A Palantir enfrenta há algum tempo acusações, mais que justas e pertinentes, de que está a viabilizar um Estado de vigilância orwelliano a mando do Pentágono.
A empresa, liderada por Alex Karp e fundada por Peter Thiel, recebeu e está a receber enormes somas em financiamento federal para construir uma plataforma de vigilância sobre os cidadãos americanos, além de inúmeros outros contratos para operações militares, policiamento e controlo de fronteiras — não só com os EUA, mas também com as forças armadas israelitas e os governos britânico e alemão.
Mas para que a sua missão mais vasta de reforçar a segurança nacional através de espionagem de ponta nãos seja demasiado obscura, Alex Karp escreveu um livro de 320 páginas intitulado "The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West.". Embora o livro tenha sido lançado há pouco mais de 14 meses, um resumo de 22 pontos que a empresa publicou no X, em Abril, expôs a visão sinistra da empresa e do seu controverso CEO.
Because we get asked a lot.
— Palantir (@PalantirTech) April 18, 2026
The Technological Republic, in brief.
1. Silicon Valley owes a moral debt to the country that made its rise possible. The engineering elite of Silicon Valley has an affirmative obligation to participate in the defense of the nation.
2. We must rebel…
Algumas reacções de rejeição deste manifesto, embora não tantas como seria desejável, surgiram de pronto. O filósofo da tecnologia Mark Coeckelbergh descreveu a coisa como um “exemplo de tecno-fascismo”, enquanto o economista grego Yanis Varoufakis alertou que “robôs assassinos com inteligência artificial estão a caminho”, na sua análise da “ideologia hedionda” da Palantir. O Engadget referiu que o resumo “parece o delírio de um vilão de banda desenhada” — e não podemos deixar de concordar.
Karp defende que o serviço militar obrigatório seja um “dever universal” e que se reverta a “neutralização da Alemanha e do Japão no pós-guerra”. Defende ainda o “poder coercivo” em detrimento do “apelo moral” e opina que as pessoas não devem “procurar na arena política o alimento para a sua alma e sentido de identidade”.
O manifesto é extenso, mas há alguns pontos que vale a pena rebater, tarefa a que agora nos propomos.
1. Silicon Valley tem uma dívida moral para com o país que tornou possível o seu surgimento. A elite da engenharia de Silicon Valley tem a obrigação de participar na defesa da nação.
A ideia de que Silicon Valley tem uma "dívida moral" com o país onde a indústria foi criada é correcta. A ideia de que essa dívida moral terá que ser ressarcida através de tecnologias de defesa é, para além de incorrecta, dantesca. Para saldar esta dívida, Silicon Valley poderia começar por disponibilizar tecnologias de informação que não tenham como primeiro objectivo viciar, alienar e dividir os cidadãos da federação. Poderia começar por desistir de politizar as suas plataformas. Poderia começar por desligar os algoritmos de censura e doutrina. Poderia começar por desistir de brincar a aprendiz de feiticeiro com as tecnologias de inteligência artificial. Sei lá, poderia começar por parar para pensar em todos os males que já criou na sociedade e no indivíduo, na América e no mundo, e começar de novo. Ou terminar de todo as suas luciferinas operações.
4. Os limites do soft power, da retórica eloquente por si só, foram expostos. A capacidade de as sociedades livres e democráticas prevalecerem exige algo mais do que o apelo moral. Exige poder coercivo, e o poder coercivo neste século será construído sobre software.
Todo este quarto ponto é falso. É falso que no Ocidente existam "sociedades livres e democráticas". É falso que delas seja emanado qualquer "apelo moral". E é falso, historicamente falso, que esse tipo de super-estruturas exijam "poder coercivo" para prevalecerem. Se uma sociedade exige poder coercivo não é livre. E se é democrática, não exige poder coercivo. E muito menos vindo de quem vem.
A ideia aqui é que esse poder coercivo é utilizado contra sociedades que não são livres nem democráticas, e que pretendem minar as sociedades que o são. O problema é que esse poder coercivo será rapidamente utilizado dentro das próprias sociedades, como está aliás a acontecer em todo o Ocidente e, indiscriminadamente, contra todo o tipo de sociedades que não alinharem com a Palantir e a ideia que tem de democracia e liberdade, como está aliás a acontecer por todo o mundo.
Este parágrafo é ainda mais assustador pela forma como termina. Segundo Alex Karp, o poder coercivo deve residir agora em Silicon Valley. O exercício da violência, o poder da guerra, deve ser entregue aos mesmos filhos da puta que lideram empresas como a Google e a Meta, a OpenAI e a Palantir. Filhos da puta estes que ninguém elegeu. Filhos da puta estes que têm como passatempo preferido odiar a humanidade e desprezar os povos que a constituem.
Qualquer pessoa que não fique apreensiva com o quarto ponto deste manifesto precisa de mudar de medicamentos. Ou começar a tomar alguns.
5. A questão não é se serão construídas armas com inteligência artificial; é quem as vai construir e para que fim. Os nossos adversários não hesitarão em debates teatrais sobre os méritos do desenvolvimento de tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles simplesmente seguirão em frente.
Este é o argumento clássico de todos os facínoras da história universal da infâmia e nem vale a pena estender muito o contra-argumento. Como os "maus" fazem mal, os "bons" também têm que fazer maldades para assegurar que o bem triunfa sobre o mal. A última coisa que devemos fazer é confiar em Karp para nos dizer o que é o bem e o mal, mas para alem disso, é precisamente este raciocínio que levou ao bombardeamento de Dresden e ao apocalipse de Hiroxima e Nagasaki, no fim da II Guerra Mundial, crimes de guerra que quase eclipsam os horrores perpetrados por nazis e nipónicos.
Alex Karp afirma aqui que devemos desenvolver tecnologias de inteligência artificial que matem pessoas em grande escala porque o inimigo também as desenvolverá. Acontece que o inimigo, para qualquer pessoa de bem, é precisamente Alex Karp e outros demónios à solta como ele.
6. O serviço militar obrigatório deveria ser um dever universal. Como sociedade, devemos considerar seriamente a possibilidade de abandonar um modelo de forças armadas totalmente voluntárias e só entrar na próxima guerra se todos partilharem os riscos e os custos.
Este é um ponto que, de forma inadvertida, desmascara um medo grande que não deixa dormir todo o elitista da classe Epstein: a desobediência das massas. Karp sabe perfeitamente que a generalidades das pessoas não está disposta a morrer em nome dos valores transhumanistas que ele defende. Sabe que a sociedade que ele quer levantar não é a sociedade onde as pessoas querem viver e criar os seus filhos. Sabe que os seus inimigos não são vistos como inimigos pelo povo americano e que os seus amigos são odiados pelos seus concidadãos. Sabe que a única forma de um Estado ocidental ter qualquer coisa parecida com um exército capaz de enfrentar uma guerra com um rival geoestratégico, é através do recrutamento compulsivo de soldados. E o que é mais: Sabe que aqueles que tem como inimigos, como por exemplo a Rússia, têm uma capacidade de mobilização e recrutamento muito maior, sem sequer precisarem de coagir os cidadãos.
Nesta sociedade "livre e democrática" do manifesto de Alex Karp, as coisas devem funcionar como na Ucrânia, em que os cidadãos são raptados pelo Estado para irem morrer na frente de batalha. E é claro que nem todos vão "partilhar os riscos e os custos". Alex Karp, por exemplo, só vai partilhar as garantias e lucros de uma III Guerra Mundial, na profundidade do bunker que já mandou construir, por via das dúvidas.
9. Devemos demonstrar muito mais benevolência para com aqueles que se submeteram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de qualquer tolerância às complexidades e contradições da psique humana — pode deixar-nos com um grupo de personagens no comando que iremos lamentar.
Este item do manifesto é tão transparente que faz rir. No abstracto e se vivêssemos num mundo alternativo ou há meio século atrás até poderia fazer sentido, ou pelo menos merecer uma discussão de campo ético. Mas no contexto em que vivemos hoje, só pode ser entendido assim: o facto dos vossos líderes políticos e militares e económicos serem uma cambada satânica de pedófilos, homicidas e canibais é perfeitamente natural e vocês devem viver bem com isso.
13. Nenhum outro país na história do mundo promoveu mais valores progressistas do que este. Os Estados Unidos estão longe da perfeição. Mas é fácil esquecermo-nos de quantas oportunidades existem neste país para aqueles que não pertencem à elite hereditária, em comparação com qualquer outra nação do planeta.
É verdade. "Nenhum outro país na história do mundo promoveu mais valores progressistas do que este." E é precisamente esse progressismo compulsivo-obsessivo, com que Karp tanto se identifica, que levou os EUA à decadência abismal em que agora vivem mergulhados.
Escapa ao CEO da Palantir que o progresso pelo progresso, sem legado nem princípios, sem valores nem travões, pode até criar um "país de oportunidades", pode até criar índices de prosperidade recordistas para alguns - uma elite não hereditária - mas nunca criará uma nação estável, com valores sólidos, que objective o bem comum e a verdadeira prosperidade humana, que é eminentemente imaterial.
14. O poder americano possibilitou uma paz extraordinariamente longa. Muitos esqueceram-se, ou talvez considerem como certo, que quase um século de alguma forma de paz prevaleceu no mundo sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações — milhares de milhões de pessoas, os seus filhos e agora netos — nunca conheceram uma guerra mundial.
Este parágrafo é completamente tresloucado. Desde a II Guerra Mundial, nenhum país contribuiu mais para o surgimento de conflitos militares no mundo do que os Estados Unidos (nem de perto nem de longe), que se envolveram nesse hiato temporal em mais de 200 intervenções militares na extensa geografia do planeta. O facto de termos sido poupados a uma guerra mundial nos últimos 80 anos tem mais a ver com a dissuasão nuclear do que com qualquer outra variável e afirmar que os EUA são uma força pacífica no mundo é um exercício semelhante ao de atribuir o prémio Nobel da Paz a Barack Obama.
É também discutível que neste momento não se viva um conflito entre grandes potências. Os EUA e os seus estados vassalos na Europa estão a hostilizar directa ou directamente a Rússia e a China com uma intensidade que nem durante a Guerra Fria testemunhámos, tanto nas frentes política e económica, como no sentido literal (Ucrânia, Venezuela e Irão; e Cuba já a seguir).
17. Silicon Valley deve desempenhar um papel no combate à violência. Muitos políticos nos Estados Unidos têm, essencialmente, ignorado o problema da violência, abandonando qualquer esforço sério para o resolver ou assumindo qualquer risco perante os seus eleitores ou doadores ao procurarem soluções e realizarem experiências que deveriam ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.
Aqui, Karp puxa nitidamente a brasa à sua sardinha, fazendo a propaganda do Estado policial, vigilante e distópico que quer implementar nos EUA e não só, através de tecnologias de vigilância despótica e altamente intrusiva e de detecção do crime antes de ser cometido. O tecnocrata, como na verdade todos os seus compadres de Silicon Valley, leu nitidamente o Phillip K. Dick ao contrário: como um manual de normas e não como uma advertência. Não há direitos humanos, não há Estado de direito, não há liberdade, não há dignidade, não há cidadania numa sociedade em que as pessoas sejam vigiadas como Karp as quer vigiar, e que sejam tratadas como criminosas antes de cometerem um crime. Ponto final, parágrafo.
18. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta demasiados talentos do serviço público. A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo mais do que enriquecer-se a si próprios — tornou-se tão implacável que a república ficou com uma lista significativa de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição seria perdoável se existisse alguma estrutura de crença genuína escondida no seu interior.
É absolutamente incrível que este ponto tenha sido colocado logo a seguir ao anterior (ou que tenha sido colocado de todo). Enquanto o manifesto defende o fim da privacidade para as massas, queixa-se da intrusão na privacidade das elites. Karp acha que ele e os seus colegiais das cúpulas do poder devem ser livres para cometer todo o tipo de infracções à lei e à moral e aos costumes, sem o incómodo do escrutínio público (quanto mais judicial), ao mesmo tempo que procura implementar um Estado policial que elimine muito simplesmente qualquer vestígio de cidadania. Esta posição, para além de ultrajante, é eloquente sobre a repugnante mentalidade oligárquica que preside a este texto.
No seu todo, o manifesto de Karp é de facto repulsivo, mas é sobretudo assustador pela sua candura. Ninguém está aqui a esconder intenções e objectivos. E é muito estranho que as reacções ao texto tenham sido, de uma forma geral, brandas e difusas e escassas, principalmente considerando que a Palantir é hoje uma das mais importantes e influentes empresas do complexo militar e industrial norte-americano.
Se realmente tememos um programa fascista para as sociedades ocidentais, este é precisamente o programa fascista que devemos temer: o do Regime Epstein, que aqui está articulado sem reticências nem eufemismos.
A propósito deste texto arrepiante, Tim Dillon fez das suas. O Blogville recomenda.
