler os evangelhos,
seria hoje outro, o helenismo.
E se os da América fossem mais do Novo Testamento
do que do Antigo,
seria hoje outro, o Ocidente.
E se o teu aramaico fosse traduzido, directo, p'ra português,
querido e eloquente Messias,
melhor seria.
