Já há tanto tempo que não respeito a rotina de deixar, aqui no blog, registo das minhas leituras, que tenho uma pilha enorme de livros na secretária, à espera de serem cadastrados e depois arrumados na estante. Como a pilha está a ficar periclitante, vou ter que despachar isto de forma telegráfica antes que os tomos me caiam em cima da cabeça. E por partes, porque são muitos livros. Vamos a isso.
Em Busca do Tempo Perdido . Marcel Proust . Volumes I a IV . Relógio d'Água
A leitura da tradução que Pedro Tamen fez da obra eterna de Proust vai demorar mais tempo do que eu imaginava (já estou a ler isto desde 2005). Vai durar todo o tempo do mundo. E mais não digo porque sobre estes livros sempre vou deixando, de uma maneira ou de outra, notas de leitura aqui no blog.
Obras Completas . Jorge Luis Borges . Volumes I a III (1923 - 1985) . Editorial Teorema
Apesar de também se tratar de uma obra sem fim, literalmente sem fim, a sua leitura tem sido substancialmente mais rápida (estou a ler desde 2014). É claro que já tinha lido muita coisa deste deus da literatura antes de adquirir estas "Completas", mas Borges é Borges e vale sempre a pena reler. Também neste caso, o melhor é remeter para o que tenho escrito sobre o bibliotecário de Buenos Aires aqui no blog.
O Tango . Jorge Luis Borges . Quetzal
Muito a propósito, o meu querido amigo José Aguiar ofereceu-me este magnífico conjunto de quatro conferências que, curiosamente, perfazem uns bocados de literatura que não estão integrados nas "Obras Completas". Um detalhe muito saboroso desta feliz edição é o de captar com rigor a oralidade do velho mestre, a sua espontânea erudição, o processo alquímico do seu discurso, que é o mesmo que dizer, do seu pensamento. O assunto das conferências, por acaso, não é daqueles que mais me interessam no imaginário do autor, mas, outra vez, Borges é Borges e ler Borges - ou no caso, ouvi-lo - é uma das coisas realmente maravilhosas que a vida tem para oferecer.
Enciclopédia da História Universal . As Reincarnações de Pitágoras . Arquivos de Dresner . Mil Anos de Esquecimento . Biblioteca de Brasov . Afonso Cruz . Alfaguara
"Os monges bibliofitas não dizem que fecham um livro. A expressão usada para este gesto é 'apagar a luz'."
Por falar em Borges, o projecto labiríntico do genial Afonso cruz continua a bombardear os meus dias. Aos dois volumes que já registei em duas anteriores entradas da rubrica Jornal de Letras, somei a leitura destes quatro em titulo. Não sei, sinceramente, onde é que o Afonso vai buscar a imaginação para esta aventura híbrida entre a realidade e a fantasia, entre os vivos e os mortos, entre a improvisação do passado e a história do futuro. Rendo-me simplesmente ao talento enorme e tiro prazer incontável das páginas desta enciclopédia.
Amok . Stefan Zweig . Relógio d'Água
A história de um médico vítima de Amok, expressão indonésia que significa "lançar-se furiosamente na batalha" e que curiosamente faz parte do universo idiomático português ("deu-lhe um amok"). Apesar de tudo, trata-se de uma história de amor, contada por um dos mais atípicos novelistas alemâes da primeira metade do século XX. A novela não é de fácil digestão, apesar de ser breve, mas tem uma ambição clara e meritória: a descida vertiginosa às profundezas da alma humana.
Os Escritores Também Têm Coisas a Dizer . Carlos Vaz Marques . Tinta da China
Tenho sentimentos antípodas sobre Carlos Vaz Marques. Todo o meu ser se fecha na certeza de que se trata de um imbecil de primeira água, mas depois analiso o percurso e os projectos do sujeito, da direcção da revista Granta à moderação do Governo Sombra, e sinto claramente que devo refrear a velocidade dos meus instintos, porque alguma coisa de decente o tipo deve ter. Este livro de entrevistas, porém, encoraja-me a má língua. Carlos Vaz Marques entrevista uma dúzia de autores de língua portuguesa, de Saramago a Dulce Maria Cardoso, só para revelar que os meus instintos estão certos: se o entrevistador é um imbecil rematado, não há entrevistado que sobreviva. Um livro sofrível (até o título é bera) e ponto final.
Fisiologia do Gosto . Brillat-Savarin . Relógio d'Água
Advogado, juiz, presidente da Câmara de Belley, deputado girondino durante a primeira fase da Revolução Francesa, violinista virtuoso e afamado comensal, Brillat-Savarin deixou para a posteridade este livrinho que pretende dissecar cientificamente a cultura gastronómica humana. É um projecto pomposo, mas falhado e aborrecido, por muito que Roland Barthes, na introdução, tente salvar a coisa. Vale a pena, talvez e apenas, pela linguagem pseudo-científica do século XVIII, que dá vontade de rir.
I Think You're Totally Wrong . David Shields and Caleb Powell . Penguin Random House
Dois amigos, um pragmático e outro intelectual, decidem tirar uns dias de férias para se enfiarem numa cabana em nenhures de forma a terem total disponibilidade para discutirem sobre política, arte, religião, sexo e outras coisas assim disruptivas. Como a ideia fundamental é a do prazer da discórdia, o resultado é este divertido e dialéctico livrinho, carregado de um certo tipo caótico de inteligência, mas também de tolerância (não a tolerância de plástico que está em voga, mas a outra, que é própria dos espadachins). Nos dias que correm, em que é cada vez mais difícil manter a civilidade sobre as divergências, esta é uma edição deveras pedagógica.
Deste livro saiu um filme (ainda não vi). Eis o trailer:
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Enciclopédia da História Universal Alfaguara ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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segunda-feira, janeiro 28, 2019
domingo, agosto 03, 2014
Jornal de Letras | Janeiro/Julho 2014
A Conquista da Terra. A Nova História da Evolução Humana - Edward O. Wilson - Clube do Autor
Um dos mais aclamados professores de Harvard, autor de obras basilares da sociobiologia como "O Fogo de Prometeu", Wilson teoriza aqui sobre as origens genéticas e ambientais do comportamento social e sua influência determinante na evolução humana e no seu destino.
O extenso estudo de campo que Wilson desenvolveu com as formigas eusociais (organizadas em grupos pela divisão altruísta do trabalho), permite-lhe apresentar argumentos concludentes que sustentam a sua arrojada tese evolucionista: a selecção natural premeia a complexidade social, sendo esta determinante na equação da origem das espécies.
Uma obra de fundo, profundamente académica, mas que consegue ser também um excelente ensaio de divulgação científica.
"A eusociabilidade, foi uma das maiores inovações na história da vida. Criou superorganismos, o nível seguinte de complexidade biológica acima do nível dos organismos. É comparável no impacto ao da conquista da terra pelos animais anfíbios que respiravam o ar. É equivalente em importância à invenção do voo por insectos e vertebrados."
A Boca da Verdade - Lawrence Ferlinghetti - Edição do Autor e do Tradutor
Lawrence Ferlinghetti será, talvez, o mais inspirado dos poetas beatnick, mesmos se considerarmos a poesia do seu grande amigo Keroac. Não sou um fã natural desta geração, mas abro excepções, é claro e esta é uma delas. Trata-se de um magífico livrinho de poemas que comprei quando trabalhava na livraria Castil de Alvalade, lá pelos distantes anos de 1988 e 89. Está bastante gasto, porque eu repito bastante esta visita. Fica o meu poema preferido, que já aqui tinha deixado uma marca.
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas? - AFonso Cruz - Alfaguara
Afonso Cruz é um géniozinho à solta. Este romance, mosaico orientalista onde o tempo não é um continuum, espécie de mil e uma noites ao contrário, tapete voador que faz rir e faz chorar e que nos redime dos dias de chuva, é a prova de que a literatura portuguesa tem poder para dar e vender. Apesar do folclore anti-americano do costume (o protagonista é um muçulmano que vê o seu filho morto por soldados americanos, como se no mundo islâmico precisassem de soldados estrangeiros para se matarem uns aos outros), apesar da simpatia que Afonso Cruz dedica à cultura islâmica e que, para mim, será sempre suspeita e desagradável, a verdade é que se trata de uma novela maravilha. Reparem bem neste excerto:
- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.
Economia, Moral e Política - Vitor Bento - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos
Em 2011, Vitor Bento publicava este opúsculo sobre o tema da moralidade e da política na economia. Três anos depois, na sequência do maior escândalo financeiro da história da Terceira República, é escolhido para dirigir os destinos do BES. A coincidência é a forma como Deus permanece anónimo.
O ensaio em si não consegue sair da esfera da previsibilidade e do politicamente correcto, mas é esclarecido no que diz respeito à relação epistemológica existente entre o ethos e a ciência económica, pertinente na análise que faz à influência da ciência política e crítico o que baste para com os agentes do mercado financeiro. A ideia de responsabilizar criminalmente os quadros de decisão e não apenas as empresas que os empregam parece-me, por exemplo, muy justa.
Contos Espantosos - Alexandre Dumas, Guy de Maupassant, Honoré de Balzac, Edgar Allan Poe - Rosto Editora
Breve colectânea de literatura fantástica do século XIX, em que se destaca, claro, o texto de Poe, que é uma notável elegia da vingança. Um livrinho simpático, para levar para a praia.
Agosto, 1914 - Alexander Soljenítsin - Publicações D. Quixote
Obra inacabada que retrata a desastrada e incauta invasão da Prússia pelos russos, no princípio da Primeira Grande Guerra, Agosto, 1914 é mais um grande romance de guerra para o glorioso espólio da literatura russa. E testemunho eloquente do grande talento de Soljenítsin para o formato épico.
A Identidade Cultural Europeia - Vasco Graça Moura - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos
Uma das últimas obras escritas pelo grande vulto da cultura nacional, este ensaio procura e consegue condensar a essência da identidade ocidental. Vasco Graça Moura conduz o leitor pelo labirinto da cultura europeia com a erudição e a elegância que lhe são absolutamente naturais, demonstrando que os valores filosóficos, artísticos, político s e sociais que presidem à Europa do pós-guerra não são relativos nem insignificantes e assentam num processo de transcendência único na história da humanidade. Um tratado para sobreviver ao tempo.
Sobre o Café, o Tabaco e o Álcool - Honoré de Balzac - Padrões Culturais Editora
Mais interessante pela viagem aos costumes e às mentalidades do Século XIX do que propriamente sobre a opinião que o autor tem em relação aos temas a que se propõe, este ensaio de Balzac não deixa de ser divertido. Por exemplo, o autor conta que, depois de beber, na companhia de um amigo, dezassete garrafas de vinho (!), acaba por ficar mal disposto ao rematar a épica bebedeira com um charuto, partindo deste magnífica prova laboratorial para demonstrar os malefícios do tabaco.
Todo o texto está recheado de pseudo-ciência (mesmo segundo os critérios do tempo) e de conceitos espúrios, que Balzac utiliza para sustentar a ideia de que as três substâncias (na verdade são 4, porque o autor também acha que o chá é um perigo para a saúde pública) são altamente nocivas para o ser humano.
Enfim, um texto moderadamente cómico, e não mais que isso.
Os Portugueses Descobriram a Austrália? 100 Perguntas Sobre factos, Dúvidas e Curiosidades dos Descobrimentos - Paulo Jorge de Sousa Pinto - A Esfera dos Livros
Porque me foi recomendado por uma amigo cuja análise crítica e cultura livresca muito respeito, foi com alguma entusiasmo que peguei nesta espécie de perguntário. A desilusão foi enorme. Paulo Jorge de Sousa Pinto tem a intenção de desmistificar tudo, mesmo o que não é desmistificável, de tal forma que ficamos com a sensação de que os descobrimentos não passam de um mito urbano, inventado por uma seita de historiadores do Estado Novo. Mas o que é realmente lamentável nesta obra é o facto de não trazer realmente nada de novo para o património documental da gesta marítima, apesar da intenção iluminista. Muito porque o autor se esconde num relativismo miserável, sempre que a sua prosa - e muito contra a sua vontade - corre o risco de poder ser minimamente interessante. Dou só um exemplo: a resposta à pergunta nº 65, que dá o título ao livro, é esta: não sabemos se foram os portugueses que descobriram a Austrália mas, mesmo que tenham sido, conforme o mapeamento de um tal Godinho de Erédia e graças à gesta de Cristovão de Mendonça, isso não interessa nada, porque o facto não teve dimensão mediática nem histórica, nem foi oficializado. O que interessa é o facto histórico e o facto histórico diz-nos que o descobrimento oficial é o de 1606, com a chegada do holandês Willem Janszoon. Ora, se a questão é tão pouco pertinente, porque é que o autor decidiu pegar nela para título do seu livro? Jorge de Sousa Pinto chega a observar que, na verdade, nenhum Europeu descobriu a Austrália, porque alguns povos do pacífico já sabiam da existência deste território. Repare-se que, neste caso, o autor já não se importa que esse conhecimento não tenha um "facto histórico oficializado" que lhe dê validade. Só os europeus é que precisam de se sujeitar a isso. Os outros povos podem criar factos históricos à vontade, que não precisam de oficializar nada. Para que os seus livros deixem de ser uma enorme perda de tempo, Paulo Jorge de Sousa Pinto precisa de se aliviar um pouco do fardo do homem branco. Desconfio que isso será lago difícil para ele, pelo que este será para mim, um autor a evitar.
Eu, Borges. Imagens, Memórias, Diálogos - Maria Esther Vazquez - Editorial Labirinto
"Eu fui Homero. Em breve serei ninguém como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto."
Jorge Luís Borges
Edição que regista as conversas que a jornalista Maria Esther encetou com o génio argentino, e com alguns dos seus amigos, Eu, Borges constituirá, para qualquer pessoa com gosto pela literatura, uma fonte inesgotável de prazer. Grandiloquente, omnisciente e encantador, Borges não tem medo do espelho e fala de si e dos outros com o à vontade dos imortais. Uma peça de culto.
O Império de Hitler. O Domínio Nazi na Europa Ocupada - Mark Mazower - Edições 70
Este é daqueles livros de História que constituem um verdadeiro desafio. Volumoso, tipografado para olhos de adolescente, angustiante, arrepiante, repleto de números deprimentes e ainda assim, uma experiência gratificante. É que estamos perante de um trabalho de pesquisa e tratamento de conteúdos de dimensões recordistas. Mazower traça, com mestria, rigor académico e inacreditável erudição, uma longa aguarela de horrores, num retrato lúcido da administração do império que, de repente, o estado nacional socialista tinha que governar, independentemente ou não, da gestão do esforço de guerra.
Uma das grandes contradições da praxis administrativa nazi que atravessa estas páginas é precisamente a que decorre no leste da Europa: entre a imperativa e radical implementação das políticas raciais (leia-se, extermínio de judeus, polacos, russos, homossexuais, ciganos etc.), acerrimamente defendida por Hitler e Himmler, e a necessidade de mão de obra escrava para alimentar a indústria militar, bem como da manutenção de alguma boa vontade das populações conquistadas, constantemente apregoadas pelos estrategas de Wehrmacht e pelos arquitectos da burocracia imperial, como Rosenberg e Speer, há um conflito decisivo. No triunfo último do fanatismo racial, encontram-se muitas das razões para a derrocada alemã na frente russa.
A importância dada à raça continha até, dentro do seu próprio racioncínio, motivos de falência técnica: os alemães quiseram germanizar completamente alguns dos territórios conquistados aos polacos e aos checos (e que lhes tinham sido retirados no Tratado de Versalhes), mas o seu critério racial era de tal forma exclusivista, que nunca conseguiram dar consistência demográfica ao sonho de recolonização ariana.
Outra das milhares de análises pertinentes que este livro encerra, é a de que nem todo o extermínio étnico se deveu directamente ao delírio alemão. Em França, na Ucrânia, na Checoslováquia, na Roménia e na Grécia, os locais não precisaram das SS para levar a cabo perseguições e chacinas de generosa dimensão. Principalmente no Leste, não foi necessário muito mais que rédea solta para que se começassem a matar todos uns aos outros.
No seu todo, a obra descobre ainda uma faceta que não costumamos associar aos alemães: a incompetência. Os territórios foram mal geridos, as suas potencialidades económicas foram subaproveitadas, nunca houve uma filosofia de administração consistente, não há registo de uma ideia para a Europa, um conceito de civilização para o império; nada. Apenas uma lógica de violência nacionalista.
Prémio LA Times para o melhor livro de História de 2008.
Os Nús e os Mortos - Norman Mailer - D. Quixote
“The natural role of the twentieth-century man is anxiety.”
Norman Mayler | The Naked and the Dead
O romance nú e crú que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos ao horror da guerra é uma obra-prima, talvez a única, de Norman Mailer. Retratando a tomada da ilha de Anopopei, nas Filipinas, o livro não tem mais que cinquenta páginas dedicadas à acção de combate, mas é devastador. Os personagens vivem mergulhados num inferno indescritível, entre os rigores da selva equatorial e o desespero da condição humana. Odeiam-se furiosamente e odeiam a criação.
A obra, que é um ponto de convergência entre Dos Passos e Tolstoi, integra para cima de 16 personagens principais e os seus labirínticos e abissais diálogos interiores cheguam a ser excruciantes. A leitura deste livro é simultaneamente dolorosa e prazerosa.
Mailer escreveu esta novela espantosa, visceral e aterradora com 25 anos, logo depois de ter voltado do Pacífico, onde cumpriu serviço militar durante a II Grande Guerra, embora nunca tenha disparado um tiro. Ainda assim, há muita verdade nestas páginas angustiadas.
Enciclopédia da Estória Universal. Recolha de Alexandria - AFonso Cruz - Alfaguara
Este projecto de Afonso Cruz, de inspiração completamente Borgiana, é uma jóia incontornável no actual panorama editorial. A enciclopédia tem já 3 volumes editados e esta Recolha de Alexandria é simplesmente um deleite. Principalmente para quem gosta de Borges. Só a bibliografia é uma coisa notável, que cruza referências milenares e reais com autores fictícios e obras imaginadas. As entradas da Enciclopédia são um verdadeiro labirinto de registos e estórias e citações, onde a filosofia, a religião e a literatura encontram um único caminho de saída. Algumas pérolas:
"A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua."
Dovev RozenKrantz
" O ócio não é o contrário de trabalho.
A felicidade é que é o contrário de trabalho."
Marian Bibin
"Imagine-se um hotel com quartos infinitos. Um dia, chega uma excursão de infinitos excursionistas. O recepcionista coloca cada pessoa em cada quarto. Mas no dia seguinte (porque é Agosto no Sul de Espanha) chega mais uma excursão de infinitos turistas. O recepcionista fica baralhado, mas há várias soluções simples, esta é uma delas: os turistas infinitos da primeira excursão ficam nos quartos pares e os da segunda excursão nos quartos ímpares. Assim, caberiam pelo menos dois infinitos no mesmo hotel."
Arseny Bobrov, Extracção Craniana da Arte
Um dos mais aclamados professores de Harvard, autor de obras basilares da sociobiologia como "O Fogo de Prometeu", Wilson teoriza aqui sobre as origens genéticas e ambientais do comportamento social e sua influência determinante na evolução humana e no seu destino.
O extenso estudo de campo que Wilson desenvolveu com as formigas eusociais (organizadas em grupos pela divisão altruísta do trabalho), permite-lhe apresentar argumentos concludentes que sustentam a sua arrojada tese evolucionista: a selecção natural premeia a complexidade social, sendo esta determinante na equação da origem das espécies.
Uma obra de fundo, profundamente académica, mas que consegue ser também um excelente ensaio de divulgação científica.
"A eusociabilidade, foi uma das maiores inovações na história da vida. Criou superorganismos, o nível seguinte de complexidade biológica acima do nível dos organismos. É comparável no impacto ao da conquista da terra pelos animais anfíbios que respiravam o ar. É equivalente em importância à invenção do voo por insectos e vertebrados."
A Boca da Verdade - Lawrence Ferlinghetti - Edição do Autor e do Tradutor
Lawrence Ferlinghetti será, talvez, o mais inspirado dos poetas beatnick, mesmos se considerarmos a poesia do seu grande amigo Keroac. Não sou um fã natural desta geração, mas abro excepções, é claro e esta é uma delas. Trata-se de um magífico livrinho de poemas que comprei quando trabalhava na livraria Castil de Alvalade, lá pelos distantes anos de 1988 e 89. Está bastante gasto, porque eu repito bastante esta visita. Fica o meu poema preferido, que já aqui tinha deixado uma marca.
I Am Waiting
I am waiting for my case to come up
and I am waiting
for a rebirth of wonder
and I am waiting for someone
to really discover America
and wail
and I am waiting
for the discovery
of a new symbolic western frontier
and I am waiting
for the American Eagle
to really spread its wings
and straighten up and fly right
and I am waiting
for the Age of Anxiety
to drop dead
and I am waiting
for the war to be fought
which will make the world safe
for anarchy
and I am waiting
for the final withering away
of all governments
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder
I am waiting for the Second Coming
and I am waiting
for a religious revival
to sweep thru the state of Arizona
and I am waiting
for the Grapes of Wrath to be stored
and I am waiting
for them to prove
that God is really American
and I am waiting
to see God on television
piped onto church altars
if only they can find
the right channel
to tune in on
and I am waiting
for the Last Supper to be served again
with a strange new appetizer
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder
I am waiting for my number to be called
and I am waiting
for the Salvation Army to take over
and I am waiting
for the meek to be blessed
and inherit the earth
without taxes
and I am waiting
for forests and animals
to reclaim the earth as theirs
and I am waiting
for a way to be devised
to destroy all nationalisms
without killing anybody
and I am waiting
for linnets and planets to fall like rain
and I am waiting for lovers and weepers
to lie down together again
in a new rebirth of wonder
I am waiting for the Great Divide to be crossed
and I am anxiously waiting
for the secret of eternal life to be discovered
by an obscure general practitioner
and I am waiting
for the storms of life
to be over
and I am waiting
to set sail for happiness
and I am waiting
for a reconstructed Mayflower
to reach America
with its picture story and tv rights
sold in advance to the natives
and I am waiting
for the lost music to sound again
in the Lost Continent
in a new rebirth of wonder
I am waiting for the day
that maketh all things clear
and I am awaiting retribution
for what America did
to Tom Sawyer
and I am waiting
for Alice in Wonderland
to retransmit to me
her total dream of innocence
and I am waiting
for Childe Roland to come
to the final darkest tower
and I am waiting
for Aphrodite
to grow live arms
at a final disarmament conference
in a new rebirth of wonder
I am waiting
to get some intimations
of immortality
by recollecting my early childhood
and I am waiting
for the green mornings to come again
youth’s dumb green fields come back again
and I am waiting
for some strains of unpremeditated art
to shake my typewriter
and I am waiting to write
the great indelible poem
and I am waiting
for the last long careless rapture
and I am perpetually waiting
for the fleeing lovers on the Grecian Urn
to catch each other up at last
and embrace
and I am awaiting
perpetually and forever
a renaissance of wonder
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas? - AFonso Cruz - Alfaguara
Afonso Cruz é um géniozinho à solta. Este romance, mosaico orientalista onde o tempo não é um continuum, espécie de mil e uma noites ao contrário, tapete voador que faz rir e faz chorar e que nos redime dos dias de chuva, é a prova de que a literatura portuguesa tem poder para dar e vender. Apesar do folclore anti-americano do costume (o protagonista é um muçulmano que vê o seu filho morto por soldados americanos, como se no mundo islâmico precisassem de soldados estrangeiros para se matarem uns aos outros), apesar da simpatia que Afonso Cruz dedica à cultura islâmica e que, para mim, será sempre suspeita e desagradável, a verdade é que se trata de uma novela maravilha. Reparem bem neste excerto:
- A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas? Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos. E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.
Economia, Moral e Política - Vitor Bento - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos
Em 2011, Vitor Bento publicava este opúsculo sobre o tema da moralidade e da política na economia. Três anos depois, na sequência do maior escândalo financeiro da história da Terceira República, é escolhido para dirigir os destinos do BES. A coincidência é a forma como Deus permanece anónimo.
O ensaio em si não consegue sair da esfera da previsibilidade e do politicamente correcto, mas é esclarecido no que diz respeito à relação epistemológica existente entre o ethos e a ciência económica, pertinente na análise que faz à influência da ciência política e crítico o que baste para com os agentes do mercado financeiro. A ideia de responsabilizar criminalmente os quadros de decisão e não apenas as empresas que os empregam parece-me, por exemplo, muy justa.
Contos Espantosos - Alexandre Dumas, Guy de Maupassant, Honoré de Balzac, Edgar Allan Poe - Rosto Editora
Breve colectânea de literatura fantástica do século XIX, em que se destaca, claro, o texto de Poe, que é uma notável elegia da vingança. Um livrinho simpático, para levar para a praia.
Agosto, 1914 - Alexander Soljenítsin - Publicações D. Quixote
Obra inacabada que retrata a desastrada e incauta invasão da Prússia pelos russos, no princípio da Primeira Grande Guerra, Agosto, 1914 é mais um grande romance de guerra para o glorioso espólio da literatura russa. E testemunho eloquente do grande talento de Soljenítsin para o formato épico.
A Identidade Cultural Europeia - Vasco Graça Moura - Relógio D'Água Editores, Fundação Francisco Manuel dos Santos
Uma das últimas obras escritas pelo grande vulto da cultura nacional, este ensaio procura e consegue condensar a essência da identidade ocidental. Vasco Graça Moura conduz o leitor pelo labirinto da cultura europeia com a erudição e a elegância que lhe são absolutamente naturais, demonstrando que os valores filosóficos, artísticos, político s e sociais que presidem à Europa do pós-guerra não são relativos nem insignificantes e assentam num processo de transcendência único na história da humanidade. Um tratado para sobreviver ao tempo.
Sobre o Café, o Tabaco e o Álcool - Honoré de Balzac - Padrões Culturais Editora
Mais interessante pela viagem aos costumes e às mentalidades do Século XIX do que propriamente sobre a opinião que o autor tem em relação aos temas a que se propõe, este ensaio de Balzac não deixa de ser divertido. Por exemplo, o autor conta que, depois de beber, na companhia de um amigo, dezassete garrafas de vinho (!), acaba por ficar mal disposto ao rematar a épica bebedeira com um charuto, partindo deste magnífica prova laboratorial para demonstrar os malefícios do tabaco.
Todo o texto está recheado de pseudo-ciência (mesmo segundo os critérios do tempo) e de conceitos espúrios, que Balzac utiliza para sustentar a ideia de que as três substâncias (na verdade são 4, porque o autor também acha que o chá é um perigo para a saúde pública) são altamente nocivas para o ser humano.
Enfim, um texto moderadamente cómico, e não mais que isso.
Os Portugueses Descobriram a Austrália? 100 Perguntas Sobre factos, Dúvidas e Curiosidades dos Descobrimentos - Paulo Jorge de Sousa Pinto - A Esfera dos Livros
Porque me foi recomendado por uma amigo cuja análise crítica e cultura livresca muito respeito, foi com alguma entusiasmo que peguei nesta espécie de perguntário. A desilusão foi enorme. Paulo Jorge de Sousa Pinto tem a intenção de desmistificar tudo, mesmo o que não é desmistificável, de tal forma que ficamos com a sensação de que os descobrimentos não passam de um mito urbano, inventado por uma seita de historiadores do Estado Novo. Mas o que é realmente lamentável nesta obra é o facto de não trazer realmente nada de novo para o património documental da gesta marítima, apesar da intenção iluminista. Muito porque o autor se esconde num relativismo miserável, sempre que a sua prosa - e muito contra a sua vontade - corre o risco de poder ser minimamente interessante. Dou só um exemplo: a resposta à pergunta nº 65, que dá o título ao livro, é esta: não sabemos se foram os portugueses que descobriram a Austrália mas, mesmo que tenham sido, conforme o mapeamento de um tal Godinho de Erédia e graças à gesta de Cristovão de Mendonça, isso não interessa nada, porque o facto não teve dimensão mediática nem histórica, nem foi oficializado. O que interessa é o facto histórico e o facto histórico diz-nos que o descobrimento oficial é o de 1606, com a chegada do holandês Willem Janszoon. Ora, se a questão é tão pouco pertinente, porque é que o autor decidiu pegar nela para título do seu livro? Jorge de Sousa Pinto chega a observar que, na verdade, nenhum Europeu descobriu a Austrália, porque alguns povos do pacífico já sabiam da existência deste território. Repare-se que, neste caso, o autor já não se importa que esse conhecimento não tenha um "facto histórico oficializado" que lhe dê validade. Só os europeus é que precisam de se sujeitar a isso. Os outros povos podem criar factos históricos à vontade, que não precisam de oficializar nada. Para que os seus livros deixem de ser uma enorme perda de tempo, Paulo Jorge de Sousa Pinto precisa de se aliviar um pouco do fardo do homem branco. Desconfio que isso será lago difícil para ele, pelo que este será para mim, um autor a evitar.
Eu, Borges. Imagens, Memórias, Diálogos - Maria Esther Vazquez - Editorial Labirinto
"Eu fui Homero. Em breve serei ninguém como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto."
Jorge Luís Borges
Edição que regista as conversas que a jornalista Maria Esther encetou com o génio argentino, e com alguns dos seus amigos, Eu, Borges constituirá, para qualquer pessoa com gosto pela literatura, uma fonte inesgotável de prazer. Grandiloquente, omnisciente e encantador, Borges não tem medo do espelho e fala de si e dos outros com o à vontade dos imortais. Uma peça de culto.
O Império de Hitler. O Domínio Nazi na Europa Ocupada - Mark Mazower - Edições 70
Este é daqueles livros de História que constituem um verdadeiro desafio. Volumoso, tipografado para olhos de adolescente, angustiante, arrepiante, repleto de números deprimentes e ainda assim, uma experiência gratificante. É que estamos perante de um trabalho de pesquisa e tratamento de conteúdos de dimensões recordistas. Mazower traça, com mestria, rigor académico e inacreditável erudição, uma longa aguarela de horrores, num retrato lúcido da administração do império que, de repente, o estado nacional socialista tinha que governar, independentemente ou não, da gestão do esforço de guerra.
Uma das grandes contradições da praxis administrativa nazi que atravessa estas páginas é precisamente a que decorre no leste da Europa: entre a imperativa e radical implementação das políticas raciais (leia-se, extermínio de judeus, polacos, russos, homossexuais, ciganos etc.), acerrimamente defendida por Hitler e Himmler, e a necessidade de mão de obra escrava para alimentar a indústria militar, bem como da manutenção de alguma boa vontade das populações conquistadas, constantemente apregoadas pelos estrategas de Wehrmacht e pelos arquitectos da burocracia imperial, como Rosenberg e Speer, há um conflito decisivo. No triunfo último do fanatismo racial, encontram-se muitas das razões para a derrocada alemã na frente russa.
A importância dada à raça continha até, dentro do seu próprio racioncínio, motivos de falência técnica: os alemães quiseram germanizar completamente alguns dos territórios conquistados aos polacos e aos checos (e que lhes tinham sido retirados no Tratado de Versalhes), mas o seu critério racial era de tal forma exclusivista, que nunca conseguiram dar consistência demográfica ao sonho de recolonização ariana.
Outra das milhares de análises pertinentes que este livro encerra, é a de que nem todo o extermínio étnico se deveu directamente ao delírio alemão. Em França, na Ucrânia, na Checoslováquia, na Roménia e na Grécia, os locais não precisaram das SS para levar a cabo perseguições e chacinas de generosa dimensão. Principalmente no Leste, não foi necessário muito mais que rédea solta para que se começassem a matar todos uns aos outros.
No seu todo, a obra descobre ainda uma faceta que não costumamos associar aos alemães: a incompetência. Os territórios foram mal geridos, as suas potencialidades económicas foram subaproveitadas, nunca houve uma filosofia de administração consistente, não há registo de uma ideia para a Europa, um conceito de civilização para o império; nada. Apenas uma lógica de violência nacionalista.
Prémio LA Times para o melhor livro de História de 2008.
Os Nús e os Mortos - Norman Mailer - D. Quixote
“The natural role of the twentieth-century man is anxiety.”
Norman Mayler | The Naked and the Dead
O romance nú e crú que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos ao horror da guerra é uma obra-prima, talvez a única, de Norman Mailer. Retratando a tomada da ilha de Anopopei, nas Filipinas, o livro não tem mais que cinquenta páginas dedicadas à acção de combate, mas é devastador. Os personagens vivem mergulhados num inferno indescritível, entre os rigores da selva equatorial e o desespero da condição humana. Odeiam-se furiosamente e odeiam a criação.
A obra, que é um ponto de convergência entre Dos Passos e Tolstoi, integra para cima de 16 personagens principais e os seus labirínticos e abissais diálogos interiores cheguam a ser excruciantes. A leitura deste livro é simultaneamente dolorosa e prazerosa.
Mailer escreveu esta novela espantosa, visceral e aterradora com 25 anos, logo depois de ter voltado do Pacífico, onde cumpriu serviço militar durante a II Grande Guerra, embora nunca tenha disparado um tiro. Ainda assim, há muita verdade nestas páginas angustiadas.
Enciclopédia da Estória Universal. Recolha de Alexandria - AFonso Cruz - Alfaguara
Este projecto de Afonso Cruz, de inspiração completamente Borgiana, é uma jóia incontornável no actual panorama editorial. A enciclopédia tem já 3 volumes editados e esta Recolha de Alexandria é simplesmente um deleite. Principalmente para quem gosta de Borges. Só a bibliografia é uma coisa notável, que cruza referências milenares e reais com autores fictícios e obras imaginadas. As entradas da Enciclopédia são um verdadeiro labirinto de registos e estórias e citações, onde a filosofia, a religião e a literatura encontram um único caminho de saída. Algumas pérolas:
"A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua."
Dovev RozenKrantz
" O ócio não é o contrário de trabalho.
A felicidade é que é o contrário de trabalho."
Marian Bibin
"Imagine-se um hotel com quartos infinitos. Um dia, chega uma excursão de infinitos excursionistas. O recepcionista coloca cada pessoa em cada quarto. Mas no dia seguinte (porque é Agosto no Sul de Espanha) chega mais uma excursão de infinitos turistas. O recepcionista fica baralhado, mas há várias soluções simples, esta é uma delas: os turistas infinitos da primeira excursão ficam nos quartos pares e os da segunda excursão nos quartos ímpares. Assim, caberiam pelo menos dois infinitos no mesmo hotel."
Arseny Bobrov, Extracção Craniana da Arte
terça-feira, novembro 10, 2015
Jornal de Letras | Abril/Dezembro 2015 | #1
Liberalismo, Socialismo, Rebublicanismo - Antologia de Pensamento Político Português - Joel Serrão
Livros Horizonte - 1979
Na ressaca da turbulência revolucionária, Joel Serrão selecciona um vasto conjunto de textos de intervenção política escritos entre 1820 e 1920 por homens como Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão, Antero de Quintal, Teófilo braga, Eça de Queiroz ou Raúl Brandão.
A obra é bastante interessante principalmente porque a prosa é quase sempre magnífica e muitíssimo mais virulenta do que nos parece decente hoje em dia. O problema é que Joel Serrão não colige uma antologia do pensamento político português, como o subtítulo da obra sugere. A selecção é ideologicamente formatada, de tal forma que os textos apresentados são todos de carácter revolucionário, ou - no mínimo - progresssista. Mesmo em relação aos autores mais conservadores integrados nesta antologia, como Alexandre Herculano ou D. Pedro V, os textos escolhidos reflectem momentos do seu pensamento mais à esquerda e não o modelo ideológico e filosófico em que na verdade se enquadram.
Se este livro tivesse como subtítulo "Antologia do pensamento da esquerda em Portugal", seria uma obra mais honesta. Assim sendo, é uma manobra. Uma manobra com piada, mas uma manobra.
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Enciclopédia da Estória Universal - Mar - Afonso Cruz
Alfaguara - 2014
Encosto o ouvido ao mar para ouvir o barulho dos búzios.
De Afonso Cruz e desta Estória Universal, já disse muito do que tinha a dizer aqui. Mas esta obra fascicular é de tal forma bela e prolixa que me obriga a complementar o discurso com mais adjectivos e apologias. Mar é, por si só, um triunfo. Para além das entradas labirínticas e espirituosas do costume, Afonso Cruz integra neste fascículo um conto absolutamente poderoso - que vale por muitos romances - assente num monólogo de uma rapariga mórmon, espartilhado em 67 curtos e intensos capítulos.
Este autor impressiona-me deveras.
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O Eclipse da Razão - Max Horkheimer
Antígona - 2015
Influenciado inicialmente pelo pensamento de Schopenhauer e incondicional admirador do trabalho de Karl Marx, Max Horkheimer (1895-1973) levantou nos anos 30 – na companhia de outras grandes figuras da filosofia do seu tempo, como T. W. Adorno, Erich Fromm, Leo Lowenthal e Walter Benjamin – um importante legado do pensamento filosófico do Século XX, que hoje conhecemos por Escola de Frankfurt e que, rejeitando o pensamento liberal e pragmático de algumas escolas ocidentais, bem como a instrumentalização do pensamento marxista levada a cabo pelos sovietes, propunha o estabelecimento de um novo paradigma para a filosofia social baseado na teoria crítica.
Sustentando a sua lógica desconstrutiva na sociologia anti-positivista, na psicanálise e no existencialismo, os teóricos de Frankfurt propunham uma abordagem que partia do método marxista para uma aventura interdisciplinar que procurava contrariar a razão instrumental através do uso da razão crítica.
Publicado em 1947 – a partir de um conjunto de palestras dadas em 1944 na Universidade de Columbia -, “O Eclipse da Razão” (Antígona, 2015) é fruto, também, de um natural pessimismo decorrente dos horrores da II Guerra Mundial, da prevalência de estados totalitários na Europa continental e do capitalismo anglo-saxónico, de que o autor era feroz antagonista. Este infeliz conjunto de circunstâncias dever-se-ia, para os filósofos de Frankfurt, à crise da razão, que teria sido sujeita, desde o seu estado virtuoso na antiguidade clássica, a sucessivos graus de subjectivação e formalização.
Logo no arranque do primeiro capítulo, Max Horkheimer define e separa a razão objectiva, que diz respeito ao interesse social e que advém de Platão, à razão subjectiva, que se refere ao interesse individual e que, tendo raízes na escolástica aristotélica, ganhou um novo impulso com os valores e as conquistas do iluminismo e do progresso técnico.
Neste aspecto a obra torna-se extremamente interessante, já que o pensamento do autor é deveras original e bastante lúcido. Para dar um breve exemplo das conclusões verdadeiramente alternativas de Horkheimer, a vertente laica do iluminismo é abordada nestes termos: «Os filósofos do iluminismo atacaram a religião em nome da razão mas no fim de contas o que mataram não foi a igreja mas a metafísica e o próprio conceito objectivo de razão.»
De facto, acreditando no filósofo alemão, a economia intelectual decorrente do iluminismo e do empirismo, que leva à categorização e abstração do indivíduo (fenómenos a que ainda hoje assistimos pela rotulagem imediatista a que os oráculos do programas noticiosos submetem os sujeitos das reportagens – fulano tal é “vítima”; beltrano é “agressor”; cicrano é “desempregado”, etc.), essa economia intelectual é um facilitismo intolerável, que desvaloriza a razão em função das pseudo-virtudes da experiência e do senso comum, ao qual o autor declara guerra. Contrariando teóricos como Heidegger, Gadamer e Chesterton no que respeita à valorização do senso comum e o empirismo britânico de John Locke, Francis Bacon e David Hume, Horkheimer desconstrói e dessacraliza, nas densas e veementes páginas deste livro, muitos dos princípios mais caros à civilização ocidental.
As democracias da sua época, por exemplo, por se encontrarem dependentes dos chamados interesses do povo, dos populismos incontornáveis dos seus líderes políticos e do mandato opressor dos interesses económicos, não oferecem na verdade qualquer garantia contra a tirania. A maioria democrática não é racional, muito simplesmente porque há uma diferença imensa entre o que as pessoas querem e o que é melhor para elas.
Sintomático manifesto da decadência da razão é o facto de a arte se ter transformado, para Max Horkheimer, numa mercadoria cultural. Até a Eroica de Beethoven é consumida pelas massas como «sinfonia de museu» ou, diríamos nós nos dias de hoje, produto de stream, desprovida já do seu fundamental contexto político e social.
A capacidade da Ciência para gerar verdades filosóficas – que, para o Director do famoso Institut für Sozialforschung, são as únicas possíveis – também é posta em causa. A verdade científica, laboratorial e empírica está para além ou muito aquém dos absolutos do pensamento racional e, ao contrário do que nos querem fazer querer os tecnocratas, a ciência não é apenas destrutiva quando é desvirtuada. A deontologia positivista não consegue suster a destruição da razão objectiva: «um corpo oficial de cientistas de acordo com a teoria positivista, é mais independente da razão que o colégio de cardeais, uma vez que o último tem, pelo menos, de se referir ao evangelho».
Claro que o Tomismo – a corrente filosófica que, desde S. Tomás de Aquino, procura conciliar o cristianismo com a tradição aristotélica – também não escapa à lâmina devastadora de Horkheimer. Mas o que surpreende é o ímpeto da crítica que o autor dedica aos intelectuais. Estes devem a sua existência e o seu ócio ao sistema de dominação de que tentam emancipar-se e, talvez por sentimentos de culpa que daí decorrem, acabam por glorificar a classe trabalhadora. O argumentário freudiano, que está muito presente no DNA da Escola de Frankfurt, é transversal sobre toda a obra. Esta tendência para a psicanálise social leva a conclusões que já não serão tão originais para o leitor contemporâneo: a educação burguesa, a indústria e a igreja escravizam, oprimem e traumatizam o indivíduo. E assim, o histerismo colectivo nacionalista e mimético surge como escape dessas tensões acumuladas. Por outro lado, o conflito latente entre o homem e a natureza não se resolve com o iluminismo e o progresso técnico, pelo contrário, nem com o regresso ao primitivismo de Rousseau, que é ingénuo. A solução para estes conflitos – entre o homem e a civilização e entre a civilização e o ambiente – só se podem resolver através do pensamento independente e da razão objectiva.
E cumprindo os 360 graus da sua crítica, Max Horkheimer não se mostra nada tolerante com a praxis marxista do regime soviético. O comunismo, tanto como o capitalismo, conspira para a morte do eu porque o trabalhador passa de objecto do capital a objecto do trabalho. A sua liberdade e a capacidade que tem para exercer a individualidade, o pensamento independente, é, nos dois casos, muito reduzida. Mas porque «o individuo completamente desenvolvido é o consumar de uma sociedade completamente desenvolvida» é imperativo regressar ao paradigma platónico da razão que serve eticamente o bem comum, a única capaz de devolver ao homem a sua verdade essencial. Até porque, apesar de tudo, «as pessoas são geralmente melhores do que pensam, ou dizem ou falam.»
Este aparente optimismo não pode porém iludir o leitor. No momento da história em que o utilitarismo resultou numa substituição do filósofo pelo engenheiro e em que o poder industrial está a liquidar o indivíduo, há que assumir que a filosofia não é útil nem tem que o ser. Há que afirmar a filosofia como um «esforço consciente para combinar todo o nosso conhecimento e compreensão numa estrutura linguística na qual as coisas são chamadas pelos seus nomes justos.» A adequação da coisa ao nome como verdade filosófica, que indicia uma aproximação à primeira fase do pensamento de Ludwig Wittgenstein, habilita o pensamento a superar os efeitos desmoralizadores e amputadores da razão formalizada. E, em certo sentido, dá a Max Horkheimer um aliado poderoso e improvável, do outro lado do hemisfério: quando certa vez um discípulo perguntou a Confúcio qual seria a sua primeira medida se lhe fosse dado o poder absoluto de todos os reinos da China, o mestre respondeu-lhe: “Fácil. Começava por mudar os nomes.”
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Fernando Pessoa - Eu Sou Uma Antologia - 136 Autores Fictícios - Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari
Tinta da China - 2013
Eu sou uma anthologia.
Screvo tam diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um sòmente.
Quem pretende conhecer profundamente a obra e a vida de Fernando Pessoa, deve ter este livro como referência. É mais útil para cumprir esse objectivo que a biografia do Cavalcanti, por exemplo.
A partir de um trabalho de natureza enciclopédica levado a cabo por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari, dois eruditos na polifigura pessoana (hoje em dia há mais especialistas em Pessoa que espécies de cogumelos venenosos), este documento vale bem o seu preço FNAC. Cuidadosamente facsimilizado e muito bem trabalhado no que respeita aos conteúdos bibliográficos, gráficos e semânticos, o trabalho lança uma perspectiva abrangente e detalhada da antologia que Fernando Pessoa foi.
Entre os 136 autores, temos poetas, romancistas, ensaístas, historiadores, economistas, críticos, tradutores, editores, publicistas, gestores, profetas, videntes, astrólogos, ocultistas, decifradores de charadas e construtores de charadas. Temos homens e mulheres e crianças. Temos textos em português, inglês, francês e italiano. Temos escritos que são já conhecidos de toda a gente, escritos que poucos conhecem e escritos inéditos. Enfim, temos Fernando Pessoa, na sua incrível complitude.
Das centenas de jóias mais ou menos inéditas que constam da obra, destaco apenas esta pérola, de um autor pessoano pouco conhecido, Frederick Wyatt:
SONG
Sun to-day and storm to-morrow.
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
hapiness or Woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think Thereon!
From delight we pass to sadness
From smile to tears,
And the boldness of our gladness
Dies among our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!"
Um livro cuja leitura me deu um enorme prazer. Aliás, o simples facto de o ter na estante dá-me um enorme prazer.
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Livros Horizonte - 1979
Na ressaca da turbulência revolucionária, Joel Serrão selecciona um vasto conjunto de textos de intervenção política escritos entre 1820 e 1920 por homens como Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão, Antero de Quintal, Teófilo braga, Eça de Queiroz ou Raúl Brandão.A obra é bastante interessante principalmente porque a prosa é quase sempre magnífica e muitíssimo mais virulenta do que nos parece decente hoje em dia. O problema é que Joel Serrão não colige uma antologia do pensamento político português, como o subtítulo da obra sugere. A selecção é ideologicamente formatada, de tal forma que os textos apresentados são todos de carácter revolucionário, ou - no mínimo - progresssista. Mesmo em relação aos autores mais conservadores integrados nesta antologia, como Alexandre Herculano ou D. Pedro V, os textos escolhidos reflectem momentos do seu pensamento mais à esquerda e não o modelo ideológico e filosófico em que na verdade se enquadram.
Se este livro tivesse como subtítulo "Antologia do pensamento da esquerda em Portugal", seria uma obra mais honesta. Assim sendo, é uma manobra. Uma manobra com piada, mas uma manobra.
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Enciclopédia da Estória Universal - Mar - Afonso Cruz
Alfaguara - 2014
Encosto o ouvido ao mar para ouvir o barulho dos búzios.
De Afonso Cruz e desta Estória Universal, já disse muito do que tinha a dizer aqui. Mas esta obra fascicular é de tal forma bela e prolixa que me obriga a complementar o discurso com mais adjectivos e apologias. Mar é, por si só, um triunfo. Para além das entradas labirínticas e espirituosas do costume, Afonso Cruz integra neste fascículo um conto absolutamente poderoso - que vale por muitos romances - assente num monólogo de uma rapariga mórmon, espartilhado em 67 curtos e intensos capítulos.
Este autor impressiona-me deveras.
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O Eclipse da Razão - Max Horkheimer
Antígona - 2015
| Crónica publicada a 04/05/15 |
Sustentando a sua lógica desconstrutiva na sociologia anti-positivista, na psicanálise e no existencialismo, os teóricos de Frankfurt propunham uma abordagem que partia do método marxista para uma aventura interdisciplinar que procurava contrariar a razão instrumental através do uso da razão crítica.
Publicado em 1947 – a partir de um conjunto de palestras dadas em 1944 na Universidade de Columbia -, “O Eclipse da Razão” (Antígona, 2015) é fruto, também, de um natural pessimismo decorrente dos horrores da II Guerra Mundial, da prevalência de estados totalitários na Europa continental e do capitalismo anglo-saxónico, de que o autor era feroz antagonista. Este infeliz conjunto de circunstâncias dever-se-ia, para os filósofos de Frankfurt, à crise da razão, que teria sido sujeita, desde o seu estado virtuoso na antiguidade clássica, a sucessivos graus de subjectivação e formalização.
Logo no arranque do primeiro capítulo, Max Horkheimer define e separa a razão objectiva, que diz respeito ao interesse social e que advém de Platão, à razão subjectiva, que se refere ao interesse individual e que, tendo raízes na escolástica aristotélica, ganhou um novo impulso com os valores e as conquistas do iluminismo e do progresso técnico.
Neste aspecto a obra torna-se extremamente interessante, já que o pensamento do autor é deveras original e bastante lúcido. Para dar um breve exemplo das conclusões verdadeiramente alternativas de Horkheimer, a vertente laica do iluminismo é abordada nestes termos: «Os filósofos do iluminismo atacaram a religião em nome da razão mas no fim de contas o que mataram não foi a igreja mas a metafísica e o próprio conceito objectivo de razão.»
De facto, acreditando no filósofo alemão, a economia intelectual decorrente do iluminismo e do empirismo, que leva à categorização e abstração do indivíduo (fenómenos a que ainda hoje assistimos pela rotulagem imediatista a que os oráculos do programas noticiosos submetem os sujeitos das reportagens – fulano tal é “vítima”; beltrano é “agressor”; cicrano é “desempregado”, etc.), essa economia intelectual é um facilitismo intolerável, que desvaloriza a razão em função das pseudo-virtudes da experiência e do senso comum, ao qual o autor declara guerra. Contrariando teóricos como Heidegger, Gadamer e Chesterton no que respeita à valorização do senso comum e o empirismo britânico de John Locke, Francis Bacon e David Hume, Horkheimer desconstrói e dessacraliza, nas densas e veementes páginas deste livro, muitos dos princípios mais caros à civilização ocidental.
As democracias da sua época, por exemplo, por se encontrarem dependentes dos chamados interesses do povo, dos populismos incontornáveis dos seus líderes políticos e do mandato opressor dos interesses económicos, não oferecem na verdade qualquer garantia contra a tirania. A maioria democrática não é racional, muito simplesmente porque há uma diferença imensa entre o que as pessoas querem e o que é melhor para elas.
Sintomático manifesto da decadência da razão é o facto de a arte se ter transformado, para Max Horkheimer, numa mercadoria cultural. Até a Eroica de Beethoven é consumida pelas massas como «sinfonia de museu» ou, diríamos nós nos dias de hoje, produto de stream, desprovida já do seu fundamental contexto político e social.
A capacidade da Ciência para gerar verdades filosóficas – que, para o Director do famoso Institut für Sozialforschung, são as únicas possíveis – também é posta em causa. A verdade científica, laboratorial e empírica está para além ou muito aquém dos absolutos do pensamento racional e, ao contrário do que nos querem fazer querer os tecnocratas, a ciência não é apenas destrutiva quando é desvirtuada. A deontologia positivista não consegue suster a destruição da razão objectiva: «um corpo oficial de cientistas de acordo com a teoria positivista, é mais independente da razão que o colégio de cardeais, uma vez que o último tem, pelo menos, de se referir ao evangelho».
Claro que o Tomismo – a corrente filosófica que, desde S. Tomás de Aquino, procura conciliar o cristianismo com a tradição aristotélica – também não escapa à lâmina devastadora de Horkheimer. Mas o que surpreende é o ímpeto da crítica que o autor dedica aos intelectuais. Estes devem a sua existência e o seu ócio ao sistema de dominação de que tentam emancipar-se e, talvez por sentimentos de culpa que daí decorrem, acabam por glorificar a classe trabalhadora. O argumentário freudiano, que está muito presente no DNA da Escola de Frankfurt, é transversal sobre toda a obra. Esta tendência para a psicanálise social leva a conclusões que já não serão tão originais para o leitor contemporâneo: a educação burguesa, a indústria e a igreja escravizam, oprimem e traumatizam o indivíduo. E assim, o histerismo colectivo nacionalista e mimético surge como escape dessas tensões acumuladas. Por outro lado, o conflito latente entre o homem e a natureza não se resolve com o iluminismo e o progresso técnico, pelo contrário, nem com o regresso ao primitivismo de Rousseau, que é ingénuo. A solução para estes conflitos – entre o homem e a civilização e entre a civilização e o ambiente – só se podem resolver através do pensamento independente e da razão objectiva.
E cumprindo os 360 graus da sua crítica, Max Horkheimer não se mostra nada tolerante com a praxis marxista do regime soviético. O comunismo, tanto como o capitalismo, conspira para a morte do eu porque o trabalhador passa de objecto do capital a objecto do trabalho. A sua liberdade e a capacidade que tem para exercer a individualidade, o pensamento independente, é, nos dois casos, muito reduzida. Mas porque «o individuo completamente desenvolvido é o consumar de uma sociedade completamente desenvolvida» é imperativo regressar ao paradigma platónico da razão que serve eticamente o bem comum, a única capaz de devolver ao homem a sua verdade essencial. Até porque, apesar de tudo, «as pessoas são geralmente melhores do que pensam, ou dizem ou falam.»
Este aparente optimismo não pode porém iludir o leitor. No momento da história em que o utilitarismo resultou numa substituição do filósofo pelo engenheiro e em que o poder industrial está a liquidar o indivíduo, há que assumir que a filosofia não é útil nem tem que o ser. Há que afirmar a filosofia como um «esforço consciente para combinar todo o nosso conhecimento e compreensão numa estrutura linguística na qual as coisas são chamadas pelos seus nomes justos.» A adequação da coisa ao nome como verdade filosófica, que indicia uma aproximação à primeira fase do pensamento de Ludwig Wittgenstein, habilita o pensamento a superar os efeitos desmoralizadores e amputadores da razão formalizada. E, em certo sentido, dá a Max Horkheimer um aliado poderoso e improvável, do outro lado do hemisfério: quando certa vez um discípulo perguntou a Confúcio qual seria a sua primeira medida se lhe fosse dado o poder absoluto de todos os reinos da China, o mestre respondeu-lhe: “Fácil. Começava por mudar os nomes.”
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Fernando Pessoa - Eu Sou Uma Antologia - 136 Autores Fictícios - Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari
Tinta da China - 2013
Eu sou uma anthologia.
Screvo tam diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um sòmente.
Quem pretende conhecer profundamente a obra e a vida de Fernando Pessoa, deve ter este livro como referência. É mais útil para cumprir esse objectivo que a biografia do Cavalcanti, por exemplo.
A partir de um trabalho de natureza enciclopédica levado a cabo por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari, dois eruditos na polifigura pessoana (hoje em dia há mais especialistas em Pessoa que espécies de cogumelos venenosos), este documento vale bem o seu preço FNAC. Cuidadosamente facsimilizado e muito bem trabalhado no que respeita aos conteúdos bibliográficos, gráficos e semânticos, o trabalho lança uma perspectiva abrangente e detalhada da antologia que Fernando Pessoa foi. Entre os 136 autores, temos poetas, romancistas, ensaístas, historiadores, economistas, críticos, tradutores, editores, publicistas, gestores, profetas, videntes, astrólogos, ocultistas, decifradores de charadas e construtores de charadas. Temos homens e mulheres e crianças. Temos textos em português, inglês, francês e italiano. Temos escritos que são já conhecidos de toda a gente, escritos que poucos conhecem e escritos inéditos. Enfim, temos Fernando Pessoa, na sua incrível complitude.
Das centenas de jóias mais ou menos inéditas que constam da obra, destaco apenas esta pérola, de um autor pessoano pouco conhecido, Frederick Wyatt:
SONG
Sun to-day and storm to-morrow.
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
hapiness or Woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think Thereon!
From delight we pass to sadness
From smile to tears,
And the boldness of our gladness
Dies among our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!"
Um livro cuja leitura me deu um enorme prazer. Aliás, o simples facto de o ter na estante dá-me um enorme prazer.
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Hás-de morrer a tentar provar
a toda a gente
que és imortal.
“Manual de Instruções Para Desaparecer” (Abysmo, 2015) é o primeiro livro de poemas de José Anjos, mas, pelo que é possível saber numa modesta pesquisa através da web, não faz justo retrato à sua poesia. Autor já premiado na 3ª edição do Poetry Slam Sul, a filosofia lírica de José dos Anjos parece ter dado uma cambalhota, a julgar pelo que escrevia em 2012 e por aquilo que escreve agora para esta edição.
A obra recolhe 34 poemas que são fiéis a uma evidente invocação de Mário Cesariny e de três ismos fundamentais: o modernismo, o futurismo e o surrealismo. Toda a obra é uma espécie de cadáver esquisito escrito a uma mão e o leitor vai, inevitavelmente, enrodilhar-se em muito maus lençóis se espera encontrar nestas páginas um vestígio de inteligibilidade.
Em caso de perda
basta ligar as baratas
para acender paredes.
Neste sentido, a pergunta que é preciso fazer a José Anjos é esta: o que é que a poesia, esta poesia, quer dizer? Ou antes, precisa a poesia de significado?
Há muita gente, ilustre gente, que dirá: não. A poesia, como a arte, precisa de um ideal estético, de identidade estilística, de virtuosismo lexical, mas não de narrativa. Precisa de ritmo e de estrutura, mas não de um sentido. Precisa de uma causa, mas não precisa de uma consequência. Precisa da sintaxe, mas não da semântica. De Almada Negreiros a Ezra Pound, de Keroac a Cesariny de Vasconcelos, de Breton a O’neil, encontramos frequentemente na história da literatura aqueles que sempre se orgulharam do poema pelo poema. E que sempre se estiveram a borrifar para as coisas prosaicas e aborrecidas a que geralmente chamamos substância.
Quando Almada Negreiros escreveu o célebre “Os Ingleses Fumam Cachimbo”, estaria preocupado com o significado do seu poema? Claro que não. Almada estaria talvez preocupado com uma certa forma de construção e desconstrução lírica, com uma certa modernidade estilística, com uma certa atitude de ruptura conceptual, mas não com o que aquilo queria dizer, porque na verdade se trata de um poema que não quer dizer nada de especial. E ninguém vai agora afirmar que o Almada não sabia o que estava a fazer, não é?
Quando Almada Negreiros escreveu o célebre “Os Ingleses Fumam Cachimbo”, estaria preocupado com o significado do seu poema? Claro que não. Almada estaria talvez preocupado com uma certa forma de construção e desconstrução lírica, com uma certa modernidade estilística, com uma certa atitude de ruptura conceptual, mas não com o que aquilo queria dizer, porque na verdade se trata de um poema que não quer dizer nada de especial. E ninguém vai agora afirmar que o Almada não sabia o que estava a fazer, não é?
O problema porém, é de ordem diacrónica. Se é certo que os grandes mestres do modernismo europeu tinham razões de sobra para mandar à fava os velhos cânones do romantismo e do realismo, não se percebe o que é que esta poesia que soa bem, que é cuidada, que é até, a espaços, inspirada, que é tecnicamente válida e que é criativa em doses extra largas, tem para oferecer na sua relação com o leitor de hoje e com o mundo de agora. Quando o poeta escreve
Para encontrar o ponto de partida:
fazer um círculo à volta do meio em toda a amplitude semântica de um gemido palíndromo
e desenhar uma ponte entre cada lado, com os dedos pintados ao espelho;
depois, partir do canto direito da batalha com tudo nos bolsos
escreve isto porquê? Escreve isto a que propósito? E escreve isto contra quem? A poesia, para ser niilista a este ponto, tem que ter uma batalha pela frente, tem que ter uma missão que transcenda e justifique o seu carácter surrealizador. Mas qual é a missão de José dos Anjos? Vamos, por um disparatado minuto, supor que há um inocente no mundo que compra este livro para saber como é que uma pessoa faz para desaparecer. O infeliz não vai conseguir realmente perceber a mecânica do processo e isso é garantido. É claro que ninguém com um centilitro de bom senso no saco do cérebro vai ler este livro com essa intenção, mas nesse caso, qual é a intenção com que se lê este livro? Podemos talvez especular que esta poesia é um manifesto contra uma qualquer outra forma de fazer poesia. Mas esse manifesto, convenhamos, já foi feito, e bem feito, há um século atrás.
Podemos por ventura imaginar que esta poesia visa ferir movimentos artísticos contemporâneos que produzem outro tipo de poesia. Mas quais são esses movimentos? Existirão, pergunto, movimentos artísticos contemporâneos? Não será até essa coisa do movimento artístico algo do passado, que não tem correspondência na forma caleidoscópica, esquizofrénica, individualista e libertária de pensar e fazer a arte no século XXI?
É verdade que há coisas que se percebem, para além do jogo das palavras. Manual de Instruções para Desaparecer é uma obra sobre a morte, ou melhor, é uma obra que está farta da vida. Isso entende-se bem em estrofes deste género lapidar:
“Por vezes achava que se me concentrasse o suficiente
era capaz de me matar com um só pensamento.”
É verdade que os futuristas, com Marinetti à cabeça do pelotão dos grandes malucos, iam de certeza abraçar José dos Anjos com firmeza e alegria incontível, se vissem a espectacular “Máquina lírio em perspectiva explodida“, invenção gráfica que introduz a obra e que, já legendada, faz as despedidas. Mas esta máquina, com os seus carburadores imagéticos, enaltecedores de particularidade e núcleos disfóricos, apresenta os mesmos problemas de engenharia que são evidentes em grande parte da fábrica de debitar ininteligibilidades que é este Manual: não produz aquilo a que se possa chamar uma mensagem.
É verdade também que a história da literatura está repleta de conteúdos incompreensíveis. E muitas vezes geniais nessa ausência de senso. Mas um parágrafo de Joyce que seja incompreensível não é incompreensível desta maneira:
as instruções para vir à tona
essas
ias recolhendo para uso próprio e talvez lá pela esquina dos cinquenta tivesses
algo a dizer sobre o tecto de água onde chegam
bancadas de pulmões frescos como peixes
mortos à superfície
Há sem dúvida cuidados estéticos e editoriais que o leitor sensível apreciará, neste Manual de Instruções. Há sem dúvida uma beleza terrível nas deambulações obscuras e enigmáticas de José dos Anjos. Há sem dúvida talento a rodos e a capacidade mágica de dar vida a palavras que não estão nada à espera de se cruzar numa determinada estrofe. Há sem dúvida uma voz lírica que grita, mas que grita em checoslovaco, baixinho e debaixo de água. Como gritava Mário Cesariny há umas décadas, como gritava André Breton há um século.
Aproveitando, abusivamente, a epígrafe deste texto, um dos mais belos momentos de todo o livro, José dos Anjos há-de morrer a tentar provar a toda a gente que é moderno. O problema é que esta poesia é antiga.
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