Estou mesmo a ver:
De um lado da mesa está o Proust,
Hirto e cordato e muito bem protegido contra os rigores da sua hipocondria,
Por um casaco de peles de aristocrata
Que lhe custou 15 mil francos do dinheiro do pai.
Do outro lado está o Joyce,
No conforto burguês de não estar minimamente vestido para aquilo.
Aquilo é um jantar que podia muito bem ser contado numa frase de seiscentas
E setenta e duas palavras, maravilhosamente prosadas, do Tempo Perdido.
Aquilo é um jantar que não cabia entre os dias 15 e 16 de junho de 1904,
Na verdade de Leopold Bloom.
O Proust pergunta-lhe se conhece o Visconde Disto e o Marquês Daquilo:
O Joyce dá-se, pela negativa, ao monossílabo.
É o jantar do não, não, não e não, não conheço esses.
Ainda assim - para escândalo das musas
E indignação dos eruditos - é o sacana do irlandês,
É o impertinente filho de comerciantes,
É o mal criado da literatura que se enfia na puerilidade do taxi fidalgo,
Quando, no fim da equívoca soirée, o aborrecimento cede à curiosidade.
O Proust convida os amigos para a célebre ceia em sua casa,
Mas apela gentilmente ao taxista que prolongue a corrida
E leve o Joyce de volta até ao inferno de que é originário.
(O inferno é um sítio onde é impossível conhecer
O Visconde Disto e o Marquês Daquilo).
Estou mesmo a ver:
O Joyce dormiu mal essa noite.
E o Proust, sempre tão atencioso com os outros,
Sempre tão sensível, sempre tão interessado na vida dos outros,
Sempre tão preocupado em respeitar e alimentar
A zona de conforto dos outros;
Muito simplesmente, por uma vez,
Deve ter cagado no assunto.
Afinal, o Joyce até podia ser um modernista do escafandro;
Um imortal.
Mas por Deus, que fazer, que dizer, que conversar com alguém
Que não conhece o Visconde Disto?
Que nunca privou com o Marquês Daquilo?
Estou mesmo a ver:
O Proust dormiu bem essa noite.
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Proust ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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terça-feira, setembro 04, 2012
quarta-feira, agosto 10, 2005
Um Verão do Lado de Swan.
O Guadiana Internacional; que vibra com as marés oceânicas e que, por isso, mantém este caudal majestático sobre o deserto acidentado do Sudeste Alentejano; é uma nação de memórias, um país líquido e prenhe de castros antigos e ódios ancestrais, de margens abrutas e ventosas com chilrreantes canaviais que de noite competem com o silêncio ensurdecedor das estrelas objectivamente falaciosas em cada pulsar. Combray, o idílio de Proust - esse anjo monocórdico que me fala por santas metáforas (que me fala de aristocratas que limpam o monóculo como quem muda um penso), Combray, o verdadeiro paraíso perdido, não tem o Guadiana de grande caudal salgado, agreste e venerável, falso de correntes, perigo fluvial e amigo de marinheiros, que lhe dê banho à literatura! Combray, por todo o amor que Proust tem pelos nomes, não ganha em glória nem em sonoplastia a Guerreiros do Rio, Guerreiros do Rio, caramba, um nome de uma terra como devem ser os nomes das terras que marcam a presença funesta dos homens!; um etimologismo grandioso e quizilento onde se encerra a paz que há no mundo e a insuficiência que há no homem. Combray, claro está, é um terreno para construtores de utopias: não dá lugar às realidades comesinhas da história ou da geografia e envolve Swan no primeiro mistério da existência, ele que é sujeito primordial do sindroma de Adão. Odette, o segundo patamar metafísico, substitui o pecado por culpa e, talvez por isso, lembra-me não o Guadiana mas antes o Cardeal inverso deste Alentejo que me liberta, e nele uma boca de sarjeta aberta sobre o tecido aldeão da Zambujeira, cuspindo a céu aberto e fechada rua o mijo que eu deitei por fora na casa de banho de um bar cujo nome obsceno suicidaria de pronto o bom do Marcel. Sem preocupações com a MTV, Proust passa ao lado do Festival do Sudoeste e vinga-se em Swan que se perde dentro da leitura que faço dele, uma espécie de rapto trans-material (beem him up, Scotty), para o transportar até ao reino da luz oblíqua, principado da razão pura. Passam as horas e esquecem-se os anos e as palavras permanecem estáticas, perfeitas, pérfidas e divinas. Swan deambula pelos corredores dramáticos do amor à procura em Vermeer de uma saída para o tédio, afinal fingindo e fugindo como eu da multidão que suja a bela paisagem flamenga da Costa Vicentina. Swan, o indisposto e indolente, o autómato da emoção, sem um rumo e expoliado de destinos, reverso inverso de um sentido para a vida - como um escravo regularmente sodomizado por deus - irmão gémeo de um nado morto, abandonado no ventre imenso de uma história que vive para além da cronologia relojoeira do Sapiens, nobre sobre a tragédia que o humilha, lembra-me outro amigo de Verão: Bach, ele mesmo maior que os deuses, compondo música celestial para adormecer um simples príncipe ou anunciando gloriosamente a entrada física e abjecta de um reles aristocrata na Câmara da Liga; Bach desperdiçando o talento extra-terrestre em merdas, como Swan ao sol negro do amor anti-cristão pela Senhora de Cressy.
Neste Verão, houve um certo paragrafar de Proust, um certo frasear de Bach, um certo conversar no Oceano, uma certa paixão que nasce quando amamos subitamente pessoas que conhecemos de súbito, outra certa perdição que nasce quando amamos para sempre alguém que sempre amámos, um certo amigo que acorda e sorri - e que só por isso nos faz felizes -, um sereno mergulhar no abismo de uma certa Praia, uma específica e romanesca sabedoria de um certo Rio, um determinado ladrar grato de um cão que amamos. Neste Verão houve consubstância ontológica. Afinal, é bom ter férias.
quarta-feira, janeiro 02, 2013
Jornal de Letras | Setembro/Dezembro 2012
Como Proust Pode Mudar a Sua Vida - Alain de Botton - D. Quixote
Este livo é uma preciosidade e o seu autor é um dos grandes pensadores europeus contemporâneos (sim, ainda há alguns). Botton pega na obra prima de Proust e explica, de forma absolutamente brilhante, como é que o Tempo Perdido nos pode ajudar no trajecto da existência. "Como Proust Pode Mudar a Sua Vida" é, sem dúvida, um dos melhores ensaios que tive o privilégio de ler na minha vida.
Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami - Casa das Letras
Este foi o título que lançou Murakami como romancista universal, mas, muito sinceramente, fiquei um bocado desiludido. É uma daquelas novelas que não aquece nem arrefece. Aliás, depois do fantástico "Kafka à Beira-Mar" nunca mais li nada de Murakami de que realmente gostasse.
The Battle for Spain - The Spanish Civil War 1936-39 - Antony Beevor - Weidenfeld & Nicolson
As guerras civis destacam-se quase invariavelmente por serem extremamente sangrentas, e a Guerra Civil Espanhola concorre com a americana para o prémio do conflito fraticida mais virulento da história universal do ódio. Durante 4 anos, os espanhóis atiraram-se uns aos outros com ganas de extermínio, numa espécie de ensaio bárbaro da guerra mundial que viria a seguir. De um lado tanto como do outro, o mais incrível desdém pela vida humana triunfou loucamente. Tanto mais, que as facções inimigas teimaram na autofagia, consumindo energias imensas e vidas inumeráveis em intrigas intestinas que acabavam inevitavelmente na rotina dos pelotões de fuzilamento. Antony Beevor faz-nos um relato lúcido e detalhado da espiral de violência e da complexidade ideológica, com a imparcialidade e o rigor que se exige a um distinto académico. A qualidade da prosa e da estrutura da narrativa ajudam muito. Uma obra de referência.
História da Filosofia - 2º Volume - Do Renascimento à Idade Moderna - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
Como sou cabeça de vento, volta não volta releio esta obra. Para não morrer completamente ignorante.
Este livo é uma preciosidade e o seu autor é um dos grandes pensadores europeus contemporâneos (sim, ainda há alguns). Botton pega na obra prima de Proust e explica, de forma absolutamente brilhante, como é que o Tempo Perdido nos pode ajudar no trajecto da existência. "Como Proust Pode Mudar a Sua Vida" é, sem dúvida, um dos melhores ensaios que tive o privilégio de ler na minha vida.
Como o Soldado Conserta o Gramofone - Sasa Stanisic - Quetzal
Não, não é mais um romance sobre os horrores da guerra dos Balcãs. É um bocadinho mais do que isso, porque Sasa Stanisic é um prosador genial, que nos eleva para inusitados patamares da linguagem, que nos transporta para uma espécie de literatura nova, exuberante e criativa, a transbordar de sensibilidade por todos os lados. Muito, muito, muito bonito, este livrinho.
Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami - Casa das Letras
Este foi o título que lançou Murakami como romancista universal, mas, muito sinceramente, fiquei um bocado desiludido. É uma daquelas novelas que não aquece nem arrefece. Aliás, depois do fantástico "Kafka à Beira-Mar" nunca mais li nada de Murakami de que realmente gostasse.
The Battle for Spain - The Spanish Civil War 1936-39 - Antony Beevor - Weidenfeld & Nicolson
As guerras civis destacam-se quase invariavelmente por serem extremamente sangrentas, e a Guerra Civil Espanhola concorre com a americana para o prémio do conflito fraticida mais virulento da história universal do ódio. Durante 4 anos, os espanhóis atiraram-se uns aos outros com ganas de extermínio, numa espécie de ensaio bárbaro da guerra mundial que viria a seguir. De um lado tanto como do outro, o mais incrível desdém pela vida humana triunfou loucamente. Tanto mais, que as facções inimigas teimaram na autofagia, consumindo energias imensas e vidas inumeráveis em intrigas intestinas que acabavam inevitavelmente na rotina dos pelotões de fuzilamento. Antony Beevor faz-nos um relato lúcido e detalhado da espiral de violência e da complexidade ideológica, com a imparcialidade e o rigor que se exige a um distinto académico. A qualidade da prosa e da estrutura da narrativa ajudam muito. Uma obra de referência.
História da Filosofia - 2º Volume - Do Renascimento à Idade Moderna - Juan Manuel Navarro Cordon e Tomas Calvo Martinez - Edições 70
Como sou cabeça de vento, volta não volta releio esta obra. Para não morrer completamente ignorante.
segunda-feira, janeiro 28, 2019
Jornal de Letras - 2016/2018 - #01
Já há tanto tempo que não respeito a rotina de deixar, aqui no blog, registo das minhas leituras, que tenho uma pilha enorme de livros na secretária, à espera de serem cadastrados e depois arrumados na estante. Como a pilha está a ficar periclitante, vou ter que despachar isto de forma telegráfica antes que os tomos me caiam em cima da cabeça. E por partes, porque são muitos livros. Vamos a isso.
Em Busca do Tempo Perdido . Marcel Proust . Volumes I a IV . Relógio d'Água
A leitura da tradução que Pedro Tamen fez da obra eterna de Proust vai demorar mais tempo do que eu imaginava (já estou a ler isto desde 2005). Vai durar todo o tempo do mundo. E mais não digo porque sobre estes livros sempre vou deixando, de uma maneira ou de outra, notas de leitura aqui no blog.
Obras Completas . Jorge Luis Borges . Volumes I a III (1923 - 1985) . Editorial Teorema
Apesar de também se tratar de uma obra sem fim, literalmente sem fim, a sua leitura tem sido substancialmente mais rápida (estou a ler desde 2014). É claro que já tinha lido muita coisa deste deus da literatura antes de adquirir estas "Completas", mas Borges é Borges e vale sempre a pena reler. Também neste caso, o melhor é remeter para o que tenho escrito sobre o bibliotecário de Buenos Aires aqui no blog.
O Tango . Jorge Luis Borges . Quetzal
Muito a propósito, o meu querido amigo José Aguiar ofereceu-me este magnífico conjunto de quatro conferências que, curiosamente, perfazem uns bocados de literatura que não estão integrados nas "Obras Completas". Um detalhe muito saboroso desta feliz edição é o de captar com rigor a oralidade do velho mestre, a sua espontânea erudição, o processo alquímico do seu discurso, que é o mesmo que dizer, do seu pensamento. O assunto das conferências, por acaso, não é daqueles que mais me interessam no imaginário do autor, mas, outra vez, Borges é Borges e ler Borges - ou no caso, ouvi-lo - é uma das coisas realmente maravilhosas que a vida tem para oferecer.
Enciclopédia da História Universal . As Reincarnações de Pitágoras . Arquivos de Dresner . Mil Anos de Esquecimento . Biblioteca de Brasov . Afonso Cruz . Alfaguara
"Os monges bibliofitas não dizem que fecham um livro. A expressão usada para este gesto é 'apagar a luz'."
Por falar em Borges, o projecto labiríntico do genial Afonso cruz continua a bombardear os meus dias. Aos dois volumes que já registei em duas anteriores entradas da rubrica Jornal de Letras, somei a leitura destes quatro em titulo. Não sei, sinceramente, onde é que o Afonso vai buscar a imaginação para esta aventura híbrida entre a realidade e a fantasia, entre os vivos e os mortos, entre a improvisação do passado e a história do futuro. Rendo-me simplesmente ao talento enorme e tiro prazer incontável das páginas desta enciclopédia.
Amok . Stefan Zweig . Relógio d'Água
A história de um médico vítima de Amok, expressão indonésia que significa "lançar-se furiosamente na batalha" e que curiosamente faz parte do universo idiomático português ("deu-lhe um amok"). Apesar de tudo, trata-se de uma história de amor, contada por um dos mais atípicos novelistas alemâes da primeira metade do século XX. A novela não é de fácil digestão, apesar de ser breve, mas tem uma ambição clara e meritória: a descida vertiginosa às profundezas da alma humana.
Os Escritores Também Têm Coisas a Dizer . Carlos Vaz Marques . Tinta da China
Tenho sentimentos antípodas sobre Carlos Vaz Marques. Todo o meu ser se fecha na certeza de que se trata de um imbecil de primeira água, mas depois analiso o percurso e os projectos do sujeito, da direcção da revista Granta à moderação do Governo Sombra, e sinto claramente que devo refrear a velocidade dos meus instintos, porque alguma coisa de decente o tipo deve ter. Este livro de entrevistas, porém, encoraja-me a má língua. Carlos Vaz Marques entrevista uma dúzia de autores de língua portuguesa, de Saramago a Dulce Maria Cardoso, só para revelar que os meus instintos estão certos: se o entrevistador é um imbecil rematado, não há entrevistado que sobreviva. Um livro sofrível (até o título é bera) e ponto final.
Fisiologia do Gosto . Brillat-Savarin . Relógio d'Água
Advogado, juiz, presidente da Câmara de Belley, deputado girondino durante a primeira fase da Revolução Francesa, violinista virtuoso e afamado comensal, Brillat-Savarin deixou para a posteridade este livrinho que pretende dissecar cientificamente a cultura gastronómica humana. É um projecto pomposo, mas falhado e aborrecido, por muito que Roland Barthes, na introdução, tente salvar a coisa. Vale a pena, talvez e apenas, pela linguagem pseudo-científica do século XVIII, que dá vontade de rir.
I Think You're Totally Wrong . David Shields and Caleb Powell . Penguin Random House
Dois amigos, um pragmático e outro intelectual, decidem tirar uns dias de férias para se enfiarem numa cabana em nenhures de forma a terem total disponibilidade para discutirem sobre política, arte, religião, sexo e outras coisas assim disruptivas. Como a ideia fundamental é a do prazer da discórdia, o resultado é este divertido e dialéctico livrinho, carregado de um certo tipo caótico de inteligência, mas também de tolerância (não a tolerância de plástico que está em voga, mas a outra, que é própria dos espadachins). Nos dias que correm, em que é cada vez mais difícil manter a civilidade sobre as divergências, esta é uma edição deveras pedagógica.
Deste livro saiu um filme (ainda não vi). Eis o trailer:
Em Busca do Tempo Perdido . Marcel Proust . Volumes I a IV . Relógio d'Água
A leitura da tradução que Pedro Tamen fez da obra eterna de Proust vai demorar mais tempo do que eu imaginava (já estou a ler isto desde 2005). Vai durar todo o tempo do mundo. E mais não digo porque sobre estes livros sempre vou deixando, de uma maneira ou de outra, notas de leitura aqui no blog.
Obras Completas . Jorge Luis Borges . Volumes I a III (1923 - 1985) . Editorial Teorema
Apesar de também se tratar de uma obra sem fim, literalmente sem fim, a sua leitura tem sido substancialmente mais rápida (estou a ler desde 2014). É claro que já tinha lido muita coisa deste deus da literatura antes de adquirir estas "Completas", mas Borges é Borges e vale sempre a pena reler. Também neste caso, o melhor é remeter para o que tenho escrito sobre o bibliotecário de Buenos Aires aqui no blog.
O Tango . Jorge Luis Borges . Quetzal
Muito a propósito, o meu querido amigo José Aguiar ofereceu-me este magnífico conjunto de quatro conferências que, curiosamente, perfazem uns bocados de literatura que não estão integrados nas "Obras Completas". Um detalhe muito saboroso desta feliz edição é o de captar com rigor a oralidade do velho mestre, a sua espontânea erudição, o processo alquímico do seu discurso, que é o mesmo que dizer, do seu pensamento. O assunto das conferências, por acaso, não é daqueles que mais me interessam no imaginário do autor, mas, outra vez, Borges é Borges e ler Borges - ou no caso, ouvi-lo - é uma das coisas realmente maravilhosas que a vida tem para oferecer.
Enciclopédia da História Universal . As Reincarnações de Pitágoras . Arquivos de Dresner . Mil Anos de Esquecimento . Biblioteca de Brasov . Afonso Cruz . Alfaguara
"Os monges bibliofitas não dizem que fecham um livro. A expressão usada para este gesto é 'apagar a luz'."
Por falar em Borges, o projecto labiríntico do genial Afonso cruz continua a bombardear os meus dias. Aos dois volumes que já registei em duas anteriores entradas da rubrica Jornal de Letras, somei a leitura destes quatro em titulo. Não sei, sinceramente, onde é que o Afonso vai buscar a imaginação para esta aventura híbrida entre a realidade e a fantasia, entre os vivos e os mortos, entre a improvisação do passado e a história do futuro. Rendo-me simplesmente ao talento enorme e tiro prazer incontável das páginas desta enciclopédia.
Amok . Stefan Zweig . Relógio d'Água
A história de um médico vítima de Amok, expressão indonésia que significa "lançar-se furiosamente na batalha" e que curiosamente faz parte do universo idiomático português ("deu-lhe um amok"). Apesar de tudo, trata-se de uma história de amor, contada por um dos mais atípicos novelistas alemâes da primeira metade do século XX. A novela não é de fácil digestão, apesar de ser breve, mas tem uma ambição clara e meritória: a descida vertiginosa às profundezas da alma humana.
Os Escritores Também Têm Coisas a Dizer . Carlos Vaz Marques . Tinta da China
Tenho sentimentos antípodas sobre Carlos Vaz Marques. Todo o meu ser se fecha na certeza de que se trata de um imbecil de primeira água, mas depois analiso o percurso e os projectos do sujeito, da direcção da revista Granta à moderação do Governo Sombra, e sinto claramente que devo refrear a velocidade dos meus instintos, porque alguma coisa de decente o tipo deve ter. Este livro de entrevistas, porém, encoraja-me a má língua. Carlos Vaz Marques entrevista uma dúzia de autores de língua portuguesa, de Saramago a Dulce Maria Cardoso, só para revelar que os meus instintos estão certos: se o entrevistador é um imbecil rematado, não há entrevistado que sobreviva. Um livro sofrível (até o título é bera) e ponto final.
Fisiologia do Gosto . Brillat-Savarin . Relógio d'Água
Advogado, juiz, presidente da Câmara de Belley, deputado girondino durante a primeira fase da Revolução Francesa, violinista virtuoso e afamado comensal, Brillat-Savarin deixou para a posteridade este livrinho que pretende dissecar cientificamente a cultura gastronómica humana. É um projecto pomposo, mas falhado e aborrecido, por muito que Roland Barthes, na introdução, tente salvar a coisa. Vale a pena, talvez e apenas, pela linguagem pseudo-científica do século XVIII, que dá vontade de rir.
I Think You're Totally Wrong . David Shields and Caleb Powell . Penguin Random House
Dois amigos, um pragmático e outro intelectual, decidem tirar uns dias de férias para se enfiarem numa cabana em nenhures de forma a terem total disponibilidade para discutirem sobre política, arte, religião, sexo e outras coisas assim disruptivas. Como a ideia fundamental é a do prazer da discórdia, o resultado é este divertido e dialéctico livrinho, carregado de um certo tipo caótico de inteligência, mas também de tolerância (não a tolerância de plástico que está em voga, mas a outra, que é própria dos espadachins). Nos dias que correm, em que é cada vez mais difícil manter a civilidade sobre as divergências, esta é uma edição deveras pedagógica.
Deste livro saiu um filme (ainda não vi). Eis o trailer:
quinta-feira, abril 10, 2008
Do tempo perdido.
Tenho andado para aqui metido comigo e com os afazeres da escravidão que é a vida e infectado de infernos profissionais variadíssimos (o Diabo é prolixo de passatempos) e aflito em azáfamas múltiplas e, de todo em todo, inerte.
Tenho andado para aqui metido em enredos e labores e lavores e merdinhas que não interessam para nada, senão para castigar a paciência e tudo porque decidi que não podia continuar a trabalhar sózinho quando o que devo sempre fazer, para sanidade minha e do mundo do trabalho, é precisamente continuar aqui enfiado em casa a esgalhar comunicação a solo para clientes felizes. Não consigo ter clientes infelizes, por muito que isso doa à minha conta bancária. E não consigo aturar já pecadilhos que eu próprio cometi. Gostava que a geração abaixo fosse um bocadinho mais original nos desaires e um pouco menos efusiva nos sucessos. Até porque hoje em dia, em Portugal, ninguém é realmente bem sucedido. Tenho andado para aqui metido em porradas com gente que não sabe dar porrada nem levar porrada (o que é grave) porque é gente mais nova, que, basicamente, se está a cagar no assunto, seja ele qual for, e com toda a razão.
Tenho andado para aqui metido comigo e com o Proust, que é um frívolo filho da puta (180 páginas para o primeiro salão nos Guermantes é obra) e que cada vez me dá mais prazer. Prazer sexual, prazer religioso, prazer estético, prazer, prazer, prazer. Quanto mais chego ao fim do Tempo Perdido, mais recordo o antigo fracasso moderno de Sartre. Querendo virar Proust de pernas para o ar sem ter a necessária elegância e desprovido de despreocupação moral, o tristemente célebre estrábico mais não fez que enjoar o público para toda a eternidade (que é dele, sim senhor). A Náusea devia fazer o pino para ser outra vez literatura.
Tenho andado para aqui razoavelmente insatisfeito comigo por causa dos outros o que não é conveniente para mim nem para os outros e estou lentamente a tranformar-me num apetitoso exemplo clínico do meu filósofo favorito. Ao contrário do que nos lembra Max Stirner, esqueço-me frequentemente que só sou dono de mim e que ninguém mais é de mim dono e às vezes dá-me um vontade assassina de desistir de ser preocupado.
Tenho andado para aqui resignado até para com certos comentários que ainda me vão deixando neste blog crepuscular, comentários sobranceiros que me ensinam que a wikipedia não é um enciclopédia, que me ensinam a ética do link (maravilhoso princípio que falhou à razão pura de Kant) como se eu desconhecesse o científico maneirismo iluminista, como se eu andasse para aí a baixar direitos de autor, como se eu não tivesse a quarta classe que tive - não a do meu pai, que era para doutores - mas a minha e como se eu não tivesse ido à escola mais do que isso nem soubesse nada de nada. Estes meus parceiros de blogosfera dão-se ao trabalho de visitar e comentar um blog que é escrito pelo mais ignorante dos ingénuos do universo dos simples de espírito. Bravo, bravo e os meus agradecimentos pelo fornecimento da electricidade espiritual de que tanto pareço carecer.
Tenho andado para aqui metido em irritações e nevralgias por causa de pivots de telejornal, chefes de redacção, opinion makers, think tank boys, fiscalistas, constitucionalistas, grevistas, criativistas, filipe vieiristas e outros filhos do grande esgoto da infâmia como os senhores da OPEP, os párocos de Barak Obama, os xiitas do quarto mundo ou os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia. Os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia são obscenos como a ausência de Homero.
Tenho andado para aqui metido em silêncio no buraco dos dias e tenho-me embebedado de vez em quando, o que é bom quando Mozart toca, o que é bera quando oiço Bach.
É claro que escrevi isto só para me aliviar do stress de ter um blog vazio de conteúdo. Quando, caramba, tudo o que precisava de fazer era passar um youtube qualquer com um puto de 16 anos a ir ao cú da stora na sala de convívio do liceu de sempre em Portugal. É o que a televisão faz à hora de jantar, e quem sou eu?
Tenho andado para aqui metido em enredos e labores e lavores e merdinhas que não interessam para nada, senão para castigar a paciência e tudo porque decidi que não podia continuar a trabalhar sózinho quando o que devo sempre fazer, para sanidade minha e do mundo do trabalho, é precisamente continuar aqui enfiado em casa a esgalhar comunicação a solo para clientes felizes. Não consigo ter clientes infelizes, por muito que isso doa à minha conta bancária. E não consigo aturar já pecadilhos que eu próprio cometi. Gostava que a geração abaixo fosse um bocadinho mais original nos desaires e um pouco menos efusiva nos sucessos. Até porque hoje em dia, em Portugal, ninguém é realmente bem sucedido. Tenho andado para aqui metido em porradas com gente que não sabe dar porrada nem levar porrada (o que é grave) porque é gente mais nova, que, basicamente, se está a cagar no assunto, seja ele qual for, e com toda a razão.
Tenho andado para aqui metido comigo e com o Proust, que é um frívolo filho da puta (180 páginas para o primeiro salão nos Guermantes é obra) e que cada vez me dá mais prazer. Prazer sexual, prazer religioso, prazer estético, prazer, prazer, prazer. Quanto mais chego ao fim do Tempo Perdido, mais recordo o antigo fracasso moderno de Sartre. Querendo virar Proust de pernas para o ar sem ter a necessária elegância e desprovido de despreocupação moral, o tristemente célebre estrábico mais não fez que enjoar o público para toda a eternidade (que é dele, sim senhor). A Náusea devia fazer o pino para ser outra vez literatura.
Tenho andado para aqui razoavelmente insatisfeito comigo por causa dos outros o que não é conveniente para mim nem para os outros e estou lentamente a tranformar-me num apetitoso exemplo clínico do meu filósofo favorito. Ao contrário do que nos lembra Max Stirner, esqueço-me frequentemente que só sou dono de mim e que ninguém mais é de mim dono e às vezes dá-me um vontade assassina de desistir de ser preocupado.
Tenho andado para aqui resignado até para com certos comentários que ainda me vão deixando neste blog crepuscular, comentários sobranceiros que me ensinam que a wikipedia não é um enciclopédia, que me ensinam a ética do link (maravilhoso princípio que falhou à razão pura de Kant) como se eu desconhecesse o científico maneirismo iluminista, como se eu andasse para aí a baixar direitos de autor, como se eu não tivesse a quarta classe que tive - não a do meu pai, que era para doutores - mas a minha e como se eu não tivesse ido à escola mais do que isso nem soubesse nada de nada. Estes meus parceiros de blogosfera dão-se ao trabalho de visitar e comentar um blog que é escrito pelo mais ignorante dos ingénuos do universo dos simples de espírito. Bravo, bravo e os meus agradecimentos pelo fornecimento da electricidade espiritual de que tanto pareço carecer.
Tenho andado para aqui metido em irritações e nevralgias por causa de pivots de telejornal, chefes de redacção, opinion makers, think tank boys, fiscalistas, constitucionalistas, grevistas, criativistas, filipe vieiristas e outros filhos do grande esgoto da infâmia como os senhores da OPEP, os párocos de Barak Obama, os xiitas do quarto mundo ou os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia. Os homens que engravidam porque já foram mulheres um dia são obscenos como a ausência de Homero.
Tenho andado para aqui metido em silêncio no buraco dos dias e tenho-me embebedado de vez em quando, o que é bom quando Mozart toca, o que é bera quando oiço Bach.
É claro que escrevi isto só para me aliviar do stress de ter um blog vazio de conteúdo. Quando, caramba, tudo o que precisava de fazer era passar um youtube qualquer com um puto de 16 anos a ir ao cú da stora na sala de convívio do liceu de sempre em Portugal. É o que a televisão faz à hora de jantar, e quem sou eu?
sexta-feira, novembro 15, 2013
O pequeno Marcel Proust não tem tempo a perder.
Depois de André Gide ter exposto a homossexualidade de Proust, através das cartas que este lhe escrevia, chegou agora o momento de sabermos que o famoso autor do Tempo Perdido, enquanto adolescente, era um onanista incorrigível. A carta escrita em grande aflição, ao seu avô, foi recentemente publicada aqui. E é de uma comicidade trágica.
Realmente, já não se pode estar morto.
18 May 1888
Thursday evening.
My dear little grandfather,
I appeal to your kindness for the sum of 13 francs that I wished to ask Mr. Nathan for, but which Mama prefers I request from you. Here is why. I so needed to see if a woman could stop my awful masturbation habit that Papa gave me 10 francs to go to a brothel. But first, in my agitation, I broke a chamber pot: 3 francs; then, still agitated, I was unable to screw. So here I am, back to square one, waiting more and more as hours pass for 10 francs to relieve myself, plus 3 francs for the pot. But I dare not ask Papa for more money so soon and so I hoped you could come to my aid in a circumstance which, as you know, is not merely exceptional but also unique. It cannot happen twice in one lifetime that a person is too flustered to screw.
I kiss you a thousand times and dare to thank you in advance.
I will be home tomorrow morning at 11am. If you are moved by my situation and can answer my prayers, I will hopefully find you with the amount. Regardless, thank you for your decision which I know will come from a place of friendship.
Marcel.
Thursday evening.
My dear little grandfather,
I appeal to your kindness for the sum of 13 francs that I wished to ask Mr. Nathan for, but which Mama prefers I request from you. Here is why. I so needed to see if a woman could stop my awful masturbation habit that Papa gave me 10 francs to go to a brothel. But first, in my agitation, I broke a chamber pot: 3 francs; then, still agitated, I was unable to screw. So here I am, back to square one, waiting more and more as hours pass for 10 francs to relieve myself, plus 3 francs for the pot. But I dare not ask Papa for more money so soon and so I hoped you could come to my aid in a circumstance which, as you know, is not merely exceptional but also unique. It cannot happen twice in one lifetime that a person is too flustered to screw.
I kiss you a thousand times and dare to thank you in advance.
I will be home tomorrow morning at 11am. If you are moved by my situation and can answer my prayers, I will hopefully find you with the amount. Regardless, thank you for your decision which I know will come from a place of friendship.
Marcel.
domingo, fevereiro 10, 2013
Os novos dez mandamentos.
Alain de Botton, o genial autor de 'Religion for Atheists" e "Como Proust Pode Mudar a Sua Vida" fez o favor de publicar a 4 de Fevereiro, no School of Life, o seu manifesto de virtudes modernas. Brilhante e imperdível.
segunda-feira, outubro 17, 2022
Curtas do Contra: Semana #05 e #06
De 4 a 17 de Outubro, duas semanas em sessenta segundos:
Jacinda Ardern defende a censura à escala global.
Elon Musk e o passarinho pidesco.
Nord Stream: para além da propaganda, os factos.
Conservadores de todo o mundo: uni-vos contra o grande capital.
Nero, a quem a história fez justiça.
Entre Santo Anselmo e Immanuel Kant, três argumentos em favor da existência de Deus.
domingo, dezembro 20, 2015
Mais ou Menos Arnaldo.
POR MÁRCIO ALVES CANDOSO
Muitas pessoas consideram Arnaldo Matos um louco, um insensato, mas não um tipo perigoso. Talvez. Mas nunca fiando. E, além do mais, se se arroga o direito a escrever numa publicação partidária, deve ser levado a sério. Hoje é apenas um pascácio, amanhã pode tornar-se num vírus.
Tive o cuidado de ler o seu 'editorial' no jornal do MRPP. Passo de largo pelas patetices políticas 'revolucionárias' e pelas teses hilariantes sobre o marxismo-leninismo. São arqueologias sincréticas sem qualquer interesse, a não ser o facto de ainda existirem na cabeça de um burro.
Mas não posso deixar passar em claro o que verdadeiramente impele à escrita o 'camarada educador' do raio que o parta. O homenzinho assegura que os 'revolucionários' que se fizeram estoirar em Paris, matando 130 pessoas e ferindo mais de 300, não podiam permitir que os franceses julgassem 'ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan'. Verbera ainda os que não compreendem - não aplaudem? - os 'combatentes franceses' que 'fizeram explodir o Charlie Hebdo'.
Isto, meus caros, é crime. Considerar motivo de aplauso um crime - seja ideológico, fanático, religioso ou qualquer outra coisa - é igualmente crime. De peidola sentada na cadeira do inferno que preconiza, Matos pode ter as opiniões mais parvas que a sua alucinação inventar, falar mal do 'imperialismo' francês, da 'burguesia', do 'revisionismo', do que lhe der na retorcida mona.
Mas eu não lhe dou o direito de gozar com a minha civilização. E esta está muito mais na alegria das pessoas que frequentavam o 'Bataclan' ou os cafés de Montmartre, na pena dos cartoonistas que ironizavam com o fanatismo do que em qualquer eventual 'liberdade' de cagar as postas de pescada que o Arnaldo congemina.
A minha civilização não é o caderninho do Mao ou os insectos que a triste figura chinoca mandou matar, matando à fome os milhões de pessoas que dele necessitavam para polenizar os cereais. Não é o 'holomodor' de Estaline, que exterminou milhões de cidadãos ucranianos por se oporem à ditadura e quererem considerar seu o que seu era.
A minha civilização é o 'chanel nº5' como é Proust ou Françoise Sagan. É Oscar Wilde como Jack Kerouac ou Francisco I. São os tipos que tocavam no 'Bataclan', dos quais nem decorei o nome, mas que sei que agradavam a milhares de pessoas livres. São os copos de 'Beaujolais' ou as fatias de 'Brie' que se degustavam nas esplanadas do 'La Bonne Bière' ou na do 'Le Carillon'.
O Arnaldo é uma porcaria. Nunca saberá o que é ser feliz, por um instante que seja. É um falso transgressor, que só entende a punição como modo de vida. E o ódio que tem à alegria é a descrença que vê reflectida na figura que está no espelho nos dias em que lava a cara.
Muitas pessoas consideram Arnaldo Matos um louco, um insensato, mas não um tipo perigoso. Talvez. Mas nunca fiando. E, além do mais, se se arroga o direito a escrever numa publicação partidária, deve ser levado a sério. Hoje é apenas um pascácio, amanhã pode tornar-se num vírus.
Tive o cuidado de ler o seu 'editorial' no jornal do MRPP. Passo de largo pelas patetices políticas 'revolucionárias' e pelas teses hilariantes sobre o marxismo-leninismo. São arqueologias sincréticas sem qualquer interesse, a não ser o facto de ainda existirem na cabeça de um burro.
Mas não posso deixar passar em claro o que verdadeiramente impele à escrita o 'camarada educador' do raio que o parta. O homenzinho assegura que os 'revolucionários' que se fizeram estoirar em Paris, matando 130 pessoas e ferindo mais de 300, não podiam permitir que os franceses julgassem 'ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan'. Verbera ainda os que não compreendem - não aplaudem? - os 'combatentes franceses' que 'fizeram explodir o Charlie Hebdo'.
Isto, meus caros, é crime. Considerar motivo de aplauso um crime - seja ideológico, fanático, religioso ou qualquer outra coisa - é igualmente crime. De peidola sentada na cadeira do inferno que preconiza, Matos pode ter as opiniões mais parvas que a sua alucinação inventar, falar mal do 'imperialismo' francês, da 'burguesia', do 'revisionismo', do que lhe der na retorcida mona.
Mas eu não lhe dou o direito de gozar com a minha civilização. E esta está muito mais na alegria das pessoas que frequentavam o 'Bataclan' ou os cafés de Montmartre, na pena dos cartoonistas que ironizavam com o fanatismo do que em qualquer eventual 'liberdade' de cagar as postas de pescada que o Arnaldo congemina.
A minha civilização não é o caderninho do Mao ou os insectos que a triste figura chinoca mandou matar, matando à fome os milhões de pessoas que dele necessitavam para polenizar os cereais. Não é o 'holomodor' de Estaline, que exterminou milhões de cidadãos ucranianos por se oporem à ditadura e quererem considerar seu o que seu era.
A minha civilização é o 'chanel nº5' como é Proust ou Françoise Sagan. É Oscar Wilde como Jack Kerouac ou Francisco I. São os tipos que tocavam no 'Bataclan', dos quais nem decorei o nome, mas que sei que agradavam a milhares de pessoas livres. São os copos de 'Beaujolais' ou as fatias de 'Brie' que se degustavam nas esplanadas do 'La Bonne Bière' ou na do 'Le Carillon'.
O Arnaldo é uma porcaria. Nunca saberá o que é ser feliz, por um instante que seja. É um falso transgressor, que só entende a punição como modo de vida. E o ódio que tem à alegria é a descrença que vê reflectida na figura que está no espelho nos dias em que lava a cara.
sábado, abril 06, 2013
Jornal de Letras | Janeiro/Março 2013
Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho - Quetzal
Mal soube que este senhor tinha escrito um livrinho que denuncia os holandeses pelo que eles são - uma corja de cínicos, sacanas, agiotas e interesseiros que se esconde debaixo de um sobretudo politicamente correcto, fui logo a correr lê-lo. E li-o nun instantinho porque é delicioso e, o que é mais, verdadeiro.
J. Rentes de Carvalho fala por experiência. É um infeliz que vive com os holandeses há dezenas de anos e isso é, afinal, a única coisa neste ensaio brilhante que fica por explicar: se enjoas tanto, J., porque é que insistes, amigo?
Mal soube que este senhor tinha escrito um livrinho que denuncia os holandeses pelo que eles são - uma corja de cínicos, sacanas, agiotas e interesseiros que se esconde debaixo de um sobretudo politicamente correcto, fui logo a correr lê-lo. E li-o nun instantinho porque é delicioso e, o que é mais, verdadeiro.
J. Rentes de Carvalho fala por experiência. É um infeliz que vive com os holandeses há dezenas de anos e isso é, afinal, a única coisa neste ensaio brilhante que fica por explicar: se enjoas tanto, J., porque é que insistes, amigo?
Istambul. Memórias de Uma Cidade - Orhan Pamuk - Editorial Presença
Este livro é uma chatice tão grande, mas tão grande, que até eu, um leitor obstinado que só muito raramente desiste de uma leitura, desisti dele. Por qualquer razão cujo entendimento me transcende, o senhor Pamuk acha que é interessante para os outros, principalmente para os outros que não são turcos ou membros da Academia Sueca, a enumeração pueril das suas memórias de infância e adolescência, passadas numa cidade decadente e melancólica, ávida e ciumenta do Ocidente, chorosa do império que em boa hora perdeu. Está enganado, claro. Uma lamechice a evitar a todo o custo.
O Museu da Inocência - Orhan Pamuk - Editorial Presença
Depois do que disse anteriormente, o gentil visitante deste blog estará a perguntar-se o que eu pergunto a J. Rentes de Carvalho: se Pamuk é secante, porquê insistir no Pamuk? Porque sou teimoso e gosto de ter fundamentos para amaldiçoar a Academia Sueca que em 2006 teve o desplante de atribuir o seu Prémio manhoso ao sujeito.
Este romance interminável, não por causa das 650 páginas, mas por causa da ausência de qualquer tipo de progresso narrativo, parte de uma premissa que até é prometedora: o protagonista, à medida que nos conta a história de um amor infeliz, mas obsessivo, conduz-nos pelo museu que reúne não-sei-quantos-mil objectos, no sentido de materializar a memória dessa paixão. Até aqui tudo bem. O problema é que a rábula se arrasta por quinze anos da mesma coisa servil e abjecta, doente e repititiva, numa espécie de Servidão Humana em formato Tempo Perdido, que poderia resultar se Pamuk fosse um Somerset Maughan ou um Marcel Proust. Não é, evidentemente, o caso. Cheguei ao fim com vontade de não ter começado.
O Último Homem na Torre - Aravind Adiga - Editorial Presença
Primeiro: sou um fã incondicional do Aravind. Porque tem talento para dar e vender, porque evita a armadilha do humanismo e porque não está interessado em vender bilhetes postais da Índia. Nas páginas de Aravind Adiga vive a natureza humana e não o que gostaríamos que fosse a natureza humana. Nas histórias de Aravind Adiga, vibra a Índia pobre, infecta, maliciosa, escravizante; a Índia das castas, do caos urbano, da corrupção. E se o Tigre Branco já me tinha enchido todas as medidas do gosto e da sensibilidade, este Último Homem na Torre é uma coisa absolutamente devastadora. Um grande escritor. Um grande romance.
Siddhartha - Herman Hesse - Casa das Letras
A ignorância humana é um abismo inescapável e devo confessar, envergonhado, que vivi quase 46 anos sem ler este livro. E quanto mais profundamente me embrenhei nele, mais revoltado fiquei comigo. Siddharta é um poema penta-essencial e até custa a crer que um alemão consiga contar esta história, que é absolutamente hindu. A não ser que consideremos que a história que é contada, para além de ser absolutamente hindu, é verdadeiramente universal.
A fábula do filho do Brâmane que não acredita em doutrinas nem em nirvanas nem em palavras, que não segue ninguém, que não respeita o destino e que encontra apenas uma tardia e ingrata redenção no amor paternal, incondicional e purificador, é de uma beleza, afinal, divina. É a literatura no seu estado alquímico.
Poesias - Fernando Pessoa - Edições Ática
Sendo provavelmente a terceira ou quarta vez que leio este manual prático para a conquista da eternidade, foi a primeira vez que o li de uma assentada, de fio a pavio. Há muita gente que acha que certo tipo de literatura não é para ser lida de fio a pavio. Eu discordo. Então quando se trata do Fernandinho, acho muito simplesmente que tudo o que ele escreveu - tudo mesmo, sem excepção alguma - deve ser lido de fio a pavio. Várias vezes seguidas.
Até porque há sempre um poema maravilhoso que nos escapou antes. Há sempre um momento genial que não tínhamos percebido completamente. Há sempre um novo Fernando Pessoa à espreita, a rir-se da nossa triste condição de mortais. Por exemplo:
A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida.
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
quarta-feira, novembro 30, 2022
Às Páginas Tantas . Vol. III . Entre fiéis marroquinos e gregos equivocados.
O ideário do guerrilheiro marroquino, um império sem imaginação para
inimigos, o secreto destino dos guarda-chuvas, uma ponte sobre a ficção,
a urgência do jovem Proust, a bebedeira de Balzac e toda a verdade
sobre a Guerra de Troia.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Objecção
Morrem cedo quem os deuses amam? Treta.
Que o diga o velho cegueta
de Buenos Aires, bibliotecário do universo:
os deuses amavam-no e vice-verso.
É até lamentável que Rimbaud só tenha bebido
uma cerveja no inferno.
Com mais tempo para ser sofrido
reinventava o poema moderno.
O paneleirão do Proust foi-se aos cinquenta
mas deve ter ido contrariado.
Para chegar à página 35.480
até a mãe tinha traficado.
Ser-se jovem não é o mesmo que ser-se capaz.
Homero nunca foi rapaz
e é por isso que a literatura é feliz.
Já Joyce, se chegou a avô, foi porque quis!
Por isso, tu desculpa, Fernando, a contradição
e Mário - descansa em paz pela eternidade,
mas não estou em crer nessa religião
dos deuses da puberdade.
O teu querido Camões não se pode queixar.
Para quem andou com putas, piratas e reis
não foi nada mau sobrar
até aos cinquenta e seis.
Nem te serve de exemplo o Almada, cujo tesão
lhe durou mais que a memória.
Viveu o suficiente para aparecer na televisão
e isso é que é ficar para a história!
Tu próprio não sobreviveste por ai além
mas isso não é argumento, pensando bem
só talvez o Ricardo Reis tenha morrido de velhice
(a rábula do Saramago é uma aldrabice).
Acaso achas que te amaram os deuses especialmente
por causa dessa cirrose terminal?
"Encara a realidade de frente":
não foi a beber que chegaste a imortal.
E que outros monstros lindos sairiam da tua penada
se fosse mais fraco o absinto da Arcada?
Não te tinham feito mal nenhum ou prejudicado
mais uns anos de devaneio pelo Chiado.
Mais a mais o que é a morte
senão um momento de sorte?
Ninguém tem mérito nisso.
E a obra adolescente é como um dente postiço.
Que o diga o velho cegueta
de Buenos Aires, bibliotecário do universo:
os deuses amavam-no e vice-verso.
É até lamentável que Rimbaud só tenha bebido
uma cerveja no inferno.
Com mais tempo para ser sofrido
reinventava o poema moderno.
O paneleirão do Proust foi-se aos cinquenta
mas deve ter ido contrariado.
Para chegar à página 35.480
até a mãe tinha traficado.
Ser-se jovem não é o mesmo que ser-se capaz.
Homero nunca foi rapaz
e é por isso que a literatura é feliz.
Já Joyce, se chegou a avô, foi porque quis!
Por isso, tu desculpa, Fernando, a contradição
e Mário - descansa em paz pela eternidade,
mas não estou em crer nessa religião
dos deuses da puberdade.
O teu querido Camões não se pode queixar.
Para quem andou com putas, piratas e reis
não foi nada mau sobrar
até aos cinquenta e seis.
Nem te serve de exemplo o Almada, cujo tesão
lhe durou mais que a memória.
Viveu o suficiente para aparecer na televisão
e isso é que é ficar para a história!
Tu próprio não sobreviveste por ai além
mas isso não é argumento, pensando bem
só talvez o Ricardo Reis tenha morrido de velhice
(a rábula do Saramago é uma aldrabice).
Acaso achas que te amaram os deuses especialmente
por causa dessa cirrose terminal?
"Encara a realidade de frente":
não foi a beber que chegaste a imortal.
E que outros monstros lindos sairiam da tua penada
se fosse mais fraco o absinto da Arcada?
Não te tinham feito mal nenhum ou prejudicado
mais uns anos de devaneio pelo Chiado.
Mais a mais o que é a morte
senão um momento de sorte?
Ninguém tem mérito nisso.
E a obra adolescente é como um dente postiço.
sábado, novembro 24, 2007
Os cento e dezoito livros que mudaram mesmo a minha vidinha.
Estive para aqui hesitante. Montes de tempo. Desde que falei por convite Da Condição Humana sobre os dez livros que não mexeram nadinha comigo, fiquei a pensar nos outros todos que mudaram à brava a minha pequenina concepção das coisas. É mais que certo o facto de me falharem para aí umas trezentas obras primas, mas para já a lista dos livros da minha vida, enumerados sem qualquer tipo de ordem que transcenda o produto caótico da memória e incluindo história, filosofia, romance e poesia, tudo ao barulho, é esta:
1 - Ilíada, de Homero
2 - Odisseia, de Homero
3 - Poesias Completas, de Álvaro de Campos
4 - História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges
5 - O Vermelho e o Negro, de Stendhal
6 - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust*
7 - Ulisses, de James Joyce
8 - Folhas de Erva, de Walt Whitman
9 - A Obra ao Negro, de Margerite Yourcenar
10 - Memórias de Adriano, de Margerite Yourcenar
11 - Juliano, de Gore Vidal
12 - As Vinhas da Ira, de John Steinbeck
13 - Bairro de Lata, de John Steinbeck
14 - Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
15 - As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, de Barrington Moore Junior
16 - Memórias do Mediterrâneo, de Fernand Braudel
17 - Gramática das Civilizações, de Fernand Braudel
18 - O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
19 - O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild
20 - A Selva, de Ferreira de Castro
21 - Memorial do Convento, de José Saramago
22 - História do Cerco de Lisboa, de José Saramago
23 - Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
24 - O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz
25 - Os Maias, de Eça de Queiroz
26 - Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
27 - Sobre a Democracia e Outros Assuntos, de Aldous Huxley
28 - Doutor Fausto, de Thomas Mann
29 - Fausto, de Christopher Marlowe
30 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
31 - Servidão Humana, de Somerset Maughan
32 - D. Quixote de La Mancha, de Cervantes
33 - Crime e Castigo, de Fédor Dostoievski
34 - Guerra e Paz, de Leão Tolstoi
35 - A Familia Golovlev, de Saltykov-Chtchedrine
36 - Novelas do Defunto Ivan Petróvitch Bélkin, de Aleksandr Púchkin
37 - Short Stories, de Anton Tchekov
38 - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
39 - A República, de Platão
40 - O Anticristo, de Nietzsche
41 - O Perfume, de Patrick Suskind
42 - Quem Governa? de António Marques Beça
43 - Iluminações - Uma Cerveja no Inferno, de Jean Arthur Rimbaud
44 - Em Busca de Klingsor, de Jorge Volpi
45 - A Dor Industriosa, de Andrew Miller
46 - Cândido, de Voltaire
47 - A Imortalidade, de Milan Kundera
48 - A Filosofia do Não, de Gaston Bachelard
49 - As Palavras das Cantigas, de Ary dos Santos
50 - O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
51 - Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
52 - O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien
53 - Os Doze Césares, de Suetonio
54 - Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins
55 - O Castelo, de Franz Kafka
56 - O Processo, de Franz Kafka
57 - A Metamorfose, de Franz Kafka
58 - Nome de Guerra, de Almada Negreiros
59 - Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano
60 - O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares
61 - A Mensagem, de Fernando Pessoa
62 - Tomai lá do O’neil, de Alexandre O'neil
63 - Nós, de Levgueni Ziamantine
64 - Utopia, de Thomas More
65 - 1984, de George Orwell
66 - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsine
67 - A Luz em Agosto, de William Faulkner
68 - O Som e a Fúria, de William Faulkner
69 - A Sangue Frio, de Truman Capote
70 - Hamlet de William Shakespeare
71 - A Paixão do Jovem Werther, de Goethe
72 - Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami
73 - Os Lusíadas, de Luís de Camões
74 - Sonetos, de Florbela Espanca
75 - Textos de Intervenção Cultural e Social, de Fernando Pessoa
76 - Trópico de Capricórnio, de Henry Miller
77 - Cosmos, de Carl Sagan
78 - Uma Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking
79 - O Sorriso do Flamingo, de Stephen Jay Gould
80 - O Erro de Descartes, de António Damásio
81 - Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos, de Jorge Buesco
82 - Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo
83 - Borges e a Matemática, de Guillermo Martinez
84 - Cultura, de Dietrich Schwnitz
85 - Fausto, de Christopher Marlowe
86 - Paraíso Perdido, de John Milton
87 - Decameron, de Giovanni Boccaccio
88 - O Nome da Rosa, de Umberto Eco
89 - Irei Cuspir-vos nos Túmulos, de Boris Vian
90 - O Caso da Rapariga Sem Rumo, de Erle Stanley Gardner
91 - Diário Minimo, de Umberto Eco
92 - História da Beleza, de Umberto Eco**
93 - Três Homens num Bote, de J. K. Jerome
94 - Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole
95 - Inimigos, Uma História de Amor, de Isaac Bashevis Singer
96 - A Música do Acaso, de Paul Auster
97 - A Mancha Humana, de Philip Roth
98 - História da Vida Privada, de Philippe Ariés e Georges Dubys
99 - O Limpo e o Sujo - A Higiene do Corpo desde a Idade Média, de Georges Vigarello
100 - A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe
101 - As Ligações Perigosas, de Laclos
102 - A Peste, de Albert Camus
103 - A Náusea, de Jean Paul Sartre
104 - Poesia, de Almada Negreiros
105 - Antologia do Cadáver Esquisito, de Mário Cesariny
106 - A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro
107 - Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez
108 - Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez
109 - Teresa Baptista Cansada da Guerra, de Jorge Amado
110 - A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa
111 - História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda
112 - O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
113 - Money, de Martin Amis
114 - História de Portugal, de A. H. de Oliveira Marques
115 - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
116 - O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
117 - Moby Dick, de Herman Melville
118 - O Apelo da Selva, de Jack London
* Vou no quarto volume.
** Estou quase a acabar.
1 - Ilíada, de Homero
2 - Odisseia, de Homero
3 - Poesias Completas, de Álvaro de Campos
4 - História Universal da Infâmia, de Jorge Luís Borges
5 - O Vermelho e o Negro, de Stendhal
6 - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust*
7 - Ulisses, de James Joyce
8 - Folhas de Erva, de Walt Whitman
9 - A Obra ao Negro, de Margerite Yourcenar
10 - Memórias de Adriano, de Margerite Yourcenar
11 - Juliano, de Gore Vidal
12 - As Vinhas da Ira, de John Steinbeck
13 - Bairro de Lata, de John Steinbeck
14 - Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
15 - As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, de Barrington Moore Junior
16 - Memórias do Mediterrâneo, de Fernand Braudel
17 - Gramática das Civilizações, de Fernand Braudel
18 - O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
19 - O Fantasma do Rei Leopoldo, de Adam Hochschild
20 - A Selva, de Ferreira de Castro
21 - Memorial do Convento, de José Saramago
22 - História do Cerco de Lisboa, de José Saramago
23 - Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
24 - O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz
25 - Os Maias, de Eça de Queiroz
26 - Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
27 - Sobre a Democracia e Outros Assuntos, de Aldous Huxley
28 - Doutor Fausto, de Thomas Mann
29 - Fausto, de Christopher Marlowe
30 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
31 - Servidão Humana, de Somerset Maughan
32 - D. Quixote de La Mancha, de Cervantes
33 - Crime e Castigo, de Fédor Dostoievski
34 - Guerra e Paz, de Leão Tolstoi
35 - A Familia Golovlev, de Saltykov-Chtchedrine
36 - Novelas do Defunto Ivan Petróvitch Bélkin, de Aleksandr Púchkin
37 - Short Stories, de Anton Tchekov
38 - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
39 - A República, de Platão
40 - O Anticristo, de Nietzsche
41 - O Perfume, de Patrick Suskind
42 - Quem Governa? de António Marques Beça
43 - Iluminações - Uma Cerveja no Inferno, de Jean Arthur Rimbaud
44 - Em Busca de Klingsor, de Jorge Volpi
45 - A Dor Industriosa, de Andrew Miller
46 - Cândido, de Voltaire
47 - A Imortalidade, de Milan Kundera
48 - A Filosofia do Não, de Gaston Bachelard
49 - As Palavras das Cantigas, de Ary dos Santos
50 - O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
51 - Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
52 - O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien
53 - Os Doze Césares, de Suetonio
54 - Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins
55 - O Castelo, de Franz Kafka
56 - O Processo, de Franz Kafka
57 - A Metamorfose, de Franz Kafka
58 - Nome de Guerra, de Almada Negreiros
59 - Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano
60 - O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares
61 - A Mensagem, de Fernando Pessoa
62 - Tomai lá do O’neil, de Alexandre O'neil
63 - Nós, de Levgueni Ziamantine
64 - Utopia, de Thomas More
65 - 1984, de George Orwell
66 - O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsine
67 - A Luz em Agosto, de William Faulkner
68 - O Som e a Fúria, de William Faulkner
69 - A Sangue Frio, de Truman Capote
70 - Hamlet de William Shakespeare
71 - A Paixão do Jovem Werther, de Goethe
72 - Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami
73 - Os Lusíadas, de Luís de Camões
74 - Sonetos, de Florbela Espanca
75 - Textos de Intervenção Cultural e Social, de Fernando Pessoa
76 - Trópico de Capricórnio, de Henry Miller
77 - Cosmos, de Carl Sagan
78 - Uma Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking
79 - O Sorriso do Flamingo, de Stephen Jay Gould
80 - O Erro de Descartes, de António Damásio
81 - Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos, de Jorge Buesco
82 - Mais Rápido que a Luz, de João Magueijo
83 - Borges e a Matemática, de Guillermo Martinez
84 - Cultura, de Dietrich Schwnitz
85 - Fausto, de Christopher Marlowe
86 - Paraíso Perdido, de John Milton
87 - Decameron, de Giovanni Boccaccio
88 - O Nome da Rosa, de Umberto Eco
89 - Irei Cuspir-vos nos Túmulos, de Boris Vian
90 - O Caso da Rapariga Sem Rumo, de Erle Stanley Gardner
91 - Diário Minimo, de Umberto Eco
92 - História da Beleza, de Umberto Eco**
93 - Três Homens num Bote, de J. K. Jerome
94 - Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole
95 - Inimigos, Uma História de Amor, de Isaac Bashevis Singer
96 - A Música do Acaso, de Paul Auster
97 - A Mancha Humana, de Philip Roth
98 - História da Vida Privada, de Philippe Ariés e Georges Dubys
99 - O Limpo e o Sujo - A Higiene do Corpo desde a Idade Média, de Georges Vigarello
100 - A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe
101 - As Ligações Perigosas, de Laclos
102 - A Peste, de Albert Camus
103 - A Náusea, de Jean Paul Sartre
104 - Poesia, de Almada Negreiros
105 - Antologia do Cadáver Esquisito, de Mário Cesariny
106 - A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro
107 - Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez
108 - Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez
109 - Teresa Baptista Cansada da Guerra, de Jorge Amado
110 - A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa
111 - História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda
112 - O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
113 - Money, de Martin Amis
114 - História de Portugal, de A. H. de Oliveira Marques
115 - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
116 - O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
117 - Moby Dick, de Herman Melville
118 - O Apelo da Selva, de Jack London
* Vou no quarto volume.
** Estou quase a acabar.
sexta-feira, outubro 14, 2022
Proust Vs. Joyce
Num jantar em Paris, os dois imortais que em comum só deviam ter a
posteridade, trocam uma breve conversa que consiste principalmente na
palavra não. Não, nunca fui. Não, nunca ouvi falar. Não, não conheço.
sábado, julho 05, 2025
A mulher de Mozart ou 30 factos sem préstimo.
Onde se percebe que Candace Mozart não era lá muito fotogénica, entre
outras futilidades para entreter o ócio daqueles que, se calhar, fariam
melhor se matassem o tempo com a leitura de Marcel Proust.
quarta-feira, setembro 06, 2006
A biblioteca dos silêncios.
Se há uma merdinha que me chateia à brava nisto de ter um blog, é a de não ter tempo - ou espírito - para escrever sobre tudo e mais alguma coisa. É uma vergonha ficar para aqui calado dias a fio com tanta cena desinteressante e desinteressada que me passa por esta cabeçorra cota, já um bocado afanada no juízo e na memória.
E se há falha grande nestes conteúdos bizarros do blogville, a primeira é de certeza esta triste: escreve-se aqui muito pouco sobre livros. Que chatice de blog onde se escreve tão pouco sobre livros. Mas, caramba, que vos hei-de dizer eu, alma ociosa e ignorante, sobre Edward Gibbon? De que vos posso falar se estiver para aqui a falar do Mediterrâneo segundo Braudel ou do Tempo segundo Proust? Como posso eu, mesmo que num momento de raro esclarecimento, explicar a glória da História Universal da Infâmia? Alguma sugestão? Que palavras podem ser usadas para comentar a verdadeira Obra ao Branco que é esta mulher a quem chamavam Marguerite Yourcenar (a única belga com um lugar na história)? Sim, expliquem-me por favor como é que é isto de esgalhar um post sobre Os Doze Césares (já tentei e desisti) ou sobre As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, ou até, de forma mais descontraída, sobre O Vermelho e o Negro do meu querido Stendhal, sobre o Cândido do meu amado Voltaire ou o Memorial do Convento do canalha do Saramago.
É muito complicado para mim, que escrevo sobre quase tudo aquilo em que sou iletrado, escrever sobre a minha ileteracia e não é por ter lido e sonhado com o Admirável Mundo Novo, com o regresso de Ulisses, com o delírio em tempo real de Joyce, com os relatos mercenários de Cícero ou com as rimas de Dylan Thomas que deixo de ser valentemente ignorante.
Eu lamento imenso, mas é para mim muito difícil falar-vos de Álvaro de Campos. Outrossim de Walt Whitman. É deprimente, mas não sou audaz quanto baste para despejar umas certezas sobre a literatura russa, o teatro isabelino, a grande novela anglosaxónica e o estranhíssimo comunismo místico do romance sul-americano.
Serei sempre incapaz de vos aborrecer com aquilo que possa considerar sobre o génio paneleiro de Oscar Wilde, a virtude de Somerset Maugham, o negro coração de Joseph Conrad, as aguarelas beatnick de Allen Ginsberg ou os manifestos do bravo do Almada. Não percebo sequer como é que alguém tem o desplante de fazer crítica sobre a obra de Nietzsche, de Bachelard, de Anaxágoras ou de Filo de Alexandria.
Pois é: não sou gajo para isto. O máximo que consigo é conversar. Até porque, sobre livros, podíamos muito simplesmente ficar a conversar durante a noite toda da vida. É deliciosamente mais irresponsável por causa de não haver registo e é muito mais divertido por conta dos copos.
domingo, abril 02, 2006
Relatório e Contas
Exercício 1 - Para além de ser um infeliz, o Sr. Manuel Serrão é um crápula da pior espécie e alguém devia criar uma lei que proibisse aos crápulas de qualquer espécie o articulismo obsceno na imprensa portuguesa. Nem que seja por uma questão de higiene pública.
Exercício 2 - As mulheres não são uma etnia. Por todos os deuses do número, as mulheres não são uma minoria. E todos os homens de sã masculinidade sabem que as mulheres não precisam de ajuda. As mulheres valem-se. As mulheres não carecem de préstimos insuflados e justificações de coxa estatísitca para seguirem a carreira da política. As mulheres não são maioritárias na política como não são minoritárias nas maternidades. As mulheres têm competências! Esticando a mentalidade de má sacristia do sr. Sócrates, estamos aqui estamos a obrigar a República ao seguinte logaritmo/decreto lei:
- 8% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser pretos (são uma etnia);
- 3% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser monhés (são outra etnia);
- 2% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser chineses (são mais uma etnia e servem comidinha porreira a preços do caraças e foram nascidos no país mais poderoso do mundo contemporâneo);
- 20% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser paneleiros (são uma espécie selvagem);
- 63% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser imbecis (apesar de constituirem uma maioria absoluta, são objecto de perseguição);
- 1% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - têm que ser originários genéticos de um prime-time da TVI;
- 3% dos militantes partidários - e dos quadros políticos do estado - deverão ser gente capaz de gerir a causa pública.
Toda a discriminação é negativa. Especialmente a positiva, porque é irritantemente estúpida. E, geralmente, desnecessária.
Exercício 3 - The number 0.000013 ± .000002 contains two significant figures. The zeros to the left of the number are never significant. Scientific notation makes life easier for the reader and reporting the number as 1.3 x 10-5 ± 0.2 x 10-5 is preferred in some circles.
Exercício 4 - Jazzanova e Brahms.
Exercício 5 - Só há duas razões para que os portugueses emigrantes no Canadá recorram despudoradamente ao estatuto de refugiados: ou são de tal forma ignaros e miseráveis que merecem a absolvição dos deuses (que nunca a da lei dos homens) ou são culpados de infâmia pura e dura, caso em que, para ruína do meu país-destino, deverão rapidamente ser devolvidos à procedência. Já nem me lembrava de como era horrível estar de acordo com o Freitas do amaral.
Exercício 6 - You purchase a standard solution that is certified to contain 10,000 ± 3 ppm boron prepared by weight using a 5-place analytical balance. This number contains 5 significant figures. However, the atomic weight of boron is 10.811 ± 5. It is, therefore, difficult to believe the data reported in consideration of this fact alone.
Exercício 7 (ou "Top of the Popsilon") - Lebron James, João Pereira Coutinho, Marcel Proust.
Exercício 8 - "SER GOVERNADO é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado, comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude. Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido. É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submetido à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado, ultrajado, desonrado.
Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral!" - PROUDHON
Exercício 9 - A number reported as 10,300 is considered to have five significant figures. Reporting it as 1.03 x 104 implies only three significant figures, meaning an uncertainty of ± 100. Reporting an uncertainty of 0.05 x 104 does not leave the impression that the uncertainty is ± 0.01 x 104, i.e., ± 100.
Exercício 10 - O hilarioso, o gargalhador, o comicista, o piadético, o fantasticolente, o risofalante, o genialmutante Gato Fedorento, no Canal Público.
segunda-feira, julho 09, 2012
Uma sonata para HGWXX/7
POR MIKE BRAMBLE
Florian Henckel von Donnersmarck. Por acaso puro, vi – e
deleitei-me a ver – na passada quarta-feira um filme de um alemão. Pensado em
alemão. Escrito em alemão. Falado em alemão. Com actores alemães. Não tinha
essa necessidade, mas é também uma resposta a uma provocação do meu querido
amigo Paulo Paixão, que sabe tão quanto eu o que gosto de alguns prodígios que
a cultura produzida há vários séculos no actual território que se designa por
Alemanha tem dado à degustação do Homo Sapiens.
Florian Henckel von Donnersmarck, portanto. Dirigiu e escreveu o
guião, translúcido argumento de ‘Das Leben der Anderen’, traduzido para português
em versão dual na tituleira: ‘A(s) vida(s) dos outros’. Saiu para as salas e
anfiteatros em 2006, ano em que conseguiu ganhar em Hollywood o Óscar de melhor
fime estrangeiro.
Não vou contar a história do filme. É tecnicamente impossível e
seria um desperdício criminoso para os que tiverem a condescendência de me
lerem.
Mas peço desculpa por tomar a ousadia de realçar alguns detalhes.
Película em fotografia zincada a cinzento. Estamos em 1984, cinco anos antes da
queda do muro de Berlim. O personagem principal Georg Dreyman (Sebastian Koch),
dramaturgo, tem um amor intenso por uma actriz das luzes e da ribalta,
Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Na RDA de Honnecker, são perigosos desviantes.
Logo, a Stasi, excelsa organização propedêutica da moral e dos bons costumes,
decide intervir e capitalizar nos pecadilhos de cada um (tipo NKVD, Securitate,
CIA, FBI ou PIDE, vá lá). Coloca-os sob vigilância severa.
Entra em cena Hauptmann (capitão) Gerd Wiesler (Ulrich Muhe). E o
seu superior Oberstleutenant (tenente) Anton Grubitz (Ulrich Tukur). A história
é fascinante, não só porque está bem construída, bem filmada e superiormente
interpretada, mas porque, percebe-se, acima de tudo, que emanou de milhares,
dezenas de milhar de casos similares, humanos, pungentes, todavia já votados ao
esquecimento da História.
‘Das Leben der Anderen’ é um libelo contra o oblívio e a
obliteração. No irrepreensível ‘Diário Volúvel’ (Assírio & Alvim), um dos
craques actuais da literatura não encastrável e não castrada, Enrique
Vila-Matas, dedica-lhe uma merecida nota.
Num país de 17 milhões de habitantes, dizia-se que a percentagem
de ‘informadores’, ou espiões, ou escutas, ou bufos, terá oscilado entre 200
mil entes até um terço do universo demográfico daquela ficção dos Sovietes.
Florian Henckel von Donnersmarck coloca livros de Brecht nas mãos
de um dos esbirros, por vontade própria do mesmo, funcionário da soviética RDA.
Suprema ironia. E a mudança acelera. A personagem principal acaba por escrever
um livro em homenagem do seu perseguidor. Uma “Sonata para um Homem Bom”. Há
quem diga tratar-se de um dos livros, que apesar de nunca ter sido escrito, é dos
mais desejados dos leitores…Pois, pudera! Arriscaria também, eu incluso, que há
muitos invejosos que gostariam de ter escrito tal enredo oculto.
HGWXX/7 ficou gravado a fogo na minha memória! Muitos anos depois
de me perder com Kafka e Orwell, fiquei ainda a perceber, quão relevante poderá
ser uma nave de traço industrial munida de equipamentos e
funcionários-autómatos para descolar, em série, a vapor, cartas interceptadas
antes de chegar ao destino. Sem laivos de ficção, com personagens tão reais
como a própria vida, ou até mais.
Jacques Bonnet, no incisivo e delicioso ‘Bibliotecas Cheias de
Fantasmas’ (Quetzal), assume, convicto: “A personagem não envelheceu desde que
o seu criador lhe deu vida, ficou sempre igual para a eternidade”. Sublinha,
para não termos a veleidade de equívocos ou subterfúgios: “E ao pegar no (ou
nos) texto(s) em que ela aparece ficamos na posse de tudo o que o seu autor
quis que soubéssemos dos seus actos, das suas palavras e, por vezes, dos seus
pensamentos”.
‘Danke’, Florian e Ulrich Muhe, entre os demais contribuintes
desta obra primorosa. Além de serem o epítome desta máxima, também na designada
vida real. Depois do filme entrar em exibição, foram processados -
judicialmente, diga-se - pela ex-mulher do segundo. Segundo consta, essa
honorável senhora entregou à ditosa Stassi um ‘dossier’ de centenas de páginas a
incriminar o actor, amigo do realizador, mas não queria publicidade gratuita… Mais
um acto repugnável que originou uma obra de arte louvável!
Termino com uma citação de Proust, no incomensurável “Em Busca do
Tempo Perdido”, escrito um pouco antes (!) do filme em apreço: “o elemento
desconhecido nas vidas dos outros é como o da natureza, que cada nova
descoberta científica meramente reduz, sem o eliminar”.
terça-feira, setembro 04, 2012
Jornal de Letras | Julho/Agosto 2012
O Grande Livro das Coisas Horríveis - A Crónica Definitiva das 100 Maiores Atrocidades da História - Matthew White - Difel
Já disse o mais que tinha a dizer sobre esta pérola aqui, quando ainda ia a meio do livro. Resta-me só lamentar que um autor norte-americano pense que os norte-americanos são culpados (sozinhos ou em boa companhia) por 90% das coisas horríveis que se passaram no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Mathew White, que tanto procura ser objectivo - e é de facto objectivo até ao século XX - espalha-se ao comprido por causa do aparente ódio que sente pelo seu país.
À parte disso, O Grande Livro das Coisas Horríveis é um calhamaço espectacular, que se lê como um romance de aventuras (escrito por Edgar Allan Poe).
Isaac Newton - James Gleick - Casa das Letras
Escrever biografias é uma arte que não está ao alcance de todas as penas. Escrever a biografia de Newton é, mesmo para os que alcançam esse virtuosismo e na maior parte dos casos, uma pretensão apenas. James Gleick, que até é dono de um prosar irrepreensível, caiu nesta armadilha e acaba por escrever uma espécie de ensaio como quem está a tentar escrever uma biografia a sério. O resultado inevitável, para o leitor, é um extremo desapontamento. Não sou um especialista, claro, mas acho que tem que haver mais (muito, muito mais) para dizer sobre a vida do maior génio científico da história da humanidade.
A Paixão de Schopenhauer - Christoph Poschenrieder - Saída de Emergência
De um romance que pretende ter como protagonistas Schopenhauer, Byron e Goethe, espera-se, pelo menos, alguns momentos poderosos. Infelizmente, não acontecem. E é tudo.
Fernando Pessoa - Uma Quase-Autobiografia - José Paulo Cavalcanti Filho - Porto Editora
Já me fartei de escrever sobre esta caricatura de biografia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
No entretanto, tive direito a mais raw data completamente inútil, como por exemplo as receitas dos pratos favoritos do Fernandinho, como por exemplo as bebidas que preferia e as que o deixavam mais bêbado, como por exemplo a relação última e definitiva de todas as suas moradas, de todos os seus empregos e de todos os seus amigos. Como por exemplo qual era o lado para que o Fernandinho dormia melhor. Como por exemplo quais os personagens exibidos ou semi-ocultos na capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (!) e até mesmo os personagens que estavam para fazer parte dessa multidão, mas que acabaram por ficar fora do boneco.
Sobre a obra do Fernandinho, propriamente dita, em setecentas páginas de surreal estatística não se encontra uma análise, uma recensão, uma originalidade digna de ser mencionada.
De qualquer forma, no meio desta salganhada de irrelevâncias, consegui divertir-me porque o Fernando Pessoa era um gajo divertido. Consegui emocionar-me, porque o Fernando Pessoa era um tipo emocionante. Consegui aprender porque o Fernando Pessoa foi um pedagogo do camandro. Consegui perder-me, porque o Fernando Pessoa é um labirinto com labirintos lá dentro que têm labirintos lá dentro. E, a propósito de labirintos, consegui ficar a saber que o grande Jorge Luís Borges se prontificou a ser mais um heterónimo - o argentino - do Fernandinho, através da edição de textos deste sob o nome daquele.
Fernando Pessoa - Ensaio Interpretativo da Sua Pessoa e da Sua Obra - João Gaspar Simões - Texto Editores
Onze anos depois de ter escrito Vida e Obra de Fernando Pessoa, a primeira e referencial biografia do génio modernista, Gaspar Simões volta ao seu tema preferido e edita, em 1962, este ensaio brilhante, clarividente e profundo.
Como fundador da Presença, o biógrafo foi editor do biografado, para além de amigo e correspondente. Talvez por isso, mas não só por causa disso, aprende-se mais nestas 60 páginas de sensibilidade e erudição extremas, que nas incontáveis folhas de ponto do senhor Cavalcanti, Filho.
O Jovem Törless - Robert Musil - Círculo de Leitores
Romance psicológico por essência e definição - produto estereotípico da escola de Freud (Musil também era austríaco e distava cronologicamente de Freud uma geração apenas) -
O Jovem Törless é um tesouro da literatura ocidental, que me escravizou o espírito durante os quatro ou cinco dias em que o estive a ler (não é só Basini - o desgraçado de serviço na novela - que é torturado - o leitor também é, num suave sado-masoquismo).
A qualidade estratosférica desta obra não é de estranhar, já que o livro veio parar-me às mãos por gentileza deste senhor aqui.
Proust não consegue muito melhor, num milhão e meio de palavras, que esta novela de cento e cinquenta páginas.
Este terá sido o meu campo de treino para O Homem Sem Qualidades, monumento literário que, escandalosamente, ainda não li.
A Possibilidade de Uma ilha - Michel Houellebeq - D. Quixote
Já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada. Mas dei mais uma hipótese a este francês que está na moda, muito provavelmente porque o meu amigo Bruno Oliveira Santos - que é para mim uma espécie de mentor - manifestou surpresa quando lhe disse que já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada.
Continuo com muitas dúvidas, depois desta leitura. Há aqui qualquer coisa de excessivo que me desagrada neste rapaz. Há aqui qualquer coisa de vulgar que me desagrada neste rapaz. Este rapaz escreve sexo muitas vezes por página. Deve ser por causa da impotência que demonstra em escrever literatura. É preciso ser um Henry Miller ou um aristocrata francês decadente para resumir tudo à pulsão sexual e mesmo assim fazer literatura. É muito difícil. E este rapaz facilita imenso. Salva-se o conceito distópico, que é mais ou menos aceitável, e algum esclarecimento político e social. O resto é punheta.
Já disse o mais que tinha a dizer sobre esta pérola aqui, quando ainda ia a meio do livro. Resta-me só lamentar que um autor norte-americano pense que os norte-americanos são culpados (sozinhos ou em boa companhia) por 90% das coisas horríveis que se passaram no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Mathew White, que tanto procura ser objectivo - e é de facto objectivo até ao século XX - espalha-se ao comprido por causa do aparente ódio que sente pelo seu país.
À parte disso, O Grande Livro das Coisas Horríveis é um calhamaço espectacular, que se lê como um romance de aventuras (escrito por Edgar Allan Poe).
Isaac Newton - James Gleick - Casa das Letras
Escrever biografias é uma arte que não está ao alcance de todas as penas. Escrever a biografia de Newton é, mesmo para os que alcançam esse virtuosismo e na maior parte dos casos, uma pretensão apenas. James Gleick, que até é dono de um prosar irrepreensível, caiu nesta armadilha e acaba por escrever uma espécie de ensaio como quem está a tentar escrever uma biografia a sério. O resultado inevitável, para o leitor, é um extremo desapontamento. Não sou um especialista, claro, mas acho que tem que haver mais (muito, muito mais) para dizer sobre a vida do maior génio científico da história da humanidade.
A Paixão de Schopenhauer - Christoph Poschenrieder - Saída de Emergência
De um romance que pretende ter como protagonistas Schopenhauer, Byron e Goethe, espera-se, pelo menos, alguns momentos poderosos. Infelizmente, não acontecem. E é tudo.
Fernando Pessoa - Uma Quase-Autobiografia - José Paulo Cavalcanti Filho - Porto Editora
Já me fartei de escrever sobre esta caricatura de biografia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
No entretanto, tive direito a mais raw data completamente inútil, como por exemplo as receitas dos pratos favoritos do Fernandinho, como por exemplo as bebidas que preferia e as que o deixavam mais bêbado, como por exemplo a relação última e definitiva de todas as suas moradas, de todos os seus empregos e de todos os seus amigos. Como por exemplo qual era o lado para que o Fernandinho dormia melhor. Como por exemplo quais os personagens exibidos ou semi-ocultos na capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (!) e até mesmo os personagens que estavam para fazer parte dessa multidão, mas que acabaram por ficar fora do boneco.
Sobre a obra do Fernandinho, propriamente dita, em setecentas páginas de surreal estatística não se encontra uma análise, uma recensão, uma originalidade digna de ser mencionada.
De qualquer forma, no meio desta salganhada de irrelevâncias, consegui divertir-me porque o Fernando Pessoa era um gajo divertido. Consegui emocionar-me, porque o Fernando Pessoa era um tipo emocionante. Consegui aprender porque o Fernando Pessoa foi um pedagogo do camandro. Consegui perder-me, porque o Fernando Pessoa é um labirinto com labirintos lá dentro que têm labirintos lá dentro. E, a propósito de labirintos, consegui ficar a saber que o grande Jorge Luís Borges se prontificou a ser mais um heterónimo - o argentino - do Fernandinho, através da edição de textos deste sob o nome daquele.
Uma última nota: todos os biógrafos de Pessoa (João Gaspar Simões, Robert Brechon e este Cavalcanti Filho) insistem que o Fernandinho era um alcoólico e um ocioso. Ora acontece que o Fernando Pessoa estudou, leu e escreveu, nos seus curtos 47 anos de existência, muito mais do que qualquer mortal com expectativa média de vida a rondar os 80 anos pode alguma vez imaginar, quanto mais realizar. Não me fodam. Os heterónimos - esses sim - beberam muito do absinto que o Fernandinho disse que bebia, lá nas tascas oníricas onde bebem os heterónimos. E os heterónimos - esses sim - tinham tempo para não fazer a ponta de um corno enquanto esperavam pela sua vez de brilhar. Porque não é simplesmente possível que a obra imensa que ficou para a posteridade seja produto de um bebedolas sem ética de trabalho.
Fernando Pessoa - Ensaio Interpretativo da Sua Pessoa e da Sua Obra - João Gaspar Simões - Texto Editores
Onze anos depois de ter escrito Vida e Obra de Fernando Pessoa, a primeira e referencial biografia do génio modernista, Gaspar Simões volta ao seu tema preferido e edita, em 1962, este ensaio brilhante, clarividente e profundo.
Como fundador da Presença, o biógrafo foi editor do biografado, para além de amigo e correspondente. Talvez por isso, mas não só por causa disso, aprende-se mais nestas 60 páginas de sensibilidade e erudição extremas, que nas incontáveis folhas de ponto do senhor Cavalcanti, Filho.
O Jovem Törless - Robert Musil - Círculo de Leitores
Romance psicológico por essência e definição - produto estereotípico da escola de Freud (Musil também era austríaco e distava cronologicamente de Freud uma geração apenas) -
O Jovem Törless é um tesouro da literatura ocidental, que me escravizou o espírito durante os quatro ou cinco dias em que o estive a ler (não é só Basini - o desgraçado de serviço na novela - que é torturado - o leitor também é, num suave sado-masoquismo).
A qualidade estratosférica desta obra não é de estranhar, já que o livro veio parar-me às mãos por gentileza deste senhor aqui.
Proust não consegue muito melhor, num milhão e meio de palavras, que esta novela de cento e cinquenta páginas.
Este terá sido o meu campo de treino para O Homem Sem Qualidades, monumento literário que, escandalosamente, ainda não li.
A Possibilidade de Uma ilha - Michel Houellebeq - D. Quixote
Já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada. Mas dei mais uma hipótese a este francês que está na moda, muito provavelmente porque o meu amigo Bruno Oliveira Santos - que é para mim uma espécie de mentor - manifestou surpresa quando lhe disse que já tinha lido a "Extensão do Domínio da Luta" e não tinha gostado nada.
Continuo com muitas dúvidas, depois desta leitura. Há aqui qualquer coisa de excessivo que me desagrada neste rapaz. Há aqui qualquer coisa de vulgar que me desagrada neste rapaz. Este rapaz escreve sexo muitas vezes por página. Deve ser por causa da impotência que demonstra em escrever literatura. É preciso ser um Henry Miller ou um aristocrata francês decadente para resumir tudo à pulsão sexual e mesmo assim fazer literatura. É muito difícil. E este rapaz facilita imenso. Salva-se o conceito distópico, que é mais ou menos aceitável, e algum esclarecimento político e social. O resto é punheta.
terça-feira, abril 14, 2015
Jornal de Letras | Janeiro/Março 2015
Jerusalém - Gonçalo M. Tavares - Caminho
A segunda obra que leio deste rapaz, é também outra obra-prima. Jerusalém é um romance intrincado, mas parcimonioso, multi-dimensional mas construído por vozes interiores; discreto mas febril, que se desenvolve quase no domínio do inconsciente, sem perder uma contenção essencial que preside ao ritmo dos parágrafos. As personagens vivem sobrepostas numa falsa oposição, que se dilui no sentido de um anti-climax que é previsível sem ser vulgar. Está tudo muito bem calibrado, nesta novela. Muito bem medido. Muito bem escrito.
Responsabilidade e Juízo - Hanna Arendt - Dom Quixote
Edição que reúne vários ensaios e conferências da uma das figuras maiores do pensamento do pós-guerra, e cujo perfil já tracei (mais ou menos) aqui. A análise de Arendt à temática do mal, e como lidar filosófica e juridicamente com a sua presença imanente no decurso da hitória, continua absolutamente contemporânea e deve ser revisitada.
Se há mania literária que tem perdurado dentro e fora da sua geografia, essa mania é o realismo mágico. E esta primeira novela de Andréa Zamorano, brasileira de origem, portuguesa de estado civil, tem quanto baste desse infindável filão: uma ditadura militar, um patriarca poderoso que oscila entre a loucura e a vilania, um fiel e nobre jardineiro, um poeta que irá ser personagem do Roberto Bolano, uma heroína que fala com saguis. E a morte, como elemento estruturante da narrativa.
História da Filosofia, Os filósofos e os Textos - 3º Volume: Filosofia Contemporânea - Edições 70
Terminei finalmente a minha terceira (ou quarta?) ronda por esta história da filosofia. Este é, claro, o volume mais difícil dos 3, porque os filósofos contemporâneos não facilitam nada no que respeita à densidade das doutrinas, embora fiquem, regra geral, a milhas dos seus predecessores. Vou enconstar estes 3 volumes por uns anos na respectiva estante, até porque entretanto já descobri uma história da filosofia bem mais interessante - a de Will Durant - de que darei testemunho mais à frente no tempo.
Alejo Carpentier - Concerto Barroco - Antígona
Um exemplo acabado de como um escritor com talento para dar e vender (basta ler as primeiras duas ou três páginas do romance para percebermos isso) se deixa estatelar, rapidamente, com estrondo e espalhafato, no asfalto gorduroso e fatal de uma espécie de manifesto marxista sem pés nem cabeça, na pior tradição da literatura cubana arregimentada a um castrismo vulgar e entediante. A crítica diz que Alexandro Carpentier é um percursor do realismo mágico. O autor disse que esta obra era a sua "suma teológica". Eu desisti a meio, o que é muito raro e - por isso - muito significativo.
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo Cipolla - Padrões Culturais Editora
Brilhante e sintético tratado que explica lindamente o que é um estúpido e porque é que existem tantos e como é quase impossível às pessoas que não são estúpidas viverem sem o perigoso e altamente destrutivo impacto das que o são. O ensaio, que assume algum rigor científico (dentro daquilo que é possível em ciências sociais) demonstra e postula cinco leis fundamentais, a saber:
1 - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 - A probabilidade de uma pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 - Uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 - As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que, em qualqer momento, lugar e situação, tratar e / ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.
Os Filósofos e o Amor - Aude Lancelin e Marie Lemonnier - Tinta da China
"O amor é o mal."
O amor é o tema maldito da filosofia. Com raras excepções, os filósofos têm achado, nos dois mil e quinhentos anos que já conta a arte do pensamento especulativo, que a razão pela qual as mulheres e os homens se entregam passional e espalhafatosamente uns aos outros constitui um assunto menor. Vá-se lá saber porquê. Não fora a intensidade dessa volúpia, tudo seria bastante diferente do que é (inclusivamente a demografia), mas, de Tales de Mileto a Ludwig Wittgenstein, é díficil encontrar obra que se deixe sensibilizar pelas regras da atracção humana.
Deprimente e banal conto escrito em hora de inspiração zero por um dos mais carismáticos novelistas americanos do século XX. O protagonista é um palhaço em busca de um sentido para a vida. Se soubesse o que sei hoje, não tinha pegado nisto. A edição da Padrões Culturais é ainda por cima aviltada por umas ilustrações muito horríveis de Frederico Rocha, que são a cereja em cima de um bolo impróprio para consumo. BAH!
A segunda obra que leio deste rapaz, é também outra obra-prima. Jerusalém é um romance intrincado, mas parcimonioso, multi-dimensional mas construído por vozes interiores; discreto mas febril, que se desenvolve quase no domínio do inconsciente, sem perder uma contenção essencial que preside ao ritmo dos parágrafos. As personagens vivem sobrepostas numa falsa oposição, que se dilui no sentido de um anti-climax que é previsível sem ser vulgar. Está tudo muito bem calibrado, nesta novela. Muito bem medido. Muito bem escrito.
Responsabilidade e Juízo - Hanna Arendt - Dom Quixote
Edição que reúne vários ensaios e conferências da uma das figuras maiores do pensamento do pós-guerra, e cujo perfil já tracei (mais ou menos) aqui. A análise de Arendt à temática do mal, e como lidar filosófica e juridicamente com a sua presença imanente no decurso da hitória, continua absolutamente contemporânea e deve ser revisitada.
A Casa das Rosas - de Andréa Zamorano - Quetzal
Se há mania literária que tem perdurado dentro e fora da sua geografia, essa mania é o realismo mágico. E esta primeira novela de Andréa Zamorano, brasileira de origem, portuguesa de estado civil, tem quanto baste desse infindável filão: uma ditadura militar, um patriarca poderoso que oscila entre a loucura e a vilania, um fiel e nobre jardineiro, um poeta que irá ser personagem do Roberto Bolano, uma heroína que fala com saguis. E a morte, como elemento estruturante da narrativa.
Ainda assim, há qualquer coisa de insólito neste breve romance. Há qualquer coisa
que não é Laura Esquivel nem Isabel Allende nem nada que se pareça. Que
prende e arrepia. Há aqui, nestas páginas, qualquer coisa de sinistro, que dá comichão e levanta o cabelo.
É
que Andréa Zamorano vai buscar a Córtazar e a Borges, mais que a outros
mestres, mais óbvios, da literatura sul-americana, as referências para
uma arquitectura elíptica e surpreendente, onde encontra a sua
identidade de contadora de histórias. A essa virtude, soma a autora um
óbvio talento para discursos interiores mais ou menos caledescópicos,
mais ou menos fantasmagóricos, que exercem sobre o leitor uma espécie de
exorcismo.
E se podemos, aqui e ali, questionar a direcção em que
somos movidos por Andréa Zamorano, a verdade é que as últimas 20
páginas do seu iniciático romance são verdadeiramente alucinantes e dão
direito à revelação de um cadáver emparedado e à antecipação do grande
terramoto da Cidade do México.
Não está nada mal, para começar.História da Filosofia, Os filósofos e os Textos - 3º Volume: Filosofia Contemporânea - Edições 70
Terminei finalmente a minha terceira (ou quarta?) ronda por esta história da filosofia. Este é, claro, o volume mais difícil dos 3, porque os filósofos contemporâneos não facilitam nada no que respeita à densidade das doutrinas, embora fiquem, regra geral, a milhas dos seus predecessores. Vou enconstar estes 3 volumes por uns anos na respectiva estante, até porque entretanto já descobri uma história da filosofia bem mais interessante - a de Will Durant - de que darei testemunho mais à frente no tempo.
Alejo Carpentier - Concerto Barroco - Antígona
Um exemplo acabado de como um escritor com talento para dar e vender (basta ler as primeiras duas ou três páginas do romance para percebermos isso) se deixa estatelar, rapidamente, com estrondo e espalhafato, no asfalto gorduroso e fatal de uma espécie de manifesto marxista sem pés nem cabeça, na pior tradição da literatura cubana arregimentada a um castrismo vulgar e entediante. A crítica diz que Alexandro Carpentier é um percursor do realismo mágico. O autor disse que esta obra era a sua "suma teológica". Eu desisti a meio, o que é muito raro e - por isso - muito significativo.
As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo Cipolla - Padrões Culturais Editora
Brilhante e sintético tratado que explica lindamente o que é um estúpido e porque é que existem tantos e como é quase impossível às pessoas que não são estúpidas viverem sem o perigoso e altamente destrutivo impacto das que o são. O ensaio, que assume algum rigor científico (dentro daquilo que é possível em ciências sociais) demonstra e postula cinco leis fundamentais, a saber:
1 - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 - A probabilidade de uma pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 - Uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 - As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que, em qualqer momento, lugar e situação, tratar e / ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.
Os Filósofos e o Amor - Aude Lancelin e Marie Lemonnier - Tinta da China
"O amor é o mal."
Arthur Schopenhauer
"Um filósofo casado pertence à comédia."
Friederich Nietzsche
O amor é o tema maldito da filosofia. Com raras excepções, os filósofos têm achado, nos dois mil e quinhentos anos que já conta a arte do pensamento especulativo, que a razão pela qual as mulheres e os homens se entregam passional e espalhafatosamente uns aos outros constitui um assunto menor. Vá-se lá saber porquê. Não fora a intensidade dessa volúpia, tudo seria bastante diferente do que é (inclusivamente a demografia), mas, de Tales de Mileto a Ludwig Wittgenstein, é díficil encontrar obra que se deixe sensibilizar pelas regras da atracção humana.
Apesar deste triste
facto - ou até por causa dele - Aude Lancelin e Marie Lemmonnier
tiveram a ousadia de ir à procura do amor na filosofia, e - é preciso
dizê-lo - fizeram-no com brilhantismo e erudição.
"Os Filósofos e o Amor", uma edição de 2015 da Tinta da China
com tradução (excelente) de Carlos Vaz Marques e prefácio de Eduardo
Lourenço, é um livrinho fascinante. Fascinante, para já, por causa do
registo filológico adoptado pelas autoras. Não é todos os dias que lemos
textos dedicados à filosofia que utilizem uma nomenclatura assim
desassombrada: enquanto Nietzsche é um "astronauta do espírito",
Schopenhauer é um "lobisomem do líbido". Kirkegaard tem um "esqueleto
semi-marreco" e é um "verdadeiro anti-viagra". Montaigne é "felpudo como um macaco e careca como um ovo" e ficamos
sem saber o que fazer à informação de que o seu pénis não era
especialmente longo. Nem especialmente grosso. Há muitas páginas de
autêntica comédia neste seríssimo tratado, que fazem da sua leitura uma
entretida mistura de sabedoria e cuscovilhice.
As
autoras são,
como era expectável, vítimas do escasso espólio existente, pela razão
apontada no primeiro parágrafo, mas não se atrapalham: se os filósofos
eleitos dedicaram ao amor menos páginas do que seria conveniente, as
suas aventuras e desventuras amorosas, as suas miseráveis, patéticas e
gloriosas vidas, dão pano para mangas. Acresce que a erudição das duas
académicas francesas, devidamente complementada por um irreverente
trabalho de pesquisa bibliográfica, acabam por contornar as dificuldades
iniciais de forma a que o leitor se depare com um trabalho enxuto, mas
repleto de substância; e de originalidade inquestionável.
O
ensaio selecciona dez filósofos (na verdade são treze, porque Platão
implica Sócrates, Heidegger traz Arendt pelo braço e Sartre não passa
sem Beauvoir), cujas biografias são cruzadas com aquilo que escreveram
sobre o tema, mesmo - outra vez - quando escreveram pouco, embora o
critério esteja longe de ser aleatório: os heróis escolhidos são talvez
aqueles que mais valorizaram - ou desvalorizaram - o amor. E aqui surge
uma nova dificuldade. É que, muitos destes filósofos, e principalmente
Lucrécio, Mantaigne, Schopenhauer, Kierkegaard e, claro, Niietzsche,
apresentam, na obra e na vida, uma concepção mais ou menos terrorista do
amor romântico. Nalguns casos, são verdadeiros nemessis do envolvimento
passional, noutros, autênticos campeões do líbido pelo líbido. E se, em
Platão, o amor é uma espécie de elevador da glória que nos transporta
para o belo absoluto e a eternidade das ideias, já em Montaigne lemos um
indisfarçável libertinismo suportado eticamente por uma abordagem
céptica do romance, em Schopenhauer surpreende-nos o nojo existencial
pelo coito e e em Kirkegaard a insuportável recusa da felicidade amorosa.
Assim, quando chegamos a Nietzsche, já estamos psicologicamente
preparados para o espectáculo circense que nos é oferecido: o niilista
rei de todos os cépticos-anti-românticos da história universal cai com
estrondo no rídiculo de se apaixonar louca e platonicamente por uma
rapariguinha de dezoito anos.
Isto
já para não falar no desafio tremendo que é incluir Immanuel Kant num
ensaio sobre o amor. Kant amava, talvez, o campanário da vila de Königsberg,
a biblioteca local e um ideário iniciático e puritano que fosse
determinar o comportamento moral dos homens para toda a posteridade. Mas pouco mais. Em
certo sentido, é um homem sem biografia. Ainda assim, as duas detectives
que nos guiam por este contínuo do espaço-tempo venusiano conseguem
encontrar na obra e na vida do austero idealista alemão alguns detalhes
surpreendentes e alguns vestígios de paixão mundana, missão que qualquer
pessoa de bom senso consideraria - à partida - absolutamente
impossível.
A
propósito de milagres, há um outro nestas páginas: o que salva Jean
Paul Sartre da sua impenitente infelidade. E Simone de Beauvoir da sua
triste sina.
Encontramos enfim alguma redenção para esta
intensa e divertida torrente de factos biográficos e confissões mais ou
menos folclóricas, finalmente libertos do pudor de uns e do cinismo de
outros, na conclusão partilhada por Stendhal, Proust e Sartre, de que o
amor é mais que o amor, é também essa célebre "vontade de poder", de
que falam todos os filósofos desde Nietzche: "O amor não pode resumir-se ao simples facto de se possuir uma mulher,
mas visa, através da mulher, a conquista do mundo inteiro".
Convenhamos:
é difícil terminar de forma mais coerente, universalista e...
romântica. Afinal, o amor e a filosofia deviam dar-se melhor. É através
de um que se resolve a outra.
O Sorriso Aos Pés da Escada - Henry Miller - Padrões Culturais Editora Deprimente e banal conto escrito em hora de inspiração zero por um dos mais carismáticos novelistas americanos do século XX. O protagonista é um palhaço em busca de um sentido para a vida. Se soubesse o que sei hoje, não tinha pegado nisto. A edição da Padrões Culturais é ainda por cima aviltada por umas ilustrações muito horríveis de Frederico Rocha, que são a cereja em cima de um bolo impróprio para consumo. BAH!
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