quinta-feira, agosto 13, 2026

1944-2026: um exercício comparativo.

O tweet em baixo diz assim:

Em consequência das condições "infernais" a bordo do USS Abraham Lincoln, os EUA estão a enviar o porta-aviões USS George Washington para o Médio Oriente para substituir o USS Abraham Lincoln, que já está em missão há mais de 250 dias, estabelecendo um recorde de dias consecutivos no mar, segundo o WSJ.

As condições catastróficas incluem escassez de mantimentos básicos, marinheiros a ficarem sem pasta de dentes e sabão, contaminação da água, problemas de canalização, deterioração da saúde mental, preocupações com a segurança no convés, falta de alimentos e interrupções no sistema postal, com encomendas perdidas durante meses. Vários marinheiros tentaram saltar para o mar e suicidaram-se.

O USS George Washington está a ser escoltado pelo USS Robert Smalls e pelo USS Shoup, navegando juntos para oeste em direcção ao Estreito de Malaca, com chegada prevista ao Médio Oriente em aproximadamente 8 dias.

 
Portanto, 250 dias sem voltar a casa. Muito bem. Não resisto à tentação de um quadro comparatico e, acto contínuo, faço esta pergunta ao Grok:

Quanto tempo sem voltar aos EUA ficaram os porta-aviões americanos envolvidos no palco do Pacífico durante a II Guerra Mundial? 

Responde o Grok:

Cerca de 18–20 meses (em torno de 570–580 dias) no caso mais famoso, o do USS Enterprise, sem voltar ao continente americano (Costa Oeste). 

Digo eu, por cima: 

O risco de vida, a intensidade do combate e o stress diário no teatro das operações do Pacífico em 1944-45 seriam infinitamente maiores. As condições de higiene e salubridade dramaticamente piores. A alimentação mais escassa ainda e limitada por certo a rações de combate, durante meses (já para não falar da fiabilidade postal e dos "problemas de canalização"). Ainda assim, o Enterprise permaneceu mais do dobro dos dias operacional (e de que maneira).

É claro: deve ter havido entre os marinheiros percentagens significativas de suicídios. Mas também é líquido que o número de baixas terá sido incomensuravelmente maior (pelo que sei, ninguém morreu vítima de fogo inimigo no Abraham Lincoln e o Grok fala-me de 130 mortos nos 550 dias em que o Enterprise não foi a casa - 374 em toda a guerra). 

É claro que, por muitas vezes, em muitos navios, as tripulações estiveram à beira do motim. Faz parte. Mas nem sequer podemos comparar as condições em que estes viviam e combatiam com o que se passa hoje no Golfo. Basta pensarmos que a marinha norte-americana era frequentemente atingida por kamikazes que tripulavam aviões carregados de bombas e combustível, e mesmo 'aviões-torpedo' (Nakajima B6N Tenzan), 'aviões-míssil' (Yokosuka MXY-7 Ohka) e 'torpedos submergíveis', tripulados, como o Kaiten.

Mais a mais, o Enterprise cumpriu a maior parte da sua missão depois de estar directamente envolvido numa das maiores batalhas navais da História - Midway. 

Estou portanto e nitidamente a comparar alhos com bogalhos, ou algas com robalos, para manter a analogia no devido contexto.

O Regime Epstein está a descobrir, para seu enorme espanto, que a marinha norte-americana é um tubarão de papel. Tripulações desmoralizadas, sem resiliência nem entendimento das razões morais e estratégicas da sua missão, navios sem munições nem mantimentos, gestão caótica da logística, espalhafato tecnológico, altamente oneroso, que não serve com eficiência ou adequação a realidade bélica do século XXI, assincronia entre a propaganda regimental e a realidade operacional. 

Um trágico, sem bem que circense, naufrágio do império americano.