terça-feira, setembro 08, 2026

O mais estúpido dos argumentos contra o cristianismo, de longe.

Num infeliz episódio do podcast do Joe Rogan, o convidado Daniel Everett conta a história de se ter embrenhado na selva amazónica com o intuito de, como missionário, converter as tribos que por lá encontrasse. Uma delas, os Pirahã, que ainda hoje vivem como o Homo Erectus vivia, levaram-no a perder a sua fé, porque foi confrontado com o cepticismo dos indígenas que eram incapazes de acreditar na existência de alguém que nunca conheceram, ou que os seus imediatos ascendentes nunca tenham conhecido. O missionário achou o argumento de tal forma fascinante e convincente que perdeu também ele a sua fé (que já não devia ser assim tão forte de princípio, como ele aliás admite).


A parvoíce imensa disto não tem medida. Daniel Everett terá também, seguindo a mesma lógica, que desacreditar a existência de Zaratustra, Confúcio, Platão, Buda, Alexandre, Júlio César, Carlos Magno, Henrique VIII, o Papa Bórgia, Immanuel Kant, Napoleão e assim sucessivamente até que o seu bisavô tenha conhecido pessoalmente, digamos, Harry S. Truman. Para todos os efeitos o primeiro estadista da história da humanidade foi 
Harry S. Truman porque Everett Sénior entrou uma vez, em 1906, na sucursal do Bank of Commnerce de Kansas City, onde o futuro presidente dos EUA trabalhava como bancário.

É espantoso.

A moral desta história pretende ser a do missionário que queria converter os selvagens sendo que acabou por ser convertido por eles. Mas a verdadeira lição que podemos retirar da rábula é outra bem diferente: uma sociedade que não saiba transmitir de forma consistente o seu legado cultural e o seu património epistemológico através das eras viverá para sempre como os Pirahã, na idade da pedra.

Carl Benjamin, que nem sequer é crente, e que ficou tão surpreendido como eu perante a imbecil desfaçatez do ex-missionário, lavra aqui a sua desmontagem da fábula equívoca que Rogan decidiu em má hora oferecer à sua gigantesca audiência.