segunda-feira, maio 18, 2026

Christopher Nolan e a aviltante destruição da Odisseia.


Para ser completamente sincero, tenho andado a evitar este assunto porque é de tal forma doloroso que nem me apetece escrever sobre ele.

Mas tem que ser, porque está na ordem do dia e o Contra obriga. 

Chistopher Nolan é, nos tempos que correm, o realizador mais consagrado de Hollywwod (talvez a par de Denis Villeneuve), com títulos de grande sucesso entre a crítica e o público como a trilogia Batman 'Dark Knight', 'Interstellar', 'Dunkirk' e 'Oppenheimer'. Devo dizer a bem da verdade que não sou um fã e que o realizador britânico (americanizado) já fez também muita merda: 'Tenet' é um filme sem ponta por onde se lhe pegue, 'The Prestige' é uma fita vulgar, 'Insomnia' é excessivamente hollywodesco para ser levado a sério, e 'Inception' deve ter sido pensado durante uma (má) trip de ácidos. 

Mas mesmo os filmes mais notáveis que Nolan realizou são cirurgias, mais que obras de arte. A sua abordagem é clínica, fria, distante, calculista. Não há paixão pelo cinema, nem carinho pelos personagens, nem disrupção criativa. Há distanciamento e fatalismo e desprezo pela condição humana. Há pós-modernismo a rodos. Os heróis de Nolan são impotentes ou infelizes, vivem com fantasmas que os amesquinham, perdem-se no labirinto dos seus dilemas. s histórias revelam uma tendência para o realismo, sim, mas apenas no sentido em que são falidas daquilo que devia ser o primeiro valor do cinema (e da arte?): a criação, sustentação ou ressurreição de um determinado aparelho mitológico.

Ora, parece que quando Nolan se decidiu, em má hora, a rodar a sua versão do regresso de Ulisses, esqueceu-se dessa militância para com o realismo em nome de se alinhar, para mais em contra-ciclo cultural, à esquizofrenia woke e à agenda de cinzas da classe Epstein, empenhando-se no processo em destruir precisamente o mito grego.

O filme só vai estrear nos cinemas em Julho, mas a reacção crítica de líderes de opinião conservadores - bem como das massas - tem constituído uma onda de indignação que supera até o que aconteceu com a deprimente e completamente falhada versão da Branca de Neve que a Disney lançou em 2025.

 

A tradução feminista 

Para começar com o pé esquerdo esta desventura fílmica, o cineasta parece ter fundado o guião numa tradução da obra homérica de Emily Wilson, uma feminista da Pensilvânia que decidiu verter o grego clássico para um inglês americanizado e vulgar (os personagens usam termos como 'daddy') e politicamente correcto, que procura utilizar uma "linguagem mais neutra em relação ao género e menos moralizante e misógina". 

Logo aqui, percebemos que a coisa não pode correr bem. 


O elenco: delirante, ou pura e simplesmente ofensivo?

Dado o orçamento astronómico de 250 milhões de dólares, Nolan foi buscar uma quantidade assinalável das abominações humanas que preenchem o actual firmamento estelar de Hollywood. De Matt Damon (Ulisses) a Robert Pattinson (Antínoo), de Charlize Theron (Calypso) a Tom Holland (Telémaco), não faltam nomes sonantes num elenco extenso e altamente controverso.

E controverso porquê? Porque o realizador decidiu recrutar Anne Hathaway, que tem o talento e a presença de uma rã anorética, para representar Penelope; um rapper negro de Houston como bardo (Nolan afirmou, risivelmente, que a poesia oral de Homero é "análoga ao rap"), e, num provocador e execrável exercício de desfaçatez, Elliot Page (uma mulher que mudou de sexo e é agora uma espécie esquisita de homem, se tanto) para interpretar o fantasma de Aquiles, o esbelto, másculo e eterno guerreiro aqueu. A atribuição deste papel à actriz/actor transexual ainda não foi confirmada, apenas a presença de Page no elenco é oficial, mas é claro que os memes não se fizeram esperar e este é delicioso:


Resta a cereja podre em cima do bolo de excremento: Lupita Nyong’o, uma actriz negra queniana-mexicana, como Helena de Troia, personagem que é descrita por Homero como de pele branca (leukōlenos) e loira, a mulher mais bela do mundo, cuja estonteante aparência física "lançou mil navios".

Aqui entre nós, Lupita não convencia uma traineira a sair da doca de Sesimbra: 
 


 
Acresce que o elenco desta Odisseia não contempla um único actor grego, enquanto soma cinco actores negros num contexto histórico e literário original que não integrava qualquer personagem africano.

 

A contrafactualidade histórica.

Para um realizador da escola realista, com reputação de ser rigoroso com detalhes, sejam eles científicos ou cenográficos, históricos ou culturais, Nolan deu-se a estranhas liberdades quando decidiu rodar a Odisseia.

Creditando o que vemos nos dois trailers de promoção do filme, vemos armaduras medievais em plena idade do bronze; ou que lembram mais (muito mais) o Batman (ou Darth Vader) do que um herói da antiguidade clássica, e as armas utilizadas não têm qualquer relação com os factos arqueológicos e a tradição literária.

Mais a mais, as muralhas de Troia parecem feitas de pladur e a cinematografia não compagina grandemente com os prazeres estéticos que as audiências expectam quando se preparam para apreciar qualquer coisa parecida com uma epopeia, rodada em IMAX.




"Epá, buga lá matar os gajos."

No trailer vemos Ulisses arengar as tropas com um mais que anacrónico "let's go".  Há rumores de que expressões contemporâneas de jargão urbano são utilizadas a rodos e os personagens falam um inglês nova iorquino que esvazia o texto homérico da sua necessária solenidade. Pegar num poema homérico e enxertá-lo com termos como "papá" e "hora do recreio" e "buga lá" é mais que aberrante. É dessacralizador.

O que Nolan está a fazer é a diminuir a obra de Homero, em vez de a celebrar. 

  

Destruir o legado universal em nome do legado pessoal.

Há quem diga que a Odisseia é literatura ficcional e mito, pelo que a fidelidade à realidade histórica, neste caso, não é para aqui chamada. O argumento, na minha opinião, é espúrio: Ulisses regressa de uma guerra que realmente se travou (há profusos e mais que convincentes dados arqueológicos e testemunhos historiográficos sobre o evento) e a narrativa só pode ser entendida no contexto histórico e cultural da civilização helénica. Se os personagens fossem romanos, a história seria outra (ver Virgílio). Se fossem portugueses, a história seria outra (ver Camões). Se fossem ingleses, outrossim diversa (ver Shakespeare). Se fossem africanos, seria tudo completamente diferente. 

Mais a mais, o que aqui acontece nem sequer pode ser considerado como um acto de liberdade criativa. Nolan está a seguir as enjoativas e profundamente racistas regras de "representação e inclusão" da Academia de Hollywwod para que o filme seja elegível para os oscars.  Esta é uma produção feita para engrandecer o currículo de um homem e para reforçar a ideologia transformista das elites, em vez de ter sido pensada como um objecto artístico de celebração de uma obra universal, que ecoa pelos séculos.

Numa explosão de trágica ironia, a Odisseia de Nolan é uma espécie de Cavalo de Troia. Aquele que guarda nas suas tripas todo o demoníaco exército da classe Epstein, que incapaz de criar, consegue somente destruir.

O que nos salva, aqui, é o tempo. Porque Homero será sempre Homero. Um monstro criativo, eterno por definição, que glorifica a capacidade de transcendência da condição humana e a vitalidade espiritual e material da civilização helénica. Já Christopher Nolan não será mais que um curta e perecível nota de rodapé, na bilbioteca de Alexandria que é a História Universal.